Notas iniciais
´´O segredo do amor é maior do que o segredo da morte.´´
-Oscar Wilde

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A noite estava cheia de estrelinhas,milhões delas,como se fossem os grãos de poeira que dançam quando a luz solar entra pelas frestas da janela no meu quarto. Eu estava empolgada,era ferias,íamos acampar. Era como uma tradição de família,todo ano a gente sobia a serra,enchia o carro de coisas para acampar...Mas essa foi a última vez que fizemos isso. Então me lembro com clareza da última noite em que pude ver meus pais e minha irmã, Fernanda.


–Pai,Pai,Pai! — eu dava pulinhos ,enquanto gritava. Eu confesso que era uma criança irritante. Porém eu era bonitinha com todo aquele cabelo cor de chocolate e meu sorriso encantadoramente branco.

–O que é,minha princesa? — papai perguntou. Ele se agachou até ficar do meu tamanho.

Acho que a definição de amor está ali,sabe?, quando seu pai te chama de princesa e tudo mais,quando ele te esculta mesmo que você seja uma criança irritante.

–Você esqueceu de fazer o sinal ,papai,não podemos sair de casa sem fazer o sinal — lembrei a ele.

O sinal era algo que ele me ensinou a fazer,ele nunca saia pra trabalhar, ou para qualquer lugar sem fazer-lo. Ele desenhava com os dois dedos indicadores um coração sobre o peito. E eu repetia o gesto.

–Eu te amo, Alicia — disse meu pai,sorrindo.

Quando eu tinha 8 anos, papai tinha 34. Ele era bonito, mas ainda que fosse esteticamente feio, seria perfeito para mim. Eu sempre o vi como um super-herói. Era o que ele parecia ser.

–Ei, também quero dizer que amo minha filha — ouvi a voz de minha mãe. Ela também era bonita,mas não parecia nada comigo — era loira, tinha olhos verdes. Ela se parecia mais com Fernanda,minha irmã mais velha. Minha mãe tinha um abraço protetor como ninguém nunca teve. Ela me abraçava enquanto sussurrava no meu ouvido, para meu pai não conseguir ouvir, que me amava um pouquinho mais que ele.

–Eu sei — disse. Achei isso divertido.

–Ok. Agora entra no carro,vou buscar sua irmã. Não sei porque ela insiste em trazer tanta bagagem!

Ela entrou pela porta da frente e começou a gritar o nome de Fernanda, que logo desceu. Ela arrastava três malas. Isso gerou uma briga entre papai e mamãe. Observei da janela meu pai dizer que ela poderia levar o que quiser, enquanto mamãe dizia: O QUE QUISER,NÃO! TEM ATÉ UM UM ABAJUR ALI.

–Mas mãe — Fernanda murmurava — não é um abajur,é uma lanterna.

–Ela fica!

–Ela vai. Papai? -choramingou,olhando nos olhos do meu pai.

Ele nunca diria não para um pedido de uma filha, olhou para sua mulher, suplicante.

–Ok,duas malas apenas,Fernanda — revirou os olhos.

Ficou assim: duas malas e mais algumas coisas super importantes — como escova de dente da boneca e maquina de fazer sorvete — da terceira mala.

Pegamos a estrada. A pista era sinuosa, era bonito ver ela serpentear enquanto a lua refletia no asfalto. Na beirada da estrada árvores demarcavam o inicio de uma floresta.

A gente começou a descer até que surgiu subidas cheias de curvas que contornavam a serra. A lua era tão grande e estava tão perto que parecia ter sido construída por alguém, como se fosse um prédio que seria alcançado ao final do horizonte.

Encostei minha cabeça na janela — sempre fitando a lua — e adormeci,lentamente.

**** ****

Quando acordei, me senti no inferno. Foi tudo tão rápido que mal consegui associar as coisas que aconteceram. Na escuridão noturna algo branco cegou meus olhos. Foi quando eu vi que aquilo era a luz de um farou cegando meus olhos,ele surgia além da curva,depois percebi um carro comprido,um trailer azul,em seguida veio o grito, percebi meu pai tentar uma freada brusca,porém foi em vão.

O carro girou por 3 vezes na curva. Todos em volta perderam a consciência. Eu não. Papai tinha sangue escorrendo pelo nariz, mamãe tinha um talho na cabeça onde um sangue negro jorrava,mas o pior foi ver Fernanda,com a sua lanterna na mão, me olhar um última vez como se quisesse pedir ajuda. Porém,eu estava assustada demais pra pensar em fazer qualquer coisa além de gritar. Olhei para seu estomago. Então,vi minha irmã perder quase todo o seu sangue,encharcando o banco onde ela se sentava. Não queria ter visto — eu vi mesmo assim — que parte da lataria havia transpassado seu estomago.

Nunca se esquece o dia que você perde toda a sua família. Um por um.

–Merda!-Alguém disse,a voz enrolada,como se estivesse completamente bêbado. -Eu fiz merda,meu Deus... Culpa da maldita cachaça que eu vendo naquele circo. O meu circo! Ah,merda,merda,merda.

Eu sabia que merda era um palavrão, e meu pai me ensinou a odiar gente que falava palavrão.

A porta traseira se abriu. Nunca senti tanto medo — eu tremia dos pés a cabeça. O homem era baixo como um elfo,mas seu rosto não era nada adorável. Ele era gordo,usava bigode, seu cabelo estava desgrenhado,era de um estranho tom de marrom,talvez ele havia pintado os fios recentemente. Ele sorriu. Seus dentes eram diferentes: tirando alguns quebrados,ele tinha um dente dourado.

–Ei,mocinha -seu halito era a pior parte -você está-está-está? Está se sentindo bem? Quer dizer, fora o sangue que desce pelo pescoço e tal.

Ele riu como se fosse a piada mais engraçada do mundo. Olhei desesperadamente no espelho,e percebi que não tinha nada ali,além de algumas gostas do sangue da minha irmã.

–Vem comigo — falou. — Você não pode ficar aqui,alguém pode,pode,pode, chegar e ai eu irei pra cadeia,hahaha, por dirigir bêbado. Acredita?

–Mas não quero — resmunguei. -Quero ficar com meus pais!

Ele olhou pra dentro do carro,balançou a cabeça, colocou os dedos no pescoço de Fernanda,depois de minha mãe e falou:

–Eles estão mortos, garotinha. Mortos. Mas fique tranquila...Ei,não chora. PARA DE CHORAR! Ah,que ótimo.

Ele encostou a grande barriga no colo ensanguentado de Fernanda enquanto desabotoava meu sinto de segurança, e me arrastava do carro. Ele me colocou no seus ombros,eu socava suas costas.

–Eu quero o meu pai. Meu pai,ouviu? Pai! -chamei por ele.

–Ele não vai te ouvir,garota antipática,e sabe por que? Ele está morto!

Olhei pro carro lá em baixo no inicio de um barranco,preso por uma árvore. Aquela foi a última visão da minha família,todos cheios de sangue vistos pela janela. Foi naquele momento que eu decidi: aquele homem iria pagar por aquelas vidas. Mesmo que eu precise arrancar seu coração, ele irá pagar.

Quando chegamos ao trailer,pude ver a explosão cortar o céu noturno. Tudo ficou em chamas,até os pneus. Eles estavam lá.

E naquele dia eu chorei como nunca antes, mas era só o começo.Eu sofreria muito mais depois, quando eu fosse adolescente.