O Amor da Lua
2 Para nunca a esquecer
Notas iniciais
— Por que me salvou na praia?
— Lua me disse que eu deveria te salvar.
— Lua? – ele repetia.
— Sim.
— Lua... É alguma amiga sua?
— É minha guia, e Evangeline é minha tutora.
O silêncio toma conta novamente, Astaroth aparece minutos depois e diz a Valkyon que ele tem uma missão pequena a cumprir, ele agradecia interiormente a seu líder nesse momento, era constrangedor ficar no silêncio.
— Coletar minerais... – ele suspirava desanimado, desde que chegara há meses atrás recebia apenas missões pequenas.
Horas depois e a missão estava cumprida. Assim que entregou tudo a Ezarel, decidiu dar uma volta pelo QG. No que eles chamavam de jardim estava a moça de longos cabelos loiros, se aproximava devagar para não assustá-la.
— Você quase consegue ouvir os gritos das almas que se perderam nesse lugar. – a garota brincava assim que o faeliano estava perto o suficiente para ouvi-la.
— Não exagere. – ele ria junto com ela. – Mas é verdade que esse lugar está decadente...
— Miiko podia fazer uma reforma nesse lugar, tenho certeza de que ele ficaria lindo.
— Isso seria mais uma missão inútil nos meus ombros, prefiro deixar como está.
Eclaire então começa a rir como se tivessem lhe contado uma piada.
— Do que está rindo?
— De você achando que reformar o jardim é uma missão inútil.
— Mas é uma missão inútil! – ele tentava convencê-la.
— Nada é inútil se for feito para o bem estar de alguém. – o sorriso encantador voltava ao seu rosto. Valkyon se surpreende com tal pensamento.
A noite cai rapidamente, todos estavam se dirigindo aos seus quartos. Eclaire, como não tinha um lugar para ficar, se senta debaixo da cerejeira, com a lua iluminando as folhas rosadas agora ficavam roxeadas, os olhos dela brilhavam como nunca.
— Lua por que me pediu para salvar aquele homem?
Nenhuma voz podia ser ouvida além da dela. Ela tinha a cabeça mirada para o céu, não estava triste, apenas com dúvidas. Havia sido enviada por sua guia para aquele lugar estranho, e sequer sabia o porquê.
Ficara a noite inteira sendo banhada pelo brilho prateado, quando a manhã chegou se dirigiu para dentro do QG, encontrou Valkyon sentado com outros dois garotos aos quais não conhecia no refeitório.
— Ah você esta ai... – o faeliano a encarava, como sempre ela sorria.
— Sente-se minha dama. – Nevra a conduzia para uma cadeira na mesa.
— Já vai começar... – Ezarel revirava os olhos para a cena.
— Obrigada.
— Meu nome é Nevra, sou membro da guarda da Sombra, é um prazer lhe conhecer. – ele beijava a mão da moça e a olhava com sedução.
— Eclaire, o prazer é meu.
— O emburrado ali no canto é o Ezarel, ele é o novo líder da guarda Absinto. – o vampiro ria convencido e voltava a se sentar.
— Vocês trabalham com guardas, isso é interessante, apesar de confuso.
— De onde você vem não se trabalha com guardas? – o elfo perguntava curioso.
— Lua não me deixava conhecer mais do que o necessário do lugar onde morávamos. – o sorriso enorme moldava os lábios dela, a naturalidade com que dizia aquilo era surpreendente, até mesmo Valkyon se assustava.
— Então basicamente você não sabe nada de onde você veio? – boquiaberto Nevra perguntava.
— Não.
— Mas você deve se lembrar como era o lugar onde ficava.
— As únicas coisas do qual me lembro era o cheiro de flores e o som do piano que Evangeline costumava tocar todas as manhãs.
Os três se olhavam surpresos, aquela garota era um mistério completo, pelo visto totalmente franca, mas ainda sim aquele sorriso carregava tantos enigmas que deixava qualquer gênio perdido. Ela não sabia de onde era, ou como era o lugar, suas vestes não mostravam nada, o vestido branco parecia uma blusa que estava grande demais para ela.
— Boas notícias garotos! – Astaroth entrava no refeitório animado. – Miiko finalmente decidiu melhorar o QG, a começar pelo jardim.
Os garotos sentados reviravam os olhos e se jogavam nas cadeiras fazendo sons engraçados. Eclaire se divertia com tudo.
— Vamos, animem-se! Nada como um ótimo trabalho braçal pra começar o dia.
Ezarel se retira do lugar o mais rápido possível dizendo que mandaria um de seus “escravos particulares” para fazer o trabalho, já que segundo o próprio ele tinha coisas mais importantes a fazer e tal trabalho era para novatos. Nevra tem a sorte grande ao ser chamado por Tryna para uma missão aos arredores do QG.
O trabalho começava para muitos novatos, a maioria ficava parado dizendo que se recusava a fazer um trabalho daquele nível. Valkyon não aparentava se importar muito, mas por dentro ele praguejava Astaroth por convencer Miiko a fazer tal reforma.
— O que está fazendo?
— Tirando ervas daninhas da grama.
— Posso ajudar? – Valkyon arqueava uma sobrancelha, nunca imaginaria que ela fosse querer ajudar.
— Claro, pegue as ferramentas no porão e depois você me ajuda a tirar as ervas daninhas.
— Sim senhor.
A garota corria para chegar ao lugar rápido e voltar ainda mais rápido e começar a ajudar, estava ansiosa por algum motivo. Talvez fosse o fato de nunca ter feito mais do que ficar a escutar o piano de Evangeline toda sua vida.
Ao chegar no local indicado, ela se depara com vários materiais. Quais seriam os necessários para cuidar de um jardim? Nunca havia feito nada parecido, se sentia perdida. Dando de ombros para tudo ela decide levar todos.
Ela carregava as vassouras, panos, baldes, ancinhos e pás como podia, porém ainda corria pelos corredores do QG. A cena era engraçada, uma garota pequena segurando tantos materiais com dificuldade enquanto estufava as bochechas e o enorme cabelo voava.
O líder da Obsidiana assistia ao longe a pequena garota correr, estava impressionado com seu esforço e sua atitude. Minutos depois e Eclaire já estava ao lado de Valkyon com todas as ferramentas.
— Você trouxe todas de uma vez só?!
— Sim!
— E como conseguiu?
— Com os braços. – ela esticava os braços abrindo e fechando as mãos enquanto fazia bico. Ele simplesmente ri e volta ao trabalho.
— É só tirar as ervas daninhas por hora, depois cuidamos do resto.
— Pode me dar uma?
— Como assim garota?
— Eu não consigo diferenciá-las, pode me dar uma para eu sentir a textura? – ela se explicava, sem fazer mais perguntas ele a entrega uma, que logo é lhe devolvida.
As horas passavam e cada vez mais os membros iam sumindo do local, pouco a pouco eles iam abandonando a tarefa, até que por fim sobraram apenas Valkyon e Eclaire trabalhando no jardim.
— É melhor pararmos, precisamos comer algo e descansar.
— Tudo bem, se quiser eu espero você voltar para continuarmos. – ela sorria.
— Você tem que comer também.
— Comer? Mas eu não –
— Vamos, já está tarde de qualquer forma, amanhã continuamos. – Valkyon a interrompia, ela da de ombros e o segue até o refeitório.
Novamente se senta com os três rapazes, e novamente Nevra a cumprimenta com um beijo na mão. O papo entre o vampiro e o elfo fluía animado, o terceiro se pronunciava pouco.
— Não vai comer Eclaire? – Nevra a pergunta, com um balançar de cabeça para os lados ela da sua resposta. – Nós podemos te dar um pouco da nossa porção, não se preocupe, fique a vontade para comer.
— Obrigada, mas não é necessário.
— Quando foi a última vez que comeu? – o elfo perguntava um pouco preocupado.
— Hm... – Eclaire cruzava os braços e fechava os olhos. – Nunca.
— O que?! – os três diziam em uníssono. Ela simplesmente ria.
— Eu nunca ingeri qualquer tipo de alimento.
— Como pode nunca ter comido nada?! – Ezarel estava indignado com a afirmação, em sua concepção era impossível.
— Toda a energia de que eu preciso vem da lua.
— E em dias de lua nova?
— Eu evito fazer muito esforço. – ela colocava o dedo nos lábios e olhava para o canto superior como se pensasse.
— Talvez não seja necessário, mas você pode gostar de comer. – o faeliano dizia empurrando para ela um prato de frutas dos mais variados tipos.
Ela pegava um pedaço aleatório e colocava na boca, assim que sente o sabor doce invadir seu paladar ela arregala os olhos.
— Isso é muito bom! – ela pegava outro pedaço e colocava na boca. – O que é isso?!
— É uma fruta dos humanos, se chama melancia.
Ela pegava outro pedaço, dessa vez de uma diferente. Essa era mais azeda, apesar de ter um leve sabor doce.
— Esse é o morango.
— É o melhor de todos com certeza!
O jantar se sucedeu assim, ela provando de vários sabores e os três rapazes rindo de sua reação, fazendo comentários e pedindo cada vez mais comida. Quando finalmente terminaram a seção de self-service foram se deitar.
Eclaire estava novamente sob a cerejeira, aquela árvore parecia ser a única coisa viva naquele jardim, e isso encantava a garota. Minutos depois e estava cansada de permanecer ali, até que decide procurar pela pessoa mais tinha afinidade ali. Valkyon.
Entrava no quarto dele pela janela, abrindo-a sem dificuldades. Pensou em chamá-lo, contudo assim que escutou sua respiração calma e devagar soube imediatamente que estava dormindo. Sem a intenção de acordar o rapaz ela se senta na janela e por ali fica.
No dia seguinte, ela voltava a cuidar do jardim logo cedo. Horas mais tarde Valkyon aparece para ajudá-la. Sempre que trabalhavam juntos eles conversavam como se fossem amigos a tempos, Valkyon se sentia feliz por ter alguém assim ao seu lado.
Os dias que se passaram não foram muito diferentes, quando o membro da obsidiana se dirigia ao jardim já encontrava a loira trabalhando nele, e o resto do dia passavam arrumando aquele lugar. No final da semana enfim estava pronto.
— Ele ficou incrível. – Valkyon se admirava com a beleza do lugar.
— Tenho orgulho do nosso feito. – ela sorria como nunca. – Pena que não tem nossa marca...
— Nossa marca? – ele indagava curioso com a resposta que receberia.
— É, sabe... Algo que faça as pessoas saberem que fomos nós que fizemos isso.
— Eu não tenho uma marca.
— Eu também não... – o silêncio reinava por alguns segundos. – Podíamos criar uma então.
— Como o que?
— Hum... – a garota colocava o dedo indicador nos lábios e desviava os olhos para um lugar aleatório, pensava de todas as maneiras em como colocar a assinatura deles naquele lugar. – Não me vem nada à mente.
— Pensamos nisso depois, vamos ter tempo para isso. – ele começava a sair dali, ela o seguia com o sorriso estampado. – Vamos avisar a Miiko que já acabamos.
— Tudo bem.
Logo estavam entrando na sala do cristal, assim que adentram dão de cara com duas pessoas desconhecidas além de Miiko.
— Sinto muito interromper Miiko, voltamos mais tarde. – Valkyon anunciava.
— Não se preocupe, não era nada de tão importante. – uma mulher de cabelos rosa dizia sorrindo largo. Ao seu lado um loiro com uma mecha preta os observava. – Quem é Miiko?
— Eclaire, ela chegou aqui há alguns dias e está conosco desde então.
— Que gracinha, e ela está em qual guarda?
— Ela não pertence a nenhuma guarda.
— Ela podia vir para minha guarda então, tenho certeza que posso treinar ela assim como treinei o Nev.
— Nem invente Rosemary, eu estou torrando a paciência da Miiko desde que ela começou a reformar o jardim para ela fazer parte da minha guarda. – Astaroth se pronunciava entrando na sala.
— Ela se encaixaria muito melhor na minha.
Os dois então começavam a discutir e soltar insultos como dois velhos. Por fim Miiko os interrompeu e disse que a colocaria na guarda se ela fosse capaz de ajudar, e para saber de suas habilidades seria enviada para uma missão no dia seguinte junto com Rosemary e Astaroth.
— Parece que você vai fazer parte da guarda. – Valkyon dizia, mas não tinha muito interesse nisso.
— Parece divertido.
— Espere até você pegar suas primeiras missões pequenas... – ele sorria convencido.
— Qualquer coisa deve ser melhor do que ficar trancada em um quarto escuro... – ela murmurava, pela primeira vez o faeliano via um semblante diferente de alegria em seu rosto, contudo não sabia dizer o que aquilo era.
— Você vai sentir minha falta enquanto eu estiver fora? – rapidamente ela recupera seu sorriso contagiante e lança a pergunta.
— Você é legal baixinha... – uma pequena pausa e ele bagunça ainda mais aqueles cabelos loiros dizendo. – Eu vou sim.
— Eu tenho que deixar algo para você se lembrar de mim então! – ela corria para dentro do QG e alguns minutos depois já estava de volta com uma faca na mão.
— O que vai fazer?
Com cuidado ela separava uma mecha de cabelo, essa que se aproximava da nuca, para pegar a faca e cortar aquela mecha. Com cuidado ela sobe na cerejeira e amarra a mecha de cabelo num dos galhos mais altos. Um salto e ela estava novamente ao lado do faeliano.
— Agora sempre que você olhar para a cerejeira você vai ver um pedacinho de mim! Assim você nunca vai me esquecer.
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