O Bar da Esquina
24 O Espetáculo
Notas iniciais
Meu coração parecia querer estourar minha caixa torácica. Minha boca estava seca e um leve tremor passava por meu corpo. Mas o pior era esperar que os segundos se passassem. Rachel ficou estática, seu olhar ficou cravado nas alianças dentro da caixinha. Pode até parecer exagero da minha parte, mas não, o objeto parecia pesar um quilo em minhas mãos. Até que Rachel olhou para mim, seu sorriso era diferente de todos os que eu já tinha visto. Pura alegria. Num piscar de olhos senti o impacto do corpo dela sobre o meu, o que me fez recuar um passo atrás, meio atordoada, mas tão logo retribui seu abraço. Isso foi um sim, certo?
– Claro que eu aceito! Isso é muito para um dia só! – sorriu, e levou a mão até a caixinha de veludo e eu fiz o mesmo. Nossos dedos roçaram um no outro, fazendo os pelos da minha nuca se eriçarem e percebi que houve o mesmo com Rachel. Seu olhar rapidamente buscou o meu.
– Nunca é demais quando se trata de você, Rach! Nunca! – encarei fundos seus olhos e sorri. – Agora. – tirei a aliança dela da caixinha. – Você é a minha namorada! – finalizei, colocando a aliança em seu dedo anelar direito, deixando ali um beijo.
Rachel ficou alguns segundos encarando o anel em seu dedo com um sorriso suave nos lábios. Em seguida, tirou a outra aliança da caixinha e a segurou.
– Eu não sei muito o que dizer. Estou muito, muito, muito feliz, Quinn! O que eu sinto por você é algo que eu não consigo comensurar. Acho que já te disse isso uma vez, mas nunca é demais. Desde aquele dia no bar eu soube que iria haver uma mudança muito grande na minha vida. E realmente ela veio! Mas você chegou junto. E eu não me importaria se só você viesse, a sua existência já é o suficiente para me fazer ter um sorriso bobo nos lábios, desde que acordo até o final do meu dia... – a colocou em meu dedo. Devo admitir que não sou extremamente emotiva, todavia, as palavras de Rachel me tocaram. Muito. Até agora, eu não havia aberto totalmente meu coração para ela, mas agora era é uma hora perfeita... – E agora, eu só tenho a agradecer por você estar na minha vida, trazendo tudo isso. Tem ideia do quão grande foi essa mudança, Quinn? Antes de conhecer você, eu era totalmente fechada e até um pouco depressiva, mas a cada dia, cada hora que se passou, você, inconscientemente, me fez mudar. Agora, eu estou a poucos minutos de realizar meu maior sonho. E em nenhuma das minhas divagações eu pensei que teria um pedido de namoro junto. Digo, com alguém que eu realmente gosto. – Rachel sorriu e abaixou a cabeça, corada. – Que faz cada partícula do meu corpo entrar em ação quando sorri, que tem uma família linda, que me deixa louca, que me faz feliz só por estar ao meu lado... Oh, Quinn, eu irei ficar enumerando até amanhã se você...
Mas eu não iria deixar. Vi que Rachel estava deixando algumas lágrimas escaparem e eu também. Ninguém nunca disse essas coisas para mim. A puxei rápido e a beijei novamente. Se esse beijo era um pouco mais completo que os outros? Sim. Pode não parecer, mas quando se dá um nome para algo, você sente mais vivacidade. E rotular o que eu e Rachel temos em namoro, deu um peso a mais. Mais certeza, confiança, segurança...
Quebrei o beijo e passei o dedo indicador pelo caminho que as lágrimas haviam feito em seu rosto.
– Ei, não chore. Irá borrar sua maquiagem, minha diva...
– Mas você também está chorando. – retrucou, fazendo o mesmo gesto que eu. Vendo que Rachel iria continuar a falar, interrompi.
– Agora é a minha vez... Não temos muito tempo e você precisa se recompor. Rach, eu estou meio que sem saber o que falar, porque você roubou minha fala com esse seu monólogo. – Ri e Rachel desferiu um leve tapa em meu ombro, também sorrindo. – Está vendo? Eu não precisaria de mais nada para estar mais do que radiante. Está na sua forma de falar, de olhar, andar, atuar. Está em tudo. Tudo concentrado em uma só pessoa: você Rach! Mas não é só isso o que me encanta, é o que você é por dentro. Uma mulher linda! Ás vezes chata? É, algumas vezes. Eu também já lhe disse isso, mas, eu já te observava no bar do François. E a cada vez que te via, algo dentro de mim, lá no meu inconsciente, já imprimia seus trejeitos, seu olhar cabisbaixo, sua fala mansa... – soltei um riso pelo nariz. – E acredite, até a forma que você examinava o copo antes de beber e sei que isso é uma mania sua. Também não é só isso. Você sabia que é a única que me faz mudar de ideia para algo? Eu não sei explicar, mas você liberta meu lado mais leve, descontraído e extrovertido. E eu só consigo agir assim quando estou com você, Srta. Berry. Assim como eu te mudei, você fez o mesmo em mim, em proporções gigantescas. Dizer que estou apenas apaixonada por você ainda é pouco. Pouco demais, contudo, vou esperar mais para te dizer sem medo algum o que pode estar meio óbvio. E eu vou fazer de tudo para que o nosso namoro dê certo, Rach! Eu quero muito isso. Eu finalmente encontrei você...
Ah, mas a vida não é um mar de rosas e, enquanto eu ainda estava falando, John abriu a porta, sem ao menos bater. Oh, droga!
– Hey, Rachel! Já está quase na hora, então se prepare! Ah, Lucy, eu estava te procurando! Como você pôde sair e deixar tudo nas minhas costas? – John, sendo dramático como sempre. – Vamos, parem com essa melação! Quinnie, estou te...
– Tudo bem, Johnny, já entendi! Agora você pode me dar só mais um minuto? – retorqui, minimamente irritada. John pareceu entender meu olhar e se retirou, sem mais. – Você vai ser perfeita naquele palco, Rach! Agora você é a Rachel Berry, estrela da Broadway e namorada de Quinn Fabray! Quão melodioso isso soa? – brinquei. – Boa sorte! – dei um selinho em Rachel e me preparei para sair. No mesmo instante, senti meu braço ser puxado e os lábios de Rachel pressionando os meus.
– Isso soa perfeito. Tão perfeito quanto quando você me chama de Rach... – respirou fundo. – Acho que já está na hora. – crispou os lábios, nervosa.
– Relaxe, tudo bem? – acariciei seu rosto. – Não se esqueça que vai ter uma certa loira na primeira fileira a assistindo! – sorri marota. Aproximando-me mais um pouco. – Minha namorada... – sussurrei, pegando a mão de Rachel.
– Sua namorada. –Rachel afirmou, me encarando fundo.
– Boa sorte, minha linda. – deixei um beijo em sua testa e saí.
~.~
Acho que eu estava mais nervosa que Rachel. Por tudo o que aconteceu e o que ainda iria acontecer, ao mesmo tempo em que eu estava extremamente feliz. Era tanta gente na entrada do teatro, a energia de toda a equipe, o desempenho impecável do elenco, a resposta positiva de Rachel, ver minha família inteira reunida novamente... Tudo. Por Deus! Como eu estava feliz e nervosa ao mesmo tempo!
Depois de ter resolvido as últimas pendências, eu e John fomos para os nossos assentos na primeira fileira. Olhei brevemente para a minha família, todos estavam ali. Eu queria poder sentar ao lado de todos ao mesmo tempo, mas já não havia muito tempo para escolhas. Sentei-me entre Santana e Frannie, que me olhava com um grande sorriso. Eu até já imaginava o que ela iria me dizer e sorri também. Só que para minha surpresa, Santana falou primeiro.
– Então é verdade que já marcou seu território definitivamente, Fabray? – procurei seu rosto, encontrando uma expressão debochada. – E quando pretendia me contar isso?
– Oh, Sant... Me desculpe, eu não queria esconder isso de ninguém, mas era para ser uma surpresa. – respondi, corada. Santana estreitou os olhos para mim.
– Não me convenceu, Fabray. Tente de novo.
– O que? Desde quando eu tenho que te dar satisfações de algo, Santana? – respondi forçando um tom irritado. Sant me olhou surpresa, então eu soltei uma risada e continuei. – Ok, eu juro que eu não queria esconder isso de você, Sant, mas era uma surpresa. Na verdade, eu só Iria pedir Rachel em namoro quando as apresentações terminassem. Mas eu mudei de ideia e descobri que não haveria dia melhor do que hoje para isso. – terminei sorrindo.
– Então toda a família ainda não sabe? Ah, Quinn! Eles vão querer festejar!
– É, eu sei. Mas não hoje. Tenho planos para mais tarde. – Santana me olhou maliciosa, entendendo o que eu quis dizer.
– Ei, dá para vocês se calarem ou está difícil? A peça já vai começar. – Frannie nos cortou, crispando os lábios, indignada.
E as cortinas se abriram...
Eu reprimi o ar. Deus como eu tremia! Tudo começou calmamente, Rachel ainda não estava em cena, contudo, minha atenção estava mais do que presa naquele palco. É difícil pôr em palavras, mas de uma forma estranha, eu me sentia envolvida naquela situação. Era como se eu estivesse imersa em um mar, eu não ouvia nada além do barulho da pressão da água em meus ouvidos. A cada oscilação de situações dentro do palco, era como se o mar fizesse o repuxo dentro de mim. Eu me arrepiava, sentia uma contração no abdome ao mesmo tempo em que, eu já conhecia cada fala. Estava somente revendo “aquele filme”. Até que Rachel entrou em cena.
E como se eu ainda estivesse dentro do mar, uma onda me engoliu. Me afoguei. Nossos olhares se cruzaram por breves segundos, parecia uma espécie de encanto. Fiquei presa. Acho que dali em diante, eu não consegui olhar para outro personagem.
Em Meio ao Caos foi meu primeiro livro, e de uma forma inexplicável, eu construí um laço muito grande com minha personagem principal, Victória. Ela era meu pote de ouro, minha criação perfeita. Eu tinha extremo carinho por ela, e ver Rachel ali, colocando vida física nela, tão perfeitamente, não podia me deixar mais feliz. Ao mesmo tempo em que Victória tinha vida, meu inconsciente puxava Rachel para a realidade, pelo simples fato da aliança brilhar mais do que o normal em seu dedo anelar.
– Fabray, está escorrendo um pouco de... – Santana sussurrou em meu ouvido, me dando um pequeno susto, então eu saí do mundo paralelo a encarando confusa. Ela me olhava com um sorriso debochado no canto dos lábios, fingindo limpar o canto da boca.
E assim se seguiu a peça. Acho que não há uma pessoa que não tenha sentido cada emoção, a ação, o mistério, as tragédias e o grande final. Não há como descrever. Não há palavras, mas enquanto eu não tenho forças suficientes para pensar em uma, porque a peça simplesmente demoliu meu emocional, irei me contentar com perfeição.
Mas momentos de felicidades passam rápido. E quando me dei conta, a peça já havia acabado. Assobios. Palmas eufóricas. Rostos contentes, encantados, deslumbrados. Todos de pé. E eu? Totalmente deslumbrada!
– Oh, meu Deus... – sussurrei.
– Fabray! Você é incrível! Oh, meu Deus! Se o livro já era perfeito, você não faz ideia do quão magnífico essa peça é! Veja! Eles amaram, com certeza! – Santana dizia totalmente eufórica, enquanto apontava as outras pessoas no teatro. – Perfeito! Parabéns, loira!
E então, eu me senti sendo empurrada em direção aos bastidores. Meu coração batia extremamente forte. Eu estava eufórica, eletrizada. Então deixei que a felicidade tomasse conta de mim, por inteiro.
– Oh, céus! Nós conseguimos! John, nós conseguimos! – o abracei, abrindo um sorriso imenso. – Isso não parece um real.
– Mas é, Lucy! – John, dava pulinhos de animação enquanto ainda estávamos enroscados no abraço. – Vamos dar os parabéns aos nossos meninos!
– Quinn! – Megan apareceu, também sorrindo. – Vocês não fazem noção do alvoroço que está lá fora! Eles amaram o espetáculo! Eu mal posso acreditar!
E eu caí na gargalhada.
(Fim POV Quinn)
Assim que as cortinas se fecharam, Rachel sentiu seus olhos marejarem. Oh, ela mal podia acreditar! Uma emoção inexplicável tomou posse de seu corpo. Sim! Ela havia conseguido ser perfeita! Tudo dera certo. Ainda em cima do palco, enquanto era abraçada pelos seus companheiros de elenco, podia ouvir os aplausos, assobios e gritos eufóricos do público. E ela se deixou levar, olhou para aliança em sua mão direita e sorriu ainda mais. Tudo aquilo só havia acontecido porque Quinn sempre esteve ali com ela. Era Quinn. Quinn era o seu motivo. Seu olhar havia encontrado o da loira diversas vezes durante a apresentação. E em cada uma das vezes, Rachel se esforçava para manter sua cabeça no lugar, não esquecer as falas, não falhar. Por ela. Por Quinn. Contudo, era difícil ver as feições da loira e não querer se lançar nos braços dela. Assim como a escritora assistia a peça, Rachel a assistia. Ora seus gestos, sorrisos, acenos de cabeça em afirmação, a forma com a qual ela mordia o lábio em situações tensas, a testa vincada em extrema atenção e por fim, o olhar. Ah, esse sim era o mais lindo de todos! Os olhos de Quinn brilhavam como estrelas, e Rachel teve, mais do que nunca que, aquele olhar, aquela mesma pessoa estaria sempre com ela. Elas haviam se encontrado. Tudo daria certo.
~.~
No último e mais escuro assento do teatro, havia alguém. E esse alguém travava uma batalha. De ira e inveja. Ele permaneceu ali até as pessoas sumirem completamente, não sem antes deixar de ouvir vários:
“Ah, como foi perfeito!” “Lucy Q. F. deveria aparecer. Eu faria questão de parabenizá-la pessoalmente”. “Amanhã eu voltarei aqui. É impossível assistir simplesmente uma vez”.
E a cada elogio, a cada olhar satisfeito, a ira ia tomando mais força e ganhando a batalha.
O homem saiu do teatro e sentiu-se tomado de vez. Repórteres, fotógrafos, fãs, todos se encontravam ali. Eles mais do que ninguém, queriam prestigiar os atores. Decidiu então, permanecer ali, no meio da multidão. Todavia, murmurou:
– Eu devia estar recebendo todo esse prestígio. Todos deveriam cair aos meus pés. Ah, mas a aquela bastarda, filha de Russel Fabray não vai acabar comigo. Nunca! Eu só preciso descobrir o porquê dela não aparecer.
– Ou você pode inventar. – um outro homem sussurrou no ouvido do outro, que tomou um leve susto, olhando com os olhos arregalados para o outro.
– Quem é você?
– Bryan Payne. Você não faz ideia do quanto eu gostaria de saber o segredo dessa intragável escritorazinha. O que você acha de se juntar a mim? Como você se chama?
– Michelle. Michelle Ferrari, prazer. – e então, os homens apertaram as mãos. Em silêncio, assumindo um pacto.
Quinn Fabray precisaria de se proteger.
– E então, Michelle, você sabe quem é Lucy Q. F?
– Lucy Quinn Fabray, você quis dizer. – o italiano, cuspiu o nome da loira, com total desprezo e Bryan Payne arregalou os olhos catatônico.
– Quinn Fabray? A empresária? Oh, ela está aqui! – o homem abriu um sorriso maquiavélico. – Agora sim, o show vai começar.
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