O Caminho das Estações

5 ∾ Se você for a minha ruína, que eu aproveite enquanto estiver ruindo.


Notas iniciais
Olá, novamente! Como vocês estão? Bem, agora as coisas começam a se complicar, visto que esse sentimento entre eles, até então sem nome, começa a revelar suas verdadeiras intenções. E até um um sentimento assim pode ser considerado traição, mesmo que não haja execução?

O apartamento de Theo era no terceiro, e último, andar de um prédio pequeno e simplista. Talvez um dos únicos prédios em toda a cidade. Tinha uma sala espaçosa em contrapartida com todo o restante. Um corredor apertado dividia a casa pela sala e quarto ao lado esquerdo, cozinha e área de serviço ao direito, sendo o banheiro justamente no fim desse corredor.

Apesar de pequeno, o conforto era palpável. Talvez pela decoração mais artística de Theo, com estátuas coloridas e miniaturas de madeira, quadros expressionistas em contraste com outras telas realistas. Os móveis também eram uma mistura de peças novas e antigas que ele fizera um bom trabalho em harmonizar. Juno ficou encantada com cada detalhe daquele apartamento, desejando internamente morar em um lugar assim algum dia. Não havia uma parte que não a agradou, ainda assim seu lugar favorito na casa era a sacada.

Como extensão da sala, servindo como uma ótima substituta de uma janela, na sacada era possível desfrutar de uma bela visão da cidade. Não era tão alto, porém a vista se estendia ao horizonte, tendo sempre o sol ou a lua como parte do cenário em algum dos cantos. Naquela noite quente, a lua jogava sua luz para dentro da sacada, atravessando até metade da sala. Juno conseguia ver magia naquele detalhe, mesmo que fosse comum aos olhos dos outros presentes, tão acostumados a visitar a casa do amigo.

Reuniram-se no fim da tarde para jogar conversa fora e comer porcaria. Com o calor daqueles dias, era necessário sempre ter algo para fazer, mesmo que fosse fazer nada na companhia dos amigos. Theo até tocou algumas músicas, e logo perdendo a atenção do grupo quando a encomenda de pizza anunciou sua chegada.

Agora, tarde da noite, estavam assistindo filmes. Já era o terceiro em sequência. O primeiro tinha sido um drama familiar mais extenso do que o necessário, o segundo de ação popular com um tom de comédia afetada e o terceiro se encaixava em suspense psicológico, até então o favorito de Juno.

Parecia exaustivo assistir três filmes de uma única vez, mas não para ela. Podia passar um dia inteiro assistindo filmes e ainda repetir a dose no dia seguinte. Dispor seu tempo para cinema nunca parecia desperdício.

Juno nunca teve uma resposta objetiva sobre o porquê de ter escolhido cinema para cursar. Era uma explicação ampla, que muitas vezes resumia ao simples fato de ser apaixonada pelo audiovisual. Até mesmo preferia filmes à livros. Gostava de literatura, sempre que possível estava lendo algo novo, o audiovisual apenas tinha suas particularidades. Como a tentativa dos atores de passarem as emoções que em livros estariam descritas. O desafio de entregar ou esconder os segredos da trama. A construção dos personagens de uma forma visual. A paleta de cores, a trilha sonora e a fotografia, por exemplo.

Mesmo assim, sempre que a perguntavam, Juno lembrava da história de sua mãe e sua tia. Talvez soasse quase insensível se inspirar em uma tragédia daquela, apesar disso sentia o impulso de contar aquela história ao mundo. A partir daí, Juno passou a questionar sobre todas as histórias que todas as pessoas carregavam consigo e como cada uma valia o esforço de ser contada. Então, a resposta parecia óbvia.

Criar histórias é viver milhares de vida em apenas uma. E, algumas vezes, todas as outras vidas pareciam mais interessantes de viver do que a sua. Talvez contar todas outras histórias era um modo de preencher a lacuna que havia na sua própria. Não tinha nada de relevante para contar, não havia desenvolvimento, nem mesmo a construção de sua personagem. Até estar ali, em Florencia, e cada dia parecia uma película nova a ser assistida. Com novas tramas e personagens novos. Entre eles, o maior destaque da sua nova narrativa.

Sentado no chão, ao seu lado, encostado no sofá pequeno abarrotado com os outros colegas, Nirav parecia uma miragem, quase surreal diante de Juno. Sob a luz da televisão, seus olhos brilhavam piscando lentamente ao consumir o conteúdo apresentado. Já sua pele, sua barba e seus cabelos pareciam beber a luz da lua que invadia pela sacada. Uma visão tanto tentadora quanto intocável.

Nirav era calmo como um dia ameno, mas algo em sua personalidade o transformava em uma ventania de outono. Forte, implacável, capaz de bagunçar e revirar tudo. O que era uma boa descrição para o sentimento que despertava em Juno. Em tão pouco tempo, ele tornou-se tão marcante, subvertendo tudo o que Juno parecia entender sobre emoções.

Várias vezes, aparecia se questionando: como seria se o tivesse conhecido antes?

Era fácil olhar para ele e imaginar uma vida ao seu lado, na verdade, soava quase natural, como se assim tivesse de ser. Conseguia sentir, quase fisicamente, os detalhes que sua imaginação gostava de criar. Os toques, os desejos, os abraços e os beijos. E, por parecer tão espontâneo, ela sempre precisava afastar esses pensamentos.

Não sabia o que fazer com esse sentimento que ainda não tinha coragem de dar um nome. E, se não sabia, por que não o evitava? Por que não conseguia colocar uma barreira entre ela e o que estava sentindo? A resposta era ambígua e terminava sempre em outras perguntas. Se parecia tão errado por que era tão bom? Se não deveria acontecer, por que não podia ser detido?

No início, Juno tentou se convencer de que aquele interesse não passava de algo despretensioso, mas quem queria enganar? Não conseguia parar de pensar sobre ele. Como uma força da natureza, cada vez mais Juno ia de encontro a Nirav, como algo que não pode ser parado. Não conseguia evitar a necessidade de se aproximar. Aquele sentimento era como a correnteza de um rio passando sob a ponte. Discreto e perigoso. Constante e irrefreável. E por isso, toda vez o gosto amargo da culpa ficava no fundo de sua garganta.

Nirav reparou em seu olhar e o devolveu. O suficiente para limpar a neblina de seus pensamentos, ocupando-os por completo. De repente, Juno não conseguia pensar em mais nada além da figura a sua frente, que tinha o sorriso que motivava o seu. Por um momento, ela esqueceu-se da culpa. Brincando, tombou o corpo em direção ao dele, empurrando-o de leve. Ele retribuiu, praticamente se deitando sobre ela, que segurou uma risada para não atrapalhar o filme.

Gostaria de ficar presa naquele momento. O filme rodando na televisão, o apartamento aconchegante, a mesinha de centro com as caixas de pizzas que comeram mais cedo, ainda marcadas pela gordura. Estar sentada no chão, a conversa baixinha de seus amigos ao redor, a companhia de Nirav e o seu corpo tão próximo. A noite fresca, sob a luz de uma lua cheia, brilhante no centro do céu escuro. Poucas vezes se sentiu tão confortável e alegre. Tudo parecia em perfeita harmonia.

No entanto, esse precioso instante pareceu durar pouco. Assim que o filme terminou e seus amigos esticaram os corpos para sair da inércia, Juno sentiu o celular vibrar no bolso de seu short estampado em verde e branco. Imaginou ser Nicholas, que já vinha reclamando da sua distância e falta de ligações. Entretanto, reconhecendo o número na tela, Juno esqueceu qualquer possibilidade de ignorar a ligação.

Enquanto seus amigos se dispersavam pela casa, começando a arrumar a bagunça que promoveram, Juno teve de se ausentar até a sacada. Um vento fresco uivava nas vielas das ruas silenciosas. Só então ela percebeu o quão tarde estava.

— Mãe? — chamou com a voz baixa, enrolando os dedos no tecido de sua camiseta laranja. — Está tudo bem?

A voz do outro lado veio lenta e insegura.

— Juno... Como estão as coisas por aí?

Juno olhou ao redor por um momento, absorvendo a pergunta. Entendia que era só uma pergunta casual, apenas para puxar assunto. Sua mãe não estava realmente preocupada em como as coisas estavam.

Apesar disso, teve vontade de falar sobre tudo. Falar que estava na casa de um amigo assistindo filmes e comendo pizza. Contar como Lou estava bonita em um vestido azul e longo. Hester deitada no sofá, com roupas do namorado. Helena com as longas tranças escorrendo por seus ombros desnudos. Theo e o seu velho violão. E queria falar de Nirav, principalmente dele.

Queria contar como Nirav era bonito e atraente. Detalhar como seus cabelos cacheados estavam bagunçados pelas tentativas de penteados de Lou. Além das roupas despojadas, a blusa vermelha e a calça branca, fazendo-o parecer tão confortável e descontraído. Como a luz da lua iluminava sua pele escura, iluminando sua presença. Também queria dizer como seu coração acelerava toda vez que ele a olhava. E como isso causaria a sua ruína qualquer dia desses.

Entretanto, sabia que nada daquilo soaria importante para Olivia. A distância entre as duas ia além das milhas e dos quilômetros entre duas cidades, era emocional e quase palpável.

— Tudo certo. — resumiu ao responder, notando seus amigos andando de lá para cá dentro do apartamento. — Por quê?

— Quando você volta?

Foi pega de surpresa e não foi de um jeito bom. De alguma forma, sabia que não era uma pergunta que demonstrava saudade. Era apenas dependência.

— Bem, ainda vai demorar até que eu volte. — Juno passou a mão nos cabelos soltos, colocando-os atrás da orelha. Sua visão foi tomada pelo retorno de Nirav para a sala. Eles se olharam. — Eu vou ficar durante as férias, se lembra?

Olivia ficou um momento em silêncio. Então, uma risada sem graça e rouca saiu pelo telefone.

— Oh, é verdade. Eu me esqueci... É, eu esqueci.

Juno desviou os olhos de Nirav, olhando para baixo. Um suspiro cansado escapou de seus lábios. Mesmo a contragosto, perguntou:

— Você precisa que eu volte? — ter que voltar para casa tão cedo a desagradava, ainda não estava preparada para voltar. Ou melhor, não queria voltar.

— Não precisa, eu sei que você não quer voltar. — a resposta veio ríspida. — Não se preocupe comigo, só estou tentando me acostumar com gente estranha me vigiando.

— Não estão te vigiando, só estão cuidando de você. — ela tornou a fitar Nirav, procurando algum conforto nos olhos dele. — Eu poderia estar cuidando de você, se quisesse ter vindo junto!

Apenas depois de desferir aquelas palavras, percebeu o quão rude soou. O arrependimento veio como um soco no estômago. Não queria ser grossa com sua mãe, mesmo estando cansada daquela relação dependente, não tinha o direito de tratá-la daquele jeito. Estava prestes a se desculpar pelo seu tom, porém Olivia já havia entendido o recado.

— Está tudo bem, Juno. Não se preocupe comigo. — respondeu com o mesmo tom curto e grosso da filha. — Fica bem.

Então, desligou. E deixou o peso do remorso nos ombros de Juno. Ela olhou ao redor, sem saber o que fazer.

Percebendo sua perturbação, Nirav se aproximou com o violão de Theo, até então abandonado pela sala, tocando alguns acordes bagunçados e sem sentido, brincando com algumas notas. Juno sorriu, feliz por ele ter se preocupado mais em animá-la do que enchê-la de perguntas.

— Sabe tocar? — perguntou depois dele voltar a largar o violão sobre o sofá e ir até a sacada onde ela estava.

— Theo tentou me ensinar, só nunca tive paciência para aprender. — ele deu de ombros, parando ao lado dela. — Uma pena, seduzir garotas com violão é muito mais fácil, não acha?

Juno riu, exibindo os dentes. Cutucou-o com o cotovelo.

— Como se você precisasse desses truques.

Ele arqueou as sobrancelhas e deu um sorriso desconcertado. Então, debruçou-se sobre a grade da sacada, fitando a rua. Juno fez o mesmo.

Dentro do apartamento, os outros estavam dispersos. Era possível escutar suas vozes, embora não estivessem ao redor. Já a rua estava vazia e silenciosa, entregando o horário tardio da noite.

Durante um momento, ambos contemplaram em silêncio as ruas marcadas pela luz amarelada dos postes, a lua brilhando no céu sem nuvens, iluminando as casas e provocando sombras nos becos. De quando em quando, era possível escutar um cachorro latir ou o som de uma televisão ligada. Fora esses pequenos ruídos, Florencia estava mergulhada em sono, totalmente quieta. E aquele silêncio era acolhedor.

Juno perguntava-se o que acontecia dentro de cada casa, escondido atrás de cada parede. Se as pessoas estariam dormindo ou em insônia. Quais seus planos para o dia seguinte. Quais os sonhos sonhariam durante aquela noite.

— Florencia parece outro mundo para mim. — Juno comentou em determinado momento. Seus olhos ainda corriam pelas vielas e becos escuros, admirando a quietude daquele lugar. — Mesmo em silêncio, parece viva! Toda parte que eu olho parece parte de alguma história. De várias histórias, na verdade. Quantas histórias não há nessa cidade para serem contadas?

Nirav a olhou, passando a mão sobre o cabelo. Juno gostava de como os dedos dele corriam entre os fios negros. Talvez quisesse descobrir a sensação de fazer o mesmo.

— Você sempre fala sobre contar as histórias dos outros, mas nunca a sua própria. — um sorriso de canto estampou seu rosto. — Que história contaria?

Juno sustentou o olhar dele, piscando lentamente. A resposta parecia fácil. Estava quase na ponta de seus lábios, até que ela as impediu de sair.

— Ainda estou tentando descobrir.

Ele deu um riso nasal, desviando o rosto de volta para a rua. Não sabia dizer se foi frustração ou decepção com sua resposta. Por isso, emendou:

— Eu sei como isso soa inconsistente. — sua voz puxou a atenção dele novamente, e foi a vez de ela fugir do contato visual. — Eu me sinto inconsistente.

— Por quê?

Havia tantos motivos. E ele era um desses motivos.

— Eu costumo subir na cobertura do prédio em que moro com minha mãe. Sabe, tentando fugir de tudo e ficar sozinha por um momento. E sempre que eu fecho os olhos e eu ainda consigo escutar todas aquelas buzinas, vozes e gritos, eu me sinto presa. Aqui é diferente. É quase como se fosse meu...

— Lar. — Nirav completou.

O sorriso de Juno concordou com ele, que também sorriu.

Ainda conseguia lembrar dos momentos que passava sentada nas cadeiras quebradas daquela cobertura. O vento era abafado e o cheiro que trazia consigo não era agradável. Era tudo barulhento e caótico demais. Para onde quer que olhasse, só se via fumaça e faróis de carros. E mesmo sendo tão movimentada, aquela cidade parecia muito mais morta do que todo o silêncio das noites em Florencia.

O momento foi interrompido pela aproximação de Lou.

— Acho melhor irmos, Hester e Theo querem ficar sozinhos. — ela arqueou as sobrancelhas sugestivamente.

Helena apareceu logo atrás.

— Eles são educados demais para nos dispensar.

De qualquer forma, já estava tarde. Os vizinhos de Theo já deveriam ter se recolhido e barulhos não seriam mais tolerados. Portanto, se despediram do casal e desceram as escadas de forma comportada, com receio de incomodar qualquer morador.

Do lado de fora, o vento fresco da noite os recebeu com agitação. O vestido de Lou enroscou em suas pernas enquanto Helena teve de segurar a saia do seu por ser mais curto. Apesar de estar mais fresco, ainda era uma noite quente.

Eles caminhavam em duplas ao longo das calçadas, cercadas de carros estacionados. Helena e Lou na frente, Nirav e Juno atrás.

— Não aguento mais esses dois! — Lou reclamou sobre Hester e Theo. — Por culpa deles, minhas expectativas de relacionamento nunca serão correspondidas.

Helena fez uma careta com o comentário dramático da amiga, e retomou a atenção até Juno.

— Falando nisso, Nicholas vem mesmo? Ele está demorando, achei até que tinha desistido.

— Ele deve chegar esses dias. — anunciou, lembrando-se das mensagens que trocaram mais cedo. Aparentemente, o único assunto que conseguia manter com ele se resumia a sua chegada.

— Ah, então logo vai matar a saudade!

Estava com saudades de Nicholas? Era saudade ou ansiedade? Fazer aquela pergunta a si mesma, a fez querer evitar o assunto. Por algum motivo, procurou por Nirav, que não parecia prestar atenção no assunto. Estava com os olhos perdidos pela rua, como se não quisesse olhar para ela. Perguntou-se o que ele estaria pensando.

— Ótimo, agora vai ter mais um casal para segurar vela! — Lou comentou, intervindo nos pensamentos de Juno, que riu de forma automática.

— Fala como se você fosse a única solteira! Eu te ajudo a segurar essa barra...

— Até você e Nirav decidirem matar a saudade da amizade colorida!

Juno soltou uma exclamação divertida, vendo o semblante de Nirav passar de nulo para confuso. Acertou uma leve cotovelada nele, implicando.

— Ele não faz mais meu tipo! — Helena afirmou, fazendo uma careta.

Pela primeira vez, ele abriu a boca:

— Eu estou ouvindo... — manifestou-se, fazendo risadas ecoarem entre Juno e Lou.

— Oh, quase me esqueci que estava aí! — Helena provocou com tom debochado.

— Não precisa ter vergonha, Juno já sabe das fofocas! — Lou piscou para ele.

Nirav olhou para Juno, que confirmou com a cabeça:

— Elas me contam tudo.

— Bom saber que estão fofocando sobre mim.

Com uma risada divertida, Juno tomou o braço dele no seu. Segurou-o entre os dedos de ambas as mãos, fazendo com que o corpo dele permanecesse perto do seu ao caminhar. Quando o olhou, percebeu que estava sorrindo.

Caminharam um pouco mais, até Juno se afastar do grupo, indicando a rua que deveria seguir para a casa de suas tias. Sua mão esquerda ainda estava pousada sobre o antebraço dele, quase como se recusasse a soltá-lo.

— A conversa está ótima, mas eu sigo por aqui. — Juno comunincou, começando a se despedir.

Estava soltando o braço dele quando sentiu-o segurar sua mão. O toque tão repentino e tão desejado fez sua respiração vacilar enquanto seu coração saltitou em seu peito. Teve medo de transparecer a sensação em seu rosto.

— Eu posso te acompanhar, se quiser. — ele sugeriu, ainda segurando seus dedos.

— Oh, claro, é um perigo andar sozinha por essas ruas vazias durante a noite! — Lou debochou, revirando os olhos, arrancando risadas deles.

— Bem, eu adoraria.

Sua resposta fez Helena rir de forma maldosa. Ela envolveu os braços nos ombros de Lou, puxando-o para seguir a caminhada. Bufando, Lou acenou em despedida para os dois.

— Juízo vocês dois!

Com um sorriso bobo nos lábios, Juno seguiu ao lado de Nirav. A mão dele já não estava mais na sua e ela teve de lutar contra a vontade de investir naquele toque, entrelaçando suas próprias mãos uma na outra.

— Achei que ia convidar o pessoal para o passeio na cachoeira. — Nirav puxou o assunto.

Juno balançou os ombros.

— Bem, você não falou nada também, então... — respondeu, observando-o concordar sem graça.

Uma parte sua insistia que um passeio como aquele não deveria acontecer. Havia uma voz no fundo de sua cabeça dizendo que parecia um erro. Ainda assim, todo o restante do seu ser ansiava por aquilo. Por isso, tentava dizer a si mesma que não havia nada demais. Nada aconteceria se ela não quisesse que acontecesse, e isso dependia apenas dela.

Apagando os conflitos de sua cabeça, Juno seguiu em silêncio ao lado de Nirav, por um tempo, apenas aproveitando a companhia dele. Companhia que ela se afeiçoava cada vez mais e causava anseios que Juno tinha medo de ceder, porém pareciam cada vez mais inevitáveis.

Nirav parecia um ponto sem volta e ela não conseguia traçar outro trajeto além daquele que a levava direto a ele. Cada vez mais, ele desdobrava interesses em Juno que era difícil de ignorar. Não estar perto dele parecia um desafio que, às vezes, ela sequer parecia tentar enfrentar.

Não havia esquecido o seu compromisso com Nicholas, era impossível esquecer tudo o que haviam construído juntos com tanto esforço. No entanto, certamente Juno estava negligenciando aquela relação. Tinha noção de seus erros e equívocos, só não sabia como lidar com eles. Como chegou àquele ponto? Por que não conseguia impedir o que estava sentindo? O que era aquilo que estava sentindo?

Era injusta a comparação entre Nirav e Nicholas que sua mente insistia em criar. Seres extremos de mundos contrários, enquanto Nicholas era controle, Nirav era poder. Teve de construir uma relação e adaptar-se a ela com Nicholas, criando uma estabilidade sob controle. Com Nirav era espontâneo, natural. Só precisava estar ao lado dele para tudo acontecer. De um lado, Juno encontrava um sentimento comedido. Do outro, encontrava o poder de um sentimento.

E como comparar emoções tão distintas? Parecia impossível pesar ambos relacionamentos, até injusto colocá-los na mesma balança. Juno conhecia Nicholas há anos e ele era seu namorado. Nirav era um recente conhecido, que acabou de entrar em sua vida. Contudo, a balança começava a pender para um lado. E era isso o que preocupava Juno. Ou deveria preocupar.

— Por que está me olhando? — Nirav perguntou, puxando-a de volta para a realidade.

— Porque você é legal. — ela mordeu o lábio interior e sorriu ao mesmo tempo. — E eu gosto do seu cabelo. — havia mais motivos, inúmeros outros, que se falados em voz alta poderiam ser catastróficos. — E porque você é um dos meus melhores amigos.

— Não deixe as meninas escutarem isso! — ele parecia um pouco sem graça, apesar disso, o sorriso em seus lábios era cativante. — Você não deve ter muitos amigos, não é mesmo? — provocou-a, sem esperar que ela fosse concordar.

— Já tive alguns. Perdi todos eles. — disse casualmente, curvando os lábios para baixo. — Eles se afastaram. Ou eu os afastei. Não sei.

Sentiu a curiosidade dele sobre si.

— Por quê?

Um suspiro escapou de seus lábios enquanto a imagem de Nicholas em sua mente se reformulava em uma resposta breve. Todo o seu círculo de amigos se resumia ao círculo dele, não sabia dizer quando aconteceu, mas também nunca tinha parado para questionar.

— Prioridades.

Nirav franziu o cenho, sem entender, antes de perguntar mais alguma coisa, Juno parou de repente.

— Está ouvindo? — ela perguntou, erguendo o dedo indicador.

— O quê? — ele ficou em silêncio por um momento, escutando o ruído. Uma música baixinha soava em algum lugar próximo a eles. — Acho que está vindo de algum dos carros estacionados. — notou, fazendo uma careta pela qualidade da música. Parecia algo vulgar com um ritmo chiclete. Juno riu de sua reação.

Aparentemente, a música vinha do carro há uns dois metros de onde estavam. Afinal, era o único na rua que estava estacionado com os faróis acesos.

— Não é tão ruim assim, eu poderia dançar. — caminhando para frente de Nirav, ela começou a balançar os ombros. — Mas só se você dançar comigo.

Juno estendeu a mão para ele, convidando-o. Nirav fingiu aceitar e se desviou ao dar a volta em Juno, que teve de girar sobre os próprios tornozelos para acompanhá-lo.

Ele estava a sua frente, balançado o corpo de um jeito engraçado, apenas para escutar a risada tão característica dela. Juno se aproximou, estalando os dedos por um instante, antes de se deixar ser envolvida pelos braços dele. O som dos passos era mais alto do que a música que provinha do carro, mas não fazia diferença, era apenas uma brincadeira.

Nirav conduziu Juno pelas mãos, empurrando-a para frente e depois a puxando de volta para seu corpo e prendendo-a em seus braços. Uma risada alta escapou de seus lábios ao ser abraçada por ele.

Foi como estar flutuando sem tirar os pés do chão. Toda sua pele parecia ondular sob o aperto daqueles braços e o toque das mãos. O corpo dele era confortável, macio e cheiroso. Era como estar em casa. Nirav a segurava com firmeza e Juno desejou que nunca a soltasse.

No entanto, tão rápido como havia começado, o momento foi destruído pela buzina do carro. Pulando de susto, Juno soltou um grito esganiçado que arrancou uma risada de Nirav. O vidro aberto do carro revelou um casal que os espiava. Juno sentiu o rosto queimar, escondendo-o entre as mãos.

— Oh, minha nossa, eles estavam se pegando! — sussurrou para Nirav, reparando nas roupas e cabelos bagunçados.

— Nós agradecemos o show, mas...

Nirav acenou com a cabeça, empurrando Juno para frente.

— Ah, vocês querem privacidade, tudo bem, desculpe! — desculpou-se com um sorriso constrangido.

— Sem problemas! — a garota sorriu, voltando a fechar o vidro.

Segurando as risadas, eles começaram a acelerar o passo para o mais longe possível do carro. Sem mais aguentar, Juno deixou sua gargalhada mais exagerada escapar, obrigando Nirav a levar as mãos até sua boca. Ele a segurou contra seu corpo enquanto tentava tapar seus lábios com os dedos, embora mesmo sua risada estava incontrolável.

Soltando-se de seus braços, Juno acelerou os passos, fugindo dele. Nirav não teve outra opção, senão ir atrás, no entanto, ela era rápida e conseguia despistá-lo nas árvores e carros estacionados.

Enquanto corriam para longe daquela situação constrangedora, as risadas ainda ecoavam pelas ruas. Juno já estava ficando vermelha e sem fôlego de tanto que ria. Teve de parar um momento, encostando-se na parede. Tentou falar algo com Nirav, apontando em direção ao carro, mas tudo o que ele conseguia entender eram palavras desconexas em meio a gargalhadas. Ela respirou fundo, olhando para ele por um instante. E então voltaram a rir novamente.

O barulho de suas travessuras alarmou os cães da vizinhança, fazendo-os latir ferozmente conforme passavam. Juno obrigou-se a segurar os risos, apesar de que toda vez que se lembrava do casal a vontade irrompia por seu peito, incontrolável. Seus olhos lacrimejavam pela quantidade de risadas. Já Nirav, dava risadas por conta da crise de Juno.

— Ah, faz tempo que ri assim! — comentou, pousando a mão sobre a barriga, cansada pelo esforço. — Bem, é aqui. Chegamos. — anunciou, indicando para a rua em que estavam.

Eles tomaram um tempo para recuperar o fôlego. Os cachorros ainda continuavam a latir. Em seguida, eles deram mais alguns passos em direção à casa que Juno apontou.

Depois de um breve momento de silêncio, Nirav voltou a falar:

— Você não é inconsistente. — disse, puxando a atenção dela. — Nunca conheci ninguém como você.

— O que quer dizer? — ela piscou, pensando naquelas palavras.

— Você é tão... Você. — seus olhos permaneciam em Juno. — Você não se esconde, não tem medo de ser quem você é. A melhor parte de você é você mesma. — Juno parou diante da casa e retomou a atenção para ele.

Olhando para Nirav, Juno mordeu os lábios. Os cabelos estavam bagunçados, caindo por sua testa. Seus olhos preguiçosos demonstravam cansaço. Sua barba delineava a beleza de seu rosto, complementando-a. Ele era lindo.

— É assim que você me vê? — um sorriso iluminou seu rosto. — Gostaria de ser sempre a versão que tem de mim.

Sem entender, ele franziu o cenho, porém nada questionou, apenas a escutou prosseguir:

— Eu me sinto oca, cinza, apagada. Estou sempre presa na vida das outras pessoas. — abaixou sua cabeça, respirando fundo. — Mas agora, essa cidade, essas pessoas, você... Tudo faz com que me sinta livre. Como se minha existência fosse real. A melhor versão de mim mesma.

Quando tornou a olhar para Nirav, percebeu que ele estava bem mais próximo do seu corpo. Conseguia sentir o cheiro do seu perfume. Ela fechou os olhos brevemente, sentindo aquele cheiro.

— Eu me sinto viva. — murmurou, sentindo a respiração dele escorregando por seu rosto. Estavam tão próximos que ela teve medo de que Nirav fosse capaz de escutar o quão forte e rápido seu coração pulsava. — Talvez seja isso que continua me impulsionando até...

Ela não conseguia terminar a frase, o rosto dele estava muito perto, fazia sua respiração ofegar. Então, foi a vez dele de sussurrar:

— Por que não deixa tudo que te prende para trás e...

Juno conseguia antecipar o que estava por vir, até escutar a voz que veio da janela, interrompendo a fala de Nirav e quebrando todo aquele momento.

— Juno? — era a voz de Abigail.

A aparição dela na janela os obrigou a se afastarem. Um impulso de irritação ardeu no peito de Juno quando deveria estar agradecida. Não sabia o que teria feito se Abigail não tivesse aparecido.

— Juno, querida, está tudo bem? Você ainda não tinha chegado, escutei vários barulhos e os cachorros começaram a latir... Fiquei preocupada.

— Está tudo bem, sim. Não precisa se preocupar.

Abigail parecer reparar na figura ao seu lado pela primeira vez. Seus olhos se arregalaram.

— Nirav?! Nirav, é você? Minha nossa, quanto tempo!

Juno o olhou, confusa. Ele coçou os cabelos, assentindo nervosamente.

— Sim, já faz bastante tempo.

— Como você está, meu filho?

— Estou bem. Só passei para deixar Juno em casa.

Percebendo o nervoso dele, Juno interveio.

— Sim, eu já vou entrar. Desculpe te acordar!

— Sem problemas, imagina!

Abigail retornou, fechando a janela, deixando os dois a sós. A curiosidade de Juno estava estampada em seu rosto. Apesar de tudo, também estava aliviada pela saída de Abigail.

— Abigail é a sua tia raptada? — ele estava tão surpreso quanto ela.

— Na verdade, ela é esposa da minha tia, Octavia, a que foi raptada.

— Ah! — Nirav acenou com a cabeça, passando a língua sobre os lábios. — Nunca conheci Octavia muito bem.

— E como você conhece Abigail?

— Longa história. — respondeu, balançando os ombros, deixando-a ainda mais curiosa. — Outro momento, quem sabe. — ela decidiu não insistir no assunto.

— Bem, estou entregue sã e salva. — sorriu, admirando-o. — Obrigada pela noite!

— Eu que deveria agradecer...

Suas mãos se tocaram em um cumprimento breve, quando o que Juno queria era ter os braços dele envolvidos em seu corpo mais uma vez, mas sabia que não seria capaz de resistir. Teria de se contentar com o toque dos dedos dele deslizando pelos seus.

Juno o assistiu se afastar aos poucos, seus olhos ainda incapazes de fugir da silhueta dele, acompanhando seu andar pela rua. Controlou um impulso de chamá-lo de volta.

Encostou-se na parede, fechando os olhos por um momento. Conseguia sentir o sangue pulsando em seus ouvidos, quase ensurdecendo-a. Era uma sensação desesperadora que ela não conseguia repelir. Era bom, tentador, quase irresistível.

As palavras dele tornaram a ecoar em sua cabeça. Por que não deixar tudo que a prendia para trás e terminar aquilo do que jeito que ela queria?

Com o celular em mãos, conseguia visualizar as inúmeras mensagens de Nicholas. Todas que ela havia ignorado ou respondido de qualquer jeito. Aquilo não era certo, ela sabia. Precisava fazer algo para resolver aquela situação. Entretanto, toda vez que começava a digitava qualquer mensagem, nunca conseguia terminar.

"Nós precisamos conversar", escrevia e logo em seguida, apagava. "Há algo que você precisa saber", mais uma vez apagava. "Tem algo acontecendo comigo". "Eu sinto muito". Escreveu inúmeras coisas e não mandou nenhuma delas.

Havia tantas coisas que deveria contar a Nicholas. Ele deveria saber como estava se sentindo, entender o que estava acontecendo. Era o certo a se fazer, afinal. Entretanto, o que contar a ele? Talvez, devesse dizer que seu coração acelerava por um homem que não era ele. Sobre como uma semana foi o suficiente para fazê-la querer desistir de dois anos de relação. Ou que estava sentindo algo que, talvez, nunca tenha sentido por ele.

Por mais que parecesse simples, não era. E quando se tratava de Nicholas, era menos ainda. Com Nicholas, nada era simples.

Sentiu-se uma covarde, pois tudo o que fez foi desligar o celular sem mandar mensagem alguma, apenas obrigando-se a prometer qualquer promessa vazia que dissipou-se no ar assim que proferida.

Notas finais
Eu acho interessante pontuar como a Juno se sente em relação a sua própria história. Como ela sentia que não tinha nada para contar, não tinha desenvolvimento, não existia antes de Florencia. Tanto que é só quando ela chega em Florencia, que nossa história começa. A Juno começa a tomar decisões um tanto quanto questionáveis. Às vezes, quase se esquecendo de que não é só a relação dela que está em jogo. Ela está envolvendo outras pessoas nessa bagunça. Espero que tenham gostado! Até o próximo!