Não Me Chame Pelo Meu Nome
3 Capítulo Dois
Notas iniciais
— Bakugou, pode me ajudar aqui?
A pergunta o fez estremecer com a irritação, porém, não exatamente pelo pedido. Bakugou andou pelos escombros do prédio desabado com cautela, mantendo a pose séria ao se aproximar de Deku. Seu nome fora chamado outra vez enquanto o outro levantava uma grande parede, e a mesma sensação o fez juntar as sobrancelhas enquanto retirava uma pequena garota do buraco.
Ela o abraçou com força enquanto chorava, e o herói focou apenas em sua responsabilidade daquele momento. A garota foi levada até uma ambulância, e Bakugou pôde respirar com tranquilidade quando foi informado de que os ferimentos milagrosamente eram leves.
— Muito bem, Bakugou — um herói veterano bateu levemente em seu ombro enquanto o elogiava, e a sensação que fazia o seu corpo estremecer não veio com seu nome, fazendo-o juntar as sobrancelhas novamente.
Ele sabia que o motivo de se sentir daquela forma era o jeito diferente de Deku, mas ainda custava a admitir que realmente se importava com isso. As leves irritações voltaram a ser constantes com os chamados por seu nome, mas ele escondeu as alterações com longos silêncios. Não havia como reclamar de nada enquanto Deku só o tratava como todos os outros, e sua irritação poderia trazer grandes problemas desta vez.
Bakugou, Bakugou. Ele bufou enquanto o olhava seguir em sua frente no caminho de volta para a empresa. Por que diabos deu para me chamar assim depois de tanto tempo, caralho?
No passado, ele se enraivecia com o apelido que o perseguia desde a infância, porém, Deku era tão insistente no chamado íntimo e infantil, que acabou se acostumando com aquilo, e era estranho demais ouvi-lo tão formal depois de todos aqueles anos o rodeando enquanto sua voz irritante só sabia dizer “Kacchan”. Aquilo o irritava, mas não tanto quanto a mudança repentina de comportamento.
Ele passou a semana inteira se sentindo estranho sempre que olhava nos olhos verdes, e em seguida o ouvia chamá-lo. Era uma irritação diferente, do tipo que ainda não sabia nomear, mas pretendia acabar logo com aquilo.
Bakugou planejou descobrir o motivo da mudança de Deku na semana seguinte. Ele passou a observá-lo mais atentamente — o que evitava fazer há anos. O modo do herói falar e agir ainda eram os mesmo com os outros, e até mesmo consigo, porém, havia o maldito sobrenome.
Ele decidiu não apenas observar quando a terceira semana já o estava deixando no limite. Os almoços sempre eram feitos sozinho e em sua sala, porém, nas últimas semanas, Bakugou havia trocado o conforto de sua cadeira, para o cômodo em que os outros heróis se reuniam em suas pausas. Ele passou a se sentar na mesma mesa de Deku na segunda, recebendo olhares surpresos e totalmente esperados.
— Eu ouvi que temos uma missão de reconhecimento hoje à noite, Bakugou — Deku comentou enquanto mexia na comida com os hashis. Ele parecia mais animado naquela semana, o que o deixou ainda mais curioso.
— Eu não ouvi sobre isso. Onde vai ser? — Bakugou respondeu normalmente, enquanto dava atenção ao seu próprio prato.
O súbito silêncio o fez levantar o olhar, e os olhos brilhantes e emocionados de Deku o agitaram internamente. O olhar desviou para a comida novamente, porém, nada era realmente visto pelo herói, que precisou de longos minutos para acalmar o coração.
Que porra é essa, Katsuki? Ele se repreendeu, como nas incontáveis vezes em que ficou naquela situação ao lado de Izuku. Bakugou só queria descobrir o que havia de errado com Deku, mas, no fim, havia dado brechas para o que há anos mantinha trancado em seu peito.
Os olhos se estreitaram na comida, enquanto ouvia a voz animada, explicando o local em que iriam, e de alguma maneira, aquilo o irritou ainda mais. Ele pensou em nunca mais tentar aquele tipo de aproximação, que poderia estragar tudo o que vinha construindo até ali, porém, sua curiosidade não tinha limites, e no dia seguinte, já estava ao lado de Izuku, reclamando para ele sobre a cafeteira e aceitando que o outro fizesse o café para ambos naquela tarde.
Havia breves conversas e com nenhuma discussão; raridade para ambos, e Bakugou passou a pensar que talvez aquilo fosse necessário para matar de forma definitiva o que fazia o seu peito se agitar enquanto olhava para Izuku cada dia mais animado e voltando a ser falante e sorridente como quando eram adolescentes. Ele não se importou em desistir e tomar os cafés de Midoriya todos os dias, muito menos em ter algumas missões ao lado de Deku durante a semana, e tardiamente notou a armadilha que vinha montando sozinho e estava prestes a ser preso por sua própria estupidez.
Os dias mais calmos entre ambos o agradava, porém, ser chamado tão formalmente ainda era incômodo. Quando resolveu tirar apenas alguns minutos da tarde para voltar a apenas observá-lo de longe, foi que percebeu que o sentimento em seu peito só estava quieto porque vinha sendo alimentado. E que em breve, estaria grande demais para se conformar em apenas ver os sorrisos puxarem a pele charmosa por conta das sardas que pareciam chamá-lo para serem tocadas.
O coração acelerou de forma discreta, e o herói tentou desviar o olhar imediatamente, mas ele se manteve preso naquela direção ao ver Todoroki se aproximar de Izuku. Eles eram amigos há anos, todos sabiam, mas o desgosto de Bakugou com o outro colega o fazia ignorá-lo na maior parte do tempo. E somente naquele instante, ele realmente reparou em ambos, e o quanto Izuku parecia confortável enquanto falavam. Havia risadas e alguns toques discretos, o que alertou o herói explosivo. Esses malditos são mais próximos do que eu me lembrava.
Deku ainda parecia o mesmo; gentil e atencioso enquanto conversavam, mas os olhares de Todoroki em sua direção fizeram o seu estômago dar voltas, e o café feito por Izuku desceu de maneira forçosa e dolorida por sua garganta. Meio a meio filho da puta!
Os olhos se tornaram sérios enquanto cruzava as pernas e omitia parte de sua face levemente avermelhada com a xícara de café. Izuku estava feliz demais nos últimos dias. Há semanas começara a tratá-lo diferente e então, surgia Todoroki do nada — não tão repentino assim, porém, Bakugou gostava de destacar que o outro havia vindo depois dele —, olhando-o como se Deku o pertencesse.
A xícara foi apertada com força ao juntar as peças que ele mesmo havia construído, e o xingamento desta vez foi externado com um murmúrio descontente. A ideia de que Izuku e Todoroki estavam juntos o fez travar a mandíbula enquanto os olhos praticamente pegavam fogo na direção do “casal”. É por isso que me trata diferente agora? O seu namoradinho tem ciúme de ouvi-lo me chamar daquela forma? Ele bufou ao se levantar. O resto do café fora jogado na pia, assim como a xícara, que acabou quebrando por conta da força exagerada, chamando a atenção de todos para si. É para ter ciúme mesmo, seu filho da puta. Quem você pensa que é para se intrometer deste jeito?
— Bakugou!
A voz que o chamou com preocupação enquanto subia a escada com pressa fez o corpo estremecer. Os olhos furiosos encararam os verdes tão belos, e a raiva que tentava tanto controlar se soltou. Há anos ele não se sentia tão revoltado daquela forma, e o motivo o deixava ainda mais enraivecido. A presença de Todoroki logo atrás fez as mãos suarem enquanto a vontade de usar sua individualidade ali dentro só crescia.
— Vai se foder, Deku — ele aumentou um pouco o tom de voz, logo voltando a subir. A expressão surpresa e chateada do outro foi vista por poucos segundos antes de virar o rosto novamente, mas fora o suficiente para o arrependimento apertar o seu peito com força.
Eu sempre falo assim. Por que essa surpresa toda? Ele tentava afastar o sentimento pesado enquanto repetia as palavras na cabeça.
— Eu deveria saber que essa calmaria toda era só fingimento — a voz de Todoroki fez suas pernas travarem no último degrau. — Você nunca vai mudar, Bakugou. Sempre será esta pessoa ignorante e sem sentimentos.
Os dedos do herói se moveram de forma mecânica, ainda tentando se controlar, porém, as faíscas em suas mãos cresceram aos poucos. Ele fechou os olhos, um pouco antes de se virar totalmente na escada. O sorriso ameaçador se abriu, e Bakugou sentiu que poderia destruir aquele prédio sozinho, tamanha era a raiva que sentia de Todoroki, que já estava em posição para enfrentá-lo, porém, ao brevemente desviar o olhar para o lado, o fogo se apagou, e a raiva foi engolida ao dar as costas novamente, desta vez não parando ao ouvir o chamado preocupado novamente.
A porta se fechou com força, fazendo Deku piscar assustado. Os ombros se curvaram aos poucos, e as palavras de Todoroki, que tentavam amenizar a tristeza que o tomava não foram escutadas. Ele achava que estava progredindo com Bakugou, e mesmo sabendo que aquela aproximação era perigosa para o seu coração, estava extremamente feliz por ser olhado de outra maneira. Porém, todos os seus sentimentos otimistas se quebraram juntamente com aquela xícara na pia, e os olhos que ardiam o fizeram se afastar do toque suave em seu ombro, para procurar um lugar em que pudesse ficar sozinho.
***
Os dias passaram lentos e tediosos. Por um lado era bom não ter tantos perigos nas ruas naquela época do ano, porém, a falta do que fazer só fazia Izuku mergulhar cada vez mais em sua melancolia. Os motivos para Bakugou ficar nervoso tão subitamente nunca fora descoberto, e também não fazia diferença para ele naquele momento, que só queria entender como toda aquela raiva se virou para quem só estava preocupado com seu estado.
Ele pensou e repensou muitas vezes na longa semana, mas nada de concreto o fez fechar aquele assunto interno, e o confundiu ainda mais quando Bakugou voltou a fazer as refeições com os colegas.
Izuku o observou ao longe, trocando algumas palavras com um veterano, e o invejando pela calmaria na conversa. O peito doía ao lembrar que há pouco tempo, aquele lugar ao lado do amigo de infância era seu, mas logo se agitou ao ter os olhos sérios em sua direção.
Deku rapidamente voltou sua atenção para a pia, onde lavava seus hashis, e o coração acelerou na medida em que o corpo esquentava com a aproximação ao seu lado. Bakugou se ocupou com a tarefa de fazer o seu café, e como sempre, seus baixos xingamentos para a máquina foram ouvidos. Izuku segurou um sorriso saudoso, e logo se tornou sério quando o herói se virou para ele.
— Pode me ajudar com esta bosta? — Bakugou perguntou seriamente enquanto tentava se livrar do orgulho que o fazia se arrepiar apenas por estar pedindo um favor.
Deku assentiu devagar, cuidando para não se alegrar por tão pouco e por alguém que não merecia sua ajuda. Ele deveria se desculpar antes de querer o meu café. Não importa se é o Kacchan e que esse é o jeito dele. Midoriya juntou as sobrancelhas enquanto preparava a bebida sem problema algum.
Ele ofereceu o café em silêncio e não esperou por um agradecimento. Se afastou rapidamente, sabendo que Bakugou era orgulhoso demais para desculpas, e ainda mais para agradecimentos. Em todos aqueles anos ele o ouviu se desculpar uma única vez, e por realmente ter passado dos limites com suas explosões. Midoriya achou que tudo mudaria a partir dali, porém, apenas a violência e gritos foram amenizados, e após a maneira desnecessária com que foi tratado, começou a pensar se ele ainda era o mesmo.
Seus pensamentos o entristeceram novamente, porém, nos dias seguintes, Bakugou não deu chances para focar apenas em sua versão do passado. Aos poucos o herói explosivo voltou a se aproximar como antes, fazendo-o pensar se aquele nervosismo todo era por algo pessoal, e trazendo o sentimento tolo de preocupação de volta. Ele sabia que não devia e que não importava os motivos, havia se machucado com as poucas palavras ditas, e Bakugou merecia aprender a lição de que não podia falar o que queria sem receber as consequências, mas, Izuku acabou cedendo.
Ele sentia a falta das conversas que tinham e os olhares exclusivos para si. O peito voltara a se aquecer quando o via entrar na sala pela tarde, e o bobo sorriso se abria quando o via andar em sua direção. Midoriya estava perdido, e tinha total consciência do que trazia para a sua vida ao se permitir sentir daquela forma novamente, porém, ele se fechou para o seu lado racional.
A cada dia, Bakugou falava um pouco mais, ficava mais perto; ás vezes fazendo com que os corpos se esbarrassem de alguma forma. Midoriya tentava se convencer de que aquilo era sinal de que estavam finalmente à vontade na presença um do outro, porém, seu coração acelerado teimava em esperançar outras coisas com os olhares que surgiam algumas vezes, principalmente quando pequenos toques substituíram as esbarradas.
As mãos em seus ombros e braços o faziam se arrepiar levemente, e Izuku nem mesmo conseguia respondê-lo enquanto se sentia entorpecer aos poucos. Os breves olhares se tornaram longos demais, e sem que percebesse, Bakugou era tudo o que pensava — de maneira parecida com que era na adolescência.
Ele tentou se distrair com o trabalho, ou os outros colegas heróis, mas nada tirava os olhos sedutores de sua imaginação. O pensamento de que talvez estivesse se iludindo com aquela pequena aproximação o fez recuar por algum tempo; usando a desculpa de que tinha muito a fazer em sua sala, quando na verdade passava horas sentado na cadeira enquanto suspirava por Bakugou.
Mas Midoriya não conseguiu escapar por muito tempo. Ele desceu para encontrar os heróis, já entediado com o ritmo lento daqueles dias. A ideia era chamar Todoroki e Asui para treinarem juntos, porém, apenas o primeiro herói foi encontrado na sala. O convite estava prestes a ser feito após uma breve conversa com o amigo que sempre lhe dava toda a atenção, porém, as palavras foram interrompidas com um toque em suas costas.
Ele não precisou vê-lo de imediato para saber que quem fez o seu corpo estremecer com a leve caricia foi Bakugou, e o coração se descontrolou quando finalmente pode ver aquele olhar em sua direção.
— Estão nos chamando para uma reunião — Bakugou avisou rapidamente. — Nos querem no centro por algum motivo.
A mão desceu por suas costas enquanto o notificava, fazendo-o tremer com intensidade sentida pelo outro herói, que sorriu discretamente antes de encerrar o toque. Mas a expressão séria logo retornou ao encarar Todoroki, e o desprezo foi claro com o olhar de cima a baixo antes de se afastar enquanto apressava Deku.
— Qual é a desse cara? — Todoroki soou nervoso enquanto encarava as costas largas sumirem pela porta.
O ciúme nos dois homens era claro, mas não foram notados por um Midoriya completamente abobado com a sensação quente que se espalhava pelo seu corpo. A urgência no chamado o impediu de sorrir, porém, um suspiro escapou pelos lábios ao olhar para trás, também vendo Bakugou saindo dali.
— Eu realmente não sei — ele o respondeu em tom baixo, se esquecendo de fazer o convite para o treino ao seguir os passos de Katsuki, e até mesmo de se despedir.
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