— Tudo bem, Isaac, esquece. Eu sabia que isso não ia acontecer, você sempre tem uma boa desculpa pra dar. — A voz no telefone estava carregada de uma tristeza fingida, propositadamente pensada para estimular o sentimento de culpa. – Eu vou ficar bem, já to acostumada.

Isaac respirou fundo enquanto era atingido em cheio pelo feitiço de Kiara. Péssima forma de curtir a hora do almoço.

— Desculpa... Mas o que eu posso fazer? Você sabe que preciso desse emprego, e eu sou só o estagiário. É pra mim que sobra toda a responsabilidade quando os veteranos precisam de uma folga. Você não queria que eu tivesse responsabilidades, que crescesse?

Kiara havia feito um ultimato a ele dois anos atrás, quando ele arrumou o emprego na SegVida. Ou “virava homem” ou ficaria sozinho. Ele havia aceitado o desafio.

- Então agora a culpa é minha? É isso que você quer dizer?

Ele respirou fundo novamente.

— Meu amor, preciso ir agora, meu horário de almoço tá acabando. A gente conversa mais tarde, eu passo aí.

Ele desligou o telefone sem dar oportunidade para mais protestos.

Ainda faltavam trinta minutos para o fim do seu horário de almoço, que havia começado vinte minutos mais tarde por conta do atraso. Ele estava no restaurante da dona Vanda, uma senhora simpática que fazia uma comida caseira maravilhosa – melhor que a da própria mãe, que nunca fora uma cozinheira de mão cheia. Já comia ali desde que havia entrado para a firma.

O prato à sua frente estava vazio, e ele estava apenas esperando o tempo passar. Havia ligado para Kiara na esperança de que a noite anterior já houvesse sido esquecida, que pudessem ficar bem novamente. Vã esperança, pois a moça ainda estava uma fera por conta das férias perdidas.

Era mais fácil quando minha única preocupação eram as notas vermelhas no boletim bimestral.

A família de Isaac sempre foi humilde. Geraldo, o pai, trabalhava como motorista numa transportadora de valores e a mãe, dona Eunice, cuidava dos filhos e da casa e vez ou outra fazia alguns bicos como costureira. Nunca haviam passado fome nem outra dificuldade extrema. Apesar de o dinheiro sempre acabar antes do mês, o pai podia lhes dar uma vida segura. Tinham uma casa pequena, de seis cômodos, na Vila Madalena, e um velho fusca prateado que era o xodó do chefe da família. Isaac era o segundo de três filhos. Seu irmão mais velho havia morrido ainda na maternidade por complicações do parto, e a irmã mais nova, Laura, tinha agora 14 anos. A família sempre fora muito católica, e os pais fizeram questão que os dois filhos recebessem os sacramentos: ambos haviam sido batizados, feito catequese, crisma e primeira comunhão. Geraldo e Eunice ainda frequentavam as missas de domingo e rezavam o Santo Terço em frente a uma imagem de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, a santa de devoção do lar.

Mesmo após o acidente que tirou os movimentos da perna de Geraldo, a fé da família parecia inabalável. Mesmo Laura gostava de ir às missas e cantar no coro da paróquia.

A única mudança que havia ocorrido era com o próprio Isaac. Quando o pai foi baleado ele tinha quinze anos de idade, estavam caminhando com o seu cachorro, Ajax, e enquanto atravessavam um cruzamento um carro em alta velocidade que passava na rua tangente desferiu alguns tiros. Isaac olhou para trás a fim de ver o que ocorria, ficou excitado olhando a perseguição e viu duas viaturas também em alta velocidade passando logo em seguida.

— Olha isso pai, uma perseguição! Devem ter roubado aquele car... – Quando se virou para falar com o pai percebeu que ele estava caído no chão, e sangrava muito.

Daquele dia em diante a fé do jovem estivera posta em xeque. Como podia Deus deixar que algo tão terrível acontecesse ao seu pai, um homem tão justo, e de uma forma tão banal?

Nos anos que se seguiram dona Eunice passou muitas madrugadas chorando de joelhos, pedindo para a santinha que cuidasse do garoto, que não deixasse que nada de mal ocorresse com ele enquanto passava as noites em festas e sabe Deus o que mais. A revolta havia tomado o coração jovem de Isaac, e agora tinha sede por viver tudo aquilo que a criação religiosa o havia privado de viver.

Porém, dois anos atrás, ao completar dezoito anos, Kiara, juntamente com dona Eunice e seu Geraldo, o havia pressionado. Precisava agora tomar um rumo em sua vida, já não era um adolescente aproveitando sua rebeldia. Agora era um homem. Foi então que Isaac iniciou um curso técnico de contabilidade, e meses depois conseguiu um emprego de motoboy no escritório da seguradora. Com o passar do tempo se candidatou a uma vaga de estagiário, posto que ainda ocupava.

Em uma coisa sua família estava certa: assumir novas responsabilidades e novos deveres havia feito com o que o jovem rebelde amadurecesse. Era agora um homem responsável, não um exemplo, mas tinha compromisso com seus deveres. Pensava, inclusive, em voltar para a fé da família. Há sete meses havia voltado a rezar e a frequentar missas, e há dois meses havia decidido fazer um acompanhamento com o padre Paulo, pároco, para que pudesse tirar de si as mágoas remanescentes do acidente que o pai havia sofrido. As conversas semanais com o padre o ajudavam a entender muitas coisas e sentia que sua fé novamente se reavivava. Essa noite, porém, não iria se encontrar com o bom homem que havia viajado para o interior de São Paulo a fim de visitar sua mãe que estava adoentada.

Padre Paulo vinha sendo um verdadeiro amigo, como nunca antes havia tido, e sentia cada vez mais confiança naquele homem de meia idade e cabelos grisalhos. Era o pároco da família desde a época do acidente do pai, quando o pároco anterior, padre José Amaro, havia tido um infarto fulminante. A chegada do novo padre causou um burburinho devido à sua grande ortodoxia. Era um homem íntegro e muito apegado à tradição da Santa Igreja Católica. Rezava a missa do rito tridentino ao menos uma vez por mês, em latim, de costas para os fiéis. Incentivava quase à exaustão a devoção à Virgem Santíssima e havia criado um grupo de terço dos homens, do qual Isaac fazia questão de participar todas as noites de quarta-feira. Todas essas coisas haviam criado uma certa relutância entre os fiéis que já estavam acostumados a uma prática religiosa mais moderna, como parecia ser a regra em toda a grande São Paulo.

Em contra partida havia sido justamente esse apego pela tradição do padre Paulo que havia criado essa aproximação entre ele e Isaac. Mesmo tendo recebido uma criação católica desde a tenra infância, participando dos sacramentos e recebendo o batismo, Isaac nunca havia encarado a fé da forma como agora, sob influência do bom padre, fazia. Tudo parecia muito distante, e Deus mais parecia uma ideia ou mesmo uma formalidade vazia – era como a senha para ser aceito num novo clube.

— Deus é muito mais que um pai distante, ou um conceito puramente ideal de conduta, meu filho.— A voz do padre era como um trovão retumbante. – O mal dos tempos modernos é de antemão tomar a crença em Deus como falsa, uma mentira na qual algumas pessoas gostam de acreditar, como as que dizem crer em gnomos e fadas.

E tinha razão, o bom senhor. Até aprofundar-se nos estudos sobre a doutrina católica era exatamente dessa forma que Deus parecia para Isaac. Como uma crença falsa em que algumas pessoas acreditavam e outras não. Agora sabia que não era dessa forma e que havia algo muito maior e mais verdadeiro por trás do véu. Algo que, a cada reunião, a cada novo encontro, se tornava ainda mais interessante e belo.

— Tudo que existe, existe em Deus, meu filho. E nada existe fora dEle.

É uma pena que um homem tão bom esteja passando por um episódio tão difícil.

Mas, como o próprio padre sempre dizia, o sofrimento vem pra todos e o que determina a fortaleza ou fraqueza de cada um é a forma de lidar com ele.

Certamente ele irá saber como lidar com isso. Ele sempre sabe.

Olhando a tela do celular Isaac viu que era hora de voltar ao escritório, ainda tinha mais algumas horas da tortura diária.

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Algum lugar no subsolo de São Paulo.

O cilício na coxa dificultava um pouco o caminhar, mas o padre Paulo Vasquez continuou andando com passos firmes e decididos pelo corredor de pedras. Era um longo corredor. Longo, úmido e escuro, iluminado por grandes candelabros de sete velas a cada doze metros. Deveria ter deixado as dependência da Ordem no dia anterior, mas eram dias obscuros e a necessidade e a Providência Divina ditavam os destinos de todos os envolvidos.

Chegando ao fim do corredor o velho padre se ajoelhou frente à imagem da Santíssima Virgem, fazendo o sinal da cruz com o crucifixo de madeira que levava no pescoço. Beijou os pés da Santa e dando mais três passos chegou a uma imagem de São Bento, o padroeiro da Ordem dos Cavaleiros da Fé, e o santo patrono dos padres exorcistas. Ajoelhou-se novamente.

— Crux sancta sit mihi lux, non draco sit mihi dux. Vade retro satana, numquam suade mihi vana, sunt mala quae libas, ipse venena bibas. * – Fazendo o sinal da cruz ele levantou-se e tomou seu caminho.

Chegou até uma porta pesada de mogno, e nela estavam esculpidos o brasão da Ordem dos Cavaleiros da Fé e o brasão papal. Bateu três vezes até que a porta se abriu.

O cômodo que se revelava era impactante. A porta abria diretamente em frente a uma parede alta e larga de pedra onde havia uma grande cruz com o Cristo crucificado, e ao lado uma grande imagem de Nossa Senhora das Graças com sua coroa de doze estrelas e os pés num globo dourado. Abaixo dos dois ícones havia uma mesa grande e simples de madeira, com muitos livros.Na parede ao lado esquerdo havia um quadro que retratava a ressurreição de Cristo, e do direito a ascensão da Virgem Maria. A parede onde estava a porta de madeira era tomada por prateleiras de livros.

Sentado na cadeira atrás da mesa havia um homem velho, com cerca de 80 anos e hábito de monge na cor negra. Não era possível ver ali, com o homem sentado, mas envolto em sua cintura havia uma grossa corda branca amarrada na lateral. O único adorno que levava era um grande crucifixo de metal escurecido, e a posição sempre curvada dos ombros – consequência da ação do tempo – fazia parecer que carregava literalmente o peso de sua própria cruz.

Padre Paulo se aproximou do velho homem que estendeu a mão para ele.

— Padre Magno, sua benção. – Curvou a cabeça para beijar a mão do ancião.

— Que Cristo Nosso Senhor o abençoe e guarde, filho. – A voz do sacerdote parecia cansada e rouca, e ele falava de forma moderada, com poucos movimentos labiais. – Obrigado por vir até aqui, sente-se por favor.

Padre Paulo tomou o assento esperando que o seu superior iniciasse a conversa, afinal ele o havia chamado.

O ancião repousou as mãos entrelaçadas, como se fosse fazer uma prece, sobre o ventre, e respirou fundo. Seu olhar se deteve no crucifixo no peito do seu colega de ofício.

— Parece que foi ontem que o recebi nessa sala pela primeira vez, na manhã em que fez seus votos de servir a esta Ordem. – Qualquer coisa dita por aquele homem, banal que fosse, soaria como um conselho de sabedoria. – Fico contente em ver que em todos estes anos o seu empenho em realizar a obra de Deus não esmoreceu. É sempre bom ter bons servos para a obra do Pai Insondável.

— O tempo passa rápido, professor. Estamos cada segundo mais próximos de estarmos na Glória com Cristo.

— Sim, tem razão, filho. Mas também é necessário que alguns carreguem um grande fardo para que outros possam, um dia, também entrar na Glória do Pai Altíssimo. – Padre Paulo se aprumou em seu assento pressentido que iriam entrar no assunto que o levara até ali.

O clima ficou imediatamente mais pesado e solene.

— Você bem sabe que vivemos dias terríveis para a Santa Igreja de Cristo. A sombra do Inimigo tem se fortalecido e se preparado para desferir um golpe de morte à Santa Sé. Mas também sabe que vivemos a promessa de Nosso Senhor, e as portas do inferno não prevalecerão contra a Sua Santa Igreja.

Padre Paulo apenas se permitia ouvir tudo calado e com atenção.

— Porém é preciso que passemos por grandes perseguições e dificuldades para que se cumpra a palavra de Deus Pai Todo Poderoso. – Ambos fizeram o sinal da cruz. – E é chegada a hora de nos prepararmos para receber o golpe da Besta.

Ao ouvir estas palavras era impossível não sentir um arrepio subindo pela espinha, e o estômago se agitando como mil borboletas. A ordem o havia preparado para esse dia durante quase todo seu sacerdócio, mas Paulo sabia que a prática era diferente. Deus, Nossa Senhora e todos os Santos me ajudem, e ajudem a toda a Igreja de Cristo.

— Filho, é chegada a hora de despertar os guerreiros que Cristo tomou pra si e que vem sido preparados para a chegada da Grande Tribulação. Nosso inimigo também já iniciou a arregimentação de seu exército, e seus intentos não tardam bater às nossas portas.

Tremendo, o sacerdote se deu conta de que era isso que sabia que ia ocorrer desde que fora convocado a aparecer ao monastério da Ordem, mas que no interior de sua alma tentava repudiar. Era chegada a hora, a guerra iria começar.

— Padre mestre... – Ele procurava as palavras que precisava, não sem dificuldade. – Já? Eu não fazia ideia... – Ele se interrompeu ao perceber que iniciava uma mentira, e tentou reformular. – Eu pensei que ainda teríamos algum tempo.

Padre Magno colocou as mãos cruzadas sobre a mesa, se apoiando sobre elas para jogar a cabeça para frente, se aproximando um pouco mais de seu pupilo.

— Os anjos já soaram as trombetas, os selos começaram a ser abertos. É chegada a hora. É Cristo quem vos fala.

Notas finais
*A Cruz Sagrada seja a minha luz, não seja o dragão o meu guia. Retira-te, satanás! Nunca me aconselhes coisas vãs. É mau o que tu me ofereces, bebe tu mesmo os teus venenos! Oração da medalha de São Bento. Fiz uma correção ao nome do padre Paulo. Durante a história ele teve três nomes diferentes, por uma falta de atenção minha. Agradeço à senhorita Amanda Marques que muito gentilmente me comunicou.