O Casebre, A Busca e As Estrelas

2 Lembrança - "Nesta Noite Em Que As Estrelas Cintilam"


Mas, afinal, por que estrelas me traziam lembranças? Bom, para isso, para que isso seja explicado, vou continuar. Depois das palavras da Sacerdotisa, apaguei. Não me lembro de nada de antes de acordar, sequer de sonhos. Aliás, me lembro de uma coisa, mas não sei se consigo a descrever. Era como se, na escuridão, ela não fosse realmente má e assustadora, apenas incompreendida...

Na escuridão dos meus olhos, me sentia balançando como em ondas do mar, suavemente e gentilmente. Isso me confortava, me lembra algo como estar em um útero, embora na época eu não soubesse o que isso significava. "Útero".

Acordei, sonolento. Não entendia bem onde estava, e a minha mente parecia enevoada, como se estivesse em um mundo paralelo — lenta, distante, como quando acordamos no meio da noite, desorientados. Pouco a pouco, porém, minha mente foi se reorientando.

Minha visão se ajustava, avistando um céu negro e estrelado... e eu parecia estar deitado em um chão gramado, mas quando percebi, quando finalmente percebi, que eu estava em outro lugar, meu peito se apertou e minha barriga começou a doer. Era insuportável. Me levantei, sobressaltado, e mal notei que estava no que parecia ser o topo de uma colina.

E havia alguém de costas para mim, parecendo notar a Lua Cheia que brilhava insistentemente no céu.

— É triste, não é? — era, de fato, aquele garoto. Sua voz era melancólica. Arregalei os olhos. — Sim, estou bem... não precisa ficar surpreso — ele continuou.

— Ei... — eu disse, com um pouco de rispidez na voz. Aquele era um garoto como eu, como ele poderia...? — Como você...

— Sei ler pensamentos? — ele disse, levemente ácido. E sorriu para mim, com a face totalmente virada. — É um Dom.

Ele sabia que eu o desprezava?

— Sei — ele respondeu. — E sei que, estar no Culto, o fazia se sentir poderoso, especial. Sei sobre seus pais, sei sobre seus dons, sei sobre sua ganância — ele dizia tudo isso, impiedosamente.

— E você acha justo, espionar a minha mente?! — gritei. E peguei na gola de seu robe. — Me diga, o que aconteceu com eles?! — eu ainda gritava. Notei pequenas gotas de lágrimas se formarem em seus olhos, mas impossíveis de cair.

— Estão mortos — ele respondeu. — A Grande Sacerdotisa nos trouxe, com seu encanto, para esse lugar — sua voz tremulava, mas ele logo suspirou, como que tentando ser forte. — Mas em breve, morreremos, se nos acharem.

"Por que ela escolheria morrer com seus súditos?!", pensei naquela adorável e bela mulher, desconcertado.

E, então, senti uma dor. Um tapa? Não, a dor era ainda mais intensa... um murro? Sim, essa era a resposta. Caí no chão e senti alguém pisando em meu pequenino peito. Em um timbre calmo, ouvi as seguintes palavras.

— Nunca mais critique nossa Sacerdotisa — o rapaz dizia. — Eu sou Luke Vannet, e jamais o permitirei! — sua voz havia se tornado bem mais imponente, longe do tom tímido e até feminino de antes.

Sorri, em escárnio.

— Oh... — zombei. — Vai me agredir? — meu tom era sarcástico e ácido. — Mas note, o que você vai fazer?! Estão atrás de nós e... — eu ia terminar, mas recebi um chute na face que, novamente, me desorientou.

— Você fica melhor calado — o pé de Luke estava sob meus lábios. — Devemos encontrar uma pessoa e um lugar — seu tom era frio, agora ele me desprezava. Me senti um pouco mal com isso. — Não odeio você — ele disse, percebendo.

E tirou o pé de meus lábios. Me levantei, o notando pela primeira vez... ele possuía um brilho nos olhos, tal como a Sacerdotisa, mas era de um tipo diferente... não era de glamour, de encanto, mas sim de bondade. Ele sorriu, brincalhão.

— A bondade já é um tipo de encanto — ele disse.

Naquele momento, o admirei. Como ele conseguia ser tão forte, sabendo que muitas coisas que amava estariam sendo perseguidas?! As sacerdotisas e seus acompanhantes, nossos cultos, festas e costumes e o próprio mundo! Eu mesmo não compreendia o que estava acontecendo, e me sentia pasmo com o quanto ele era íntegro e de caráter forte. Ele soltou uma risada.

— Acho que podemos ser amigos — ele disse, me ajudando a me levantar. — Mas vamos, temos que nos esconder — e, assim, tudo se encerrou naquela noite.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.