O Alvorecer do Último Império
3 Capitulo 2
To the sound of the monstrance clock
Air is cleansed, assembled flock
Black candles burn, all minds aligned ♪♫
O aroma de sândalo inundava o quarto de hotel e a música criava uma atmosfera de excitação. Alexandre saiu do banho pensando em tudo que estava por vir, tudo que haveria de fazer dali em diante e quem seria. Tudo estava pronto para que o advento da Nova Era e do Novo Império chegasse. Enquanto vestia o jeans preto imaginava estar se preparando para a guerra, usando os paramentos que haviam sido confiados a ele para desempenhar seu grande papel. Chegou a hora de ser grande.
Durante todos os anos , desde que havia nascido, ainda na Escócia, antes de chegar ao Brasil, sua vida tinha sido totalmente diferente da vida de uma pessoa comum. Comum, aliás, era tudo que o rapaz alto e forte não era. Sua família era peculiar, diferente de qualquer coisa que pudesse ser vista nos dias modernos que se viviam. O senso religioso sempre esteve fortemente arraigado no seio dela. Havia recebido a educação religiosa desde cedo, havia recebido sacramentos, um batismo, uma confirmação de sua fé e de seu propósito. Mesmo antes de entender quão profunda era a participação destas práticas em sua própria concepção.
Alexandre era filho de Norma e Conrad Voutern, escoceses de ascendência franca que haviam feito fortuna no mercado têxtil. Norma era uma linda mulher, de agora 54 anos, cabelos ruivos e sardas nas bochechas com um talento fora do comum para a criação de peças de roupa femininas. Havia desenvolvido um talento natural para o desenho desde a tenra infância, e na adolescência estudou numa escola de arte da sua cidade, sem muito renome ou fama. As noções técnicas que aprendeu ali foram suficientes para lhe transformarem numa estilista de primeira linha. Mudou-se para Londres afim de estudar e entrar no mercado de trabalho e ali conheceu Conrad, que àquela altura trabalhava como diretor financeiro de uma companhia que exportava artigos masculinos de luxo, como charutos, cachimbos importados, obras de arte e armas para colecionadores. Ele estava saindo do prédio quando Norma chegava para uma entrevista de emprego como designer, e uma troca de olhares no hall foi o suficiente para que se apaixonassem. Dali a poucos meses estavam noivos, e casaram-se sem demora.
Alexandre era o primeiro e único filho do casal, e sempre recebera toda a atenção e carinho que o cabiam, junto com regalias que soubera aproveitar bem. Havia estudado nas melhores escolas, frequentado os melhores clubes, e, importante para ele, as melhores bibliotecas. Sempre tivera um dom nato para a atividade intelectual e contemplativa, e um gosto especial pela arte da guerra. Era em meio aos livros e aos mestres que se sentia em casa.
Tudo havia começado aos nove anos de idade – na verdade muito antes, quando ainda tinha só três, porém levou muito tempo para perceber que toda a sua vida havia sido uma preparação para este momento.
No seu nono aniversário, Alexandre foi presenteado com algo peculiar: havia recebido do pai, num passeio matinal pelos campos da fazenda da família, um embrulho de veludo vermelho amarrado com um fio dourado. Os olhos brilhavam ao ver o embrulho misterioso e estava ansioso por abri-lo e pegar o que havia escondido ali.
— Calma, meu filho. Antes de te mostrar o que há aqui dentro preciso dizer uma coisa. Algo muito importante que você não entenderá agora, mas que na hora certa irá fazer sentido para você. – Conrad estava ajoelhado, o braço direito, com a mão que segurava o embrulho apoiada no joelho que se projetava para a frente. – Meu filho... Você é um homem agora. E como homem, a partir de agora terá deveres a cumprir, e deve fazê-lo com dedicação. A dedicação de um homem a cumprir seus deveres é que determina o seu caráter, e você, meu filho, deve ter um caráter à altura da posição que lhe será oferecida no futuro.
O jovem Alexandre não compreendia muito bem o que o pai estava a lhe dizer, mas entendia uma coisa: seu pai esperava que fizesse aquilo, seja o que fosse, direito, e ele não o decepcionaria jamais.
— Um dia você será um homem importante, mais importante do que este seu velho pai é agora. O Senhor da Luz reservou um destino grandioso para você, meu filho amado, um destino cheio de glórias e poder, como outrora um imperador também chamado Alexandre teve.
O menino riu, parecia muito agradável aquele futuro então. Ouvia histórias sobre Alexandre O Grande durante toda a infância, e de como seu nome havia sido dado em homenagem a este grande conquistador.
— Porém, meu filho, não se deleite agora com um destino que lhe foi reservado, mas que ainda não é seu. – A voz de Conrad agora estava grave. – Não basta ter sido escolhido. Você tem de merecer e estar à altura do que lhe foi reservado. Não tema os perigos que lhe surgirem, não se curve perante as intempéries e nem esmoreça a sua coragem frente aos desafios. Você é agora como uma pedra feia e disforme que, com os golpes do tempo deve ser esculpida, e com o fogo das provações, purificada, para que se torne o diamante que irá orgulhar a esta família.
Alexandre já não estava tão empolgado quanto antes. Que conversa mais estranha e pesada para se ter no dia do seu aniversário...
— E mais importante que qualquer coisa, filho meu: nunca esqueça de quem é, e de quem o fez o que é. Não se esqueça que arde em seu peito o fogo de Prometeus, a luz de Lúcifer.
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Os anos haviam se passado, mas as palavras de Conrad continuavam vivas dentro de Alexandre. Tão vivas e tão reais quanto eram no dia que foram ditas.
Hoje me torno diamante.
Come together
Together as one
Come together
For Lucifer’s son ♪♫
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