A caminho do aeroporto de Guarulhos, Alexandre ia relembrando o dia do aniversário de nove anos a exatos doze anos atrás, os olhos parados olhando pelo vidro escurecido do sedan preto blindado. Na mão fechada segurava um objeto pesado de superfície fria, a sensação era boa e agradável. Como segurar a chave das portas do Inferno.

Estava de volta às terras da família na Escócia. O pai o encorajava a abrir o embrulho de veludo vermelho, o fio dourado cedeu sem pressão liberando a passagem para a mão pequena e branca, ávida por encontrar seu tesouro.

— O que é isso, pai? – Ele segurava o cordão prateado com na mão enquanto encarava o objeto pesado e metálico que pendia.

— Essa é a sua chave para o Gehenna, filho.

O objeto pesado se assemelhava mesmo a uma chave, mas não uma chave convencional. Era grosso, dourado. Numa ponta havia uma espécie de medalhão adornado de joias, um rubi no centro e inscrições em relevo em volta que lembravam um dragão enrolado à pedra com doze pequenos brilhantes à sua volta; então vinha uma haste dupla que se estendia por cerca de oito centímetros. Das hastes se ramificavam duas chapas de metal prateado com orifícios que possibilitavam leitura a laser, cada uma apontando para um lado de forma que se posta na horizontal, uma haste apontava para cima e outra para baixo.

Assim em cima como embaixo é.

O carro ia parando lentamente no estacionamento em frente ao portão de embarque de uma das companhias aéreas, e de onde estava Alexandre já conseguia distinguir uma mulher elegante vestida de preto com um casaco de peles sobre o ombro. Atrás dela uma pilha de malas guardada por um funcionário do aeroporto.

Ao abrir a porta do carro uma névoa de um perfume familiar o atingiu, e Alexandre sentiu-se verdadeiramente completo agora.

— Alexandre! – A mulher elegante e perfumada já estava em seus braços antes que pudesse esboçar qualquer reação. – Ah, meu querido, como senti sua falta.

Enquanto era envolvido pelo abraço, com um único sinal de mão instruiu o funcionário do aeroporto que colocasse toda a bagagem na mala do carro.

— Também senti sua falta, minha querida princesa zumbi.

Violleta Gregório soltou o abraço e tirou os óculos escuros pra fita-lo nos olhos. Era o mesmo Alexandre de seis anos atrás, o tempo não havia tido poder algum sobre as feições do rapaz, exceto para torná-lo mais maduro com o queixo quadrado e as maças do rosto fortes. Era um homem formado agora. E que homem!

— Ah, bobo! Você ainda não esqueceu dessas coisas bobas. Agora somos dois adultos. Não sou mais aquela menina boba que você fazia de capacho.

— Nunca foi, querida. – Beijou-a levemente nos lábios, já abrindo a porta do carro para que entrasse e em seguida batendo a porta atrás de si. – Então, prefere ir para o hotel e descansar ou um passeio, quem sabe almoçar?

— Para o hotel, por favor. Preciso de um banho urgente, você não sabe como é difícil viajar da Europa até aqui. Os banheiros desses aviões estão ficando cada vez menores.

— Pois bem, para o hotel. – Disse para o motorista. – Então, me conte da viagem, da sua vida. O que há nessa sua cabecinha?

Violleta olhou novamente para ele, agora parando um pouco mais nos olhos escuros. Sempre pareceram como dois grandes poços onde ela sentia que um dia se afogaria. Por impossível que parecesse, agora estavam mais profundos.

— Sinceramente, Alexandre... Só consigo pensar que chegou finalmente a hora. E aposto que é só nisso que você também pensa. – Ela estendeu a mão para segurar a dele, e pressionou levemente como quem diz “estou aqui”.

Ele suspirou.

— Sim, você tem razão. A nossa hora chegou. Seremos finalmente apresentados ao Conselho hoje à noite. Espero que esteja bem disposta e preparada, será nossa noite de gala.

— Estive me preparando para isso por dezenove anos, meu querido.

O carro estacionou na entrada do hotel e ambos foram direto à suíte, deixando as malas a cargo dos funcionários.

Assim que desceram do carro as mãos estiveram juntas e assim permaneceram até que entrassem no quarto. Alexandre estava verdadeiramente satisfeito com a presença de Violleta, ela era o único elemento faltante naquele dia tão importante e agora tudo estava perfeito.

— Bem, você pode ir para o banho. Enquanto isso vou pedir nosso almoço. Ainda gosta de lasanha? – Ele riu, a resposta era óbvia.

— Claro!

Violleta foi para o banheiro e fechou a porta. Não aguentava mais essa sensação de cansaço que as longas viagens proporcionavam. Tirou a roupa e quando estava totalmente nua parou em frente ao espelho.

Eu to um caco... Preciso estar inteira para o jantar.

Correu os olhos por todo seu rosto, olhando cada detalhe das feições miúdas e finas. As sobrancelhas de pelos finos formavam um arco quase perfeito que emolduravam dois grandes olhos verdes que pareciam ainda maiores com o efeito da maquiagem. O nariz reto e empinado terminava em cima de dois lábios pequenos e rosados, e o queixo redondo terminava por dar forma a um rosto que podia certamente pertencer a alguma boneca. Os cabelos louros e cacheados caiam elegantes de um coque mal feito no alto da cabeça.

Tão linda quanto deve ser a mulher de um Imperador.

Antes de deixar o espelho e seguir para o chuveiro deu mais uma olhada no seu reflexo, agora mais a baixo da linha dos ombros, onde ficavam os seios firmes e de bicos tesos. Não eram os seios que chamavam a sua atenção, embora certamente fossem lindos seios brancos com auréolas rosadas que eram a perdição dos homens. O que realmente chamava sua atenção agora era algo que repousava ali entre os dois seios, um pingente triangular com um olho solitário e dourado no meio. Agora parecia mais pesado que de costume, ela levou a mão até ele e o segurou por um instante.

Filho do Fogo o Fogo não queima...

Finalmente deu as costas a seu próprio reflexo no espelho e foi em direção ao chuveiro.

Do lado de fora do banheiro Alexandre discava o ramal da recepção para pedir o almoço.

— Recepção, boa tarde.

— Olá, eu quero meu almoço no quarto, por favor. Uma lasanha bolonhesa e um peixe grelhado com batatas e azeite português. E a coca mais gelada que você tiver na sua geladeira.

— Sim, senhor. Em alguns minutos estaremos enviando o seu pedido.

O telefone foi desligado sem mais palavras.

Alexandre ria enquanto pensava na coca gelada. Mesmo sendo uma mulher linda e exuberante, Violleta ainda preservava o mesmo paladar infantil de sempre. Adorava massas, doces, refrigerantes, batatas fritas e milkshake. O contraste entre paladar e vestimenta era imenso e divertido.

Havia muito tempo não se viam, desde que ela havia se mudado para a Europa. A Fraternidade também tinha seus planos para ela, e bem sabia que estes planos estavam intimamente ligados aos que tinham para ele. O que era bom, pois eram amigos de infância, haviam crescido juntos na Fé e na convicção. Ainda na noite do seu aniversário, após a conversa com Conrad no campo e a entrega da Chave do Gehenna, Violleta havia surgido na vida de Alexandre. Um jantar fora organizado para comemorar os nove anos do primogênito dos Voutern e muitos amigos da família e pessoas desconhecidas ao aniversariante perambulavam pela casa, sempre alegres e sorridentes, congratulando o jovem rapaz.

A primeira visão que Alexandre havia tido da jovem Violleta resumia bem tudo o que ela ainda era, mesmo após tantos anos separados.

Enquanto olhava da escada que levava ao andar superior para a festa em sua homenagem, seus olhos se detiveram numa pequenina figura de cabelos encaracolados e laço rosa na cabeça. Usava um vestido que mais parecia um vestido de boneca bailarina, em um tom rosa bebê e com frufrus na saia rodada e bufante. As perninhas estavam vestidas com uma meia branca e os pés num sapato preto lustroso. De onde estava só conseguia ter uma visão das costas da garotinha, e qual não foi sua surpresa quando de repente, como se adivinhasse que estava sendo observada, a pequena se voltasse para ele, os olhos se encontrando imediatamente.

Alexandre não pode segurar a risada enquanto relembrava a cena, igualmente como não havia conseguido segurá-la quando viu o rosto da menina pela primeira vez. A pequena Violleta estava com as mãos totalmente lambuzadas de chocolate, e em seu rosto uma grande mancha marrom ia do seu queixo até o nariz, se espalhando pelas bochechas. A mesa onde a garota estivera até aquele momento apoiada era justamente a mesa de doces.

Depois daquela noite as duas crianças estiveram juntas pelos dois anos que seguiram, até que Alexandre mudou-se para o Brasil e Violleta para a França.

A Fraternidade precisava prepara-lo para assumir seu posto no devido tempo, e a ela também para que, quando chegasse a hora, estivesse apta a dar o suporte necessário ao amigo.

Fomos forjados no mesmo fogo, forjados um para o outro.

Como que por sincronia a bela moça havia saído no momento exato em que a campainha soava, anunciando a chegada do almoço. Alexandre caminhou até a porta para abri-la enquanto sua companhia se vestia no cômodo ao lado.

O cheiro da refeição logo tomou todo o quarto e fez com que Alexandre sentisse como se estivesse em casa. O aroma familiar de refeição sendo servida trazia-lhe boas lembranças da infância e dos pais.

— O nosso almoço está servido. – Ele disse encostado na parede, ao lado da porta aberta, como um vigilante guardando os aposentos de uma princesa.

Logo a princesa saiu, e estava tão bela e radiante como sempre estava. Usava um vestido longo e simples que lhe caía pelos ombros formando um leve decote. O cabelo estava enrolado numa toalha branca e felpuda e os pés descalços.

— Ah, que bom, eu estou faminta. – Ela se sentou e começou a se servir imediatamente, sem cerimônias. – Você é incrível.

Enquanto felicitava o amigo, Violleta se servia de um copo de coca que parecia estar maravilhosamente gelada. Sorveu o líquido num gole farto e sorriu.

— Venha, sente-se aqui comigo. Temos muito que conversar.

Alexandre sentou-se à mesa, de frente para a jovem, e também começou a se servir. O peixe parecia estar divino.

— Espero que tenha gostado do hotel, do quarto e de tudo o mais. – Ele dava uma garfada no seu prato enquanto falava.

— Está tudo bem, você sempre acerta. – Ela também dava uma garfada na sua lasanha e um resquício de molho pintava o rosto branco.

Estendendo a mão para limpá-la, Alexandre se deteve acariciando o rosto e sentindo a pele macia. Nem ele mesmo imaginava quanta falta esteve sentindo da amiga.

— Que bom que está aqui.

— Também estou feliz por estar aqui. E daqui em diante não nos separaremos mais. – Os olhos dele agora pareciam ainda mais profundos para ela.

Era estranha a forma como às vezes ele assumia uma postura soturna e distante, como se de repente mil anos pesassem sobre suas costas.

— A Fraternidade está muito contente com tudo que você tem feito até aqui, Alê. – Ela pressionou de leve a mão dele enquanto pronunciava o apelido carinhoso. – Eles estão seguros de que você está pronto.

Estou tão pronto quanto jamais estive antes.

— Eu sei, e fico feliz de que esteja atendendo às expectativas. Porém, há muito que fazer ainda. Tudo que foi feito até aqui não passou de treinamento, chegou a hora de jogar pra valer. O Expurgo precisa começar.

Violleta não pôde conter o arrepio. Sempre que falava sobre o Expurgo, os olhos do seu amado se tornavam como fogo. Havia uma paixão ali que jamais poderia ser exposta em palavras. Era mais que paixão, era uma devoção profunda pelos desígnios do Senhor da Luz.

Um guerreiro, a mão esquerda que pesa e que condena. Tão forte quanto um conquistador deve ser.

— Você sempre esteve pronto.

— Logo o mundo também vai estar.

— O que pode me contar sobre os preparativos para o Expurgo?

Ele tremeu levemente. Era esse o momento em que se lembrava de que, apesar de toda a vontade, não podia ser sempre sincero com Violleta, mas ela sabia e sabia o porque.

— Entramos nos últimos estágios da preparação. Hoje seremos apresentados aos membros do Conselho da Fraternidade. O expurgo não tarda, as peças estão postas na mesa, o jogo começou. – Ele parou por um instante, e lembrou-se de algo. – Sei que tem algo para mim.

Ela levantou-se indo até o quarto onde estavam suas coisas. Abriu a bolsa de couro branco e de dentro tirou um envelope grande e vermelho. Selando sua abertura havia um selo impresso em cera negra: um caduceu de Hermes no centro de um círculo formado por duas folhas de louro. O selo da Fraternidade.

— Aí está. O Grão Sacerdote me entregou na noite do rito de Posse. Disse que deveria entrega-lo e que deveríamos abrir juntos.

Alexandre pegou o envelope na mão. Era de um papel grosso com vários padrões circulares impressos em negro. O selo estava ainda intacto, como deveria ser. Ele passou o dedo indicador sobre a cera sentindo o relevo do brasão da Fraternidade. Sentia como se uma corrente elétrica passasse por todo seu corpo.

— Então vamos abrir.