"Wenna, eu te amo, mas...", eu penava, com um olhar pesaroso. Afinal, não é todo dia que temos que fazer escolhas extremamente difíceis. O céu estrelado me dava lembranças... oh, e se surgisse uma estrela cadente?!

Bom, antes, acho que eu deveria me explicar. Sorrio melancolicamente, pensando em tudo. De certa forma, olhar pára aquela imensidão de estrelas, no céu negro como os mistérios lunares, me dava uma sensação de leve paz. Leve. Isso porque eu estava abandonando a minha preciosa.

Acho que o jeito de explicar isso, leitor, é através de minhas lembranças. Enquanto penso nelas, desço do monte, olhando as casas dos camponeses. Depois, me distraio e olho novamente para o céu estrelado.

...

— Oh, Grande Deus de Chifres! — bradavam. — Senhor das Florestas, Rei dos Férteis! — continuavam. Naquela ocasião de fertilidade, de celebração à Terra, não conseguia me sentir desconfortável. E, bom, eu era apenas uma criança.

— Devemos continuar? — uma voz tímida perguntava, de maneira insegura. Era um menino, como eu.

Imediatamente, alguém lhe afagou os cabelos. "Mimado besta", pensei.

Sim, essas são minhas lembranças.

Eu estava sendo testemunha de um Rito de Fertilidade, naqueles tempos críticos, que eu ainda estava longe de compreender. Uma criança de sete anos não entende muita coisa.

Estava um entardecer avermelhado, e as árvores pareciam tão vivas, que não me surpreenderia se começassem a falar. A sussurrar coisas que só os ventos e as folhas entendem; digo... tudo ali estava tão vívido! O entardecer sangrento, em contraste com o verde vibrante das folhas e vegetais... nunca vou me esquecer.

O Deus de Chifres não era Sh.Ith, ele era a própria vida! Um dos aspectos da Vida, junto de Sua Consorte.

Mas, bem, ainda estou me alongando. Não devo fazer isso agora.

Quando o rito terminou, me sentia maravilhado. Em meus sete anos de vida, na época, estava sendo aceito em um Clã da Arte Antiga. Sorri, com certa arrogância... afinal, eu era uma criança esperta, sabia que tinha algo de valor para a Seita.

Era um grupo de treze pessoas, eu incluso.

Era um grupo de pessoas que celebravam a Vida, a Fertilidade e o Amor.

E eu estava ali, em minha inocência, me sentindo superior por... entende? Por estar ali! Isso faz algum sentido? Creio que não.

Me levantei da pedra onde estava sentado, quando o Rito terminou, já estava de noite; mas a parte relevante dessa lembrança, foi que uma mulher — muito bela, com seu cabelo longo e harmonioso como seda negra, me chamava. Seu rosto possuía um sorriso afetuoso e senti algo em meu coração se apertar.

Ela me chamou para perto de uma árvore, e só então percebi que seus olhos brilhavam tanto, que bem lembravam a algum fascínio. Um glamour. Com sua voz doce, ela disse:

— Meu menino, você ainda não deve se atentar ao meu olhar — mas seu tom não era de desaprovação. Ela falava de forma gentil. E afagou meu cabelo, como se eu fosse um ser dócil e amável, como qualquer criança. — Lembre-se que a arrogância não tem fundamentos — e tocou o meu rosto. — E lembre-se que logo morreremos.

Ouvi um barulho estrondoso, como se a terra perto de nós explodisse em uma cratera. Me apavorei. Os doze ali se aproximaram, inclusive aquele que chamei mentalmente de "mimado". Me virei e olhe para todos ali, que mantinham os olhos fechados.

— O que está acontecendo?! — perguntei, exasperado.

— A morte do culto — a bela mulher, se mantinha tranquila. — Estão vindo nos matar, e a todos que acreditam em nossas palavras — e, então, ela sorriu melancolicamente, como eu no início dessas palavras.

Minhas pernas balançaram. Senti alguém tocar o meu ombro, me virei e era aquele que critiquei mentalmente, com grande arrogância. Mal nos conhecíamos e ele já tinha lágrimas em seus olhos?

A última coisa que ouvi naquela noite foi:

— Herdem a Casa Maldita, ela nos reerguerá — era a voz da bela moça, a sacerdotisa que aceitou sua própria morte.

Notas finais
O que acharam? Opinem! ;D