Não há outro amor para mim.

37 Enxugo as lágrimas de Henry.


Notas iniciais
Olá, todos. Estou de volta com Não há outro amor para mim, como vocês já esperavam. Esse é um capítulo surpresa, pois é. Vocês já imaginam o que pode acontecer? Façam uma boa leitura.


Emma finalmente entrou de férias, já estamos em dezembro e a época é de festas e descanso para quem trabalha o ano todo como eu. Embora eu ainda não esteja de férias, deixei avisado com Maleficent na MBC que tiraria meus sagrados dias de folga depois do natal. Assim, meu remorso em deixar a apresentação do U.S.A News não será tão grande e a pior fase já terá passado.

Falando em Maleficent, voltei para casa chateada. Não pela conversa que tivemos, mas pelas circunstâncias que seu casamento se encontrava e acabei descobrindo porque acabou. Passei o restante daquela tarde imaginando como seria difícil se Emma fosse como senhor Gerard, e me deixasse porque não queria ser mãe. Decerto que um estranho aperto no peito surgiu só de lembrar de minha esposa pegando suas coisas e indo embora naquela vez em que eu adotei Pongo e menti para ela, mas nada devia se comparar a dor que a dona da emissora estava sentindo. Acabei chegando à conclusão de que se Emma me ama de verdade, ela não será capaz de me deixar como Gerard fez com Maleficent. Nossos desejos são parecidos mas, por muita sorte, meu caso com minha mulher vai além de ter filhos. Antes de tudo nos amamos muito, e eu creio que foi isso que minha chefe não percebeu, seu marido provavelmente não a amava tanto como devia dizer.

O fato de Emma ter um tempo para passar em casa agora com a metade da primeira temporada da série encaminhada, me deixa mais contente, mas estamos com um problema chamado preguiça nesses primeiros dias. Isso, na verdade, sempre acontece quando uma entra de férias antes da outra. Quase todos os dias quando chego em casa, pego Emma cochilando no sofá, ou na espreguiçadeira que fica perto da piscina e já é a quarta vez em duas semanas que minha esposa queima o jantar que preparava para mim antes de cair no sono enquanto esperava ficar pronto. Tirando esse detalhe, que é bem pouca coisa a se comparar com os dias de tormenta que vivíamos há um ano, está sendo muito engraçado acordar minha bela adormecida com um beijo todos os dias ao chegar em casa. Até Pongo parece colaborar, ele já não late quando me vê abrindo a porta, apenas se arrasta no tapete e abana seu rabo como se pudesse dizer para que eu tome cuidado e não faça barulho pois posso despertar a outra dona dele.

Hoje não foi diferente, cheguei em casa com a pasta na mão, ciente de que Emma estava ressonando no sofá. A vi deitada, exatamente como imaginava, com uma revista sobre as mãos repousadas na barriga, o corpo largado entre as almofadas e a boca entreaberta.

Me aproximei do sofá, fazendo um sinal de silêncio para Pongo e ajoelhei, tocando no rosto de Emma pelo lado, tirando o cabelo dela do caminho. Beijei a pontinha de seu nariz e seu queixo. Emma sentiu de repente e se mexeu.

— Hum... — resmungou ela, abrindo os olhos devagar após virar o rosto para mim.

— Se você não fechar essa boquinha linda, uma mosca vai entrar nela. — comentei, beijando o restante de seu rosto.

— Eu dormi de novo, não era para isso ter acontecido.

— Dormiu e estava muito linda.

— Tenho que parar de fazer isso. — Emma bocejou. Tocou meu rosto.

— É compreensível, você está cansada, a rotina na TV é diferente da rotina no cinema. Precisa de uns dias de repouso.

— Sim, e quando eu me acostumar com o repouso, eu volto para o trabalho. As gravações retornam na segunda semana de janeiro.

Enquanto ela me contava isso, pensei que teria tempo o suficiente para viajarmos juntas, quinze dias. Eu estava prestes a comprar as passagens, só faltava me decidir para onde iríamos.

— Mas você não parece desanimada com o seriado. — comentei, a olhando bem de perto, ainda ajoelhada ali ao lado.

— Não mesmo. Eu tenho me divertido com as gravações, apesar de cansativas. Tem horas que queria voltar para o cinema, mas essa personagem está me dando muita liberdade, talvez seja a personagem que compus mais rápido até hoje. — Emma deu um novo bocejo após falar.

— Eu tenho uma leve suspeita do porquê de estar adorando a personagem. No fundo, ela é você. É como se você não estivesse atuando, meu amor.

Emma, se ajeitou e me olhou fazendo um bico, uma daquelas caras dela que me diziam que eu estava certa.

— Até as falas parecem coisas que eu falo.

— Exatamente. Venho percebendo isso a cada novo episódio.

Emma sorriu corada, com seus olhos cheios de brilho.

— Quer saber? Sinto falta do Roland, o menino que atua comigo. — ela contou.

— Eu posso imaginar. Ele é muito lindo.

— A gente se dá muito bem. Se ele fosse um órfão lá do convento eu juro que traria ele para casa mesmo que você não quisesse. — Pela primeira vez, minha mulher falou sobre isso sem receios.

Com absoluta certeza, não pude deixar de lembrar do sonho que tive há algumas semanas, quando vi Roland sendo nosso filho adotivo e aprontando muito comigo. Com tantas coisas na cabeça, me esqueci de contar a Emma sobre esse fato cômico. Já estava passando da hora.

— Você promete não rir de uma coisa que vou contar?

— Claro. O que é? — Emma cruzou os braços, curiosa.

— Faz algumas semanas, eu sonhei com você e esse menino.

— Como assim?

— Sonhei com vocês, que nós éramos uma família. Ele era nosso filho no sonho.

— Como é que é? — Emma se sentou no sofá para ouvir aquilo.

— É, ele era nosso filho no sonho. Começou comigo escrevendo alguma coisa no notebook, aqui no sofá quando vocês chegaram. Vocês tinham levado Pongo para passear e chegaram imundos. Levaram ele lá para o quintal e começaram a mexer com a água, foi uma loucura! — contei a ela toda a confusão que sonhei e Emma não cumpriu sua promessa, começou a rir com a história toda. Gargalhava tanto que ficou até sem fôlego. — Você prometeu que não ia rir.

— Me desculpa, Regina, é que foi muito engraçado imaginar o garoto derrubando você na piscina. Eu só consigo pensar na sua cara se afogando. — ela continuava rindo.

— Pare! Então você gosta de imaginar sua esposa morrendo afogada? — dei um tapinha no ombro dela.

— Não, lógico que não, mas não consigo parar de pensar em você caindo na água...

Emma continuou rindo da minha cara e eu não estava achando tanta graça assim. Então fui maldosa(na verdade, não tanto)e levantei sua camiseta para morder sua barriga, o que a fez dar uma gargalhada ainda mais alta e sofrer para conseguir parar de rir depois. A barriga de Emma era um de seus pontos fracos e, eu, é claro, me aproveitei da situação para enchê-la de cócegas. Esse era meu castigo por Emma ter zombado de mim, e acabou que no final quem estava dando gargalhadas era eu, vendo minha mulher se contorcer e quase me bater para parar de rir.

Depois disso, lembrei que devíamos ligar para nossas famílias para confirmar se poderiam vir para o natal. Emma teve uma conversa longa com sua mãe pela internet via Webcam, e minha sogra disse que chegaria dois dias antes do natal. Já eu, liguei para papai e Zelena em Portland e eles me disseram que dependiam apenas de alguns afazeres na firma de advocacia para virem. Sendo assim, nosso natal estava programado e teríamos nossas famílias juntas em casa pela primeira vez em sete anos morando nela.

No final da noite, quando eu abusava um pouquinho de Emma na nossa cama, só com a luz do abajur ligada, fiquei olhando nossas alianças nos dedos, enquanto brincávamos com as mãos. Nós fazíamos muito isso na época de namoro e esse habito está voltando, o que eu acho muito bom. Aquela sensação boba de frio na barriga ao olhar para ela, deitada sobre os meus seios é a coisa mais maravilhosa que pode me acontecer. Para completar, Emma estava especialmente romântica hoje e resolveu se declarar antes que o silêncio começasse a zumbir nos nossos ouvidos.

— Você está tão bonita hoje. — disse ela, parando a brincadeira com os dedos para me observar melhor.

—Você acha? Ah, meu amor, eu tomei banho, tirei toda a maquiagem, estou de cara lavada, um pouquinho cansada. Não sei como consegue me achar tão bonita.

— Mas eu acho sim e eu devia falar isso todos os dias. Eu sei que ando ausente, que não fui a melhor esposa que eu poderia ser nos últimos tempos, mas eu te amo. É como se eu pudesse voltar no tempo e ver aquela Regina que eu conheci na boate. Linda.

— A Regina pela qual você se apaixonou. — disse, enquanto Emma se ajeitava melhor sobre mim.

— Sabe de uma coisa? Quando te vi pela primeira vez eu tive certeza de que ficaríamos juntas. Uma coisa inexplicável. Uma vontade absurda de tocá-la e dizer que eu já te amava naquele momento.

Sorri. Devo ter corado levemente porque quem costuma se lembrar desses momentos sou eu. Simplesmente amo quando Emma se recorda de algo comigo. Isso mostra que nosso relacionamento está muito vivo na memória dela e que o que fazíamos nos velhos tempos tem chances de voltar a acontecer.

— Nós ficamos juntas e foi melhor do que você imaginava. Se lembra do que fizemos em um mês? Os beijos no parque debaixo daquela árvore, o jantar com aquele peixe que você fez para me conquistar pelo estômago...

— A chuva, você voltando ensopada e a nossa primeira vez... — ela falou, mordendo os lábios animada.

— Depois você me levando para dançar, eu querendo namorar você, o passeio de moto, você me chamando para morarmos juntas...

— Muita coisa. — Emma aproximou seus lábios dos meus. — Eu amo você, Regina.

— Eu também. — disse, sem resistir ao beijo que ela me deu.

Afastei seus cabelos para o lado e prossegui na boca dela, sentindo seu hálito de menta por conta da pasta de dente que usávamos.

De repente, Emma interrompeu o beijo e me fitou, novamente curiosa como quando contei do sonho a ela mais cedo.

— Você não me disse o que achou de ser mãe no sonho que teve.

Engoli em seco e senti meu coração até disparar nesse momento. Sei que era bobagem me sentir nervosa, só que eu não sabia como explicar a Emma como me senti.

— Não sei exatamente como dizer a você como foi isso.

— Por que não?

— Ah, estranho... Diferente, acho que é assim que me senti, diferente. Mas não quer dizer que eu odiei. — tentei explicar. — Eu fiquei assustada com o que o garoto fez, mas ele era uma gracinha também. Se um dia eu for mãe de um menino como ele, eu tenho que me preparar.

Para minha surpresa, Emma sorriu e apertou meu queixo entre seus dedos.

— Tá vendo como não é um bicho de sete cabeças?

Fiz que sim e encerrei o assunto selando sua boca e a derrubando para o lado.

Era melhor não falarmos tanto sobre aquilo pois no dia seguinte tínhamos combinado de ir ao orfanato para a última visita do ano às crianças, e Emma poderia se empolgar e sequestrar uma para passar o natal conosco.

No dia seguinte, na MBC, após passar uma longa tarde noticiando tudo sobre as festas de final de ano que se aproximavam e cobrindo os plantões que aconteciam por conta dos transtornos que a neve andava causando em algumas cidades, me despedi do público no último boletim de notícias e finalmente me levantei da bancada onde estava sentada desde uma da tarde em ponto. Juntei os papéis que estavam por ali, peguei minha caneta e a enfiei na gola do blazer me virando para deixar o estúdio, quando percebi que alguém diferente estava me olhando de braços cruzados da porta principal.

Ela estava elegante, com um terninho cor de pérola, maquiagem bem feita no rosto e seus cabelos visivelmente sedosos caídos para o lado direto no ombro. Sorriu discreta quando percebi que era alguém tão importante me assistindo.

— Oi. A senhora está assistindo o jornal há muito tempo?

— Não, cheguei tem dez minutos. Fico contente em ver você aqui ainda. Vim me despedir. — disse Maleficent.

— A senhora vai embora?!

— Não. Não daqui, evidentemente que não, mas estou saindo de férias até as festas terminarem. Vim também para agradecê-la, fiquei com vontade de ir viajar depois que você falou que tiraria uns dias. Acho que é disso que preciso, sair um pouco, relaxar e espairecer.

— Poxa, que ótimo. — respondi, contente por ela.

— Obrigada. Me lembrei de você quando vi uma dessas revistas de fofocas que sempre estão em evidência nas bancas de jornal, acho que falavam algo de você e Emma, tinha uma foto na capa, não prestei muita atenção.

— Ah, essas revistas... Eles não cansam de inventar histórias. — abaixei a cabeça e a olhei de volta, ainda tímida.

— Quando não inventam, exageram nas informações.

— Pois é. Desculpa perguntar, mas para onde a senhora vai?

Maleficent sorriu de forma diferente dessa vez.

— Eu vou para a Itália, minha família é de lá. — ela falou como se eu fosse uma grande amiga, senti certa liberdade. — Eu achei melhor ir passar esse final de ano com minha família. São as únicas pessoas que tenho e eles não ficam me fazendo perguntas sobre meu ex-marido. E, Regina, não precisa me chamar de senhora, para você, apenas Maleficent.

Sorri, tentando ser simpática.

— Oh, tudo bem, Maleficent. Desculpa, é que você é a dona da emissora, e...

— E uma pessoa normal como você. Eu sei que aqui nos estúdios o pessoal me apelidou de A Toda Poderosa, e quer saber? Eu adorei.

Ela riu descontraída e eu embarquei junto na graça.

Maleficent é uma mulher muito legal se pararmos para pensar. Muito diferente daquela mulher que me diziam ser, autoritária e maquiavélica. Só é um pouco formal demais porém, isso, é algo dela que não se pode tirar pelo o que eu vejo. Se ela não tivesse que ir embora para fazer suas malas, nós ficaríamos conversando ali por horas.

— Eu devo ir para casa, vou arrumar as malas ainda. Foi bom vê-la de novo, Regina. Desejo que você e Emma tenham uma ótima viagem. Feliz Natal e Ano Novo. — ela disse, estendendo sua mão.

Apertei seus dedos e sorri, assentindo.

— Obrigada, eu desejo o mesmo para você, Maleficent. Aproveita muito o tempo com a sua família. Um dia eu ainda vou conhecer a Itália mais afundo, só estive lá uma vez e foi quando pequena com meu pai em Turim.

— Minha família é de Parlermo, mas temos muitos amigos em Turim, quem sabe um dia eu não as leve para conhecer esses lugares, será um prazer.

— Com toda certeza.

Ela se despediu de mim e de alguns outros funcionários, e se foi. Me senti feliz por Maleficent querer espairecer longe dos Estados Unidos, com sua família por perto. Provavelmente era disso que ela precisava, ares diferentes para retomar sua vida agora que é divorciada.



Emma foi me buscar na emissora no final da tarde e fomos para o orfanato, como prometido. Na verdade, não tínhamos agendado mais visitas nesse ano e a festa que deram para nós seria a última visita, mas Emma prometeu voltar alguns dias antes do natal para as crianças e ela odiava decepcionar os pequenos com falsas promessas. Concordei em ir com ela, mas eu não queria demorar muito.

As crianças estavam tendo aula de música quando chegamos. Imagine a algazarra que foi quando eles nos viram. Isso me deixou contente e com um típico sorriso bobo na cara que Emma notou. De qualquer forma, a alegria das crianças não era a mesma que a de algumas freiras que serviam o convento. Sabíamos que algumas eram contra meu relacionamento com Emma por conta de preconceito, contudo, eu já havia me acostumado com os olhares tortos que recebíamos delas. Pelo menos, a senhorita Blue nos tratava muito bem, e percebíamos que não era apenas pelas doações e tempo que gastávamos com as crianças.

Assim que a aula de música acabou, as crianças correram para falar com Emma e ela teve paciência com cada uma. Levou chapéus de Papai Noel em uma sacola e distribuiu, dizendo a elas que era seu último presente. Outras crianças que eram mais simpáticas comigo me deram “oi”, só que não ficaram muito tempo por perto por estarem mais interessadas na conversa de Swan.

Eu esperava Emma terminar de se despedir das crianças quando ao meu lado, a senhorita Blue apareceu de súbito.

— Você ainda é um bocado tímida com eles.

— Eu não tenho jeito com crianças ainda. — falei para ela.

— Não tem, mas pode aprender. — ela tocou no meu ombro e apontou. — Ele melhorou, faz uma semana que voltou para cá e está reagindo um pouco melhor, mesmo assim tem dificuldades. — Ela me mostrou Henry dentro da sala de música, sozinho, arrumando os instrumentos musicais que a turma tinha usado na aula.

— Que bom que ele voltou.

— É, e sabe quem ele me lembra muito às vezes? Você, Regina. Quieto, tímido, mas muito doce quando quer. Posso pedir um favor a você?

— Sim. — falei a olhando de imediato.

— Convença ele a fazer amigos aqui. É disso que ele precisa.

Olhei para ela intrigada. Mas confesso que senti mesmo vontade de entrar na sala e falar com ele. Se havia uma coisa que me incomodava profundamente era a solidão desse menino.

Com o empurrãozinho de Blue, entrei na sala de música e quando dei por mim, eu estava ao lado dele. Demorei a me aproximar, mas fui. Quando Henry se virou para pegar o restante das flautas doce que estavam em uma caixa que faltavam em cima da mesa, eu as entreguei em suas mãos. O menino tomou um susto.

— Quem é você?

— Oi. — disse eu. — Sou Regina.

Ele ficou me encarando por um longo minuto até que me reconheceu.

— Regina? Aquela do jornal?

— Sim, ela mesma. Sou eu. E você é o Henry.

— Como sabe o meu nome?

— Eu sei tudo sobre você desde que chegou aqui.

Ele ficou espantado. Derrubou as flautas que segurava, no chão, agachando para pegá-las rapidamente. Eu o ajudei.

— Você é adivinha? Alguma bruxa, ou coisa do tipo?

— Não. Eu só perguntei para a senhorita Blue e ela me contou. — Olhei para a porta, mas Blue já havia saído de lá.

— Ah, por isso sabe meu nome.

— Eu sei. Henry, você está gostando de viver aqui no orfanato? — fiz a pergunta olhando bem para ele. Era um garoto muito bonitinho. Os cabelos eram castanhos, os olhos esverdeados que naquele momento estavam mais claros por conta do sol batendo no rosto dele de leve. Era pálido mas suas bochechas rosadas davam vontade de apertá-las e não soltar mais. Foi a primeira vez em anos que senti vontade de apertar uma criança e não soltá-la mais.

— Ah, já entendi. — ele virou a cara, desconfiado. — Você está fazendo uma reportagem.

— Não, eu não estou fazendo uma reportagem. Eu sempre venho aqui no orfanato, eu sempre vi você, mas você não me via, então ainda não tínhamos sido apresentados.

Ele assentiu.

— Então tá bom. Foi um prazer conhecê-la. — disse, ríspido, mas se arrependeu e voltou a me olhar. — Desculpa. Você disse que vem sempre aqui?

— Sempre.

— Hum... E por que vem aqui sempre?

— Eu comecei a vir para contar histórias para seus colegas, não consegui parar de vir até hoje. Nem eu, nem Emma.

Mostrei a ele Emma pela janela. Ele a viu e franziu o cenho.

— Um dia minha mãe comprou uma revista que tinha aquela mulher na capa. Se não era ela, se parecia muito.

— Com certeza era ela. Emma é atriz, nós duas somos casadas.

Henry voltou-se para mim. Achei que iria me perguntar sobre sermos casadas, mas ele ficou quieto. Acho que deve ter se sentido triste por ter falado de sua mãe.

— O que houve? — perguntei.

— Nada. — desconversou ele, voltando a arrumar o que estava arrumando antes.

Passei alguns segundos o observando. Como era de se esperar, Henry ainda se sentia muito triste pela perda dos pais e qualquer lembrança que tivesse o faria sofrer. Procurei desesperadamente por alguma palavra que pudesse ajuda-lo ou que consertasse aquele momento.

Me agachei, ficando quase que da altura dele e um pouco trêmula toquei em seu braço. Ele me olhou de novo, sem entender.

— Henry... Eu sei que o que aconteceu foi muito doloroso, mas seus pais sempre vão estar vivos enquanto você se lembrar deles com carinho. — senti minha voz embargar. Lembrei de minha mãe e de como ela morreu também. Nisso, Henry e eu éramos semelhantes.

O garoto baixou seus olhos, tentou continuar o que estava fazendo, só que voltou a derrubar todas as flautas no chão. Ele começou a chorar. Escondeu seu rosto no braço, limpando as lágrimas que escorriam pelas bochechas volumosas. Ver aquilo partiu meu coração.

Eu senti um medo absurdo de tocá-lo nesse instante, mas eu sabia que devia, eu sabia desesperadamente que precisava fazer isso. Tirei seu braço do rosto e dei a ele um lenço que sempre levava no bolso da minha roupa de trabalho. Enxuguei cada lágrima que descia, com toda paciência do mundo, lutando para não chorar também vendo aquela criança sofrendo. Henry começou a soluçar, então, abracei ele. Sem jeito, era verdade.

Aos poucos ele também me abraçou e ficamos unidos por vários minutos. Eu deixei que ele ficasse ali o tempo que quisesse comigo.

Quando Henry parou de chorar, ele me olhou nos olhos e não me disse nada. Apenas se soltou de mim e saiu correndo da sala, sem mais, nem menos.

Demorei a procurar Emma para irmos embora, contudo, naquele momento que tive com Henry, eu não soube, mas minha mulher tinha visto tudo da janela.

Notas finais
O primeiro contato de Regina com uma criança aconteceu finalmente, mas vocês acham que ela estará disposta a agir assim com o garoto sempre? Deixem suas opiniões. Um beijo pra todo mundo que comentou e passou por aqui lendo no último capítulo. Logo, logo tem mais, até lá.