O Caminho das Estações
23 ∾ Os sentimentos te trazem de volta e eu esqueço que você se foi.
Notas iniciais
Um ar frio continuava a circular pela cidade, com o inverno persistindo dia após dia. Embora houvesse vezes em que o sol se arriscasse a aparecer, na maioria das vezes, o céu estava apenas encoberto de nuvens escurecidas, ofuscando todo o seu brilho. E, apesar de Florencia estar imersa em um inverno mais intenso, com um longo período de duração, ainda permanecia encantadora. Os dias nublados, acinzentados e pouco graciosos não tiravam a beleza de suas vielas encruzilhadas, construções antigas misturadas com as modernas e natureza que se mesclava com o lado urbano. Ficava mais bonita sob um céu ensolarado, era verdade, porém, não importava sob qual céu estivesse, Florencia sempre iria ser umas das cidades mais belas que os olhos pudessem encontrar e a memória pudesse se lembrar.
Era o fim de uma tarde, e o movimento no centro da cidade era grande devido ao fim do expediente. Entre as demais pessoas, após um longo dia de trabalho, Juno se encolhia em seu grande casaco preto, com o rosto parcialmente escondido em um cachecol vermelho, as mãos enfiadas nos bolsos frontais da calça também escura e os pés apressados presos em botas apertadas. Parecia quase perder-se entre os transeuntes, desenhando seu rumo através delas, correspondendo a educados cumprimentos com um sutil sorriso.
Em determinado momento, perdida em seus pensamentos densos, não conseguiu evitar um bocejo pelas noites mal dormidas por conta da ansiedade do novo emprego. Não era um serviço difícil, apenas fora do que estava acostumada. Independente de conhecer com propriedade a área, lidar com partes mais comerciais podia ser um tanto traiçoeiro considerando sua formação. Ainda assim, sentia-se mais realizada do que podia imaginar quando começou. Cada noite que antecedia uma manhã de um novo dia, fazia seu coração pulsar mais forte pensando no que a esperava.
E, no entanto, não era apenas o novo emprego que a deixava eufórica, com o coração tão acelerado que tomava suas noites de sono. Como uma garota jovem e ingênua que encontra seu primeiro amor, um sorriso bobo iluminava seu rosto, não estampando apenas seus lábios, também intensificando o brilho de seus olhos, sempre que pensava em Nirav.
Era como se não houvesse passado um minuto sequer desde a última vez que o viu, apesar de estar mais velho, com o semblante mais sóbrio. Seus cachos estavam mais curtos, ornamentando seu belo rosto junto com a barba escura. Aparentava estar mais alto e, definitivamente, estava mais forte. Seu rosto estava mais sério com um olhar mais intenso. Já não era mais o rapaz que conheceu, estava mais maduro e ainda mais bonito. No entanto, permanecia o mesmo que roubou sua atenção no primeiro instante em que o viu. E a sensação permanecia a mesma, talvez, até mais forte. Como se fosse a primeira vez, naquela noite observando-o se aproximar com um sorriso fácil, mexendo em seus próprios cabelos, Nirav continuava a tirar seu fôlego.
Apesar de todos os pesares, era inegável a felicidade de ter a chance de reencontrá-lo. Por tanto tempo tentou ignorar o desejo que a corroeu por dentro. Sete anos. Uma vida inteira havia passado diante dos seus olhos, tomando todos os anos sem permissão, até aquele único momento. E, embora trágico, pareceu valer a pena a espera de cada segundo até que pudesse encontrá-lo uma outra vez, olhar em seus olhos de novo, estar finalmente perto.
Ainda se lembrava da sensação de perceber que era Nirav em sua frente, distraído, sem saber que era ela. Pegava-se revisitando essa pequena memória, apegando-se a cada detalhe, revivendo-a devagar, ignorando a trágica surpresa de sua visita não anunciada. De todas as vezes que tentou imaginar como seria revê-lo, nada pareceu-se com a realidade. Porque a realidade era sempre melhor quando se tratava dele. Todas as saudades pareciam não caber dentro de seu peito. Quis correr para seus braços, tocar a sua pele, sentir o calor e o cheiro de seu corpo e ficar em seu abraço, apenas ficar. Queria ignorar tudo o que aconteceu, fingir que o tempo não havia passado. No entanto, tudo o que pôde fazer foi se manter de pé, sentindo cada parte sua preencher-se com todos os sentimentos que havia guardado, inutilmente, para Nirav.
Embora a sua falta de reação, a fala engasgada e as mãos trêmulas, tinha em seu peito a mais genuína felicidade em encontrar Nirav. Só ver seu rosto, admirar sua beleza, escutar sua voz foi o suficiente para fazer seu coração se descompassar ao reviver o bendito frio em sua barriga. Naquele momento, diante de Nirav, sentiu algo despertar dentro de si. Algo que sabia não ter se perdido, esteve apenas hibernando contra a própria vontade, silenciado a força bruta.
Era impossível, então, não se pegar desejando uma reaproximação. Talvez, fosse tolice sua ter qualquer esperança. No fundo, sentia que era. Quando se lembrava do cenário geral, o que encontrava de si mesma era apenas uma mulher deslocada, posta de lado para o imutável curso da vida, que havia sido superada. Parte sua percebia que já não era tão bem-vinda. Seu lugar havia deixado de ser ali quando fugiu como a covarde que era. E não podia culpar ninguém por seguir em frente sem esperar por ela. Menos ainda culpar Nirav por fazer o mesmo. Ele merecia alguém que o escolhesse, que fizesse o certo por ele como ela nunca foi capaz de fazer. E estava feliz, genuinamente feliz, de saber que ele havia encontrado isso em Alice. E, talvez, só por isso, continuasse tão empolgada quanto ao desastroso encontro às cegas.
E com um sorriso bobo e coração saltitante, apegados em memórias platônicas, Juno seguiu um caminho oposto ao de sua casa, esperando encontrar uma outra pessoa, que sentiu tanta saudade quanto de Nirav.
Uma repentina gritaria a envolveu ao chegar diante de uma movimentada escola, onde estava Helena, rodeada de crianças falando sem parar, em uníssono. Ela parecia tão entretida que Juno não teve coragem de atrapalhar. Manteve-se apenas admirando a mulher que havia se tornado. E como estava bela.
Suas longas tranças deram lugar ao seu encaracolado natural, volumoso ao redor de seu rosto magro e delineado. Trazia um ar mais sério, em suas feições amadurecidas, contudo, por trás de toda a austeridade da vida adulta, mantinha-se seus traços mais espontâneos. Mesmo dentro de toda a roupa austera de profissão, o sobretudo amarelo de lã grossa, as calças sociais, sapatos fechados e a bolsa de couro atravessada em seu tronco, era possível encontrar a antiga Helena tão radiante.
Contemplando-a ao redor de seus alunos, Juno não se importou em esperá-la pelo tempo que fosse necessário. Uma cena tão bonita, e até contraditória. Lembrava-se de uma Helena que não gostava de crianças por perto e a ideia de ter uma própria parecia aterrorizante. Agora, rodeada de várias delas, sendo abraçada, cutucada e puxada sem parar, parecia adorar.
— Você veio! — ela sorriu em sua direção, depois de se despedir deles. — Queria ter encontrado você antes, mas ando ocupada com o futuro casamento da minha irmã. Às vezes, acho que sou que vou casar no lugar dela!
Juno acenou, recebendo-a em seus braços com um abraço forte até que um último garoto apareceu ao lado de Helena, interrompendo ambas ao pedir a Helena para se curvar para que pudesse falar algo em particular. Com um sorriso curioso, Juno fingiu não prestar atenção. Por fim, ele a abraçou e saiu correndo em direção ao ônibus que já se preparava para partir.
— Oh, isso foi fofo! — Juno suspirou, com Helena agora ao seu lado, envolvendo o braço no seu, conduzindo-a em uma caminhada para longe da escola.
— Ele veio me agradecer. — Helena sorriu. — Mais cedo, os outros garotos estavam implicando com ele, por qualquer motivo besta que possa imaginar.
Juno bufou, revirando os olhos.
— Difícil pensar em quem nunca passou por isso.
— Sim. E crianças podem ser bem encapetadas, na maior parte das vezes. — elas riram, caminhando juntas. — A pior parte foi ele me dizer que eu fui a única professora que acreditou nele. Tive que dar um sermão na turma, querendo, na verdade, chamar atenção dos outros professores. Eles que me aguardem na próxima reunião!
Com um sorriso, Juno perdeu-se ao admirar a mulher ao seu lado, falando apaixonada sobre o seu dia no trabalho. O brilho em seus olhos, o sorriso implícito em sua boca, a empolgação em seu tom de voz. Tanta falta sentiu de cada detalhe como esses. Quantas vezes desejou estar assim, como estava agora, ao seu lado, segurando seu braço, escutando o que tinha para contar. Por um instante, gostaria de estar de volta em uma manhã qualquer, pedalando ao lado dela rumo ao interior da cidade, até suas pernas doerem.
Percebendo seu olhar, ela deu uma risada, parando de andar.
— O que foi? Por que está me olhando assim? — ela perguntou com um ar de desconfiança, piscando em sua direção.
— Nunca imaginei você como professora, mas ouvindo você falar agora... Não consigo imaginar algo diferente.
Helena sorriu com um estalo de lábios, abanando a mão esquerda, um tanto acanhada. Juntas, elas retomaram a caminhada.
— Sendo honesta, também nunca me imaginei e acabei me surpreendendo!
— Eles adoram você! — admirou, relembrando a roda que formavam ao redor de sua amiga, falando todos ao mesmo tempo para conseguir sua atenção. — Como descobriu que queria ser professora?
— Acho que foi mais destino do que uma escolha. — ela deu de ombros. — As aulas de teatro sempre me encantaram, mas na prática nunca me pareceu algo sólido. Fiz algumas peças e o dinheiro oscilava entre pouco e quase nada.
Juno arqueou as sobrancelhas, surpreendida. Quanta coisa não perdeu com todo o tempo que ficou longe, desaparecida.
— Adoraria ter visto uma peça sua... — murmurou com um sorriso entristecido.
— Eu sei que adoraria! — ela deu-lhe uma piscadela. — Prometi só voltar atuar quando você estivesse envolvida em algum super projeto cinematográfico.
Ela parou, observando a amiga com os olhos arregalados e lábios entreabertos. Helena deus boas e altas risadas de sua feição, ignorando que estavam no meio da rua movimentada.
— Está falando sério? — Juno perguntou, permanecendo incrédula. — Não brinque comigo!
Com um sorriso, Helena estendeu a mão até a sua.
— Feito?
E ela aceitou, apertando-a com firmeza. Então, voltou a segurar seu braço, instigando para que ela continuasse a falar sobre sua vida. Quanto tempo havia se passado desde a última vez que estiveram juntas. Queria saber sobre tudo, descobrir todos os detalhes que havia perdido. Ou melhor, descobrir tudo o que lhe foi roubado.
— Com o tempo, percebi que teria que sair daqui se quisesse ter alguma carreira. E eu não queria sair daqui, só não queria continuar dependendo dos meus pais. Então, comecei a tentar de tudo um pouco, até dar aula particular de língua estrangeira e descobrir que gosto mais disso do que pensava. — ela explicou, tendo toda a atenção curiosa de Juno. — Consegui me formar há pouco tempo.
— E seus pais, como reagiram?
Helena suspirou, passando o olhar de Juno para o caminho a frente, tomando um tempo para responder.
— Meu pai queria que eu ficasse na empresa. Ele ainda espera que eu perceba que meu destino é dar continuidade ao que ele começou. Já eu, acredito que esse é o destino de Hester. Sabe como é, ele adoraria transformar tudo aquilo em um negócio da família. Minha mãe, por outro lado, achou linda a minha decisão, já que ela também foi professora.
— Está seguindo os passos de sua mãe! — Juno exclamou, contemplando sua amiga menear sem graça. — É mesmo uma bela profissão, mas precisa de tanta paciência...
— Oh, nem me fale! — ela bufou, concordando. — Mas acredita que os alunos mais velhos são piores de lidar do que as crianças? Constantemente perco a paciência com eles. Já os mais novos, na maior parte das vezes, tudo se resolve em abraço e bagunça.
Um risinho zombeteiro escapou dos lábios de Juno, que implicou com a amiga.
— Então quer dizer que agora gosta de crianças?
— Não! Não mesmo! — Helena franziu o cenho, segurando uma risada contida em seu semblante fechado. — Só não conte isso a eles, eu sou a professora favorita!
Com uma risada, as duas seguiram pelas calçadas movimentadas. Não tinham um rumo específico em mente, quando decidiram se encontrar, queriam mais passar um tempo juntas para que, talvez, pudessem compensar todos os anos afastadas. Ainda assim, um lugar para se sentar, depois do dia árduo de trabalho, e cafés quentinhos seria muito bem apreciado.
Helena apontou para um estabelecimento em uma das esquinas próximas, onde conseguiram grossos copos de café bem quentes para salvá-las do vento frio, que as obrigava a andarem bem próximas, quase abraçadas. Mesmo com o ar gelado, decidiram se sentar do lado de fora. E a praça não estava tão distante assim.
Era como revisitar um sonho antigo, guardado dentro de suas mais profundas e queridas memórias. E estava tão intacta quanto suas lembranças. Estava velha, um tanto esquecida, porém, continuava charmosa. Como qualquer parte daquela cidade, sua mente encheu-se de recordações. Uma, em específico. De um dia ensolarado, com as copas das árvores balançando suavemente, dispondo suas sombras para os dois jovens que se sentavam, lado a lado, em um dos bancos. Nada diziam, apenas permaneciam aproveitando a companhia do outro. Olhando através de cada banco, Juno ainda conseguia enxergar as silhuetas dos dois fantasmas. Então, sorriu.
— E quanto ao seu serviço, como está sendo? — ela perguntou, depois de se acomodarem, sentando uma ao lado da outra, para que pudessem se manter juntas e fugirem do frio.
— Não é o que me imaginei fazendo quando terminei a faculdade, mas está longe de ser ruim. Não é difícil, apesar de eu ter que reaprender muitas coisas da área, não ligo de ser uma estagiária com quase trinta anos nas costas!
Helena riu de seu comentário, concordando com a cabeça, tomando um gole generoso do café.
— Sabe, às vezes estamos melhor nos menores detalhes! — respondeu com positividade. — Então, foi só por conta do trabalho que resolveu voltar? Ou tem algo a mais?
Talvez fosse sua imaginação. Talvez não. Porém, por um instante, percebeu um tom malicioso na voz de Helena. O sorriso bobo retornou aos seus lábios antes de responder à pergunta, no entanto, desfalecendo logo em seguida:
— Na verdade, quando minha mãe faleceu, eu não tinha mais motivo nenhum para permanecer lá.
— Lou comentou sobre sua mãe comigo. Eu sinto tanto, Juno! E pensar que estava sozinha, sem nenhuma ajuda...
Juno anuiu, tentando manter um semblante sereno, contendo toda a dor que tinha ao se lembrar de tal época. Toda a sua luta para fazer sua mãe resistir, até quando não havia mais o que pudesse ser feito. Ainda sentia o gosto do fracasso, mesmo sabendo que havia dado de si, tudo o que podia dar.
Provando um gole do líquido quente, ela ponderou seus pensamentos antes de responder:
— O que me conforta é pensar que ela não está mais sofrendo. Agora, está livre.
— E você também!
Por mais rude que parecesse admitir tal verdade, era apenas como se sentia. Estava livre, sem sofrer presa em uma tragédia imutável. No fundo, por mais que sentisse saudades de sua mãe, gostava da sensação de estar livre.
— Ela era a única coisa que me mantinha naquele lugar enquanto todo o resto me empurrava para longe. Em todos esses anos que estive lá, não houve um dia em que não quis voltar para cá.
Com um doce gesto, Helena tomou sua mão na dela, entrelaçando os dedos nos seus com ternura. Juno quase agradeceu por aquele toque, na verdade, até se emocionou. Afinal, quanta falta fez um toque assim em todos os anos que passou presa, em uma obscura solidão, em silêncio? O quão mais fácil teria sido passar por tudo, se tivesse alguém que segurasse a sua mão e dissesse que tudo iria ficar bem? Toda a diferença que faria não estar completa e inteiramente sozinha?
— Tantas vezes quis ir atrás de você, Juno. Muitas vezes me encontrei procurando sua tia, tentando descobrir onde você estava, mesmo os outros me mandando desistir. E eu não queria ter desistido, mas quanto mais o tempo se passava, menos eu esperava você. No fim, era como se você nunca tivesse existido.
“No fim, era como se você nunca tivesse existido”. Soava quase irônico que a verdade estivesse escondida entre essas palavras, por mais hostis que pudessem soar para qualquer outro ouvinte. Por quanto tempo Juno não esteve inexistente, mesmo quando permanecia resistindo? Por quanto tempo não esteve invisível? E em silêncio?
— Você está certa. Era como se eu nunca tivesse existido. — disse, tomando um outro gole e respirando fundo. — Acho que, no fundo, eu estava tentando não existir, porque assim seria mais fácil de sobreviver. Talvez assim, invisível, ele não fosse me encontrar de novo.
— Nicholas?
Juno não precisou responder. Apenas seu semblante era o suficiente para Helena entender. Somente um aceno de cabeça confirmou a verdade que Juno ainda não estava preparada para dizer em voz alta.
— Sinto muito que tenha de ter passado por isso sozinha. Eu gostaria tanto de ter percebido antes, de ter tomado alguma atitude...
— Eu também gostaria de ter percebido antes que fosse tarde demais. — completou, piscando seguidas vezes para afugentar a sensação de ardência de certas lágrimas teimosas. — No fim, era como se eu não tivesse existido, porque ele tomou tudo de mim.
Helena não respondeu. Talvez, não soubesse o que responder. Só se manteve ao seu lado, segurando a sua mão. E era tudo o que Juno precisava. Com a imagem de tal homem assombrando sua mente, tudo o que precisava era algo para se apoiar.
Lembrava-se de suas últimas palavras. Uma última vez, procurando o seu perdão que nunca seria capaz de dar. Antes, sentiu-se tão culpada por negá-lo. Agora, parecia tão falso e dissimulado.
— Ele tentou pedir perdão, mas eu simplesmente não conseguia perdoá-lo. — disse, de repente, surpreendendo a amiga. — Por muito tempo, fiquei me cobrando por isso, achando que precisava perdoá-lo para seguir em frente. Então, eu sempre lembrava de tudo o que ele me causou e se tornava impossível dar qualquer perdão a ele.
— Não acho que estava errada em não o perdoar. — ela apertou sua mão, transmitindo todo o conforto e segurança que, por anos, Juno nunca encontrou. — Acredito que para ser capaz de perdoar é necessária uma certa confiança. E algumas pessoas só estão procurando perdão como uma validação para continuar sendo ruins sem se sentirem culpadas.
Com um sorriso, Helena a puxou para um abraço. Não durou muito, apenas o suficiente para amenizar a dor de sua alma, apagando, por um instante, todas as marcas que a machucavam por dentro.
— Fico orgulhosa de saber que sobreviveu a isso e está aqui agora, de cabeça erguida, seguindo em frente. Fico triste por saber que passou por tudo isso sozinha, em silêncio.
— O que importa é que acabou. E nem tudo precisa de um final propriamente dito para acabar. Certas vezes só deixa de existir. Tudo isso ficou para trás e não tem mais volta.
— E você não está sozinha agora. — Helena garantiu, assentindo com a cabeça. — Eu estou aqui, as meninas estão, todos estamos! Saiba que não deve explicação nenhuma, detalhe nenhum sobre o que passou, mas quando você se sentir preparada para se abrir sobre o que aconteceu, se algum dia se sentir confortável o suficiente, saiba que estamos aqui e vamos ouvir você.
Juno agradeceu com o olhar, iluminando seu rosto com um sorriso acanhado. Helena prosseguiu:
— Não só eu ou as meninas. Nirav também.
Um suspiro incerto fugiu da boca de Juno enquanto meneou com a cabeça. Numa tentativa de calar todas as dúvidas e conflitos, o café desceu quente por sua garganta mais uma vez.
— E se ele não quiser ouvir?
— Então, não estamos falando da mesma pessoa! — Helena franziu o cenho, terminando de beber em seu copo. — Só dê um tempo a ele! Vocês acabaram de se reencontrar, foi uma baita surpresa depois de tanto tempo. Ele pensou que nunca mais fosse ver você.
— Seja sincera. — Juno sorriu com o canto da boca. — Foi ideia da Louise, não foi? Todo esse almoço, como essa surpresa...
Helena entortou o rosto, fazendo uma careta antes de revirar os olhos.
— O que você acha? — sugeriu, com a resposta óbvia de forma implícita. — De qualquer forma, se ela não tivesse feito, eu teria. Já passou da hora de vocês se encontrarem, não acha?
Juno abaixou a cabeça, pensativa. Não gostava da sensação de que Louise se sentisse em dívida, quando, na verdade, se havia alguém que devia qualquer coisa, esse alguém era Juno. Havia sido ela, o possível empecilho no destino da amiga, tirando sua chance com a pessoa que gostava, por conta de seus desejos egoístas. Não parecia justo que ela precisasse reparar os danos por seus atos.
— Não quero que ela pense que precisa compensar por conta do que aconteceu. — disse em tom baixo, ressentido. — Fui eu quem atrapalhei os dois, não o contrário.
Helena deu tapinhas em sua mão, afastando tais ideias de sua mente.
— Não se preocupe com isso. — um estalo saiu de sua boca, como uma criança teimosa. — Os dois não teriam dado certo, independentemente de você estar envolvida.
— O que aconteceu entre eles, depois de tudo?
— Nada. — ela suspirou, balançando os ombros. — Claro que ele estava apaixonado por você, mas não teria dado certo de qualquer forma.
— Por que acha isso?
Ela deu um riso nasal, analisando seu rosto com cuidado, quase como se sugerisse que Juno já soubesse a resposta, mesmo sem querer admitir.
— Porque eles são o extremo oposto um do outro! Eles não conseguiriam combinar as diferenças, seria insuportável depois de um tempo. Ele iria se irritar com o jeito exagerado dela e ela iria se enjoar do jeito quieto dele. Nem sempre os opostos se atraem! — ambas riram juntas, descontraindo o assunto. — E não é como as coisas funcionam para Louise. Todo o drama sobre ter azar no amor, no fim, era só conversa da boca para fora. Ela não consegue se concentrar muito tempo em uma coisa só, ou melhor, em uma pessoa só. Com o tempo, ela sempre fica entediada de estar presa em um relacionamento.
— Não deve ser ruim ser desapegada a esse ponto. — Juno ponderou com uma expressão sugestiva, fazendo Helena rir e concordar.
— Acredito que ela estava afim dele, mas quem de nós nunca ficou afim dele? — ela ralhou, dando uma risada maliciosa junto com Juno. Nesse momento, ambas pareciam as mesmas garotas de antes, fofocando sobre paixonites e segredando risinhos.
— Até sua irmã!
— Até a minha irmã! — ela respondeu admirada, estalando os dedos. — E olha que ela só com quem ela vai se casar agora!
Outra vez, elas riram. Juno encurvou-se para cima de Helena, que a empurrou de volta com o corpo, tal como duas jovens que estão sempre brincando e achando graça de tudo. A sensação era boa, estar assim, tão relaxada com outra pessoa.
— E quanto a você? — por fim, arriscou-se a virar o assunto para a própria amiga. — Vai me dizer que, em todos esses anos, nunca teve ninguém?
Ela franziu o cenho, meneando com a cabeça. Depois, balançou o dedo indicador em uma recusa casual.
— Não me arraste para esse assunto. — repreendeu, porém seu tom estava recheado de sarcasmo. — Já não basta minha família me pressionando por conta do casamento de Hester. O tempo todo me questionando quando vai ser a minha vez, quando vou apresentar alguém... — ela bufou, dessa vez, irritadiça.
Juno segurou em seu braço, quase pendurando-se como uma criança insistente, fazendo Helena esboçar uma careta divertida.
— Eu não sou sua família, sou sua amiga, que você não vê há anos... — implorou, arrancando uma risada dela.
— Não me venha com chantagens! — retrucou com divertimento. — Talvez... Bem, talvez até tenha uma pessoa, mas eu não quero roubar o momento de glória da minha irmã...
— Eu sabia!
Helena bateu em sua coxa, de brincadeira, dando risadas.
— Porém, nada de contar para ninguém! — alertou, apontando-a o dedo indicador. — Se não eu te mando para o lugar de onde veio!
Com um riso exagerado, daqueles que exibiam todos os dentes, Juno concordou, prometendo segredo à amiga. Helena quase a fez jurar, entretanto, sabia que ela iria cumprir com a promessa.
Por fim, ambas decidiram se levantar. Pouco a pouco, depois de descartarem os copos vazios, retomaram uma caminhada lenta. Enquanto andavam, a tarde se estendia, espreguiçando-se sem coragem de se despedir. E elas continuaram de braços dados, tomando o caminho de volta.
As ruas já estavam mais vazias, sem muito movimento de carros ou pedestres. Alguns estabelecimentos começaram a fechar e outros a abrir, pouco a pouco. Não tardaria para que a noite se aproximasse, com seu sopro gelado do céu escurecido, sem estrelas. Infelizmente, já era quase a hora de se separarem, para se acomodarem em suas casas e descansarem o corpo para o dia seguinte.
No entanto, antes que pudessem tomar caminhos opostos, Helena virou-se mais uma vez para Juno, que caminhava ao seu lado, perdida em seus pensamentos.
— Posso te perguntar uma coisa?
Sendo pega de surpresa, sem conseguir imaginar o que podia ser, Juno assentiu com a cabeça, prestando atenção na amiga, que prosseguiu com a voz um tanto hesitante:
— Eu não posso dizer que desconfiava de você e Nirav, mas quando descobri tudo o que aconteceu, vocês dois fizeram tanto sentido que foi difícil, até para mim, superar o fim abrupto. — ponderou, a voz baixa e intensa, como se trouxesse um peso maior à questão. — Como foi quando estavam juntos?
A pergunta em si não pegou de surpresa. E sua resposta não era difícil. Estava na ponta da língua, talvez abstrata demais, complicada demais para ser posta em palavras. Era tudo, menos difícil.
Ainda se lembrava da primeira vez em que o viu e de cada momento que esteve ao seu lado desde então. Jamais seria capaz de esquecer tanto os detalhes quanto os sentimentos. Era o tipo de coisa que nunca se é capaz de esquecer. E, no fundo, não desejava esquecer.
Nirav era como uma força da natureza. Ao mesmo tempo que era calmo e ameno, também era uma ventania que balançava com todas as estruturas, sem tirá-las do lugar. Era capaz de fazer um estrago daqueles que se há prazer em se entregar. Quase como um rio profundo, embora tendo uma correnteza mais forte do que aparentava, não havia receio em se jogar.
Desde a primeira vez em que o viu, sentiu algo diferente surgir em seu interior. Algo que nunca sentiu antes e nunca sentiria depois. Era apenas com ele. Era a partir dele. Era ele, o homem que roubava seu fôlego, fazia seu coração acelerar e causava o famigerado frio na barriga. E seria sempre ele, até se não estivessem mais juntos.
O modo como se aproximou naquela noite, durante o luau, Juno sabia que seria devastador, mesmo em toda sua calmaria. Despojado, com um sorriso fácil, passando a mão sobre os cabelos, bagunçando-os um pouco mais. E todas as outras vezes após essa. Quando se encontraram, sem querer, em um sebo de livros, onde brincaram como dois tolos apaixonados em volta das estantes, até se trombarem de propósito. Durante uma noite, voltando da casa de seus amigos, sob a luz do luar, correndo como crianças, dançando como amantes, recusando as provocações tão irresistíveis. E em um dia nublado, pedalando para longe de toda a realidade, quando puderam se perder no meio da natureza e se encontrarem um no outro, escondidos em uma cachoeira.
Cada momento, cada olhar, cada sorriso, cada beijo. Tudo persistia existindo dentro dela como se tivesse acabado de acontecer, sem todos os anos que lhes foram roubados. Quando se lembrava de estar ao lado de Nirav, o tempo parecia não ter passado. Ainda estava com ele, ambos deitados sobre uma toalha úmida, com os corpos molhados e a respiração alterada. Conseguia sentir seu coração batendo descompassado ao sentir o beijo dos lábios dele, sua pele arrepiada com o toque das mãos que desciam por seu corpo, o cheiro dele que viciava seu nariz. Ainda era capaz de sentir o desejo de dizer que estava apaixonada e que, talvez, até o amasse.
— Foi como uma força da natureza. Algo que não pode ser parado.
As únicas poucas palavras que escaparam de seus lábios sorridentes. E, apesar de poucas, tão precisas.
Eles tinham sido como uma força da natureza. Estavam destinados a se colidirem. No entanto, apenas passaram um pelo outro e logo se distanciaram, afastados por uma força bruta. E agora, depois de tanto tempo, o curso da vida os colocou diante um do outro, mais uma vez. O que isso poderia significar?
— E como está se sentindo agora? — ela questionou, contemplando seu semblante perdido de quem devaneia em sonhos distantes. — Como foi reencontrá-lo dessa vez?
Ela apenas olhou para a amiga. Em seus olhos estava escrita a resposta. Era tão óbvia quanto o dia de amanhã e o próximo, tão certa quanto a passagem do tempo e o caminho das estações. Era óbvio como uma força da natureza.
Então, Helena já sabia sem que precisasse dizer. Mesmo assim, Juno escolheu responder:
— Como se nenhum dia tivesse passado desde o último.
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