O Alvorecer do Último Império
6 Capitulo 5
Padre Paulo ainda estava atordoado com as notícias que lhe haviam sido repassadas por padre Magno. Eram notícias há muito esperadas, mas também muito temidas.
Desde o Concílio Vaticano II, quando o então Papa Paulo VI havia alertado sobre a fumaça de Satanás que havia invadido a Santa Igreja, todas as Ordens de combate da Santa Sé sabiam que o advento da nova era de Cruzadas estava por chegar. Era apenas uma questão de tempo que uma vez mais a Santa Sé convocasse seus cavaleiros para defender o povo de Cristo.
A última era das Cruzadas havia sido uma resposta já tardia a quinhentos anos de abusos por parte dos mussulmanos* aos cristãos peregrinos na Cidade Santa, e ao próprio povo judeu que ali residia. Agora a ameaça era outra, muito mais explícita e muito mais perigosa que antes. Era chegada a hora das hordas anticristãs mostrarem sua verdadeira face ao mundo.
Enquanto caminhava pelos túneis da Ordem dos Cavaleiros da Fé, padre Paulo segurava em sua mão o terço de contas negras de madeira, com uma medalha de São Bento e um Crucifixo prateado. Ia rezando o Santo Terço pelo caminho, pedindo a intercessão da Virgem Maria e dos Santos. Agora toda a ajuda celeste seria necessária. Mais uma vez a Mãe Santíssima de Deus deveria mostrar que estava ao lado de Seus filhos.
O sacerdote agora se encaminhava para fora dos túneis da sede da Ordem. Era uma imensa estrutura cavada no subterrâneo ainda durante o período Colonial por conspiradores que ansiavam separar o Brasil do reino de Portugal e Algarves. No início não passava de uma rede de tuneis que ligavam fazendas por onde os conspiradores podiam transitar livremente, mas após a descoberta do intento e execução dos traidores aquelas terras haviam sido doadas para a Igreja Católica que descobriu os túneis e os transformou naquela fortaleza de pedra sob a terra.
A Ordem dos Cavaleiros da Fé existia desde o século X, quando foi necessária pela primeira vez a criação de uma milícia armada cristã para defender os peregrinos que iam à Terra Santa e a própria cidade de Jerusalém. Desde então, secretamente, a Santa Sé havia decido por não dissolver a milícia, pois os tempos de perseguição cristã nunca haveriam de cessar – como profetizado pelo próprio Cristo.
Após as Cruzadas muitos exércitos cristãos haviam se formado, além da Ordem, dando origem a muitas outras ordens militares que inicialmente se concentravam na Europa. Com a era das navegações e descobertas houve também uma expansão territorial das milícias que se faziam presente onde houvesse uma Igreja.
Inicialmente eram mantidas por grandes fortunas de famílias cristãs, e seus comandantes, não raro, eram chefes dessas famílias, seguindo ainda as tradições das primeiras cruzadas – onde os exércitos eram formados por senhores feudais que se propunham a lutar pela Santa Igreja em terras estrangeiras. Porém, com a expansão do cristianismo nos continentes descobertos, e com a explosão populacional na Europa, as Ordens Militares passaram a incorporar monges, camponeses e qualquer um que, ou não tivesse nada pelo que viver, ou se dispusesse a largar tudo o que tinha para servir os desígnios da Igreja. Dessa forma também as milícias vivenciaram uma explosão no número de adeptos, chegando à necessidade de criar mosteiros e ordens religiosas que pudessem abrigar os guerreiros de Cristo.
As ordens religiosas que se dedicavam à preparação das milícias permaneceram em segredo, protegidas pela Santa Sé, e mantiveram suas atividades durante quatro séculos no mundo novo, sempre preparando os monges que estivessem prontos a pôr em prática seus treinamentos tanto teológicos e intelectuais, quanto militares. Como o próprio Cristo uma vez havia dito: nem mesmo Ele sabia quando viria o fim, mas só Deus Pai Todo Poderoso; por isso todas as gerações de guerreiros deveriam se preparar como se sua geração fosse a última antes do fim. Deveriam estar sempre vigilantes, pois o inimigo não dorme e ruge como um leão em busca de engolir suas vítimas.
Padre Paulo era, além de sacerdote, membro da Ordem dos Cavaleiros da Fé. Havia sido introduzido nela antes do início de seu sacerdócio, pois havia chamado a atenção de um de seus orientadores – membro da Ordem e já falecido – por conta de seu imenso respeito e apego pela ortodoxia e pela tradição da Santa Igreja. Os seminários eram verdadeiros campos de guerra onde membros de ordens satanistas infiltrados no clero disseminavam uma falsa doutrina, mais moderna e mundana, na tentativa de aos poucos promover uma total perda do real sentido da religião católica; enquanto que ordens conservadoras – como a Ordem dos Cavaleiros da Fé – tentavam recrutar os seminaristas que nutriam verdadeiro amor pela sã doutrina e pela ortodoxia.
Desde que havia ingressado na Ordem, o jovem padre havia recebido um preparo que em muito havia superado o preparo que havia recebido no seminário. Aulas de teologia e de filosofia se alternavam com treinamento em artes marciais, manejo de armas e técnicas de sobrevivência em condições extremas. A realidade que a Ordem o havia mostrado era algo muito maior, complexo e dinâmico do que jamais havia concebido, do que jamais seria capaz de conceber.
A guerra espiritual havia deixado de ser algo abstrato e supersticioso. Sempre que ouvia esse termo, desde a infância, quando ia às missas com seus pais, espanhóis imigrantes, pensava e imaginava anjos e demônios lutando entre as pessoas, nas ruas, nos mercados, nas casas, sem que ninguém se desse conta. Agora percebia quão pueril e supersticiosa era aquela concepção da guerra. Chegada a vida adulta e os estudos, entendia bem do que se tratava, e realmente fazia parte dela. Enquanto caminhava para fora das dependências do monastério da Ordem conseguia ainda ouvir as palavras de seu mentor, mais de três décadas atrás.
— A guerra espiritual não é uma guerra de espadas, ou de armas. É uma guerra que se trava aqui— apontou para sua própria cabeça –, e aqui— para o peito. – É uma guerra que se trava para conquistar o intelecto e a vontade dos homens.
O jovem Paulo apenas olhava curioso seu mentor, sem entender muito bem do que se tratava.
— Espíritos não podem agir fisicamente, pois pertencem a uma outra dimensão da realidade. Os anjos podem, sim, interferir na matéria, pois agem em nome do Altíssimo, o Onipotente, que criou tudo que existe. Demônios, porém, não contam com o favor Divino. Estão presos à dimensão imaterial do espírito. A única forma de influenciar o mundo material é através das mentes e dos corações daqueles a quem seduzem. Os pecadores são as pernas e os braços da vontade de Satanás. O veneno do nosso inimigo polui suas mentes, seus intelectos, e seus corações, onde reside a verdadeira vontade. Por isso o homem entregue ao Diabo se inclina tão facilmente à abominação. Em nome de uma liberdade utópica se torna escravo de um inimigo que ora se esconde, como fantasia na cabeça de fanáticos, ora se mostra como libertador da humanidade.
Agora o padre já estava perto do carro que o levaria de volta para casa, e não entrou antes de dirigir uma prece particular em memória de seu mentor.
Que esteja na presença de Deus Pai e Nossa Senhora, e olhando e intercedendo por nós nestes tempos difíceis.
O carro arrancou e foi em direção à cidade novamente.
Alexandre e Violleta olhavam para o conteúdo do envelope estupefatos. Devido às expectativas dos últimos dias e do compromisso que teriam dali a algumas horas com a cúpula da Fraternidade, uma infinidade de coisas havia passado por suas cabeças enquanto fitavam aquele papel vermelho tão bem adornado e com o selo da irmandade. Uma infinidade de coisas que nada tinha a ver com a realidade.
“Salve Lúcifer, luz da humanidade e Senhor do Mundo.
Queridos,
É com um imenso prazer e alegria que lhes envio esta carta de felicitações. O caminho até aqui tem sido árduo para todos nós, e muito mais para vocês dois que permaneceram separados por tanto tempo, um sacrifício imensamente agradável e bem recebido por nosso Senhor.
É chegada a hora de finalmente estarem juntos, e de uma vez para sempre. É chegada a hora de acender a pira onde os impuros devem queimar, de onde sairá a luz que iluminará as consciências livres e dignas.
Seus esforços têm sido apreciados tanto por nosso Mestre Supremo quanto pelo conselho da Fraternidade, e por isso gostaríamos de lhes agradecer imensamente o grande serviço que prestam não só para nós, para toda a humanidade.
Assim como Adão e Eva uma vez morderam o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, hoje, uma vez mais, a humanidade morderá este fruto. Porém, desta vez, não apenas uma mordida, mas o fruto inteiro será entregue aos escolhidos. É hora de todo segredo se esvair, do véu finalmente cair e da luz os iluminar por inteiro.
Preparem-se, minhas crianças.
Uma vez mais devemos pedir que se separem, mas não por muito tempo, lhes prometo. É necessário que sejam devidamente preparados para os acontecimentos desta noite de festa. Um de nossos irmãos estará esperando por você, Violleta, minha querida, no saguão do hotel às 15h, e a levará para o lugar onde será devidamente preparada e instruída.
A você, meu guerreiro, peço que espere em seu quarto após a saída de Violleta. Alguém irá visita-lo e instruí-lo no que for necessário para as festividades de logo mais. Espero que aprecie o presente.
Que a Luz de Lúcifer os ilumine uma vez mais esta noite, e que seus espíritos estejam aptos a absorver tudo aquilo que o Mestre lhes tem preparado.
Com grande alegria e fervor, de seu mais leal amigo.
Adrian Von Mainsten.”
Alexandre e Violleta encaravam um ao outro ainda calados. A verdadeira surpresa estava, por irônico que soasse, na trivialidade do conteúdo daquele envelope.
— Apenas uma carta de felicitações, e algumas instruções. – Violleta parecia ainda incrédula.
— Não somos tão importantes assim quanto achamos. – Alexandre riu em tom de troça. – Bem... Ainda temos meia hora até que você precise me deixar mais uma vez. Isso parece que nunca acaba.
Violleta levantou de sua cadeira caminhando até onde estava Alexandre e sentou-se em seu colo, a mão direita tocando seu rosto liso, os olhos profundos agora pareciam dóceis.
— Logo não precisaremos nos afastar nunca mais, meu amor... – Ao mesmo tempo em que sentia borboletas em seu estômago ao pronunciar aquela palavra, seu rosto se aproximou de Alexandre. Os lábios ficando entreabertos enquanto seus olhos se fecharam.
Alexandre esperava por aquilo há anos. Sua mão ficou firme na cintura de Violleta enquanto a mão livre se direcionou a nuca da moça. O beijo foi delicado e ardente, doce e quente.
— Espero que seja realmente. – Violleta deitou sua cabeça no peito do rapaz. Gostaria de ficar ali e não ter que se levantar novamente. Infelizmente isso não era possível.
— Acho que devemos aproveitar. – Eles se levantaram, tinham algumas coisas a fazer antes que a hora de partir chegasse
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