O Caminho das Estações
59 ∾ Não tenha medo de amar e, se necessário, amar de novo.
Notas iniciais
O mau tempo persistia. Um véu de neblina cobria toda a Florencia, despejando uma fina chuva de forma contínua através dos dias. O que acabava esfriando o clima, obrigando as pessoas a usarem roupas mais fechadas e esconderem-se em casa.
E também dificultava o trabalho de decoração para o casamento de Hester e Theo.
Quando estacionou o carro na rua do quintal traseiro, Nirav não esperava ver o movimento tão acelerado sob a chuva tão firme. De um lado para o outro, pessoas andavam carregando bugigangas ou montando e desmontando coisas. Reclamando pelo tempo ruim ou sem se importar, tanto funcionários quanto familiares trabalhavam para erguer as tendas, organizar as cadeiras, pendurar as decorações, arranjar as flores e estender os tapetes para a cerimônia que se aproximava.
Nirav suspirou admirado. Ainda não tinha sentido a ficha cair, até então. Apenas agora, observando a cerimônia tomando forma diante de seus, que encarou a verdade dos fatos: seus amigos estavam prestes a oficializar o amor que sentiam um pelo outro. E, de alguma forma, isso lhe deixava ansioso.
Era como se sentir verdadeiramente adulto, muito embora já o fosse há mais de dez anos. Casamento era algo que, mesmo com seus trinta anos, parecia tão distante. Na verdade, considerava o casamento algo ultrapassado e, se fosse sincero, quase desnecessário. Tantas e tantas vezes testemunhou amores que julgavam invencíveis serem esmagados pelo peso que um casamento agregava ao casal. Portanto, sempre acreditou que amores verdadeiros nunca precisavam de um casamento para serem válidos e que tais formalidades eram mero capricho inventado pela sociedade.
Mas o que ele entendia de amores verdadeiros, afinal de contas?
De qualquer forma, sentia-se feliz por fazer parte da história que seus amigos construíram ao longo de todos esses anos. Embora não os conhecesse desde sempre, era de comum conhecimento que o amor entre Hester e Theo era de longa data. Do início do colegial aos mais recentes dias. Uma vida inteira juntos, apesar de alguns conflitos, continuavam compartilhando o mesmo sentimento, construindo um único futuro, sem receio do fim. Era quase invejável, pensava Nirav. Sentir o gosto dos mesmos lábios, se envolver sempre no abraço único, conhecer cada parte do corpo favorito, entender aquela única pessoa como ninguém mais, olhar para seu rosto como se fosse o único todos os dias até o último. O que ele não daria para estar no lugar de Theo e Hester?
Sentindo-se um pouco deslocado, coçou os cabelos de sua nuca e pensou no que fazer. Não queria simplesmente atrapalhar o serviço das outras pessoas só porque precisava de alguém que lhe sacudisse pelos ombros e dissesse o que precisava ouvir. Mesmo assim, precisava tentar. Sentia como se fosse sua última chance.
Alcançando o celular no bolso de seus jeans surrados, Nirav discou o número da única pessoa que conseguia procurar em um momento como aquele. E torceu para que ela atendesse rápido. Ela tinha que estar ali, tinha de estar.
— Olha só quem resolveu dar sinal de vida! — a voz ácida de Helena soou como um acalento para seu coração turbulento. — A que devo a honra?
— Há uma entrega para você, se puder vir retirar o imenso saco de lixo do quintal traseiro, não quero manchar a decoração do casamento.
Helena deu uma risada amarga.
— Auto depreciação não combina com você, sabia disso?
E sem esperar por uma resposta, Helena desligou o celular. Ele olhou uma última vez para dentro da propriedade de luxo e observou a porta traseira ser aberta e fechada, embora o muro dificultasse um pouco.
Enrolada em um moletom amarelo, Helena apareceu no portão de capuz para afugentar os pingos dos cabelos e as mãos nos bolsos para se aquecer. Pelo seu semblante, estava tão exausta quanto irritada de ficar trabalhando para fazer o dia de rainha de sua irmã acontecer. Ótimo, pensou. Quanto mais irritada ela estiver, mais honesta será.
— Por onde diabos tem andado? Está todo mundo preocupado! — ela fungou o nariz, fechando o portão atrás de si para não serem interrompidos.
— Precisava de um tempo só para mim.
— É, isso tem outro nome para mim: fugir. — ela fez uma careta. — O que te traz aqui?
Nirav encolheu os ombros.
— Vim ver os preparativos. Vocês parecem estar precisando de ajuda.
— Não, não veio. — o sorriso debochado cobriu seus lábios carnudos. — De qualquer forma, estou aceitando qualquer desculpa que me dê uma folga desse caos. Mas se puder sair da chuva, eu agradeço! A última coisa que preciso é um resfriado na véspera do casamento da minha irmã. Imagina se espirro no precioso vestido lindo dela? Que tragédia!
Nirav riu. E ela o conduziu até a garagem da casa. Um lugar estranho para se conversar, porém, definitivamente reservado.
Um assovio soou de seus lábios ao ver quão espaçoso era o lugar. Havia dois carros estacionados e uma bancada de ferramentas mais à frente. Enquanto isso, seu carro pegava chuva e sol, dia e noite adentro.
Helena não perdeu mais tempo.
— Vamos, me ocupe o quanto quiser!
Encostando-se na parede fria, Nirav acendeu um cigarro entre os lábios, soprando a fumaça para longe. Depois, voltou a enfiar suas mãos nos bolsos do jeans.
— Você sabe — disse, com o cigarro no canto da boca.
— Oh, se sei! — ela grunhiu. — Está perdendo seu tempo se está procurando a Juno, ela não está aqui. A coitadinha ainda está com vergonha do que ouviu, não posso julgá-la.
Ele não se surpreendia. No geral, Juno nunca pareceu se importar com o que pensavam dela, porém, sempre se preocupou com a forma que os amigos a enxergavam. As conversas fiadas e comentários maldosos a afetavam demais.
— Na verdade, estou procurando saber sobre ela.
— E por que está aqui? Deveria ter ido na casa dela, atrás dela. — Helena acertou um tapa na própria coxa. — Não vir atrás da melhor amiga dela esperando um milagre.
Nirav quase não teve coragem. Respirou fundo e desviou o olhar por um instante. Então, admitiu:
— Eu estraguei tudo.
— Mais um motivo para não estar aqui perdendo seu tempo. — ela meneou, sem entender. — Por que veio até mim?
— Não sei se ela quer me ver.
Helena fechou os olhos, continuando a menear.
— Sabe que não é verdade. — ela apontou-lhe um dedo. — Mas mesmo que ela não quisesse, estaria coberta de razão. Sinceramente, Nirav.
— Ela contou a você? — ele franziu o cenho, confuso.
— Não. Vocês dois são iguais nesse sentido. Quando algo dá errado, vocês sempre fogem e se escondem até o pior passar. De qualquer forma não precisou. — Helena ficou séria, de repente. — Vi como estava evitando ela. Fingindo como se ela não existisse, desviando o olhar, ignorando as investidas dela... Parecendo um moleque que eu nunca imaginei que você fosse.
— Helena, eu não preciso que me diga o que eu fiz.
— Então, por que caralhos você fez? — ela abriu os braços e depois bateu uma mão na outra, parecendo uma mãe irritada. — O que estava esperando conseguir com tudo isso?
— Alice.
Helena soltou uma exclamação. Impaciente, zanzou de um lado para o outro, sem saber o que fazer com o homem miserável à sua frente. Por fim, pôs uma mão na cintura e outra sobre a coxa.
— Você não tinha terminado com ela? — perguntou desanimada. — O que aconteceu? Se arrependeu e resolveu voltar atrás?
— Não! — respondeu sem hesitar, balançando os ombros. — Ela bem que queria.
Dessa vez, Helena deu um riso sarcástico.
— Mas é claro que queria! Imagina perder um partido como você...
— Está sendo cruel agora — ele alertou.
— Estou falando sério, Nirav! Com certeza ela estaria disposta a lutar com unhas e dentes por você, qualquer uma estaria. Estando você, logo você, em jogo, não existe essa coisa que chamam de sororidade. Alice só tem “etiqueta” demais para dar a cara a tapa.
Ele não conteve um riso nasal descrente, tragando o cigarro de novo.
— Fala como se eu tivesse uma fila de mulheres se engalfinhando por mim.
— Duas já contam como fila. Se contar a Louise que nunca superou... — ela arqueou as sobrancelhas e depois abanou as mãos. — De qualquer forma, o que disse a ela?
Nirav soprou mais fumaça, relembrando o momento.
Alice esperava um sim. Conseguia ver no brilho esperançoso, quase infantil, dos seus belos olhos. Assim como conseguiu ver o brilho tremular e se transformar na umidade das lágrimas quando a recusou.
Estampado em seu rosto estava o coração que se partia pela segunda vez. E dessa vez não tinha volta.
Alice tentou rir, fungar o nariz, desconversar, olhar além. Nada escondia a surpresa e a mágoa. Seus lábios entreabertos tremeram, seus olhos lacrimejaram, suas mãos suaram e sua alma se partiu em vários pedaços. E ele poderia ter sentido pena o suficiente para retirar as palavras que proferiu, mas então estaria partindo o próprio coração em benefício daquele que já não o interessava mais.
Por um momento, teve receio de que todo o árduo caminho que trilharam para as pazes pudesse se desfazer e ela o odiar para sempre. Porém, surpreendendo a Nirav e até a si mesma, Alice engoliu as lágrimas a seco, respirou fundo e aceitou. Ela apenas aceitou.
— Poderíamos ser amigos, mas nada além disso. — Nirav respondeu, recordando-se do semblante frustrado da antiga namorada. — Não posso ficar com ela, não pensando em outra mulher. Não posso amá-la quando amo outra mulher. Era trair a mim mesmo aceitar voltar com Alice quando meu coração já não pertencia mais a ela.
— Se é que algum dia já pertenceu a ela. — Helena arqueou as sobrancelhas de forma sugestiva, enfim suspirou. — Então, o que te impede de estar com a mulher que ama?
Ele não tinha resposta para aquela pergunta. Não havia nada que impedisse. Todos os obstáculos que os separavam, na verdade, foram impostos por sua própria tolice, criados pela sua própria insegurança. E agora, como superar os obstáculos que ele mesmo havia criado? Era uma pergunta estranha e ardilosa e sua resposta era evasiva e esquiva.
Afinal, como se supera uma barreira que nunca existiu, mas apenas pela necessidade haver uma, cria-se uma?
— Eu estava com medo — sua única alternativa, diante da miséria de soluções, era ser sincero. — Medo que pudesse estar cometendo um erro.
Helena fez uma careta de desgosto, levantando as mãos para o ar, como se procurasse alguma resposta. A mesma que ele não tinha para dar.
— Que diabos de erro? Eu te pergunto, do que diabos você está falando?
Vacilou por um instante sob o olhar inquisidor dela, mas não havia para onde fugir. Portanto, fez o que deveria ter feito há tanto tempo, admitiu:
— Todo mundo continuava a me dizer que eu estava cometendo um erro! E que Juno não era a mulher certa para mim e não era o que eu esperava que fosse. Falavam da forma como ela havia me usado uma vez e que faria tudo de novo quando tivesse a chance. — Nirav esfregou os cabelos, sentindo a amargura de dizer palavras tão grosseiras e falsas em voz alta. Era ainda pior dizê-las em voz alta. — Eu acabei aceitando o medo que queriam que eu sentisse. Eu fui tão...
— Covarde? Otário? Imbecil? Infantil? E isso é só o começo, poderia ficar aqui o dia todo para recitar a você os sinônimos de um grande canalha!
Era como se Helena ardesse na própria raiva diante de seu comentário. Escutar que um de seus melhores amigos pensava tais coisas de sua melhor amiga exigia uma força de controle sobre-humana. Qualquer outra pessoa teria, no mínimo, acertado um tapa em sua cara. E teria merecido.
— Sinceramente, Nirav... Quando se tornou um homem de agir pelas vontades dos outros? Como pode permitir que interferissem em sua vida dessa forma? Deixou a insegurança e o julgamento de outras pessoas falarem por você! — conseguia ler a decepção em seus olhos e nunca pensou que pudesse doer tanto. Perguntou-se se era assim que Juno se sentia quando via os mesmos olhos em sua direção. Eram diferentes, no entanto. Enquanto os olhares para Juno eram nada além de injustos, o olhar que recebia de Helena era o mínimo que deveria receber. — Isso não é sobre o que as outras pessoas acham, fodam-se elas! Isso é sobre você, sobre o que você sente pela Juno. E, minha nossa, você acredita nisso? Depois de tudo, realmente acredita que ela é uma víbora que está usando você? Seja sincero comigo, só para eu saber se eu nunca mais vou olhar para sua cara ou vou arrebentar até ficar irreconhecível.
— Não! É claro que eu não acredito, Helena! — respondeu de imediato, abrindo os braços em desespero.
— Então, por que? — argumentou em voz alta. De repente, pareciam-se tanto com o casal que quase foram na juventude. — Do que tem tanto medo?
— Que eu estivesse errado sobre mim, não sobre ela. — a confissão a desarmou, fazendo-a abaixar a guarda. Nirav respirou fundo, como se estivesse fazendo um esforço imenso para contar a verdade. O cigarro começava a enrugar entre seus dedos. — Eu estava colocando ela em uma condição que podia ser um grande equívoco. Pensei que pudesse estar tentando recriar um passado que não tem mais volta, uma mera projeção do que tivemos. Medo de estar apegado a um sentimento que não existia mais. E o que eu faria se tivesse desistido de tudo por algo que, talvez, não fosse mais real?
Helena meneou com a cabeça, revirando os olhos. Não como escárnio, como uma tentativa de impedir a tristeza.
— E demorou todo esse tempo para descobrir a verdade?
— Acho que eu sempre soube, dentro de mim, eu sempre soube. Desde a primeira vez que vi a Juno. — Nirav sentou-se na bancada de ferramentas, atordoado. — Há algo no modo em que ela... — ele gesticulou inúmeras vezes, desistindo de falar para coçar a barba.
— O que é? Diga!
Ele tragou o cigarro uma última vez, então apagou-o na madeira envernizada da garagem. Enfim, respirou fundo.
— Há algo no modo em que ela olha para mim — revelou pela primeira vez, sentindo um agito no peito por fazê-lo. — Como se os olhos dela brilhassem só de olhar para mim. Achei que era coisa da minha cabeça, até ver como ela olha para outras pessoas. E ela nunca olhou para ninguém do mesmo jeito que olha para mim. Os olhos dela brilham para mim, apenas para mim.
Helena expirou, tomando um tempo para processar tal informação.
— E você sabe o que esse olhar significa, espero eu.
— Sim, eu sei. Eu sempre soube, só demorei um pouco para perceber que sabia.
— E por que não diz isso a ela?
Nirav estalou os lábios, sentindo o gosto da nicotina impregnado ali.
— Talvez eu não mereça que ela saiba. Depois de toda injustiça que impus a ela, deixando os questionamentos de outras pessoas interferirem em nosso sentimento. O modo como desrespeitei ela por pura insensibilidade e egoísmo. Não posso nem esperar que ela queira escutar o meu lado. E que culpa eu teria se esse brilho se extinguir dos olhos dela? Eu fiz por merecer.
— Então não estamos falando da mesma Juno. — Helena cruzou os braços, mantendo o olhar sério sobre ele. — Ela esperou reencontrar você durante todos esses anos, sem saber se você também queria ouvir. E no começo eu aposto que você não queria mesmo, estou certa? Mas bastou um olhar, não foi? Bastou um olhar, esse mesmo olhar que você conhece. O que você acha que basta dessa vez?
Ele abaixou a cabeça, pensativo. Por isso, Helena se aproximou e ergueu seu rosto. Seu toque era cheio de compaixão e gentileza. O toque de uma amiga.
— Preste bem atenção no que vou te dizer agora — ela manteve seu rosto erguido por seus dedos, obrigando-o a olhar em seus olhos. — Eu entendo que haja inseguranças e dúvidas. É normal, uma hora outra todos sentimos isso, mas só há um jeito de superar e eu não posso fazer isso por vocês! Não importa quantos insultos, esbravejadas, sacudidas eu dê em vocês dois. Eu não posso arrumar essa bagunça por vocês. E eu entendo que me procurem, pois eu sei que vocês temem bagunçar tudo ainda mais por um sentimento que gostam tanto. Mas depende unicamente de vocês agora. Porque, nesse exato momento, a vida está dando a vocês uma outra chance e, sendo sincera, não sei se irá dar outra.
Nirav engoliu a seco cada palavra de Helena, que continuou:
— Então, não desista, por favor. Que desperdício seria se vocês desistissem um do outro. Vocês estiveram longe por tempo demais, não acham que é hora de recuperar o tempo perdido? Seja honesto e não tenha medo de demonstrar o amor que sente pela Juno, porque eu sei que ela também ama você e só está esperando por você. Tudo o que ela fez foi esperar por você e ela ainda espera. Bem, vocês dois se esperam. E vocês tem tudo! Agarrem-se com ambas as mãos e nunca mais se soltem.
Fale com o autor