O Acampamento Místico
1 Prólogo
Notas iniciais
Dominic de fato não fazia a menor ideia de como havia chegado àquela estrada... mas ele estava ali, contra todas as probabilidades. Enquanto andava cada vez mais a frente, observando as árvores que margeavam-na pelos dois lados, se perguntava onde estaria antes. O dito cujo estava perseguindo um ladrão, um assassino da pior espécie, por outra estrada completamente diferente. Não usava um carro ou algo assim, ele já estava praticamente em suas mãos, e ai…
E ai ele não sabia mais nada. Era como estar num sonho, em que descobre-se em dado momento está falando com alguém, e no seguinte se encontra em um local completamente diferente conversando com outra pessoa. Claro, ele imaginara sonhar, mas a dor do tiro que levara no braço era aguda demais pra ser esse tipo de coisa. Não que fosse um ferimento grave: o tiro pegara de raspão, apenas, mas deixou uma ferida dolorosa por onde passou. E perdido do jeito que estava, o detetive não conseguiria uma forma de amenizar a dor tão cedo.
Certo… já havia passado por coisas piores.
Dominic, ou apenas Don, como era chamado por seus colegas policiais, era um detetive, como já foi citado, de Miami. Ele resolvera inúmeros casos durante o tempo que exerceu sua profissão, e de alguma forma chamava muito a atenção de mulheres. Claro, acabava se aproveitando disso as vezes, mas o trabalho sempre falava mais alto. Ele colecionava relacionamentos que nunca dariam certo, o que preocupava-o, mas não o suficiente para tirar seu sono. O resto de sua família morava em São Francisco, e eram raros os momentos em que estavam juntos.
Não havia ninguém para sentir sua falta imediata, a não ser sua equipe. E se estes sentiam, não faria muita diferença. Não havia sinal no celular. Não havia nenhuma maneira de se comunicar. E Don não vira um carro sequer passar por ele. Praguejou pela enésima vez, chutando uma pedrinha.
— Isso deve ser carma… ou uma macumba de alguma das mulheres que dispensei.
Andou mais alguns passos, levando a mão ao queixo. — Talvez um carro tenha me atropelado na perseguição, eu morri e estou fadado a rodar sem destino pelo resto da eternidade. Será que há um inferno assim? Não tem uma cultura qualquer que são nove infernos… ou será que eram set…
— Ah, cale o raio da boca! Você está vivo até demais.
— Não fale assim com ele, deve estar com algum problema na cabeça, coitado.
Ele ergueu sua cabeça e olhou de um lado a outro, sem saber de onde vinham aquelas duas vozes finas que chegaram até ele. Pensava em girar o corpo, mas teve o movimento impedido pela primeira voz, que ralhava mais uma vez.
— Aqui em cima, estúpido.
Foi de maneira lenta e sem acreditar que o detetive levantou sua cabeça. Fixou os olhos com tanta força em suas interlocutoras que era impossível arregalá-los mais. Tirou os seus óculos de grau, limpando-os só para ter certeza e recolocando-os na face, apenas para constatar o óbvio. — Que… que diabos são vocês!?
— Não somos diabos, somo fadas! Fadas! Você nunca ouviu falar? — as duas eram praticamente iguais, a única diferença residia nas suas expressões: a primeira fazia uma careta tão feia que parecia que tinham-na fotografado de mal humor e seu rosto não se mexera mais depois disso. A segunda portava um sorriso infantil, que beirava o zombeteiro e acenava para ele, sentada no ar, apenas as asinhas vibrando. O tom de pele era esverdeado, os cabelos pareciam pétalas de flor, de uma cor que beirava roxo. Os olhos eram claros e indefinidos. Os diminutos corpos estavam cobertos por roupas completamente distintas do que Don já havia visto (pelo menos fora dos filmes), algum tipo de top e saia feitos com trepadeiras. As asas eram como as das libélulas, transparentes, batiam as vezes tão rápido que era difícil divisá-las.
— Ah, perdoe ela, não tomou o suficiente de seiva por hoje.
— Cale a boca você também, caramba! E você, cara-estúpido, vai ficar nos encarando o dia inteiro? Temos um lugar para ir!
O choque era tão grande que ele simplesmente não se importou de ser espinafrado por um ser que podia esmagar com a palma da mão. Ainda estava boquiaberto, fitando ambas as criaturas, quando enfim se recompôs, assumindo sua atitude prática de detetive.
— Eu nunca acreditaria se não estivesse vendo com meus próprios olhos. Temos um lugar? Que lugar? E onde estamos agora?
— Esse ai obviamente nunca ouviu falar do acampamento.
— Mas quase ninguém que seja humano conhece… eles são muito desavisados. — a segunda fada fez um movimento breve com a mão, como se estivesse tentando acalmar sua parceira com o gesto. — Bom, humano… nós estamos na Estrada que leva ao Portão de Runas, se o atravessar, você vai chegar ao acampamento. — enquanto falava, mostrava um mapa claramente desenhado a mão por alguém sem um pingo de talento, e apontava nesse instante para o espaço além do círculo que representava o tal Portão.
Dominic voltou a coçar o queixo, com a barba por fazer, e fez uma careta de desentendimento. — Tá precisando de um mapa novo filhinha… espera, você disse acampamento? Eu não quero fazer camping, quero voltar para casa! Eu tenho um suspeito de assassinato para prender.
As duas se entreolharam.
— Contamos a ele?
— Não… deixe a Senhorita Mizori decidir isso. — a primeira fada levou a mão a boca e bocejou. — E então, vamos? Tenha certeza que ficar parado olhando-nos com cara de paisagem não vai ajudar na sua situação atual.
Don fechou os olhos, sentindo o ferimento voltar a doer, ou apenas havia se lembrado dele naquele momento. Sem ter muita opção, seguiu suas diminutas guias estrada afora. Elas rondavam a seu redor, puxavam-no por um dedo, mexiam em seus cabelos, e em um dado momento pareceram sossegar, porque resolveram empoleirar-se em sua cabeça e apenas mandá-lo seguir em frente. Ajeitou os óculos uma vez mais, e parou, fitando com curiosidade o monumento – seria isso mesmo? – à sua frente. Duas árvores recurvadas, cobertas de símbolos estranhos azuis que brilhavam como neon, se cruzavam, e no espaço vago entre um tronco e outro uma substância estranha – gelatinosa talvez – de cor arroxeada esperava por ele.
— Vocês querem que eu entre nesse lugar? Sério isso?
Houve uma troca de olhares das duas, que apenas acenaram com a cabeça afirmativamente – gesto inútil, já que estavam sobre o seu cabelo – e uma resposta imediata: — Sim!
— Quem me garante que não vou derreter? Com um brilho desses, isso ai deve ser tóxico!
— Nossa, o quão inocente um ser humano como você pode ser?
— Haha… to quase entendendo como veio parar aqui. — a segunda fada começou a rolar sobre sua cabeça de tanto rir. Dominic agarrou-a pelas asas e segurou-a a frente do rosto, finalmente fechando a expressão.
— Até agora vocês duas não disseram coisa com coisa. Eu poderei voltar a partir daqui?
O ser deu de ombros. — Quem sabe? Mizori dirá!
— Quem diabos é Mizori?
— Ahn, ela é pior que um diabo, acredite. — a outra argumentou, soltando o que parecia ser uma risada maléfica. Sua parceira parecia achar graça no fato do humano se referir a quase tudo ao seu redor como “diabos” — Vamos lá, senhor detetive, a passagem está aberta. É entrar ou entrar.
Talvez ele simplesmente chegou a conclusão que a situação era inevitável. Talvez estivesse de saco cheio daquilo tudo e resolvera se matar logo de uma vez. Talvez achasse que ainda era um sonho e que acordaria depois de passar pelo portal. O caso é que ele atravessou. Lançou um aceno as suas duas guias, que não ficariam muito tempo esperando, e jogou seu corpo com força contra a superfície arroxeada. O que não foi nada agradável quando ele chegou do outro lado. A primeira coisa que viu foi o chão de uma clareira, onde enfiou o nariz. Ficou deitado por algum tempo, sentindo o cheiro de terra e saboreando aquela dor, prova de que definitivamente aquilo não era um sonho. O ombro também voltara a doer. E então se ergueu.
Dominic se ergueu com todos os seus um metro e oitenta de altura e olhou a sua volta. O que viu o surpreendeu.
Era uma clareira acima de tudo, mas não havia nem sinal da estrada por onde viera. Bem mais a frente do local onde havia acabado de sair, podiam ser vistos três grandes chalés distintos. O primeiro não tinha nenhuma cobertura de tinta, deixando ver a madeira que o formava, ficando no meio. O da direita tinha uma luminescência natural e era pintado de branco e dourado. O da esquerda parecia imerso em escuridão, sua madeira era enegrecida e os detalhes foram realçados em vermelho. Don girou nos calcanhares. Havia uma floresta a sua direita, e outra a esquerda, composta essa última por coníferas. Ambas se encontravam bem adiante. Era uma clareira imensa. Muito mais ao longe, ele conseguiu divisar o que pareciam ser ruínas antigas. Mas estava muito fora de seu campo de visão para ter certeza, e ele normalmente não enxergava bem.
Atrás do Portão, oposta aos chalés, havia uma casa de dois andares e sótão. Era bem antiga, parecia datada da época vitoriana. O telhado estava coberto por penas azuis, o que deixou-o chocado. Afinal que tipo de pássaro deixava cair penas tão grandes a ponto dele ver claramente a olho nu? Um pouco mais a parte, havia uma tenda esbranquiçada, onde deveria ser a enfermaria. E no centro de todas as construções, ignorando-se apenas o portal, estava uma gigantesca fogueira. Ela não lançava fumaça alguma, ele imaginou que estaria pronta para ser acesa naquela noite. Não havia como saber.
Era tudo muito estranho. Talvez estivesse alucinando. Sentia o braço arder como brasa, poderia ter pego uma infecção. Seu corpo cambaleou e ele caiu para trás. Beirando a inconsciência, com a cabeça latejando e os óculos fora de lugar, uma das últimas coisas que conseguiu ver foi uma figura distorcida. Uma provável mulher, de cabelos negros e olhos igualmente escuros. Ela usava algum tipo de quimono, ou roupão, não dava para ter certeza. E sua expressão… sua expressão era como uma folha em branco.
Não deixava transparecer nada.
Era assustadora. Ele queria se mover, queria sair dali, mas não conseguia. Um vulto quase da altura dela parou ao seu lado, e teve certeza que aquilo não era humano. Ele viu um bico, um bico de pássaro… Mas aquilo era grande demais para ser um pássaro.
Vencido pelo cansaço e pelo desespero, Dominic desmaiou. Pela última vez quis que tudo fosse um sonho ruim. Mas ele seria fatalmente decepcionado em seu desejo.
Fale com o autor