O Caminho das Estações
24 ∾ E tudo o que me leva até você é o que te torna mais distante.
Notas iniciais
Um suspiro cansado escapou dos lábios escondidos entre a barba, junto com a fumaça espessa do cigarro esgotado. Enquanto isso, os olhos atentos observavam o movimento das ruas, sem prestar atenção a nada específico. Apenas olhava, como quem assiste sem pensar em nada. Um feito do cigarro, pousado de novo na boca pelo último trago. Mais uma vez, Nirav recorria a uma medida drástica para espairecer pensamentos que, de quando em quando, ficavam pesados demais para serem encarados.
Toda a discussão sobre seu pai havia retornado, tornando as conversas com sua mãe em constantes desentendimentos. Ela quase o vencia pelo cansaço, com uma insistência firmada em teimosia para que ele reconsiderasse. E quase reconsiderava só por ela, até se lembrar de quem era seu pai, portanto, era da sua natureza relutar. Entretanto, quase sem querer, até começava a se sentir capaz de ceder aos poucos. E por mais que, bem devagar, se encontrasse tentando entender, nada tinha a ver com seu pai, na verdade. Sua necessidade de compreensão de histórias inacabadas vinha de algo que há muito tempo jurou ter perdido. Ou melhor, alguém.
Já evitando se perder em mais devaneios, ele passou o olhar da rua para o relógio em seu pulso. Ainda teria o dia inteiro pela frente, contudo, era melhor acelerar o passo. Embora o céu estivesse claro, estando no meio do inverno não iria tardar para que o dia desaparecesse em um piscar de olhos.
Apesar de gostar do clima frio, de repente, Nirav encontrou a si mesmo sentindo falta do calor. Em geral, sempre gostou das noites longas de inverno, de deitar debaixo de cobertas e do frio arrepiando sua pele. Entretanto, começou a sentir saudades de dias ensolarados, das roupas mais curtas, da diversão e da casualidade acompanhada de risadas mais divertidas e olhares mais brilhantes. Talvez, estivesse sendo apenas nostálgico, mas quando olhava em volta, para o céu nublado sobre corpos encolhidos, fugindo do vento frio, era difícil não desejar dias melhores com climas mais agradáveis.
Até mesmo ele já estava cansado das roupas pesadas. Os sapatos fechados, cheios de cadarços em suas centenas de nós. As calças grossas, que sempre pareciam as mesmas. Até do casaco marrom, seu preferido, já havia enjoado. Quase não se reconhecia por desejar o contrário. Gostava da seriedade de roupas mais quentes. Porém, talvez, estivesse desejando uma maior leveza, depois de tanta integridade.
E contentando-se com o clima atual, Nirav decidiu seguir adiante. Com as mãos afundadas nos bolsos do casaco, ele atravessou o pouco movimento das ruas. Para o meio da semana, a quantidade de pessoas circulando era consideravelmente baixa, fazendo a cidade parecer mais vazia e até mais silenciosa.
Estava diante do antigo sebo de livros quando sentiu, esquecido no bolso de sua calça, o celular vibrar. Ele bufou irritado, por muito pouco não ignorou a chamada por pensar se tratar da insistência de seu pai, quando se tratava apenas de Alice, na verdade.
Enquanto atendia a namorada, deu passos lerdos para dentro do estabelecimento, tentando desviar das pessoas que passavam de um lado para o outro. O balconista reparou em sua presença, levantando o olhar dos livros que registrava e, com certo desânimo, veio em sua direção. Foi quando escutou uma risada exagerada vinda dos fundos da loja. Uma risada qualquer, mas que o fez virar para olhar. E, de repente, toda a sua atenção pareceu se dissipar no ar como vapor.
Como uma ironia do destino, Juno estava lá dentro. No mesmo sebo em que se encontraram, por acaso, anos atrás. E, mais uma vez, a vida parecia pregar uma peça nele ao encontrá-la ali, tal como antes, ainda que tão diferente.
No entanto, ao ser puxado para a realidade de um jeito brusco, percebeu duas pessoas falando ao mesmo tempo consigo enquanto ele só tinha atenção para uma terceira, que sequer havia o notado ali.
— Nirav? Está me ouvindo? — Alice chamou, do outro lado da linha da chamada que deixou falhar, sem querer. Encontraria alguma desculpa mais tarde, não só para aquela, também para todas as outras que ela tentaria a seguir.
— Posso ajudar? — a voz impaciente do homem do balcão insistiu, já ficando irritado por sua distração. Nirav fez apenas um aceno de cabeça, recusando a cortesia forçada, liberando-o para seu monótono trabalho. Apesar de parecido, não era o homem de antes, o antigo dono. Não era aquele que reclamou de suas brincadeiras imprudente nos corredores. O que era um tanto decepcionante.
Então, por um instante esqueceu-se de todo e qualquer conflito que embaçasse seus pensamentos. Perdeu-se em todas as tarefas que tinha para concluir. E só teve olhos para a mulher que andava de uma estante a outra, admirando os títulos, comentando suas sinopses, distraída demais para reparar em sua presença.
Era estranho pensar que, agora, poderia esbarrar com Juno em qualquer esquina, a qualquer momento. Por tanto tempo nunca soube onde ela estava ou se seria capaz de vê-la novamente. A ideia de tê-la tão perto parecia difícil de conceber. Soava quase como um joguete da vida, brincando com seus sentimentos. Quantas vezes desejou saber onde procurá-la e tentou-se com a vã possibilidade de encontrá-la para, de repente, tê-la tão perto outra vez. Era quase traiçoeiro.
No fundo, também era como revisitar uma memória antiga, que jurava ter esquecido, mas alegrava-se ao perceber seu equívoco. Estava tão vívida em sua mente que parecia, de todas, a mais recente.
Ainda se lembrava de seus cabelos bagunçados, despojados por suas costas, com algumas mexas sobre seu rosto. A regata cavada, de uma cor preta desbotada, tão larga que parecia centímetros a mais de sua medida. Até o seu shorts jeans rasgados e seus chinelos velhos. Lembrava-se tão bem até de sua expressão entre concentrada e distraída. Não havia esquecido qualquer detalhe que fosse.
Ele respirou fundo, caminhando devagar entre as prateleiras. Ainda havia o mesmo cheiro de antes. Aquele aroma inebriante que escapava dos livros e que tanto gostava permanecia ali. E, embora tantas coisas permanecessem iguais, tudo estava diferente.
Agora, Juno usava uma camisa branca de botões, presa dentro de uma calça jeans escura de cintura alta e sapatos fechados. Seus cabelos, mais curtos, escorriam por seus ombros bem penteados. Estava uma mulher madura, com um aspecto sóbrio. No entanto, se comparasse as diferenças entre a moça de regata cavada e shorts rasgados com a mulher de blusa de botões e calça justa, sentia que ainda encontraria o mesmo semblante radiante. O sorriso exagerado e caloroso. O antigo olhar intenso.
Reparou que ela não estava sozinha. Ao seu lado, um rapaz comentava sobre um livro ou outro fazendo-a rir. Aparentava ser novo e tinha, mais ou menos, a mesma altura dela. Seus cabelos eram claros, entre acobreados e amarelados, o que o deixava mais pálido. Uma barba rala salpicava seu rosto de vermelho. Ele também usava uma roupa formal, que contrastava com a forma informal que interagiam. Estavam se divertindo, dando risadas juntos ao fazer comentários bobos sobre os livros dispostos.
Nesse instante, Nirav notou-se com um sentimento controverso. Estava com inveja. Não só do modo como ele a fazia rir, a distraindo do mundo ao redor, conversando sobre os mais diversos assuntos que não parecia ter fim, mas, principalmente, por se parecer bem com o que era seu relacionamento antes de tudo acabar. Antes, era ele quem tirava dela as risadas mais exageradas, os assuntos mais aleatórios, os olhares mais cintilantes. Agora, já não tinha certeza se restava alguma dessas coisas.
Então, deparava-se com tantos fragmentos de si mesmo. Queria ir até lá, poder falar com ela, dizer o quanto havia sentido sua falta. Depois, a levar para caminhar até outro lugar, escutá-la contar tudo o que aconteceu durante o tempo em que estiveram distantes. Queria entender sua partida e diminuir a distância entre eles. Queria tanto estar mais perto e não conseguia, sentia-se tão longe.
Como se continuassem a estar anos distantes um do outro, separados por milhas de distância, havia entre eles uma barreira. Uma barreira de muitas dúvidas e muitas faces. E era tão sólida quanto era abstrata.
Sete anos existiam entre eles. Uma vida inteira. A mulher que contemplava já sentia não conhecer, mas ainda era a mulher que o deixou para trás como se não significasse nada. Era, também, a mulher que todos seus amigos pareciam não conseguir confiar. Era, sem querer, adversária à sua namorada. E a antagonista de uma história cheia de buracos, furos de roteiros e inacabada.
Por isso, tê-la tão perto poderia ser tão traiçoeiro. Não sabia para que face estava olhando. Havia conhecido uma mulher que deixou de ser o que acreditava e desapareceu como se nunca tivesse existido. Não sabia dizer quem ela era. Apesar de, no fundo, resistir o conceito original. Como se, no seu profundo âmago, soubesse que ela não era o que seus erros significavam. No entanto, não sabia como confiar em seu julgamento. E não podia ser repreendido por sua desconfiança.
Já não fazia sentido, portanto, permanecer ali. Seu telefone vibrava sem parar, clamando sua atenção por algo que, de fato, merecia. E Juno sequer parecia perceber sua presença. No fim, ela permanecia distante demais, mesmo tão perto. Enfim, ele desistiu. Além de infeliz, era um tanto estranho observar alguém por tanto tempo. E já não era mais um garoto tímido incapaz de se aproximar, contentando-se apenas em admirar de longe, receando o resultado do contato. Por fim, deu a ela uma última olhada. Foi quando percebeu que ela, agora sozinha, o olhava de volta.
O rapaz desconhecido acabava de passar ao seu lado, acenando em despedida para o balconista antes de sair. E, do outro lado, estava ela, notando a sua presença, finalmente. Trazia um sorriso mínimo nos lábios delineados, tingidos por um batom mais avermelhado. Seu rosto estava baixo, como se fingisse prestar atenção aos livros, quase tímida diante de seu olhar.
Mais uma vez, teve vontade de ir até ela. Metade do homem que era quase gritava ansiando por isso. Para, talvez, entender tudo o que aconteceu, seguir adiante, deixar para trás. Entretanto, a outra metade o mantinha longe, cada vez mais afastado, impedindo o contato. E assim, encontrava-se em um estado de hesitação, sem saber o que fazer. Parecendo aquele garoto imaturo que jurava não ser.
E, no entanto, o encontro foi inevitável. Como antes, brincando entre aquelas prateleiras, escondendo pelos corredores, eles se esbarraram. Dessa vez, não havia risadas ou flertes. Apenas olhares incertos, respirações exasperadas e posturas desconcertadas.
— De todos os lugares, nunca imaginei reencontrar você aqui.
Ali estava Juno, agora ao seu lado, passando os dedos pelos livros a sua frente, atuando um encontro casual. Não o olhava nos olhos, na verdade, parecia evitar o contato visual. Havia apenas uma pequena curvatura em seus lábios pintados, que ele não conseguia interpretar como um sorriso, embora também não conseguisse ignorar.
Porém, não precisava de um olhar ou um sorriso para saber que ela também se lembrava. Em suas palavras estavam implícitas todas as memórias. O que o fazia se questionar quantas mais memórias ela guardava. Será que se recordava de todos os momentos, desde o primeiro até o último? Seria possível se lembrar do sentimento? Ou se houve, alguma vez, algum sentimento?
— Assim como não esperava me encontrar na casa de Lou? — contestou, retirando sua atenção dela para ver em volta.
Dessa vez, Juno riu. Um pequeno riso nasal, quase um suspiro. O suficiente para fazê-lo retornar o olhar e sentir o coração acelerar. A boca encurvada, escondendo o sorriso exagerado, substituindo-o por um singelo rastro. Apenas um vislumbre de seu sorriso, que há tanto tempo não via e que nunca deixou de se lembrar. Percebeu o quanto sentia falta de seu sorriso para, logo em seguida, negar a si mesmo o direito de sentir saudades.
— Eu também não sabia. — contou, deixando de mexer nos livros. — Lou deu a entender que só encontraria as meninas.
— É a cara da Lou.
Juno permaneceu a comprimir os lábios, como quem omite o sorriso, segredando a graça de algo para si próprio.
— É engraçado como algumas coisas nunca mudam. — comentou, passando a mão sobre os cabelos, escondendo uma mecha atrás da orelha. — Toda parte dessa cidade é uma memória para mim. E, de algum jeito, é como se tudo permanecesse igual a antes.
Nirav não respondeu. Não sabia o que dizer a ela, embora houvesse tantas coisas que gostaria de falar. Simplesmente não tinha uma resposta. Então, apenas manteve seu olhar sobre ela. E ela, então, retribuiu.
Pela primeira vez, lado a lado, eles se olharam. E não era como trocar olhares através de um aposento. Era tão intenso e forte, de um jeito que nunca mais pensou que seria, que o fazia quase se esquecer de todo o resto. Quase se afogava em suas cores tão únicas, mergulhando em sua intensa vivacidade. E, de repente, percebia-se tentando encontrar o brilho que ardia em seu olhar toda vez que o via. No entanto, como se adivinhasse sua intenção, Juno desviou o rosto, escapando mais uma vez. Conseguiu escutar a rigidez de uma respiração exasperada enquanto se desviava ao evitar seu contato.
— Exceto que agora somos completos estranhos um para o outro. — ela concluiu com certo tom de tristeza, pigarreando baixinho.
— É o que acontece quando se some por anos. — respondeu e, no instante que o fez, se arrependeu.
Quando reparou em seu olhar furtivo, olhando-o para ter certeza de que havia dito aquilo. Quando notou seu sorriso triste e conformado. Quando a viu concordar consigo, mesmo à contragosto. Quando ela se afastou, acenando com a cabeça ao se despedir em silêncio. Cada parte sua arrependeu-se ao ver cada parte dela dando-se por vencida.
Nirav fechou os olhos, respirando fundo. Impaciente, passou as mãos sobre os cabelos e a barba. Não conseguia entender o que sentia diante daquela mulher. Estava tão divido, tão confuso, tão perdido. Queria tantas coisas e não conseguia fazer nenhuma do jeito certo. E por isso, agora, ela estava indo embora. Mais uma vez, ela estava se distanciando dele.
— Você era uma memória para mim.
Juno parou ao ouvir sua voz, olhando por cima do ombro. Talvez tenha percebido a agitação em seu tom trépido. Talvez, por isso, tenha desistido de ir.
— Espero que não tenha sido uma das piores. — murmurou, pouco a pouco voltando até ele.
Não, não era. Juno não era a sua pior lembrança. Porém, não podia dizer isso a ela, não ainda. Havia tantas coisas no meio do caminho até essa verdade. A barreira insistia em estar ali, entre eles, quase palpável, mesmo que estivessem frente a frente. E, em algum lugar por trás dessa barreira, estava a sua verdade.
Nirav suspirou, afugentando a resposta na ponta de sua língua. Ajeitou os cabelos que caiam sobre sua testa, acompanhando o olhar dela seguindo sua ação, prestando atenção aos seus detalhes.
— Achei que não passaria mais disso, uma mera memória. Até você voltar. — disse, então. — Agora, olho para você e tenho medo de que vá se dissipar diante dos meus olhos e desaparecer... como antes.
— Não vou desaparecer dessa vez. — garantiu, sem hesitar. Não havia incerteza em sua voz, sequer estava trêmula. — Não há mais para onde ir e não quero ir para nenhum outro lugar. Não houve um dia em que não me arrependi de ter fugido e das coisas que deixei para trás. Coisas que talvez que nunca vá recuperar.
Ele. No fundo, sabia que Juno estava falando dele. Não precisou sequer dizer seu nome para que ele soubesse. E ter essa noção fez um arrepio percorrer por todo seu corpo com uma sensação um tanto antiga. Uma sensação que nunca mais havia sentido, porque só havia sentido com ela.
Então, uma outra vez, ela roubou seu fôlego, ao dizer em um suspiro:
— E eu senti a sua falta.
De novo, eles se olharam. E, nesse instante, encontrou no par de olhos de cor avelã o que procurava. O brilho que ardia nos olhos de Juno só, pelo simples motivo, de olhar para ele.
— Então, por que demorou todo esse tempo para voltar?
— Eu não sabia como voltar.
O brilho em seu olhar se transformou, quase desapareceu. A única cintilação que pareceu existir foi de lágrimas que brotavam, sorrateiras e contidas. E foi assim que soube que, talvez, ainda não soubesse de nada, diante de um olhar ambíguo, que expressava muito mais do que as palavras que saiam da boca.
Quando ela, por fim, se despediu, ele permaneceu. Enquanto ela partia, ele continuou estático. Queria ter ido atrás, segurado sua mão e implorado pela verdade. Desejava, agora, mais do que tudo, entender o que havia por trás dos anos que se passaram e de toda a distância imposta entre eles. No entanto, a barreira estava lá, obstruindo o caminho de um para o outro. E tudo o que parecia levá-lo até ela, a tornava ainda mais difícil de alcançar.
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