Meu corpo gelava, nunca havia sentido isso antes. Olhava para aquele homem estranho, o qual não podia ver o rosto. Ele continuava ali, encostado, tranquilo.

— Como assim? Como morri? — Falei lentamente, meus olhos estavam arregalados. — Eu estou aqui!

— É, você está aqui, mas... — Falou, forçando aquela voz fina irritante. — Onde é aqui?

Parei por um segundo para pensar, não sabia mesmo onde estava. Fiquei me perguntando se estava em um sonho, e tentei várias vezes acordar. Aquele sujeito colorido não movia um músculo, e parecia se divertir muito com a situação.

— Vou te responder, jovem Oliver. — Ele continuava me irritando com a voz, e eu conseguia ver o sorriso atrás daquele manto. — Aqui... É o tudo, o nada...

— Tudo? Nada? — Estava desesperado, tentava me levantar, mas não conseguia. — Quem é você?

— Ah, que bom que perguntou. — O desconhecido levantava um pouco a cartola com o dedo indicador, me deixando ver sua boca. — Eu sou você, sua familia, seus amigos, seus inimigos... Sou tudo.

Aquilo não podia estar acontecendo, é impossivel. Infelizmente, minha ficha estava caindo. Eu realmente poderia estar morto, mas a pergunta que não calava...

— Eu estou no céu? — Disse, olhando para o piso.

— Céu? Haha! — O suposto "tudo" soltou a gargalhada, batendo a cabeça na parede algumas vezes. — Céu, céu... O que você acha?

— Aqui é uma sala branca, então... Acho que estou no céu. — Voltei o olhar para o homem, inexpressivo.

Aquele homem não se parecia com um "deus" ou algo do tipo. Ele estava mais para humorista de bar noturno.

— Ah, entendi... As vezes esqueço isso. — Ele disse com uma expressão facial ridícula, como a de uma criança ao vencer no jogo. — Céu e inferno, certo?

— Ahn... Sim, acho que sim. — De certa forma, estava mais calmo. Acho que a idéia daquilo ser um sonho tinha me tomado.

— Entre esses dois, posso dizer que está no segundo, jovem Oliver. — A voz fina havia desaparecido, substituida por uma bem mais grossa.

— Eu... Estou no inferno? — O desespero que me tomava ficava cada vez maior, e começava a acreditar que não era um sonho.

— É... Talvez sim. — Deixou as palavras sairem de sua boca tranquilamente. — Talvez não.

Um silêncio tomou a sala naquela hora, e foi quando percebi que uma das manchas pretas na parede estava se movimentando. Depois de tudo que ouvi, não me impressionou muito. Algo que realmente chamou minha atenção, foi a bengala do estranho. Existiam dois chifres nas laterais, além de alguns desenhos esquisitos que cobriam toda a madeira.

— Se estou no inferno, me explique logo o porque de eu estar aqui, e não lá "em cima". — Falei de forma confiante, mesmo estando chorando de medo por dentro.

— Ah, claro... Merece uma explicação, não é? — Ele falou com aquele tom de voz irônico novamente, mas realmente parecia querer explicar. — Bom, vou começar com o básico. Nos termos que você usa, "céu", e "inferno", o céu deve ser tratado como o lado do bem da força, e o inferno como o lado do mal. Acontece, que isso é um pouco errado. O fato é que não existe um lado bom e um lado ruim, existem apenas dois lados que querem se destruir.

— Como assim? Claro que não. — Não sabia o que dizer, ele falava de forma tão real.

— Uma guerra, jovem Oliver. Uma guerra celestial. — Falava com a voz bem séria, segurando a ponta da cartola. — A muito tempo atrás, anjos e demônios lutavam pela conquista de territórios. O mundo foi evoluindo, e essas batalhas foram ficando cada vez menos frequentes, até que chegamos a uma paz temporária. Pouco tempo atrás, isso tudo acabou, e a guerra recomeçou. Não lutamos mais através de guerreiros com asas, com a aparência anormal. Lutamos através de simples seres humanos.

— Através dos seres humanos? — Não estava entendendo muito bem, era tão confuso.

— Isso mesmo. Grande parte da população faz parte de um dos exércitos. — Ele caminhou até mim, desfilando. Se ajoelhou, ficando mais próximo. Aquele sorriso medonho me assustava. — Existem dois exércitos, o exército superior, e o inferior.

— Mas... O que isso tem comigo? — Olhei diretamente no pano que cobria o rosto dele, tentando ver seus olhos.

— Lembre-se bem do que vou te dizer agora. — Segurou a cartola com uma das mãos, levantando-se. — "A vida é um jogo, e a morte é o prêmio final".

— Uhm... — Fiquei em silêncio, o que havia acabado de ouvir me chocou um pouco.

— Essa guerra não é com conflitos diretos, jovem. É o jogo da vida. Quem mata mais, vence.

— Matar? Quem? — Comecei a ficar mais assustado, não era um assunto muito amigável.

— Pessoas morrem toda hora, seja em um acidente, ou o que for. Toda morte possui um responsável oculto. — Pausou um pouco a voz, abrindo mais o sorriso. — Ceifadores.

A cada palavra que aquele homem dizia, eu ficava com mais medo, mas de uma coisa eu sabia... Ele devia estar certo. De toda forma, a minha dúvida sobre o que ia acontecer comigo continuava ali, e eu não conseguia me livrar dela.

— Nada disso me importa, eu só quero saber o que vai acontecer comigo, e também, não me respondeu sobre o porque de eu estar aqui. — Tentei enfrentá-lo um pouco, mas minha voz continuava saindo fina, expressando totalmente o meu medo.

— Bom, você quer saber o porque de estar aqui, e não lá. Vamos dizer que aqui é o exército inferior, e lá, o superior. Você morreu, como eu já disse antes, mas... Sua morte foi um acidente. — Começou a rir sem parar, não consegui entender.

— Um acidente? Como um acidente? — Estava desesperado, ainda mais confuso.

— Você estava no lugar errado na hora errada. — Ele olhou para cima, suspirando. — O ceifador que estava lá não era dos meus, o "chefe" do seu chamado céu estava querendo mais um para ele.

— Não entendo, por que ele mataria se quer recrutar? — Meu interesse em saber mais sobre tudo isso crescia cada vez mais, mas o medo continuava grande.

— Oh, esqueci de te explicar sobre isso. Para pegar alguém para o exército, tanto inferior quanto superior, é necessário que o alvo morra, e... — O sorriso fechou, o que não havia acontecido ainda. — Se a morte for um acidente, e nenhum dos exércitos ficar com a pessoa em questão, ela é mandada para o famoso purgatório.

— Então, eu... — Nem deu tempo de eu terminar de falar, e uma lágrima já descia pelo meu rosto.

— Eu tenho uma proposta para você, jovem. — O sorriso nascia de novo no rosto dele, mas era diferente desta vez. — Mesmo quando você morre, sua alma continua sendo sua. Vamos fazer um acordo. Eu te deixo voltar para o mundo dos mortais novamente, como se você tivesse sobrevivido do acidente com o carro, mas... Após um ano, exatamente um ano, você voltará para cá, e sua alma será minha, e poderei fazer o que eu quiser com ela. Você aceita, Oliver Vennet?