Nêmesis - A história nunca contada
3 Nêmesis – Capítulo 2 (parte 1) – Surpresas
Algum tempo depois, o que para ele pareciam minutos, mas poderiam ter sido horas, ou até mesmo dias, estava consciente novamente. Olhou em volta, tentando descobrir onde estava e surpreendentemente, perto da única porta naquela sala sem janelas, estavam dois mini hambúrgueres e um milkshake de morango, o seu favorito. Ficou com certo receio de comer, mas como o pior já havia acontecido acabou cedendo. Alguns minutos depois, um guarda armado chegou, com um símbolo desconhecido no uniforme, para levá-lo para o que ele chamava de “A Inteligência”. No início intrigou-se e tentou imaginar o que seria aquilo, até ser surpreendido com um tapa ligeiramente forte na nuca, dado pelo guarda que estava parado junto dele.
Quinta sala à direita, 2º andar, observou. Ao entrar na sala viu uma garota de aproximadamente 25 anos, com curvas acentuadas. A típica garota que sempre consideraria sexy, mas não a namoraria, pois nunca havia falado com uma garota, exceto sua irmã, o que o deixou um tanto constrangido e sem jeito, mas lembrou que estava ali contra a sua vontade e ficou sério novamente.
– Olá August, prazer em conhecê-lo – disse a garota.
– Quem é você? – disse grosseiramente.
– Por enquanto, pode me chamar de “A Inteligência”, sou a mente por trás dessa organização. Bom, me desculpe pelo ocorrido, meus funcionários são um pouco desobedientes às vezes, mas eles já estão sendo punidos pelo desrespeito à minha autoridade. Espero que tenha gostado e aceite meu pedido de desculpas, hambúrguer e milk-shake de morango são seus favoritos, não?
– Me deixa mais confortável saber que estão sendo punidos por quase amassarem meu crânio e me machucarem pra valer – responde em deboche, mas completa –, mas o que estou fazendo aqui?
– Quer dizer que realmente não se lembra de mim? Perfeito! Quero que você me ajude. – fala pausadamente com charme na voz – Temos um inimigo em comum, quem matou os seus amigos e capturou a sua irmã. Seria uma troca de favores: você me empresta seu dom e eu lhe dou as informações que precisa. O que acha? ”
Encontrei-me em uma posição onde não sabia ao certo o que responder, porque, se eu responder que não, poderia ser morto ali mesmo naquela sala que ninguém sentiria minha falta, entretanto , se eu responder que sim, sabe-se lá o que ela me pediria e aliás, que que certeza posso ter de que ela tem alguma informação útil para mim?
— que tipo de coisas você teria em mente pra eu fazer? – respondi tentando ganhar algum tempo para pensar depois de longos segundos constrangedores
— Nada que você já não tenha feito amor, digo, Gus
Este “amor” que ela disse de fato me deixou muito desconfortável mas decidi não tocar no assunto pois poderia ser algo que eu não queira saber no momento. Tentei lançar uma indireta, mas parece que até aceitar ela não me dirá nada, acho melhor ceder.
— Por um acaso você teria um cigarro? – Digo tentando disfarçar o desconforto
— desculpe mas não fumo.
— Nem eu – dou um leve sorriso, mas completo – mas enfim, acho que aceitarei sua proposta.
— Ótimo, ainda está afim de ir naquele encontro?
— Que encontro? – Fico um pouco corado pois já estava perdido em meus pensamentos e um pouco confuso.
—Com o Antônio, Gus – Diz balançando a cabeça com um gesto de desaprovação mas como se já esperasse coisa do tipo.
—Ah, esse encontro, espera, como sabe desse encontro?
—Ali naquela cadeira, olhe.
Olho para uma cadeira no canto da sala que não havia notado até então. Dali levanta um jovem alto, loiro, olhos azuis quase cinzas, com óculos sem muitos detalhes que o faziam parecer intelectual e também percebi que nunca o havia visto em toda a minha vida, acho.
—O que deveria observar ali exatamente?
—Olá Gus, sou Rich – disse o garoto e me deu um leve susto.
Estava tão familiarizado com o Rich que nem lembrei que não o conhecia pessoalmente e agora estava ali, bem na minha frente e não sabia ao certo o que fazer, estava em duvida entre agradecer por tudo o que ele fez, o abraçava pois o considerava um dos meus poucos amigos ou o baleava por não saber guardar segredos, mas lembro que o erro foi meu em confiar em alguém que não conhecia então só lhe disse um oi e ele balançou a cabeça em aprovação e se manteve distante o tempo todo, mas perto o suficiente para ouvir o que estava sendo falado.
—Quantas surpresas em apenas um dia.
—Realmente, mas ainda não me respondeu a pergunta – Diz ela friamente.
—Ah é, bom, não precisarei pois meu amigo estará lá.
—Está se referindo ao Ícarus?
—Me deixa adivinhar, ele esta aqui também?
—Sim, ele está, e diversas outras pessoas também, coloquei muitas pessoas em sua vida pois já queria te reencontrar a algum tempo e como nunca achei a ocasião certa, eu a fiz.
—Entendo, mas quem está na reunião no galpão se ele está aqui?
—Gus, a reunião já foi, Ícarus gravou tudo e Rich pegou o áudio pelo celular que você mandou grampear
—Que dia é hoje?
—23 de junho.
Caramba dormi por dois dias? E pior agora ela tem as informações de que preciso. Me calei por mais alguns segundos e sentei uma cadeira que estava do meu lado e coloquei as palmas das mãos no rosto tapando os olhos, um gesto um tanto descuidado, porém, se ela quisesse ter feito algo já teria o feito, então consegui me acalmar e pude observar melhor o modo que ela me olhava, parecia com medo, mas também parecia um olhar de piedade como quem vê um filme onde o cachorro morre no final, enfim prestando um pouco mais de atenção, percebi também um colar bem pequeno que ela colocava na palma das mãos e o apertava e que de tempos em tempos ela o acariciava, acho que deve ter um grande valor sentimental mas que pra mim não significava nada.
— quando poderei ver as filmagens? – Disse ainda observando o colar, ela percebeu isto e o deixou mais a mostra.
—Assim que você me responder uma pergunta.
—Qual?
—O amor, quando não nos machuca…?
—Nos… Nos… Nos… Annie? – Nos marca, era isso que estava escrito no colar que eu a dei um dia, foi difícil conseguir aquele colar e ela ficou tão feliz no dia que tinha valido cada gota de suor de trabalho naquele posto de gasolina imundo.
—Lerdo como sempre, mas vamos ao que interessa, este é seu primeiro trabalho, este é o pastor Lucius, recentemente consegui um cargo na política como vereador, este é seu segundo mandato, ele é investigado de tráfico, prostituição e pedofilia, tudo no mesmo local, quero que descubra quem são os envolvidos e o local de funcionamento deste estabelecimento, todas as informações que temos esta na maleta no seu quarto que você deve se dirigir pra lá agora, este brutamonte atrás de você o levará até lá e conto com a sua obediência.
O ser humano, se é que ele era um humano, tinha 3 metros de altura, pelo menos me pareceu me levou até meu quarto e no caminho enquanto ele me explicava procedimentos de segurança e onde ficava os lugares que eu precisava saber. Eu ficava pensando como Annie teria ficado viva sendo que vi o sangue jorrando numa cortina pra onde a arrastaram a força antes de eu correr. Pensando melhor criei a expectativa de ela ter escapado somente com alguns ferimentos, pois ela era cheia de truques e segredos tirando que ela era incrível em combate, principalmente com facas. Chegando no meu quarto deu pra ver que o sol já havia dado lugar ao céu a lua que emitia uma luz fria então me deitei e adormeci.
Acordo no dia seguinte, cedo como de costume, mas nesta manhã em questão fiquei deitado na minha cama tentando organizar meus pensamentos o que me custou algum tempo e não consegui chegar a uma conclusão e acabei desistindo. Levanto e pego a maleta. Pedofilia, prostituição e tráfico de entorpecentes, pessoa horrível certo? Como pastor e vereador ele deveria ser um homem justo, não? Também pensava assim depois de descobrir o tão corruptível uma pessoa pode se tornar para adquirir poder e dinheiro e quem não gosta disto? E não são somente políticos, pois corrupção não depende de cargo ou classe social, só depende de um ser humano querendo benefício próprio. Eu tenho um pensamento sobre o sistema carcerário, pensa comigo, “Digamos que você tem um emprego “justo” e ganhe seus R$ 1.000,00 por mês, isto sendo otimista pois grande parte sobrevive com bem menos sabe-se lá como, e traficando você ganha em média os mesmos R$ 1.000,00 por semana, totalizando uns R$ 4.000,00 por mês, isto sem os benefícios e recompensas que eles recebem, e um belo dia esse homem vai preso, tem alimentação, moradia e segurança pessoal 24 horas por dia, coisa que sendo um cidadão de bem você não chega não tem nenhum desses direitos e num infeliz dia ele é solto para andar na sociedade novamente e adivinha, será que ele vai pro emprego de R$ 1.000 ou pro de R$ 4.000? um vaso pode ser lindo e de qualidade, mas depois que quebra, não importa o que você faça, ele nunca mais será o mesmo”. Depois do meu devaneio me dirijo ao banheiro e faço minha higiene pessoal e checo os arquivos que me foram cedidos e saio do prédio escoltado como sempre.
Continua...
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