Eram 14h56 quando Alexandre viu Violleta sair do seu quarto. A tarde que passaram juntos havia sido extremamente agradável, e o dia inteiro, desde que havia acordado estava sendo algo mágico. Uma aura diferente parecia envolver o rapaz e sua percepção das coisas parecia brilhar mais, como se uma névoa inebriante o envolvesse.

Ele já estava pronto também, e aguardando em seu quarto que viessem busca-lo, como havia sido instruído. Usava uma roupa leve, não sabia o que exatamente o aguardava. Estava com uma camisa branca de algodão em gola V que deixava uma pequena parte do peito à mostra, o suficiente pra amenizar o calor que fazia; a calça jeans era a peça de roupa mais pesada, e era novamente escura, e terminava em um par de sapatos confortáveis de cor branca também.

Ainda bem que Violleta saiu antes de me calçar, ela ia achar ridícula a combinação entre sapato e camisa.

Para Alexandre isso não importava, o conforto era mais importante que a beleza.

Não levou muito tempo para que ouvisse três batidas curtas na porta.

— Entre.

Quando a porta se abriu Alexandre teve uma surpresa que o deixou sem ar. Ali na sua frente, com um sorriso familiar de dentes extremamente brancos e perfeitos, estava seu pai. Conrad estava claramente realizado.

Os dois caminharam na direção um do outro simultaneamente. Havia muito estavam separados e a saudade apertava igualmente coração de pai e filho.

— Dad!— Alexandre abraçou-o com força. – I’ve missed you so much...*

Conrad retribuiu o abraço apertado e em seguida, segurando o primogênito pelos ombros se afastou para olhá-lo.

— És um homem, meu filho.

Alexandre estava de olhos arregalados, o impacto de ouvir o pai falando o idioma português era absoluto.

— Pai, desde quando o senhor fala português?

— Por que a surpresa? Seu pai ainda é um homem intelectualmente ativo, oras.

Alexandre riu feliz, sentia-se agora um pouco mais completo perto do pai. O sotaque escocês ainda era carregado e o fazia também sentir um pouco de casa mais próximo de si.

— Onde está minha mãe? Ela veio com você?

— Ela está aqui em São Paulo, mas não veio comigo. Vocês poderão se encontrar mais tarde. — Ele caminhou até a mesa, sentando-se e fazendo um sinal com a mão para que Alexandre fizesse o mesmo. – Sente-se. Infelizmente não temos muito tempo para trocar figurinhas, filho. Preciso lhe instruir para o rito da noite.

O rapaz ainda estava contente, e agora ainda mais por ser guiado pelo seu pai, o homem em quem mais confiava e se inspirava. Ele puxou a cadeira e sentou-se atento às palavras do mestre.

— Hoje é uma noite especial, rapaz. Essa noite você será parte da Fraternidade, será aceito como verdadeiro filho do fogo e poderá usufruir de todos os privilégios e também dos deveres que isso implica.

Alexandre estava quieto, parecia degustar cada palavra dita por seu pai como se fosse um ensinamento valioso.

— Você é especial, filho meu. Você foi escolhido quando ainda não havia sido concebido, e mesmo a sua concepção havia sido planejada por Lúcifer Altíssimo. Você tem sido instruído por todos estes anos em toda sorte de conhecimentos, e se tornou um grande homem, um grande filho do fogo. Essa noite sua entrada na Fraternidade será concluída de uma vez por todas. Deixará de ser um aprendiz e se tornará uma peça, uma das peças principais no tabuleiro que já vem se formando há muito tempo.

Conrad apertou as mãos do filho entre as suas, que retribuiu contente.

— O rito da noite de hoje será um rito especial. Essa noite você conhecerá seu Mestre Infernal, que irá lhe guiar e auxiliar nas tarefas que deve cumprir. – Agora a voz de Conrad tinha se tornado grave e pausada, evidenciando a solenidade do que iria acontecer. – Seu Mestre Infernal o escolheu por que vê em você os dons e as virtudes que ele mesmo possui: força, liderança, inteligência, autocontrole e determinação. Ele deverá ser seu maior amigo, companheiro, conselheiro e tutor e você deve ser um fiel aprendiz e servo.

Alexandre não pôde conter o riso. Havia muito esperava por esta noite, por conhecer qual membro da Corte Infernal o havia escolhido para si. Sabia que devia ser alguém importante, um dos grandes, e seu orgulho inflava o peito ao pensar nisso.

O futuro imperador deverá ter um Mestre à sua altura.

— O rito dessa noite já foi previamente preparado, e você também foi previamente preparado para ele. Hoje se unirá à sua alma gêmea, serão uma só carne, e juntos abrirão os sete portais do inferno, por onde seu Mestre, e o Mestre dela irão passar para estar com vocês.

Ao ouvir estas palavras o jovem rapaz estancou. Sua respiração ficou pesada e sentia o coração disparar em seu peito. Sabia exatamente do que Conrad estava falando.

Vama Marga...

Conrad percebendo o sobressalto do filho soube que ele havia entendido.

— Não se assuste Alexandre. Está preparado. Se não estivesse os Mestres não o teriam escolhido.

— Eu sei, pai... Esperei por esse dia desde que soube o que seria de mim, mas agora parece surreal demais. Logo agora, que tudo está prestes a acontecer.

Conrad levantou e tirou do bolso um pequeno saco de couro.

— No dia do seu aniversário, anos atrás, quando ainda estávamos em nosso país, eu lhe dei um presente. Aquele foi o dia em que você foi desperto para o Reino de Fogo. – Ele estendeu o braço entregando o saco ao filho. – Essa noite é o seu rito de passagem e aceitação neste Reino.

Alexandre pegou o pacote, abrindo-o rapidamente e virando sobre a mesa.

Uma figura conhecida se deixou cair na mesa. Era um medalhão negro com um dragão de cauda longa enrolado por toda a armação redonda. Ao longo do aro haviam doze brilhantes, e os olhos do dragão eram duas pedras de rubi.

Pegando-o em suas mãos Alexandre o ergueu à altura dos olhos para observar melhor. Era lindo, imponente, forte.

— Quando lhe dei a Chave do Gehenna não pude lhe explicar o que ela significa. Hoje será diferente. – Ele caminhou até Alexandre que continuava encarando o medalhão como que hipnotizado, e colocou a mão em seu ombro direito. – Este dragão é seu Mestre Infernal, filho. É a insígnia daquele que o escolheu como pupilo.

Pela segunda vez desde que havia entrado naquele quarto Conrad havia feito com que o filho perdesse o fôlego, como se uma pancada o tivesse acertado na boca do estômago.

Todos aqueles anos seu Mestre esteve mais perto do que pensava.

— Pai... – Ele estava relutante, não sabia se poderia ter sua resposta, mas preferiu arriscar. – Qual é o nome do meu Mestre?

— Não posso lhe dizer, filho. Ele quer mostrar-se diretamente a você, ele dirá quem é e dirá quem você será.

— Imaginei...

— Agora devemos nos preparar para o rito de logo mais. Vá para o banho, precisamos nos apressar. Logo trarão suas vestimentas, e precisamos tirar suas dúvidas sobre o Vama Marga para que esteja apto e preparado para realizar todos os passos do rito.

Padre Paulo já estava próximo do ponto onde seria deixado para seguir até a paróquia de São Marcos.

A conversa com padre Magno havia evidenciado uma urgência que não deveria ser ignorada. Era preciso começar os preparativos para a guerra já.

Enquanto caminhava pelos dois quilômetros que o levariam à paróquia, padre Paulo relembrou as últimas palavras de padre Magno antes que deixasse de vez sua sala no mosteiro da Ordem.

— Essa noite o nosso inimigo irá preparar o escolhido para dar cabo a seus planos. – A voz do padre estava pesada, parecia muito cansado, muito preocupado. — Essa noite um dos caídos irá iniciar sua passagem pelo véu dos mundos e iniciará sua caminhada rumo ao caos.

Seria uma noite macabra...

Isaac estava sentado analisando alguns dos contratos que seu chefe havia mandado inspecionar, faltavam apenas vinte minutos para as 18h e logo estaria livre para ir para casa.

Estava pensando ainda na discussão que havia tido com Kiara e como deveria lidar com essa crise para que tudo corresse bem, não seria nada fácil. A jovem moça estava empolgada com a possibilidade de conhecer Porto de Galinhas havia meses, desde que haviam começado a programar tudo.

De repente o celular vibrou no bolso. Cuidadosamente, para ninguém o visse lendo mensagens particulares no horário de expediente, tirou o aparelho do bolso e ali mesmo, embaixo da mesa, o desbloqueou.

“Padre Paulo está de volta, e pediu para que se reúnam hoje às 20h na paróquia.

Não faltem.

Ellen Dias – 17h38”

Notas finais
*Pai, senti tanto sua falta.