Notas iniciais
Boa Leitura ♥

Anastásia Steele

—Certo Kate... —Sussurro ao telefone. —Eu prometo que vou compensar.

—Ana, não se preocupe, pode resolver isso primeiro, depois você vem para cá. Ok?

—Ok. Muito obrigada. —Desligo o celular e o guardo no bolso.

Encaro a porta da sala de interrogatório mais uma vez e suspiro. Já faz mais de uma hora que Melissa está lá, e eu realmente estou preocupada. Mia teve que ir trabalhar, e isso me deixou sozinha. Eu não entendo como essas coisas acontecem. Como uma maldita assistente social não notou isso? Pelo que eu entendi, mamãe e Clarck mandaram uma assistente acompanha-la nesses dois meses. Isso me deixa com tanta raiva.

Eu estou com raiva de Christian, raiva dessa maldita mulher, e raiva de mim mesma por não ter conseguido proteger Melissa.

—Gatinha? —Encaro minha mãe saindo da sala e paro de andar. —Vamos conversar?

—Como ela está? —Pergunto enquanto me aproximo.

—Ela vai falar com a psicóloga um pouco. Eu quero falar com você sobre ela.

—Certo.

Mamãe dá espaço e eu entro na sala, só nós duas. Sento-me na mesa e ela fecha a porta antes de sentar à minha frente. Ela suspira e me encara antes de começar a falar.

—Olha, o que eu tenho a dizer não é fácil... a Melissa passou por traumas, que ela pode levar para a vida toda. Ela foi obrigada a sequestrar crianças, foi obrigada a ver essas crianças, na maioria das vezes apanhando, e eu cometi um erro muito grande.

—Que tipo de erro? —Sussurro com o coração apertado.

—Quando eu encontrei a Sra. Martin, eu achei que ela estava pronta para receber a Melissa, ou Dulce, mas ela não estava. Ela já tem outros filhos, e bem, quando a Melissa chegou, ela me contou que nos primeiros dias foi bom, a Joyce cuidava dela, então... ela começou a tentar afastar a menina dos irmãos. Ela não confiava em deixá-la sozinha com as outras crianças. Foi aí que começaram as surras. Ela acha que a Mel, é culpada por tudo que aconteceu.

—Ah, meu Deus. —Meus olhos estão marejados e tudo o que eu sinto é uma dor imensa.

—Anastásia, eu sei que você é uma pessoa extremamente maravilhosa, e mesmo depois de três anos, eu ainda te conheço bem. A Mel não tem para onde ir, ela não vai se adaptar a um orfanato, ela ainda tem pesadelos todas as noites. E ela acha que as pessoas vão rejeitá-las de qualquer forma.

—Mas ela é só uma criança, mamãe.

—Eu sei, querida, mas algumas pessoas não entendem isso. Por isso eu quero te propor algo.

—O que?

—Que tal você passar uns dias com a Mel na sua casa?

—O que? —Sinto meu coração disparar.

Eu não havia pensando nisso antes, mas eu cheguei a imaginar algumas vezes como seria se Mel estivesse perto de mim.

—É, eu acho que ela confia em você, talvez você seja a única pessoa. Você pode tentar fazer com que ela interaja com Alice, isso pode afastar os problemas um pouco. Eu sei que você não vai maltratá-la.

—Eu jamais faria isso, mamãe.

—Eu sei, docinho. Por isso estou suponho.

—Mas se eu aceitar, o que acontece depois?

—Bem... vamos ver por hora, se ela se adaptar bem... talvez você consiga a guarda dela.

—Como filha? —Pergunto sentindo as lágrimas caindo. —Mas eu só tenho dezoito anos, mamãe. Eu não sei se isso pode dar certo.

—Deu certo com Alice, não foi?

—Mas ela é a sua filha. —Acuso e mamãe suspira.

—Nós podemos não falar sobre isso agora?

—Por quê? Por que você não quer conversar?

—Querida, eu quero, mas eu não posso no trabalho, e eu estou esperando o momento certo, mas agora me diga. O futuro da Melissa está em suas mãos.

—Serão dias para adaptação, certo?

—Sim. —Mamãe suspira e se ajeita na cadeira. —Ana, ela precisa de algo estável, ela não tem nem documento ainda. A mãe dela a rejeitou, eu não quero que ela sofra outra rejeição... você entende?

—Entendo... bem... eu acho que posso fazer isso.

—Você acha que Christian verá problemas?

—Eu acho que não, mas eu me resolvo com ele.

—Tudo bem. Eu vou falar com Clarck.

—Seu namoradinho?

Mamãe me lança um olhar e sorri antes de se levantar e sair da sala. Ah, ela me deixa tão confusa.

Isso é assustador. Eu não quero que Melissa se sinta rejeitada, e se for amor, eu sei que tenho o suficiente para ela, e Alice vai adorar tê-la por perto. O que me preocupa é Christian. Eu não sei se ele vai gostar da ideia, mas eu não quero voltar atrás, e eu não vou deixar Melissa sozinha outra vez, eu não vou deixar que ninguém a machuque, nunca mais.

Se eu consigo lidar com Alice e Arthur, eu posso lidar com Mel. Eu espero...

➳➳➳➳

Fico na sala de interrogatório por cerca de meia hora, até mamãe e seu namoradinho virem falar comigo. Eles explicam que uma assistente social, uma boa, fará visitas semanais, e que uma médica irá acompanha-la, para saber como eu estou lidando com Melissa. Fora isso, eu tenho que tentar fazer com que ela interaja com crianças, e saiba que está num lugar seguro. O que não é difícil, perto de Christian, ela com certeza vai entender que tudo é extremamente, absolutamente, irrevogavelmente, seguro.

Sorrio ao ver Clarck trazendo Melissa, ela me olha com expectativa... eu quero que ela saiba que tudo vai ficar bem agora. Eu não vou deixá-la, não como sua mãe fez, mesmo que ela não me aceite como mãe, eu posso ser sua amiga, ou o que for, eu só quero que ela seja uma criança feliz, como ela merece.

—Vamos? —Estendo minha mão e Mel dá um mínimo sorriso.

Ela segura a minha mão e eu jamais vou conseguir descrever tudo o que sinto. Eu acabei de ganhar a oportunidade de cuidar de alguém. Alguém que eu não vi nascer, não estive ao lado nos momentos ruinas, mas que a partir de agora eu vou poder cuidar, dar todo meu carinho, e formá-la para a vida.

Saio da delegacia com Mel e vejo Taylor me esperando, encolho os ombros e ele balança a cabeça.

—Você contou a ele?

—Não, eu vou esperar a senhorita contar.

—Uh, ele vai matar você. —Digo rindo e Taylor sorri. Encaro Melissa que está olhado preocupada. —Mel... esse aqui é o Taylor, segurança do Christian, e a pessoa que acompanha cada passo que eu dou.

—Senhorita. —Taylor balança a cabeça e Melissa faz o mesmo. —Seja bem-vinda.

—Obrigada... —Melissa sussurra encolhendo os ombros.

Taylor abre a porta do carro e eu coloco a mochila de Melissa primeiro, depois a ajuda a sentar e por fim sento ao seu lado. Não decido ir para casa agora, eu ainda tenho trabalho para fazer, e não quero perder um dia inteiro. Acho que Kate não vai achar tão ruim se eu levar Melissa. Ela adora crianças.

Quando chegamos na editora Kate já está correndo de um lado para o outro, mas para olhando para mim e Melissa.

—Eu deveria saber de algo, Srta. Estou resolvendo só uns problemas? —Kate diz colocando as mãos na cintura e eu apenas sorrio.

—Não, não agora.

—Certo, venha aqui. —Ordena e eu me aproximo ganhando um abraço. —Feliz aniversário, sua ridícula.

—Obrigada, Kate. —Sorrio e saio de seus braços. —Bem... essa é a Melissa, Mel, essa é minha amiga e chefe, Kate.

—Oi Mel, muito prazer. Eu espero que você goste de bolo de chocolate, nós temos na cozinha. —Kate dá uma piscadinha para Mel que acaba sorrindo, então ela se vai.

Vou para a minha sala com Melissa e a deixou desenhando enquanto começo a trabalhar.

➳➳➳➳

Horas Mais Tarde...

Recosto-me sobre a cadeira e suspiro começando a colocar minha mesa em ordem. Melissa está dormindo tranquilamente no sofá. O dia foi agitado hoje, literalmente, mas eu acho que ela estava feliz, ao menos enquanto ela comia as três fatias de bolo de chocolate, ela parecia bem feliz.

Suspiro quando meu celular começa a vibrar sobre a mesa. É Christian. Eu ainda estou chateada com ele. Se eu não atender, ele virá. Torço os lábios e atendo o telefone.

—Há algo que queria me dizer? —Pergunta. Droga, ele já sabe.

—Melissa? —Sussurro e o ouço suspirar. —Eu sei que eu deveria ter falado com você.

—Deveria.

—Você está bravo comigo?

—Mas é claro que sim.

—Por Deus! Como você pode? Você esconde coisas de mim o tempo todo, me trata como se eu fosse tudo, menos sua namorada, e você ainda fica com raiva de mim. Christian, eu não sou uma criança, você não tem o direito de me tratar assim. Eu não quero falar com você agora.

—Não desligue.

—Enquanto você não me disser tudo o que está acontecendo, eu não vou falar com você, ok? Me deixe em paz, por favor.

—Espere... —Christian suspira e fica alguns segundos em silêncio, então suspira novamente. —A mulher que você viu.

—Elena?

—Ela é mãe do Arthur. —Meu coração dispara e minha cabeça começa a pinicar. —Eu acreditava que ela estava morta, mas quando você me falou aquilo, eu descobri que ela me enganou, ela enganou a todos.

—Ah, meu Deus.

—Eu não queria te preocupar, por isso não contei. Eu estava com a cabeça cheia. Eu acho que pode ter sido ela quem colocou o drone para nos vigiar, e eu não sei o que ela é capaz de fazer.

—Por isso toda a segurança?

—Sim.

—Ah, Christian, eu sinto tanto.

—Não foi sua culpa. Eu odeio agir como um idiota com você, e eu sinto muito. Eu só quero ter certeza que vocês vão ficar bem, você a Alice, o Arthur... e agora a Melissa.

—Então você não está bravo por ela?

—Mas é claro que não. Eu sei o quanto você se preocupa com ela, e eu quero que ela seja tão feliz quanto nossos filhos.

—Minha mãe te contou, não foi?

—Sim, ela me ligou.

Respiro fundo e logo estamos em um silêncio profundo, apenas ouvindo a respiração um do outro.

—Eu sinto muito por ter esquecido seu aniversário, até ontem eu sabia dele, mas foram tantas coisas hoje, que quando você chegou, eu não sabia o que estava acontecendo. —Christian murmura e eu apenas sorrio. —Você pode me perdoar, por favor?

—Eu posso, se você prometer nunca mais esconder nada de mim.

—Eu prometo.

—Certo. Amo você, Christian.

—Eu também te amo, meu bem. Eu te espero em casa.

—Certo. Bye. —Desligo o celular e suspiro enquanto encaro Melissa.

Eu não posso acreditar que a mãe de Arthur está viva. E se ela quiser voltar? Droga, eu não quero pensar sobre isso agora. Eu quero ter estabilidade para Melissa, e eu não vou deixar uma pessoa como Elena estragar isso. Christian não gosta dela, nunca gostou, ele já me disse isso. Mas por que eu me preocupo tanto?

Afasto os pensamentos e me levanto pegando minha bolsa, aproximo-me de Melissa e abaixo na sua frente acariciando sua bochecha rosada. Ela abre os olhinhos assustada e me encara.

—Oi... vamos para casa? —Murmuro e ela balança a cabeça.

Melissa se levanta e segura minha mão, então nós nos despedimos de Kate e vamos embora, Taylor já está nos esperando com o carro. Coloco Mel sentada e ela tomba um pouco para o lado. Ela está cansada, e isso me preocupa um pouco. Mamãe falou sobre ela ter pesadelos, e com tudo o que houve, acho que ela dormia muito pouco.

—Você... quer ir comprar algumas roupas antes de passarmos em casa? Você pode precisar...

—Você vai me dar roupas? —Pergunta surpresa.

—Bem, sim. Nós podemos comprar alguma coisa que ajude você dormir, um urso. Algo assim, o que acha?

—Legal. —Mel murmura.

Eu não sei se ela está empolgada... é estranho.

—O que você gosta de vestir? —Pergunto enquanto Taylor dirige.

—Eu não sei. Eu sempre usei vestidos e meia calça. —Diz encolhendo os ombros. —E com ela, eu usava as roupas das outras crianças.

—Você gosta de vestidos? —Pergunto encarando seu rostinho e ela balança a cabeça.

—Eles me obrigavam, porque eles diziam que era mais bonito, e atraia mais pessoas.

Ah, Deus. Isso vai ser difícil...

—Então... o que você quer vestir?

—Eu acho que gosto de calça.

—Certo, então vamos comprar umas calças para você.

Melissa balança a cabeça e eu sorrio.

Eu não posso acreditar que uma criança passou por tudo isso. Ela só tem sete anos. Não merecia algo assim, me dói saber que talvez ela nunca esqueça dessas coisas, e que ela se culpe por tudo isso. Ela foi usada, não teve nada a ver com a maldade dos Carter’s, se eu pudesse mudar isso, eu me colocaria no lugar dela. Tudo o que Mel merece é uma vida normal, e se depender de mim ela terá.

➳➳➳➳

Encaro meu relógio e suspiro ao ver que já são quase oito horas. Nós acabamos de chegar, e estamos subindo no elevador. Taylor está com as sacolas e Melissa está ao meu lado, segurando minha mão. Eu acho que ela está insegura, sua mãozinha está soando frio e ela está tremendo um pouco, mas eu acho que teremos uma boa recepção.

As portas do elevador se abrem e logo estamos no hall. Posso ouvir os latidos de docinho e o riso das crianças. Troco um olhar com Melissa e ela encolhe os ombros. Atravessamos a porta e eu sorrio ao ver uma faixa pendurada escrito: ‘bem-vinda, Mel’.

Meus olhos marejam ao ver todos aqui, até mesmo Grace. Sorrio para Christian ele apenas mexe os lábios formando um ‘sinto muito’.

—Mel! —Alice grita antes de correr e abraçar Melissa. —Bem-vinda.