Não há outro amor para mim.

36 Peço uma folga e conheço Maleficent.


Notas iniciais
Sejam bem-vindas, acompanhantes de Não há Outro Amor para mim. No capítulo de hoje vamos saber o que aconteceu com Ruby e finalmente vamos conhecer Maleficent. Façam uma boa leitura.


Eu estava chocada com aquela informação que Killian havia acabado de me dar. Assim que desliguei, fiquei sentada na beira da cama pensando em quão doloroso devia ser para meu amigo perder um filho tão depressa.

Emma acordou em seguida, me procurando com os braços e mãos, logo achando minha cintura para abraçar.

— Volta pra cá, é muito cedo ainda, hoje é sábado... — resmungou ela.

— Meu amor, cuidado, eu estou arranhada. — falei, sorrindo sem graça para ela por conta dos arranhões espalhados pela minha barriga.

Emma começou a beijar minha pele, passou a mão por minha cintura, sentindo os arranhões que havia me causado e parece que despertou de vez.

Own, minha vida, me desculpa, eu estava excitada, não resisti. — disse ela, carinhosa, se sentando na cama.

Virei minha cabeça e a olhei, acho que ela soube que algo tinha acontecido.

— Tudo bem, são marcas de amor.

— Isso, marcas de amor. — ela me abraçou por trás, afastou meus cabelos da nuca e beijou bem ali. — Arranhões de amor, eu diria, eu estava com fome de felino ontem, mas... Posso saber o porquê dessa carinha tão preocupada? Hum? Eu ouvi o telefone tocar ainda agora, quem era?

— Era o Kill. Ele ligou me perguntando se eu podia ir até o hospital central.

— No hospital? O que aconteceu com ele?

— Com ele nada, mas com Ruby aconteceu algo. — Foi nesse momento que Emma me olhou curiosa, talvez espantada.

— Com a Ruby? O bebê?!

— Sim. Ela perdeu o bebê.

Minha mulher ficou tão sem reação quanto eu ao saber daquilo. Ficamos as duas olhando uma para a cara da outra por longos segundos, até nos levantarmos e colocarmos alguma roupa para atender ao pedido do meu amigo.

Não dissemos nada o caminho inteiro até o hospital. Parecia cena de filme. Porém, apesar do problema não ser nosso, era como se tivéssemos levado uma facada no estômago. Não sei explicar exatamente o porquê dessa sensação, mas estávamos tristes com a perda de Ruby e Killian, mais do que poderíamos imaginar.

No hospital, encontramos nosso amigo numa sala reservada para espera. Ele dividia espaço com mais dois homens que do contrário dele esperavam notícias de seus bebês que estavam prestes a nascer. Pobre Killian. Se aqueles dois homens soubessem o que ele estava sentindo, talvez não o importunavam com as fotos de suas esposas grávidas, com aquelas barrigas enormes, além do falatório bobo e alegre que não cessava. Quando Emma e eu chegamos, Kill lutava para se manter firme entre as conversas dos outros dois. Assim que nos viu, veio ao nosso encontro e a primeira coisa que fiz foi abraça-lo forte.

— Meu amigo — disse, eu o apertando o máximo que podia, sem me importar que ele fizesse o mesmo comigo. — Eu sinto muito.

— Obrigada por ter vindo, Regina. Desculpa tirar você do seu conforto com Emma, mas eu não tenho com quem contar. — falou ele, com cara abatida, sorrindo de forma bem tímida.

— Não tem problema, mesmo que me chamasse às três da manhã, eu viria.

— Mesmo assim eu sempre fico com medo de estar incomodando. Obrigado por vir também, Emma. — ele se soltou de mim para dar um abraço nela.

— Tudo bem, Kill, se fosse conosco você faria o mesmo sem nem mesmo pedirmos. — respondeu Emma de maneira gentil.

— Com certeza. Podemos sair um pouco daqui? Eu não sou boa companhia para esses dois que estão ali. — pediu Killian.

— Claro, vamos. — falei, o tirando daquela sala.

Ficamos andando pelo imenso corredor ouvindo nosso amigo contar como tudo havia ocorrido.

— Eu acordei com o som dela gemendo no banheiro. Levantei, bati na porta e ela estava chorando muito. Ela tinha perdido muito sangue e foi de repente. Trouxe ela pra cá do jeito que deu, mas já era tarde. O médico disse que quando chegamos aqui já não havia mais nem um resquício do bebê. Foi espontâneo.

— Às vezes isso ocorre porque o feto teve algum problema na formação, o organismo o expulsa enquanto ainda é possível. Eu li algo falando sobre isso, pode ser o que aconteceu com Ruby. — Emma disse, andando ao lado direito de Killian.

— O doutor disso que é bem provável de ter sido isso mesmo.

— E ela? Como é que ela está? — perguntei sobre Ruby.

— Triste. Ela me disse que quando se sentiu mal de madrugada tinha quase certeza que estava perdendo o bebê. — Killian parou perto de uma máquina de refrigerantes e pegou uma soda para ele e outra para Emma, eu preferi não tomar nada.

— Onde a deixaram agora? — perguntei.

— No quarto, repousando. Não há muito o que se fazer.

— Eu posso falar com ela um pouco?

— Acho que sim. O quarto é aquele antes da sala de espera. — apontou ele.

Ruby começava a acordar quando cheguei no quarto, abrindo a porta devagarinho. Havia uma enfermeira com ela, dando-lhe um comprimido de analgésico. Ela sorriu sem mostrar os dentes quando me viu e logo em seguida bebeu a água que a mesma enfermeira ofereceu.

— Oi. — eu disse, esticando minha mão para ela tocar ao me aproximar da cama.

— Oi, Regina. — ela apertou meus dedos firmemente. — O Kill chamou você aqui?

— Chamou. Eu já sei o que aconteceu. Sinto muito.

— É. Para você ver o que aconteceu. — suspirou ela.

A enfermeira recolheu algumas coisas e se retirou do quarto pedindo licença. Esperamos ela bater a porta para voltar a falar.

— Acho que você não contava que isso fosse acontecer.

— Eu juro que não, Regina. Mas eu sei que não me sentiria bem se soubesse. Me entende? Não era como se esse bebê fosse algo ruim dentro de mim, eu só não estava pronta.

O que Ruby falou me fez refletir por breves segundos.

— Emma disse que às vezes essas coisas acontecem, que o corpo expulsa o bebê porquê pode ter dado algo errado.

— É o que dizem. Mas nada me tira a culpa que eu estou sentindo, Regina. — Nesse momento, Ruby virou o rosto para o lado, tentando esconder sua cara de choro.

— Por que culpa, Ruby? — a olhei fixamente, preocupada também.

— Eu comecei com isso, sabe? Com essa minha cisma em não querer esse filho. Esse mês foi terrível para mim. Quando eu e Killian brigamos e eu fugi para a sua casa, eu estava desesperada. Será que seria tão ruim assim deixar de ter o bebê ao invés de sentir ele indo embora de dentro mim?

— Você não pode se culpar por ter perdido o bebê.

— Mas eu desejei não tê-lo, Regina. Embora Killian tenha me convencido, a minha vontade criou isso que aconteceu. Percebe? A culpa é minha.

Fiquei sem saída e sem saber exatamente o que pensar. Se eu estivesse no lugar dela, eu me sentiria péssima também, mas culpada por perder um bebê assim eu não acredito que ficasse como Ruby estava. Não podia ter a ver, não dessa forma. Eu não acredito nisso de influência, que pensamentos ruins atraem coisas para nossa vida, contudo, Ruby estava acreditando em sua influência e era de partir o coração vê-la daquele jeito. Quando ela saísse dali, eu não sei como ela e Killian seguiriam, mas seria complicado para os dois, eu podia prever.

— Não se culpe, Ruby. Algumas coisas acontecem porque precisamos encará-las, e se isso não foi o que você acha que foi, pode ter sido uma lição. Existem centenas de explicações para tudo o que vivemos, um dia vamos nos dar conta de tudo e porquê. Minha mãe sempre me falava assim.

Ruby repreendeu os lábios, baixou a cabeça depois de prestar a atenção em mim e assentiu algumas vezes.

Emma entrou no quarto depois de mim para conversar com ela e eu fiquei com Killian, no corredor. Dessa vez fomos para a cantina e terminamos de conversar lá.

Meu amigo me contou que agora faria de tudo para que a esposa voltasse a se sentir confortável e que pretendia viajar com ela quando as férias chegassem. Faltava poucos dias para o recesso de fim de ano a propósito e sugeri que eles fossem para um lugar sossegado onde pudessem namorar e aproveitarem o máximo de dias longe de Los Angeles. Até eu me animei a fazer isso com Emma.

Quando deu a hora do almoço, Killian pôde levar Ruby para casa e minha mulher e eu voltamos, ainda chateadas por ela, mas não havia nada que pudéssemos fazer naquela situação.

Pongo nos recepcionou na porta de casa, fizemos carinho nele, e subimos em seguida. Me sentei na cama, pensativa. Comentei com Emma o que Ruby havia falado para mim sobre ter culpa por ter perdido o bebê.

— Ruby acha que teve culpa no que aconteceu com o bebê.

— Ela vai se sentir assim por bastante tempo. — Emma disse, tirando a calça jeans do corpo para pôr outra mais confortável.

— O que você acha? Que a insegurança dela causou isso? — fitei minha mulher.

— Seria muito pessimismo achar que foi isso que ocasionou o aborto, mas eu não duvido tanto, e se isso foi um castigo?

— Não é possível, Emma. Não é justo. E ocorrer logo que ela aceitou ser mãe? Não consigo compreender, aceitar uma maldade dessas. Eu prefiro pensar no que minha mãe dizia: Há coisas que não tem explicação e que só vamos saber muito tempo depois.

Emma viu como eu estava intrigada. Se sentou ao meu lado e me abraçou como se pudesse oferecer todo seu apoio. Encostei minha cabeça em seu ombro e fechei os olhos. Recebi dela um carinho gostoso nos cabelos.

— Nessas horas, é fácil dizer o que sua mãe pensava, mas para quem sofre não vai ter remédio até que se esqueça.

— Eu acho que ela não vai esquecer, meu amor.

Abracei Emma e ficamos em silêncio algum tempo. Por duas vezes senti vontade de dizer a Swan que tinha medo que algo do tipo ocorresse conosco, mas acredito que pela forma como estávamos nós duas tínhamos medo e sabíamos disso.


No dia seguinte, com tudo de volta ao normal, Emma decorava seus textos para as cenas que teria de gravar durante a semana e eu terminava de editar o texto de uma matéria que apresentaria no jornal no escritório que raramente usava naquela casa. Emma havia guardado os desenhos que as crianças fizeram para nós numa das gavetas da mesa do recinto e me deparei com as folhas quando a abri para pegar uma caneta.

Estranhei os desenhos ali, eu tinha me esquecido brevemente deles e peguei aquele punhado de folhas quase chamando Emma para perguntar o que aquilo fazia ali. Não sei se por alguma obra do destino, ou se por pura coincidência me deparei com o desenho de Henry – aquele garotinho que chegou recentemente no orfanato. Olhei direito o canto da folha e vi seu nome escrito em letras miúdas como se não quisesse ser percebido, mas sim, era o desenho dele porque só havia um Henry no orfanato.

Peguei a folha separada das outras e olhei. Ele havia desenhado uma família; Pai, mãe e um menino, que devia ser ele pela forma como fez os cabelos. Fiquei dois minutos olhando para a folha, sentindo um súbito nó na garganta. Aqueles no desenho, com certeza, eram seus pais e ele. Pelo o que me recordava, Henry havia passado por um trágico acidente em que perdeu os dois de uma vez e sobreviveu, mas ficou sozinho no mundo, tendo que parar naquele orfanato que Emma e eu ajudávamos.

A senhorita Blue havia pedido às crianças que fizessem desenhos sobre o que mais desejavam na vida. A maioria deles, desenhou uma casa, um cachorro, ou igual a Henry, uma família, mas o desenho de Henry era diferente. Enquanto o de todos era um desenho colorido e cheio de detalhes, o do garoto era cinza, um esboço grande de um homem, uma mulher e ele.

Com as poucas visitas que fizemos ao convento no último mês, não pude conhecer Henry melhor, mas seu desenho expressava bem como ele se sentia. E eu estava começando a sentir vontade de falar com esse menino. Já não me repreendia por querer conversar com uma criança, eu só queria ajuda-lo. Talvez contando que também perdi minha mãe que era muito importante para mim, ele se identificasse e percebesse que não estiva sozinho no mundo. Foram pensamentos assim que me ocorreram antes de Emma chegar no escritório e me pegar olhando novamente para a folha de Henry.

— Ah, você os achou. Eu coloquei eles aí para não perder as folhas. — Ela veio entrando.

— Eu vi. — falei, misturando o desenho de Henry com os outros da pilha. Sorri para Emma. — Já terminou de decorar as falas, meu bem?

— Já. Decorei as mais importantes, amanhã eu passo as últimas cenas com o diretor. Eu vim perguntar se você não quer pedir uma pizza pra gente enquanto eu tomo um banho, ou quer fazer o contrário... A gente toma banho juntas e depois pede a pizza. — Emma pôs as mãos no bolso de sua calça larguinha que gostava de vestir para ficar em casa e a observei. Ela está bonita, apesar da cara de cansaço que as gravações andam deixando nela.

Me levantei da cadeira, fechei o notebook e andei até ela, passando as mãos em seus ombros.

— Eu acho que andamos comendo muita besteira ultimamente. Mas, pensando bem no que você disse, acho que é uma boa ideia porque quando tomo banho com você, sempre saio do chuveiro com fome. Você me abre o apetite. — selei a boca de Emma devagar.

— Por que será, hein? — ela sorriu, descendo suas mãos intrusas pela minha cintura, chegando perto do meu bumbum.

— Eu vou te mostrar o porquê. — ri e a puxei pelo braço, voltando a me esquecer de Henry e das crianças. Na verdade me esquecia de tudo a partir do momento em que entrava debaixo do chuveiro com Emma.



Hoje, ao chegar na MBC, um pouco em cima da hora porque me atrasei depois de ter inventado de levar Pongo para passear ao invés de Emma, precisei correr para me aprontar a tempo do jornal ir ao ar. Para minha sorte, tudo estava esquematizado quando sentei na bancada do noticiário e só precisei dar as notícias como naturalmente eu fazia todos os dias.

Terminei de apresentar o jornal quando deu uma e quarenta e cinco da tarde mas hoje eu não voltaria para meu escritório na emissora antes de resolver a questão do recesso do fim de ano que se aproximava.

Eu tive a ideia de viajar com Emma após o natal e precisava confirmar com o diretor do jornal se eu poderia tirar uma folga de uns quinze dias mais ou menos para conseguir aproveitar a chance.

— Bem, Regina, você sabe que por mim tudo bem e pelo apresentador de sábado também, ele disse que fica disponível caso você precise faltar, mas você deve comunicar à Toda Poderosa que vai tirar férias. — ele me disse se referindo à Maleficent, a dona da emissora.

Eu estava parada na porta da sala de edições, fazendo uma pose, com os braços cruzados, o olhando, pensando e temendo em ir atrás de Maleficent para pedir minha folga. Como não tinha outra saída, precisei concordar em ir atrás da mulher misteriosa que comandava aquela emissora e eu ainda não conhecia. Eu estive prestes a conhecê-la há algum tempo quando fui chamada em sua sala por algum motivo aparente, mas nunca soube o que ela queria falar comigo, pois seu marido estava com ela quando cheguei e eles discutiam feio sobre divórcio.

Sendo assim, fui obrigada a ir até a sala de Maleficent, na outra ala da cede da emissora. A hora do almoço dos funcionários daquele setor, incluindo a secretária que ficava a disposição dela, já havia terminado, então cheguei no escritório dela e pedi que me anunciasse, todavia, a secretária nem precisou chamar a chefe para dizer que eu queria falar com ela. Maleficent abriu a porta da sala e se despediu de um homem todo arrumado como um advogado. Ela me viu. Eu estava parada feito uma estátua ao lado da mesa da secretária.

— A apresentadora do U.S.A News... — ela saiu de trás da porta e me olhou da cabeça aos pés. — A que devo a honra de tal visita? — não posso afirmar com cem por cento de certeza, mas do jeito que ela me olhava, parecia que estava decepcionada. Acho que na TV eu devo ser mais bonita, ou até mais magra do que pessoalmente. Será?

— O-Olá. — gaguejei. — Como vai? É... Me desculpa vir assim, mas meu diretor me disse que eu devia vir falar com você.

— O que você gostaria de falar comigo? — Ela parou de me analisar e franziu o cenho.

— É sobre alguns dias que tenho acumulados de férias. Eu precisava saber se a senhora me liberaria por quinze dias. — falei, tomando fôlego.

Maleficent pareceu um pouco confusa. Fez que sim mesmo assim da porta e fez um gesto com a mão.

— Podemos falar sobre esse assunto dentro do meu escritório, tenha a bondade de me seguir, sim?

Concordei e andei até ela, retraída e morrendo de medo.

Ela me esperou entrar, apontou a cadeira de frente para sua mesa e fechou a porta, indo em seguida se sentar em seu lugar.

— Então, a senhora precisa de uma licença de quinze dias? Você disse alguma coisa sobre férias acumuladas, eu não entendi muito bem. — falou ela, me observando.

Maleficent era uma mulher bonita, tinha um par de olhos azuis grandes e vibrantes, um rosto de alguém que devia ter aproximadamente uns quarenta anos e era loira como minha mulher originalmente. Comecei a me perguntar o que havia dado de errado para seu marido querer o divórcio dela.

— Regina? — ela me pegou a olhando, distraída.

— Ahm, me desculpe. Sim, eu acumulei alguns dias de férias referentes ao ano passado e retrasado. Pouco mais de quinze dias que não cumpri pois voltei para o noticiário antes do previsto.

— Certo. E quando pretende se ausentar? — ela colocou os óculos que tinha pendurado no pescoço em seu rosto e voltou a me fitar curiosa.

— Após o natal. Estou planejando viajar. Coisa rápida.

— E você já conversou com seu substituto no noticiário?

— O diretor me disse que ele está disponível para me substituir e que por ele mesmo não há problema.

— Bem, então parece que não há inconvenientes, você pode se ausentar a hora que quiser. Só comunique seu substituto o mais rápido que puder e me informe a data da volta da sua viagem. — ela voltou a assinar algum papel importante que tinha sobre a mesa.

— Tudo bem. Eu com certeza faria isso, eu só vim até aqui porque o diretor sugeriu e como ele não podia conversar com você hoje...

— Está certo, está certo. Mas foi bom que você veio até aqui. Tem um tempo que chamei você aqui neste mesmo escritório e não compareceu. O que houve? — ela me olhou por cima dos óculos.

Travei. Não esperava que ela fosse se lembrar desse detalhe, dado o problema que ela teve naquele dia em que me chamou.

— Me desculpa, senhora. Eu estive aqui na verdade, eu vim para falar com a senhora, mas... a senhora já estava ocupada e achei que não fosse o momento para conversarmos.

— Naquele dia?

— Sim, naquele dia.

— Minha secretária não anunciou você?

— Ela não estava, para falar a verdade. Ela provavelmente tinha saído para almoçar quando cheguei. Eu cheguei em uma hora inoportuna.

Maleficent ergueu a cabeça e de repente ficou alheia. Ela pode ter se lembrado do que houve naquele dia.

— Ah... Claro. Hora do almoço... Aquele dia... Por que não me lembrei logo?

Quase hesitei em falar sobre aquele assunto, mas não resisti.

— Sinto muito, mas não pude deixar de ouvir o que aconteceu. — baixei a cabeça.

— Eu é quem peço desculpas pelo meu descontrole diante do meu marido ou do dele comigo, seja lá o que você tenha escutado, Regina.

— Não se preocupe, eu não contei a ninguém absolutamente nada.

— Mesmo que contasse, todos saberiam mais cedo ou mais tarde. E pensar que já fazem dois meses que assinei aquele papel. — Maleficent assumiu uma expressão triste. — Naquele dia, eu havia chamado você para falar a respeito daquela declaração que deu sobre seu casamento.

— Eu já imaginava que pudesse ser por conta disso.

— A minha vontade era de repreendê-la. Você não poderia usar o espaço do jornal para falar da sua vida pessoal, mas havia algo nas suas palavras que me fizeram ter vontade de me declarar para o meu marido daquele mesmo jeito. Ex-marido, quero dizer. — ela largou os óculos e olhou para cima, a fim de espantar uma vontade de chorar que provavelmente sentiu. — Seria intromissão demais da minha parte pergunta-la como você e Emma Swan estão agora?

— Nós estamos bem, muito bem. Não se preocupe. Mas senti necessidade em falar o que falei ao público para acabar com aqueles boatos ridículos que surgiram nas revistas e jornais.

— Eu compreendo você, nesse momento quem passa por essa fase sou eu, no entanto, não são boatos o que as pessoas dizem pelos corredores da emissora.

— É sem dúvida uma situação frustrante. Para ser sincera, minha esposa e eu estivemos em crises, uma recentemente, quem não tem crises, não é? Mas eu não pensei em me separar ou nem ela levou a ideia adiante.

— Pois meu marido tanto pensou quanto levou a ideia adiante, Regina. Eu não tive a mesma sorte que você. — ela pousou suas mãos sobre o tampo da mesa. — Eu tentei de tudo, eu juro. Deus sabe o quanto tentei salvar meu casamento. Porém, Gerard colocou o desejo dele acima de nós dois. Eu não podia realizar algo que não queria para mim também.

Senti pena dela enquanto me contava, mas ela havia dito que não podia realizar algo que não queria para ela. O que seria?

— Vocês não estavam se entendendo por algo que ele queria e você não?

— Sim. — Maleficent fez uma pausa e olhou para tudo antes de revelar. — Meu marido se divorciou de mim porque eu não quis ser mãe.

Novamente travei no meu lugar. Eu estava perplexa.

— Eu não pude oferecer ao Gerard o maior sonho da vida dele, ser pai. Isso não é para mim. Eu nunca me imaginei sendo mãe. Infelizmente, a decepção dele ao se dar conta disso após dez anos resultou no nosso divórcio e eu estou há dois meses tentando superar a decisão que ele tomou.

Eu devia estar boquiaberta, mas consegui dizer:

— Isso... Isso é impressionante.

— Você tem sorte, Regina. Sua esposa ama você, você a ama, se declarou para ela ao vivo para o país inteiro ouvir assim como ela fez quando recebeu o Oscar dela. Vocês duas devem se entender, se compreender e eu confesso que invejo você, um pouco, não se ofenda. — ela sorriu de leve.

— Eu tenho a melhor esposa do mundo. E ela já lutou para me compreender, agora, nesse momento, quem batalha para entende-la sou eu. — falei em meio a um pensamento sobre o que Maleficent me contou.

— Eu torço para que ninguém tenha que passar pelo o que eu passei. O amor é algo muito triste quando se desfaz.

Fiz que sim.

Ela fitou o relógio de pulso de ouro que vestia e se deu conta da hora.

— Ora, veja como o tempo passou. Estou segurando você aqui tem uma hora, me desculpe por fazê-la perder seu tempo. Está tudo claro sobre sua folga, sim? Avise ao diretor que ele não deve se preocupar, eu já estou informada.

— O.k., eu direi a ele. — me levantei da cadeira, fiz menção de sair, mas a observei também. Aquele assunto mexeu comigo, profundamente. É uma coincidência grande que ela não queira ser mãe. — É... Eu agradeço muito.

— Imagine. Quem agradece sou eu pelo tempo que você acabou perdendo ouvindo minhas ladainhas sobre o meu ex-marido.

— Jamais foi uma perda de tempo.

Eu disse e me retirei da sala após vê-la sorrir sem mostrar os dentes.

No momento em que fechei a porta da sala de Maleficent, me vi ouvindo o que ela me falou, centenas de vezes. Só que eu tinha certeza de que Emma jamais me deixaria por conta da sua vontade de ser mãe. E eu era egoísta demais para pensar que comigo isso jamais aconteceria, mesmo eu não desejando ser mãe assim como Maleficent.

Notas finais
O que se esperar do drama que Ruby sente em relação ao aborto? Alguém concorda que ela tem culpa? E Maleficent? O que ela tem em comum com Regina surpreendeu? Um beijo para quem comentou no último capítulo que teve um retorno muito bom por sinal. Obrigada mesmo até para quem não tinha intenção de comentar e mesmo assim comentou. Eu fico muito agradecida. Fiquem atentas, o próximo capítulo chega, logo, logo. Um abraço, até lá.