Não apenas um bromânce
21 Suplício
Notas iniciais
Só nos curamos de um sofrimento depois de o haver suportado até ao fim.
(Marcel Proust)
Foi rápido. Quando notei Demolidor já havia atacado Senhor Medo e eles começaram a lutar. Abutre abriu suas asas, que eram um pouco diferentes das que ele usava antes, essas pareciam mais tecnológicas ainda e nenhum traço verde podia ser visto, só cinza. Ele então foi em direção a Deadpool, que puxou suas katanas das costas e disse algo, talvez uma frase engraçada, porém não escutei.
Harry e eu hesitamos por um momento, ele pareceu me avaliar e depois apenas um olhar insano e um sorriso doentio tomaram conta do seu rosto. Ele estava pior do que a última vez que havíamos nos encontrado. Seu rosto continuava parecendo machucado e os traços animalescos e dementes também permaneciam lá. Era dolorido de se ver, era dolorido de se lembrar.
Mas ele logo veio em minha direção, seu traje e seu planador eram iguais de como eu me lembrava, apesar de ter quase certeza de haviam sido restaurados e aprimorados.
Joguei minha teia no prédio a minha direta, desviando de sua investida. Mas eu estava atordoado. Não, eu não estava pronto para isso. Eu sentia todas as lembranças daquela noite atacando meu cérebro sem descanso. Meu coração estava batendo tão rápido que eu sentia que iria passar mal. Porém eu não podia, tinha que terminar isso de uma vez por todas.
Antes de um pequeno explosivo atingir meu rosto, consegui desviar, jogando minha teia para o prédio ao lado. Mas não havia sido tão ágil. A explosão atingiu a parede de concreto que eu estava antes e jogou pedaços para todos os lados, alguns me acertando de raspão. Fora uma pequena explosão, mas ainda sim havia causado um estouro e um estrago grandes o suficiente para serem notados.
Analisei ao meu redor e vi do outro lado da rua um grande estacionamento, aparentemente fechado. Alguns carros perdidos estavam lá, mas era o mais deserto que eu podia encontrar no momento.
Sem pensar muito, joguei minha teia em um poste de luz e com um impulso, pulei o mais perto que consegui do estacionamento, dando uma pequena cambalhota no chão para diminuir o impacto. Já de pé, corri para o estacionamento e meu sentido aranha me alertou quando Harry jogou outro explosivo ao meu lado. Desviei dele e o vi explodir no chão, abrindo um pequeno buraco.
Respirei fundo e virei, já apontando o meu braço esquerdo em direção a Harry, para jogar uma teia em sua direção. Mas não consegui. Eu simplesmente travei.
Gwen.
O tanto que eu tentara evitar as lembranças voltava agora, com o máximo de força possível.
Eu lembrava das peças do relógio ao meu redor e lembrava de Gwen. O quanto fora inútil minha tentativa de salvá-la. E eu sei que não fui o único culpado. Harry havia feito isso, e agora estava ali de novo, como um perpétua castigo e fardo que eu tinha que carregar.
Mas ele não parecia afetado por isso, parecia fora de si. Ele não era mais Harry Osborn.
Apenas voltei minha atenção para luta quando senti um forte aperto em meu pescoço e o ar escapando pelos meus pulmões. Então eu estava a alguns centímetros do chão, cara a cara com Harry.
― Sentiu saudades? ― sua voz alterada era agoniante e o seu sorriso sádico repulsivo.
Não respondi nada. Não tinha nada que eu pudesse falar. E nem mesmo conseguia, o aperto da sua mão em meu pescoço era extremamente forte. Quando nos aproximamos de um prédio e começamos a subir mais, usei meu braço esquerdo para grudar uma teia em uma das janelas e agarrei com força.
Isso fez com que Harry estagnasse e eu ficasse entre ele e o prédio. Segurei seu braço que estava em meu pescoço com a mão direta e com toda a força que eu possuía, chutei sua barriga.
Harry arfou, mas não me soltou, então rapidamente repeti o movimento, com mais força. Dessa vez ele foi para trás e me soltou. Meu corpo foi com força de encontro a parede do edifício e depois o chão.
Dei um gemido baixo e olhei ao meu redor. Deadpool se encontrava em cima das asas de Abutre, parecendo não estar com muita dificuldade, apenas se divertindo com a irritação de Toomes. Já Demolidor mantinha uma luta acirrada com Senhor Medo. Ele desferia golpes precisos e insistentes no homem de capuz, mas o mesmo parecia ter uma armadura e o atacava com seu gás, o que eu sei bem o que fazia. Deixava a pessoa assustada, angustiada e sufocada. Demolidor parecia brigar duramente com esses efeitos.
Logo minha atenção voltou para Harry, que já vinha rápido em minha direção. Olhei ao meu lado e notei há alguns centímetros um poste de luz quebrado. Levantei e lancei uma teia em sua direção, ficando por cima dele e no segundo seguinte já pulei no planador de Harry, que havia me seguido.
Com o corpo rente ao seu, grudei uma teia em seu peito e joguei uma teia no edifício em suas costas, o mesmo que eu batera antes, e senti quando o planador travou mais uma vez. Estávamos a poucos centímetros do chão, e eu gostaria que essa distância não aumentasse. Puxei com força a teia na minha mão direita, ao mesmo tempo em que empurrava Harry com a outra. Isso tudo aconteceu em poucos segundos.
Todavia, ele permaneceu indo de encontro a minha força. Logo em seguida puxou um punhal de sua roupa e cravou com força na lateral esquerda do meu corpo. Arfei e fechei os olhos. A dor ela lancinante.
Mordendo meu lábio inferior com força, abri os olhos e puxei a teia do prédio, enroscando rapidamente em seu pescoço. Apertei ali com todo o vigor que eu tinha, usando cada célula do meu corpo para isso. Harry rapidamente foi perdendo o ar e demonstrando em seu rosto o aperto que eu estava fazendo.
E isso tudo era tão familiar.
Era impossível que estivesse acontecendo tudo de novo. Uma vez já fora o suficiente, eu não queria mais daquilo. Senti as lágrimas brotarem nos meus olhos. O aperto do punhal na lateral do meu corpo foi diminuindo e o meu sobre Harry Também.
Eu não queria mais brigar. Eu estava machucado demais, e não machucado fisicamente.
Eu estava destruído mentalmente.
Com a minha mão esquerda puxei para fora o punhal do meu corpo, sentindo um pouco de sangue já sair. Dei um gemido. O punhal caiu no chão e Harry parecia prestes a desmaiar.
Baixei meu braço e deixei o outro com pouco pressão na teia envolta do pescoço de Harry.
Aquilo não ia levar a lugar algum, não era para isso estar acontecendo. Não era para ele ter voltado. Não era para ele ter se tornado isso.
Mas então eu senti um novo aperto no pescoço e então fui puxado para cima. Aconteceu tão rápido que quando abri meu olhos de novo foi quando senti meu corpo caindo e logo batendo no concreto.
Eu estava sem máscara e agora em cima do prédio que havia ali. Olhei para cima e Harry me olhava com um sorriso de desdém. Seus olhos passaram para a minha máscara em sua mão. Seu sorriso aumento e logo depois ele jogou a máscara prédio a baixo.
Talvez eu devesse me importar com isso, mas não o fiz. Permaneci encarando o homem em cima do planador.
Por que ele estava fazendo isso?
Eu queria apenar gritar para que ele parasse, gritar para que voltasse ao normal e que reparasse os erros que havia feito.
Queria que trouxesse Gwen de volta.
Eu queria poder sentir que uma parte de mim não havia morrido.
― Por que, Harry? ― questionei o olhando. Isso pareceu irritá-lo. Seu sorriso mordaz desapareceu e em um piscar de olhos ele me pegou pelo pescoço de novo e me deixou pairando a sua frente, já sem o prédio abaixo de mim.
― Eu já falei que não existe mais Harry Orborn! ― ele falou e seus olhos mostravam o quão descontrolado ele estava. ― HARRY ESTÁ MORTO! ― seu grito fora alto e eu fechei os olhos. ― Assim como Gwen Stacy.
Abri meus olhos e o fitei horrorizado. Ele havia dito.
Ele me encarava agora de perto, o sorriso voltando a surgir.
― Como se sente sabendo que Gwen está morta? Como se sente sabendo que ela nunca vai realizar nenhum dos seus sonhos? ― Apertei meus olhos e mordi minha boca com força. Eu não quero ouvir, eu não quero ouvir! ― Como se sente sabendo que seus planinhos de serem felizes para sempre foram arruinados? ARRUINADOS POR VOCÊ!
Você é a minha direção. E você sempre vai ser a minha direção.
Era a minha voz que eu escutava e era nós dois que eu via. Eu e Gwen em cima da ponte no último dia de vida dela. Essa memória que eu tanto trancafiei ressurgiu com detalhes.
Essa é a minha ideia. Inglaterra. Nós dois. Eu vou seguir você agora. Vou seguir você para todos os lugares. Eu vou seguir você pelo resto da minha vida.
― Não! Para! ― quase gritei, porém eu não conseguia, não tinha forças para isso. Apertei seu braço em meu pescoço com as duas mãos, mas não sabia o que queria fazer.
― Você é um dos maiores heróis de Nova York, não é?! Pena que não pode ser o herói dela.
Eu vou seguir você pelo resto da minha vida.
― Você tem essa mania, desapontar as pessoas que te amam.
Eu sentia que ele se referia a ele mesmo. Sabia que Harry nunca me perdoaria por eu não dar o meu sangue a ele. Mas eu sabia que também tinha falhado com ele, o desapontado.
Ele tinha razão, parecia que eu nunca conseguiria ajudar quem eu amava.
Tio Ben era a prova. Gwen era a prova. Harry era a prova.
Mas eu não podia desistir, mesmo que todo o meu corpo e mente implorasse. Porque o que eu disse a Gwen, ainda era verdadeiro. Ela era minha direção e eu sempre a seguiria. E ela tinha esperança.
Não importa o quão ruim fique ou o quão perdido você se sente, me prometa que você terá esperanças. Mantenha-a viva.
Eu ainda podia ouvir com perfeição sua voz, mesmo que não a ouvisse realmente há muito tempo.
Mas ela estava certa, como quase sempre estava. Eu não podia perder as esperanças e me deixar levar. Eu tinha que ser forte. Por ela. Por mim. Por tudo o que eu tenho e tudo o que eu ainda vou viver.
Temos que ser maiores do que o que sofremos.
E eu seria mais uma vez.
Respirei fundo e apertei o braço de Harry com as duas mãos, então fiz o que havia feito antes, mas com mais precisão. Chutei seu corpo de forma brusca e inesperada, fazendo com que nós dois fossemos jogados junto com seu corpo em direção ao prédio.
Eu senti meu corpo puxar o dele para fora do planador e forcei mais ainda, quando ele não conseguiu permanecer em equilíbrio e caiu para frente, senti meus pés arrastarem no concreto. Porém ele não cedeu, agarrou-se ao planador e eu, ao seu braço.
Ele então direcionou-se para frente, indo em direção ao parapeito, não cedi, já urrando com a força que estava fazendo, permaneci agarrando seu braço. Podia visualizar bem a dor que ele estava sentindo, seus dentes estavam apertados um no outro.
Quando estávamos chegando perto do parapeito, joguei meu corpo para o outro lado, porém mantive a força em Harry e o lancei em direção peitoril. O planador bateu em cheio e com força, quebrando metade do concreto.
Continuei meu aperto com as duas mãos no braço de Harry e o suspendi quando o planador caiu, já quebrado ou quase isso.
Segurava o corpo dele com força apoiado no parapeito, se fossemos um pouco para o lado cairíamos devido ao rombo que estava ali. Mas estava difícil de o manter, minhas forças já se esvaiam e o lado esquerdo do meu corpo gritava para parar de ser repuxado.
Olhei para Harry e vi seu olhar confuso e irritado. Mas também triste. Sem entender, vejo quando ele pega mais um dos punhais guardados em sua roupa e arranha o pulso do meu braço esquerdo, bem onde havia um dos meus lançadores. Ele crava ali até chegar a minha pele.
Dou um grito e tiro meu braço de lá, o sustentando apenas com o direito. Olho para o meu lançador quebrado e vejo as teias não totalmente prontas que haviam lá dentro se espalharem e caírem.
Harry se debate e antes que eu possa segurá-lo de novo com minha outra mão, ele escorrega. Não penso duas vezes e lanço uma teia, que se gruda em seu corpo e o sustenta no ar.
E de novo.
As lembranças daquela noite se tornam mais vívidas ainda. Era como se estivesse tudo se repetindo, só com algumas mudanças.
Eu não podia o deixar cair como fiz com Gwen. Não podia.
― Chega, Peter. ― Ouço a voz de Harry e grudo meus olhos nos seus, e ele era o Harry de novo.
Lá no fundo dos seus olhos eu via. O cansaço, a amargura, a angústia.
Ele não sorria mais, estava sério.
― Já deu pra mim ― sua voz era um pouco mais alta que um sussurro, e eu não entendia o que estava acontecendo.
Eu não queria mais brigar e ele parecia que também já não queria mais. Mas então porque se debater? Por que não me deixar ajudá-lo?
― Harry...
Ele não ficou irritado por eu chamá-lo assim, então tive certeza que ele estava consciente. Pelo menos por aqueles segundos. Era Harry.
O garoto rico, mimado e arrogante que havia sido meu melhor amigo. Com quem eu passara anos sem ver, mas que parecia que continuávamos os mesmos. O garoto que estava perdido e por mais que batesse de frente com seu pai, tudo o que sempre quis foi mais amor.
Eu sentia falta dele, e sentia raiva pelo que havia feito. Mas eu daria tudo para tê-lo de volta.
Mas não era ajuda que ele parecia querer. Ele já não aparentava ter esperança.
― Sinto muito ― sussurrou olhando fundo nos meus olhos e então, rápido e preciso, cortou a teia que o sustentava com o punhal em sua mão. A lâmina era fiada e fora projetada especialmente para cortar minhas teias. Então foi fácil.
No minuto seguinte o seu corpo ia de encontro ao chão. Por instinto joguei meu outro braço em sua direção, mas não saiu nada, então lembrei que ele o havia quebrado.
― Não! ― gritei e desesperadamente acionei o dispositivo da minha mão direita. Mas era tarde.
Quando vi que não o alcançaria, me joguei para trás, caindo sentado no prédio.
Eu não conseguia me mexer, apenas tremia.
Harry morreu.
Harry morreu.
Harry morreu.
Assim como Gwen…
As lágrimas saiam desenfreadas pelos meus olhos, mas eu não conseguia fazer nada.
Eu apenas via e revia o corpo de Gwen caindo e imaginava o de Harry também.
Senti uma dor mais forte na lateral do meu corpo e meu coração batendo de forma rápida e dolorida, ao mesmo tempo em que via Deadpool se ajoelhando na minha frente.
Olhei para ele desesperado.
Ele se jogou! Eu não consegui segurá-lo, eu não pude! Ele não queria!
Mas não conseguia falar. Queria que ele pudesse ver em meus olhos, e acho que podia. Ele pegou meu rosto com suas mãos e agora parecia falar comigo. Mas eu ainda não conseguia falar.
Eu não consegui salvá-la...
E então tudo se tornou negro. Fui puxado para uma escuridão repentina. Mas antes de não sentir mais nada, mais uma lembrança veio e rapidamente se foi. Era eu e Harry nos abraçando. E toda a dor foi substituída por um momento de tranquilidade antes do inconsciente.
Em um certo momento da vida, não é a esperança a última a morrer, mas a morte é a última esperança.
(Leonardo Sciascia)

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