Nychtas Aeterna - Entre Deuses e Reis
4 Capítulo III - Parte I: Tempos de Paz: A proposta
Notas iniciais
ENTRE DEUSES E REIS
Capítulo III — Parte I: Tempos de Paz: A proposta
O clima estava tenso no salão real durante aquele tempo. Os dias seguintes ao ataque imperial foram bastante conturbados. Todos aqueles que souberam da suposta retirada tática do exército imperial temiam que houvesse algo maligno por trás de seu ato duvidoso. Várias reuniões com os governantes dos países ligados diretamente a coroa synesthiana foram feitas e diversas interferências militares foram estabelecidas para evitar novas perdas.
—Como podemos evitar um novo ataque imperial nessas condições, majestade? -questionou a presidente de um dos 12 países do continente synesthiano.
—Eu respondo essa pergunta: não podemos. Yohtunheim tem todos os nossos movimentos na palma de suas mãos. Nem nossos guerreiros mais poderosos podem vencer essa guerra!
—Conseguimos nos manter fora do alcance imperial por quase 200 anos, mas ainda assim, nossa barreira não poderá suportar por muito tempo. Até quando sua majestade irá manter a barreira sacrificando sua própria vida?
—O pessimismo de todos nesse salão me deixa contrariado. Você mesmo disse presidente Druyan, conseguimos nos manter fora do alcance imperial por todos esses anos. Estamos longe de vencer essa guerra, mas essa cidade é a prova de que podemos nos manter com todas as nossas forças.
—Está errado, senhor Kohno. -interferiu o rei, chamando a atenção de todos. -mesmo que a grandeza e resistência da cidade coroada de Somnium demonstre nossa resistência, ainda assim não podemos contra atacar. Mesmo com todo o nosso poder, a cada dia que passa o império se torna mais extenso. Não somos páreos contra o seu poderoso maquinário. O que podemos fazer é continuar resistindo até que talvez encontremos uma forma de podermos destruí-los.
—Majestade, veja bem nossa situação. A barreira está longe de ser indestrutível. Nós não resistiremos por muito mais tempo. 200 anos de guerra provam que não estamos em condição de virar o jogo a nosso favor. Já perdemos essa guerra, só não nos entregamos ainda.
—Somnium é a única grande fortaleza do nosso reino. Se esta cidade cair, toda Synesthia cai conosco.
—”Vossa majestade!” -apressadamente, os interrompeu Elwin, uma atitude que foi rapidamente repreendida pelos demais presentes, mas deixaram para o rei julga-lo pelos seus atos- Meu senhor, perdoe-me por interromper esta importantíssima reunião, mas o que tenho a dizer é de extrema urgência.
—Se é tão importante, sou todo ouvidos.
—Majestade, uma mulher que se declara informante de Yohtunheim está em nossos portões. -as palavras do mordomo real chocaram a todos no recinto. -ela disse que tem algo a tratar com vossa majestade e solicita uma audiência pacífica com o senhor.
Aquela era, com certeza, uma atitude ousada do império de Yohtunheim. Aquela informação deixou o rei inconformado, mas talvez devesse averiguar a situação. Afinal, o informante alegou que havia sido requisitada uma audiência pacífica.
—Essa mulher disse possuir algum nome? -questionou o rei ao informante.
—Sim, majestade. Ela diz se chamar Hyesdra Scayne.
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Lucian e Keira caminhavam por todo o palácio. Estavam a caminho do local de treinamento mágico, quando foram interferidos por um dos mensageiros do palácio.
—Sua alteza! Senhor Lucian! — chamou-os a atenção a mulher que se dirigia aos mesmos.
—Por que tanta pressa, Mila? -perguntou Lucian.
—Príncipe Lucian. Senhorita Keira, o rei solicita sua presença no salão real, imediatamente.
—Aconteceu alguma coisa? -questionou a informação a infante, preocupada com a gravidade da situação.
—Aparentemente, um mensageiro de Yohtunheim solicitou uma audiência com sua majestade. Ele pede para que o senhor e a infante embaixadora compareçam em sua presença, com urgência.
—O quê?! Meu pai concordou com isso?! -questionou, já alterado, o príncipe a mensageira a sua frente.
—Lucian!
—Ahn… S-sim, alteza…
O príncipe, ao receber a informação, apressadamente correu até seus aposentos para se vestir adequadamente. Com seus pensamentos conturbados, se dirigiu, juntamente de sua irmã e embaixadora até o salão real, onde se depararam com todos os presidentes e seu pai, no altar real, sob as escadarias em direção ao trono, todos assentados de maneira que demonstrasse autoridade sobre aquela que se apresentaria a eles.
—Majestade. O senhor solicitou nossa presença.
—O senhor realmente pretende ouvir o que essa mulher tem a dizer?! -perguntou, já alterado, o príncipe, demonstrando estar inconformado com a informação.
—Certamente. Precisamos certificar a informação que a mensageira está disposta a nos oferecer. Podemos conseguir a resposta sobre sua retirada abrupta e inexplicada da última batalha, além de que essa informação pode ser algo que venha a ser importante para você, como futuro regente, príncipe Lucian. -respondeu-o o rei.
—O senhor vai deixar o império entrar em nossa cidade?! Se formos expostos, poderão descobrir alguma brecha interna para nos atacar…
—Isso já foi averiguado. Ela será devidamente escoltada até o palácio, além de que, aparentemente, a informante veio completamente desprotegida.
—Uma informante imperial se expondo dessa forma para a nação inimiga? Sem nenhuma guarda? -questionou contrariada a princesa, não acreditando na audácia do império em subestimar a segurança de seu reino.
—Todos aqui estão surpresos com isso, embaixadora. Mas é o que foi confirmado. -respondeu para a mesma o mordomo real.
—Poderíamos saber de quem se trata essa informante? -perguntou o príncipe.
—Sim, trata-se de Hyesdra Scayne. A chanceler de Yohtunheim.
O príncipe e a infante embaixadora se entreolharam confusos. Aquele poderia ser um ato estratégico do império, mas com certeza estavam os desafiando tomando uma atitude tão ousada perante a realeza synesthiana.
—Majestade. A chanceler imperial Hyesdra Scayne de Yohtunheim. -o mordomo anunciou a chegada da informante, e nesse momento, todos no salão entraram em posição. Todos os presidentes se puseram em seus devidos assentos, e os príncipes colocaram-se de pé, em posição de guarda, o príncipe a direita e a infante embaixadora a esquerda do rei, ao final da escadaria.
—Lucian. -chamou a atenção do príncipe o rei, fazendo com que mesmo o encarasse de costas, rapidamente. -Não demonstre fraqueza. Você é a principal fonte de poder de seu reino. Lembre-se disso a cada palavra que essa mulher disser.
O príncipe voltou a sua posição inicial, respirou fundo e ergueu-se, demonstrando superioridade ao mesmo tempo que assumia um olhar frio perante aquela que iria se manifestar a seguir.
O rei fez um sinal, alertando para que abrissem o portão e permitissem a entrada da chanceler que se apresentaria como informante.
E como previsto, ela adentrou o salão real.
—Vossa majestade. Devo dizer que me sinto lisonjeada por receber tal recepção. -disse com certa serenidade, mas esbanjava firmeza e um pouco de sarcasmo em suas palavras. -Sua alteza, Lucian Nyx Synesthia. -se direcionou ao príncipe, mostrando certa reverência. -Senhorita embaixadora. Saudações, caros synesthianos.
A mulher utilizava um vestuário considerado casual mediante a situação. Sendo possuidora de uma coloração de pele escura, cabelos platinados e aparência jovem, utilizava um sobretudo branco que cobria quase todo o seu corpo, acompanhado do broche com o brasão do império de Yohtunheim, e botas de salto alto que ecoavam sons agonizantes ao colidirem com o solo. Andava a passos lentos e firmes em direção a escadaria que levava ao trono synesthiano, mas aparentemente, não estava fazendo um avanço provocativo.
—Então, vejo que julguei corretamente. -pronunciou-se o rei para a mulher diante de si. -será que a audácia de Yohtunheim chegou ao ponto de enviar sua própria chanceler ao jugo de Synesthia, como uma mera mensageira, e sem defesa alguma?
—Ora majestade. Peço para que não me veja como uma ameaça. Permita-me corrigi-lo humildemente, mas eu mesma me ofereci para trazer essa mensagem de meu soberano.
—Sua atitude é, de todo, interessante, chanceler. Prossiga com sua mensagem.
—Vejo que sou bastante conhecida entre os senhores, portanto permitam-me que me apresente. -a mulher falava calmamente e sempre diretamente ao rei. -Hyesdra Scayne. Chanceler e braço direito do imperador Nickranel Yohtunheim. Estou humildemente a seu dispor. -ao dizer essas palavras, curvou-se em reverência ao soberano de Synesthia. -e venho aqui neste dia promissor para trazer uma oferta que julgo que será de seu agrado.
O rei e os demais presentes se prepararam para receber a mensagem vinda da chanceler, na esperança de ser algo, no mínimo, favorável.
—Como o senhor já deve ter percebido, nossa última manobra após a batalha em Altaire não foi uma retirada tática, por assim dizer. Digamos que, poderíamos chamar de… Ato de misericórdia imperial.
Após o que foi dito pela chanceler, vários dos presidentes presentes e até mesmo os príncipes se entreolharam, procurando respostas nos olhares uns dos outros.
—E após muitas reuniões e muito meditarmos nas possibilidades, o conselho imperial decidiu propor a coroa synesthiana... termos de paz.
Aquela afirmação surpreendeu a todos. O império estaria mesmo os propondo a paz?
—Você diz que seu império, após anos de incessantes guerras, veio até nós nos propor a paz? -perguntou o rei, mantendo a compostura.
—Certamente, meu senhor. E com isso, estamos sugerindo uma certa “rendição” de ambos os lados. O império exige apenas um único cumprimento. Para a expansão de nosso poder militar, estamos exigindo a entrega de 50% de seus territórios ao jugo de Yohtunheim, que esperamos poder escolher a dedo, levando em consideração suas ainda inexploradas minas para colheita de matéria prima. Sejamos francos, majestade… nosso império está cada vez mais poderoso, mas até mesmo nosso magitech não é de todo insuperável.
—Hm. Vejo que seu império então tem seus receios, afinal. -afirmou o rei perante a oferta dada pela chanceler, te dando afetá-la de alguma forma.
—Não vejo isso como um receio, majestade. Gosto de encarar como… um capricho. Uma forma de evitar que o pior aconteça, muito antes da possibilidade de perdermos o que conquistamos em todos esses séculos.
Dado o tempo em que ocorria aquele diálogo, o rei teve de admitir. A capacidade de negociação daquela mulher e de seu império era inquestionável.
—Ah, é claro. Como eu poderia me esquecer! Como forma de provarmos nossas sinceras intenções, o imperador oferece a mão da jovem princesa Stellaris Dystophilia aos cuidados da realeza synesthiana, como forma de selar nossa oferta de paz.
Tanto o príncipe Lucian quanto o rei Friedrich ficaram chocados com o que havia sido proferido pela chanceler de Yohtunheim. Aquele nome… Aquela mulher… Talvez tenha sido demais para Lucian ouvir aquilo daquela forma.
Stellaris, a princesa da realeza dystophilense e a coroa synesthiana possuíam um passado em comum. Seria possível que o império tivesse conhecimento da história de sua relação? Teriam conseguido de fato alguma forma de afetá-los? Não sabia ao certo. Mas de uma coisa tinham certeza: Stellaris estava sendo usada como moeda de troca novamente. E isso com certeza não seria justo com sua amada princesa. De maneira alguma aceitaria isto desta forma. Keira logo percebeu a inquietação de seu irmão perante a recente informação, e procurou não chamar sua atenção, mas viu que o mesmo não conseguia mais esconder seu descontentamento com aquela proposta.
—O valente príncipe Lucian de Synesthia e a encantadora princesa Stellaris de Dystophilia deverão se unir em matrimônio. Claro, principalmente me referindo ao senhor, vossa alteza… -disse se dirigindo diretamente ao príncipe sob a escadaria, tomando uma singela flor de coloração esbranquiçada entre os dedos de sua mão esquerda. -...creio que esta oferta em questão seja de seu interesse. -disse, ostentando a flor em suas mãos, exalando calmamente o perfume vindo da mesma, pôs-se a oferecer a flor ao príncipe a sua frente, curvando-se em reverência. -Por favor, príncipe Lucian… Aceite.
O olhar de Lucian já demonstrava sua raiva e seu ódio sobre a mulher diante de si. Mas, mantendo a calma, retirou a pequena flor das mãos de Hyesdra, a tomando para si sem mais delongas. Ela não podia estar se referindo a sua amada como um objeto a ser negociado. Era um absurdo denegrir a vida dela dessa maneira.
-Ora. Vejo que sua alteza e vossa majestade parecem inquietos perante os nossa proposta. Eu lhes garanto que a bela princesa ficará lisonjeada ao saber que permanece em grande estima nos corações da realeza synesthiana, como ela mesma tem tido a vós durante os últimos 20 longos anos…
Neste momento, o rei pode notar certa arrogância no tom em que foram proferidas aquelas últimas palavras. Então estavam realmente sendo desafiados e a liberdade da estimada realeza dystophilense estava em jogo, como também o futuro de seu reino e do príncipe herdeiro. Aquilo poderia atrapalhar seus planos.
Certamente… o que viria a seguir estava claramente destinado a acontecer, e o então pensativo rei de Synesthia deixou-se tranquilizar, ao menos por alguns instantes.
—Senhores, ouso dizer que minha missão aqui foi um sucesso. Peço a permissão real para me retirar de sua presença, vossa majestade. -proferiu Hyesdra.
—Certamente, chanceler Scayne. -respondeu-lhe o rei, permitindo sua partida.
—Peço para que pensem sabiamente sobre a nossa proposta. Aguardamos sua resposta ansiosamente.
—Não será necessário esperar. Amanhã enviaremos uma resposta ao seu imperador.
—Pois bem. Espero que possamos nos encontrar novamente, grande Rei Friedrich Nyx Synesthia.
—Faça boa viagem, senhorita Scayne. -respondeu-lhe o rei a altura.
Após a retirada da chanceler, todos os presidentes e os demais presentes comentaram sobre o ocorrido entre si. O príncipe ainda se mostrava inconformado com o que foi lhe foi proferido. Após alguns segundos, encarou bem a figura floral que foi entregue pela chanceler que a pouco estava diante de si, recordando-se da proveniência daquela flor. Era uma flor de Lunaria, a beleza natural e principal característica da flora de Dystophilia. Sua principal conexão com aquela que lhe havia apresentado a beleza daquela terra espetacular.
Stellaris.
Sua amada prometida, aquela que possuía toda a afeição por parte do príncipe herdeiro, que foi brutalmente tirada de si pelas atitudes covardes do império de Yohtunheim. A mulher que durante toda a sua vida foi escrava de seus deveres e do peso de sua própria origem. Amargurou-se ao compreender que ela seria usada como um objeto novamente. Teria sua vida trocada por uma proposta afoita e audaciosa.
—Majestade, devo ordenar que seja organizada uma reunião sobre o assunto? -perguntou o mordomo ao seu rei.
—O mais depressa possível, senhor Kaerych.
Ao ouvir a ordem de seu pai, o príncipe finalmente se manifestou. Estava tão irritado e furioso que acabou por esmagar a flor em suas mãos, virando-se para o altar em direção ao seu pai.
—Você vai aceitar isso assim?
—Como disse?
—O senhor vai aceitar esse tratado sem nem mesmo se questionar?! -questionou, já se alterando.
—Não deve formar tais alegações precipitadamente, príncipe Lucian! -disse o rei ao príncipe, em forma de ordem.
—Posso até mesmo ver em seus olhos que o senhor planeja concordar com a proposta deles! Por favor, pense a respeito!
—Majestade! O senhor não pode deixar que o príncipe se direcione ao… -o presidente foi interrompido pela sua majestade.
—Deixem que fale.
—Mas, majestade…
—O príncipe Lucian não é apenas sua alteza, como também é seu futuro regente. Sua visão sobre isso deve ser levada em consideração, senhor presidente. -interferiu a embaixadora.
—Pai… por favor, reconsidere! -implorou novamente o príncipe a seu pai.
—Muito bem. -levantou-se o rei de seu trono, apoiando-se em seu cajado. -quero todos aqui presentes na sala de reuniões, imediatamente.
—É c-claro, majestade. -respondeu-lhe imediatamente Elwin.
O príncipe logo se enraiveceu. Claramente não seria mais ouvido. Teria de aguardar até a reunião se encerrar para poder conversar pessoalmente com seu pai. Sabia que poderia ser castigado, mas não custaria nada tentar.
Com certeza aquela reunião demoraria horas, que era tempo o suficiente para esfriar a cabeça e recuperar a compostura. Independente da decisão que seria tomada, faria o possível para compreender e se preparar para o futuro a qual seria novamente subjugado. Estaria pronto para liderar mesmo sob as interferências do império, se assim fosse necessário. Independente do resultado final, era seu dever tomar as rédeas e comandar seu povo, não importando as dificuldades que teria de suportar.
Ao chegar próximo da sala de reuniões, foi surpreendido por sua irmã, que se pôs ao seu lado durante sua caminhada.
—Me agradeça por não ter sido expulso na frente dos presidentes mais cedo, Luce.
—Pode por na minha conta, Kei. Essa eu realmente merecia.
—Mais uma coisa em que temos que concordar! -afirmou sarcasticamente a princesa.
—Sinto muito, Kei. Eu perdi a cabeça.
—Não sinta. Aproveite enquanto sua vida ainda te permite cometer erros, irmão. Provavelmente agora você não vai mais poder dar um mole desses…
—É, tem razão. -respondeu-lhe Lucian, sorrindo tentando aliviar a tensão, concordando com a observação da mulher ao seu lado. -Venha, vamos logo. Uma questão diplomática nos aguarda.
Continua. . .
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