Notas iniciais
"Sou feita de gavetas...
lembranças amassadas, vestígios de infância, peças ousadas,
dobradas, perfumadas, bagunçadas, profundas, escuras, trancadas."

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Eu juro que estava quase chorando enquanto estava sentada em uma das arquibancadas do circo, apenas observando o nada.

Estava tudo tão silencioso.

Eu ainda me perguntava o que estava fazendo ali, mesmo sabendo. Meus pais haviam morrido e tudo parecia um grande pesadelo.

– Você é a garota nova ? — ouvi a voz masculina infantil de alguém.

Só aí percebi que havia alguém subindo nas arquibancadas.

Ele usava uma blusa xadrez azul desabotoada sobre uma camiseta qualquer. Mesmo distante de mim, dava para ver que os olhos dele eram pretos, tão negros que pareciam brilhar de longe. Os seus cabelos eram loiros e caiam sobre a testa e seus lábios repuxados exibiam um sorriso branco que parecia dizer "sou confiável".

– Meu pai falou sobre você — falou o garoto da blusa xadrez, colocando as mãos dentro do bolso da frente da calça jeans surrada que usava.

Eu assenti.

– Alice, certo ? — perguntou-me

– Na verdade é Alícia. — respondi

Ele se aproximou e tirando uma das mãos de dentro do bolso me cumprimentou com um aperto de mão parecido com o que papai cumprimentava as pessoas :

– Eu sou o Gustavo, filho do Conrrado, sabe... o dono do circo, aquele que te achou ontem.

– Conrrado... — falei entredentes. Até o nome daquele homem me dava nojo.

– É uma pena o que te aconteceu. Mas você vai ficar aqui agora. Vai se acostumar. — agora seu sorriso era encorajador.

Dei de ombros, sorrindo fraco, mesmo sentindo meus olhos marejarem.

– Ei, não fique assim. — disse Gustavo, então fez uma pausa, como se pensasse no que dizer. Não havia muito o que dizer. O pai dele havia matado minha família. Eu não sabia se ele tinha o conhecimento disso, mas mesmo assim, era estranho estar falando com o filho do assassino de meus pais e minha irmã mais velha. — É sério. Não chora. Eu te dou um sorvete.

– Sorvete seria ótimo — falei, a voz trêmula e quase falhando.

Então Gustavo passou o braço sobre meus ombros, me abraçando de lado e juntos caminhamos até lá fora.

Pegamos sorvetes numa barraquinha e sentamos na grama, conversando como se fossemos crianças felizes que com certeza não éramos. Ele me contou sobre o número que faria mais tarde, quando o espetáculo começasse : era trapezista e falou sobre o quanto o circo era sua verdadeira casa.

Eu ouvia atentamente, mas o sorvete acabou.

– O sorvete... acabou — interrompi Gustavo, que falava algo sobre sua família.

Ele me olhou com uma expressão engraçada :

– Sabe, Alícia ? Até que para uma criança você é bem legal.

Arqueei uma sobrancelha :

– Você não é criança ? — perguntei, fazendo com que Gustavo me encarasse como se eu tivesse falado um absurdo.

– Eu tenho 12 anos. Mas vou perdoar o que você disse agora... esse insulto, porque gostei de você.

– Gostou tanto a ponto de pegar mais um sorvete para mim ? — perguntei, fazendo bico.

Ele sorriu.



Notas finais
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