Ainda 1° de outubro, 10h da manhã, em algum lugar no centro de São Paulo.

— Menina, anda! Eu não tenho a droga do dia inteiro pra ficar aqui esperando por esse café.

Era quinta-fera, não era o melhor dia da semana. Com o fim de semana chegando Isaac tinha cada vez mais trabalho a fazer na seguradora, todos estavam ansiosos para tirar folga daquele escritório entediante e aborrecedor e ele era só o estagiário, o que significava que era pra ele que sobrava o trabalho pesado. Maldita hora que aceitei essa porcaria de emprego, deveria ter fugido dos meus pais quando tive tempo. Imbecil.

Agora era tarde pra que lamentasse não ter realmente pego seu violão, suas roupas surradas e subido na traseira de um caminhão qualquer até o Paraná pra cruzar a ponte da amizade. Havia optado, ao invés disso, por tentar dar ainda algum orgulho ao velho pai que agora usava cadeira de rodas, após um tiroteio entre traficantes e a polícia militar que o havia deixado sem movimento nas pernas. Por uma ironia do destino havia escolhido trabalhar numa seguradora que vendia apólices de seguro de vida e planos de saúde. Foi graças a não possuir uma apólice dessas que seu pai não pôde ser atendido a tempo de reverter o quadro de paralisia.

— Tá aqui, moço. Desculpa a demora, a casa tá cheia. – a garçonete entregou o copo de café preto sem açúcar com um sorriso amarelo que escondia a vontade de derramar o líquido do copo no rosto do cliente mal humorado.

Isaac pegou uma nota de cinco reais e jogou no balcão saindo sem esperar pelo troco. Já eram 10h34 e ele ainda estava a três quadras do escritório da seguradora, tinha exatos três minutos para caminhar os quase 250 metros.

Enquanto andava apressadamente lembrou-se da noite anterior com Kiara, ela não parecia muito feliz com a novidade de ter que adiar as tão sonhadas férias em Porto de Galinhas, em Pernambuco. Seria o presente de aniversário de quatro anos de namoro, e agora estava tudo arruinado por conta de um imprevisto no escritório. Ao menos vou economizar o dinheiro da viagem.

Enquanto caminhava a passos largos o celular vibrou. Não era ela.

“A reunião foi remarcada pro sábado. O padre Paulo teve problemas pessoais e só volta amanhã à noite.

— Ellen Dias – 10h39”

Maravilha, vou ter a noite de sexta livre. A felicidade só durou o tempo necessário para que, ao olhar o horário de entrega da mensagem, se desse conta de que estava atrasado.

Quando chegou ao prédio onde ficava o escritório, na Avenida Paulista, próximo ao MASP, Isaac era apenas um vulto de 1,83m num terno amassado e cabelos bagunçados pelo vento. Correu até o elevador apertando o botão do quarto andar. Dentro do elevador tentou se recompor enquanto pensava numa boa desculpa para dar ao Márcio, seu chefe de departamento. Ainda pensava na desculpa quando a porta abriu.

Dentro do escritório de apólices de seguro SegVida já havia uma atividade insana que havia começado às 8h da manhã. Era um andar inteiro dividido por cabines de compensados de madeira de 1,8m x 1,5m e três salas com paredes de vidro de onde os olhares atentos dos três chefes de departamento cuidavam do andamento das atividades. Márcio, o chefe do departamento de orçamentos e administração de custos, onde o estagiário agora atrasado trabalhava, estava passando em frente ao elevador no momento exato em que as portas se abriram.

— Ora, ora! A que devemos a honra de sua presença, meu rapaz? – Os olhos passavam lentamente dos pés à cabeça de Isaac enquanto o sarcasmo escorria pelo canto dos lábios do homem baixinho, gordo e careca.

Aqueles olhos pequenos como olhos de doninha pareciam estar sempre vidrados. Deve ser por causa das muitas idas ao banheiro pra cheirar pó. Silenciando os pensamentos e abrindo o melhor sorriso que podia naquele momento o meliante atrasado respondeu.

— Seu Márcio, tudo bem? Trouxe um café pra começar bem seu dia, do jeito que o senhor gosta: forte e puro. – Ele passou o copo ao homem que pegou com as mãos trêmulas. – Olha, o senhor me desculpa pelo atraso, mas o trânsito tava uma loucura da Vila Madalena pra cá, sabe como é, né?

O chefe virou as costas e começou a andar sem agradecer pelo café.

— Já que o trânsito atrapalha tanto o senhor, meu rapaz, eu sugiro que saia mais cedo de casa. Seus atrasos não serão tolerados neste escritório. O senhor só ainda não foi demitido por que estamos cheios de trabalho para fazer e com pouco pessoal. Portanto, o senhor não abuse da sorte.

E por que ninguém mais aceitaria trabalhar como um escravo pra receber a mixaria que vocês me pagam.

Tentando acompanhar os passos rápidos dos olhos de doninha, Isaac ia pensando no quanto precisava daquele emprego. Não podia ser demitido, precisava ter horas para colocar no currículo e conseguir finalmente se formar no curso de contabilidade. Entrou na sala do chefe e ia ensaiando uma fala quando foi interrompido.

— Não preciso de suas desculpas. Pegue estes papéis, temos três casos de desistência da apólice e precisamos que você se faça útil. – O gordo sentou-se pesadamente na cadeira, sua barriga parecia que a qualquer momento estouraria os botões da camisa social. – Precisamos que o senhor ache qualquer erro, qualquer brecha nestes contratos que impeçam os clientes de quebrá-los sem que ao menos paguem alguma multa. Já perdemos muitas contas este mês e não podemos ter mais perdas no orçamento.

O jovem pegou as pastas em cima da mesa. Urubus miseráveis...

— Preciso que isso seja resolvido ainda hoje! – A tentativa de empregar alguma energia na voz falhara miseravelmente, soava estridente e nervosa como a voz de uma garotinha. – Agora dá o fora da minha sala, anda. Tenho mais o que fazer do que ficar olhando pra essa sua cara.

Isaac virou as costas amaldiçoando baixinho o chefe enquanto fechava a porta atrás de si.

Hoje vai ser um longo dia.