Notas iniciais
Hey guys! Como vocês estão? Espero que bem e se cuidando. Bom, bora ler?!

A criança gritava desesperada, mas ninguém escutaria. Estava numa cabana de pedra com telhado de palha, escondida no meio de uma floresta densa onde nem os melhores caçadores e rastreadores se arriscavam a ir. Ao seu redor estavam sete Bruxas de Gaddgus, recitando um feitiço poderoso em uma língua completamente desconhecida. Mas nada daquilo importava, ela só pensava em descansar por alguns minutos ou, talvez, para sempre.

Em algum momento sua voz desaparecera e, então, suas forças. Sua mais nova companheira, repousada numa mesa de madeira podre mais ao canto, brilhava incansavelmente aos olhos de todos e berrava na mente da criança para que fosse utilizada. Mas o medo ainda fazia Ellisse hesitar em ter qualquer tipo de contato com Noturna.

Quando estava prestes a parar de resistir em ficar consciente, as bruxas se calaram abruptamente. Ellisse caiu contra o piso velho — mofado — de madeira num baque surdo. Seus pulsos e tornozelos estavam amarrados com correntes enferrujadas, limitando os movimentos. Ela piscou lentamente, recuperando o máximo de forças que conseguia enquanto observava a movimentação das bruxas.

— Vocês são loucas?! Ela é apenas uma criança! Se nós não aguentamos tantas horas, imagine ela! — exclamou uma bruxa de cabelos vermelhos escuros.

— Acalme-se, Meredith. Infelizmente precisamos fazer escolhas difíceis para alcançarmos nossos objetivos, além disso, essa criança precisa de libertação. A alma dela é forte demais para ela. — disse a morena de cabelos cheios encaracolados e olhos alaranjados. Era uma das quatro líderes; a única presente naquele dia. — Descansem um pouco para continuarmos o mais rápido possível. Dê um pouco de água para ela, Meredith. Precisamos que a criança aguente, pelo menos, mais uma sessão.

A líder não esperou por uma resposta. Seguiu em direção a saída, com sua longa capa aveludada — de cor azul escura — arrastando pelo chão e criando pequenos redemoinhos de poeira. As cinco bruxas seguiram-na em silêncio, pareciam guardar o pouco da energia que lhes restavam para caminhar até o lado de fora da cabana.

Em alguns segundos, Ellisse estava sozinha com Meredith. A bruxa encarava atentamente a porta por onde suas irmãs saíram, então voltou-se em sua direção.

— Tia Mary…

— Não fale nada, querida. — pediu gentilmente, agachando na sua frente. — Beba isso.

Meredith puxou um cantil de dentro de uma bolsa média feita com couro que estava presa em sua cintura. Sua mão segurou com cuidado a cabeça da princesa, encostando o cantil nos seus lábios. O cheiro de sangue fresco despertou um lado ainda desconhecido pela criança. Ela instintivamente agarrou o item das mãos de Meredith como podia, erguendo seu corpo facilmente para beber o mais rápido possível. Rosnados baixos escapavam dos lábios de Ellisse, os olhos brilhavam conforme secava o cantil sem deixar uma única gota ser desperdiçada.

Ao perceber o que estava fazendo, a princesa largou o cantil aterrorizada. Seus lábios estavam pintados em vermelho pelo sangue e uma lágrima escapou de um dos seus olhos carmesins. O medo instalou-se por todo seu corpo. A voz da espada sussurrava palavras reconfortantes em sua mente, mas sem muito efeito.

Então sentiu braços quentes e acolhedores envolverem seu pequeno corpo.

— Está tudo bem, Ellie. Estou aqui.

— Eu bebi… Eu…

— Ellie, preciso que você aguente — sussurrou, talvez com medo das outras bruxas ouvirem. — Você é a esperança e não a destruição. Não deixe que elas controlem sua alma ou a tirem do seu ser. Lute.

A meditação consegue conectar as pessoas ao seu interior; guiá-las dentro do próprio corpo para um entendimento melhor dos sentimentos e ações e, assim, alcançarem um controle melhor sobre si. Muitos sentem-se renovados, motivados e até mais saudáveis ao praticá-la. Muitos, mas obviamente Kassandra não estava entre eles.

Esse exercício mental demandava muito do corpo e mente de Kass, pois demônios reais habitavam seu interior. Confrontá-los tornava tudo ainda mais exaustivo e perigoso. Damien Vosk sempre acompanhava suas sessões, guiando-a através da mente com maestria. Era um velho mago-guerreiro habilidoso, destemido e gentil. Ele fora seu Mestre quando ainda estava no Reino de Selletus, encontrando na meditação uma forma dela controlar melhor os impulsos da espada e sua maldição. Juntos treinaram incansavelmente até que ela tivesse controle o suficiente para empunhar Noturna pela primeira vez.

Foi quando alguns acidentes começaram a acontecer.

Era difícil para Kassandra identificar o que era real e o que não era quando estava meditando. Tudo parecia tão sólido, vívido e palpável de uma forma assustadora. Algumas lutas travadas no seu interior acabavam refletindo em sua realidade, fazendo-a usar Noturna inconscientemente contra Damien ou qualquer coisa que estivesse no caminho. Da última vez quase matara o mago-guerreiro e isso ocasionou no abandono da meditação. Estava forte, controlava Noturna sem qualquer tipo de dificuldade, então preferiu não lutar contra seus demônios. Tinha medo de se perder para sempre e virar a destruição que seu pai tanto almejava.

Agora ela estava sentada no meio da sala de treinamento com as pernas cruzadas e costas eretas. Encarava Rachel a sua frente que imitava sua posição, mas tinha os olhos fechados. Estavam ali há quase três horas. Kassandra conseguia guiar a Presidente tão bem quanto Damien. Tentava mostrar-se confiante e conseguia rápidas pausas para respirar um pouco. Não estava lutando contra o seu interior, porém Rachel possuía uma escuridão tão familiar para ela que a desestabilizava.

— Só mais um pouco. — disse firme. — Consegue ouvir mais alguma coisa?

Rachel remexeu-se desconfortável, mas assentiu.

— Um nome. Ainda estou naquela mesma sala escura. — Ofegou. Ela estava quase no limite.

— Me diga o que está ouvindo e paramos por aqui.

— Ellisse Caunder. Mate Ellisse Caunder!

A Presidente partiu para cima de Kassandra num movimento rápido, surpreendendo-a. As duas rolaram pelo tatame por conta do impacto, mas Rachel estava esgotada e foi facilmente rendida por sua treinadora. Kass prendeu os pulsos dela acima da cabeça e a montou perfeitamente para que não reagisse.

Os olhos cinzentos agora estavam completamente brancos.

Nós encontraremos você, Princesa da Morte. Sua alma será nossa, assim como seu corpo e sua espada.— a voz era profunda e totalmente diferente, deixando claro que não era Rachel ali.

Todos os pelos do corpo de Kassandra arrepiaram-se ao ouvir uma gargalhada rouca ecoar pela sala, vinda da Presidente. Estava prestes a confrontar quem quer que estivesse ali, mas a garota apagou. Não tinha aguentado tanto esforço.

— Porra! — ela segurou o rosto de Rachel, chacoalhando de leve. — Acorde, Rachel! Rachel!

A Presidente abriu os olhos assustada, puxando o ar com força para dentro dos pulmões como se estivesse se afogando. Ela tinha voltado ao normal, mas estava desnorteada.

— Está tudo bem. Você só apagou pelo cansaço. — explicou antes de cair exausta ao lado de Rachel.

— Eu… Deuses, isso foi intenso. — resmungou a Presidente.

Kassandra encarava o teto, sua respiração irregular. Durante um mês inteiro, progredindo no treinamento de Rachel Owen, nunca tinham presenciado aquele tipo de manifestação. Houveram algumas barreiras difíceis de passarem, lembranças dolorosas e descontroles emocionais, mas aquilo foi completamente diferente.

Durante alguns segundos em completo silêncio, Rachel começou a se levantar cambaleante. Sua regata laranja estava colada no seu corpo por conta do suor, assim como a camisa de malha branca, que Kass usava, estava transparente. As duas tinham levado seus corpos e mentes ao limite.

— Acho que… não posso me encontrar com Ellisse Caunder, a Princesa desaparecida. Deuses sabem o que poderia acontecer. — suspirou.

Kassandra fechou os olhos ao ouvir aquele nome novamente.

— Ela está morta. Não precisa se preocupar. — disse antes de abrir os olhos e levantar-se.

— Morta? Não acredita que ela irá retornar?

— Você acredita? — indagou sem muita paciência.

A Presidente mordeu o lábio inferior, parecia ligeiramente nervosa antes de responder:

— Ellisse Caunder é a única capaz de parar Selletus. Rumores dizem que uma terrível guerra está para acontecer, que alguns dos reinos mais gananciosos juraram lealdade ao Deus Julgador. Então, sim, acredito em seu retorno. Ela não seria capaz de deixar Selletus destruir Linearth.

Elas ficaram se encarando durante alguns segundos até Kassandra desviar o olhar para o relógio holográfico na parede.

— O treino acabou, mas estou feliz com seu avanço. Continuaremos amanhã.

— Kass, acho que não nos veremos durante um bom tempo. As Lições vão começar hoje e, dependendo do que se tratam, elas demoram meses para serem concluídas. Principalmente as do meu grupo.

Mais silêncio. Com tudo acontecendo, Kassandra esqueceu-se das Lições mesmo com toda a empolgação diária de Amanda comentando sobre isso. O treinamento não poderia continuar e Rachel ainda não estava pronta para meditar sozinha. Apesar dos avanços, Kass precisou intervir seriamente algumas vezes ou perderia a Presidente para sempre.

— Certo. Você ainda não está preparada para treinar sozinha, então entre em contato comigo sempre que precisar. Não importa o horário.

— Tudo bem.

Elas pegaram suas poucas coisas — garrafas de água e toalhas — e se dirigiram para fora da sala. Kassandra verificou o corredor rapidamente, então seguiram à direita em direção aos dormitórios em silêncio. Depois de um tempo, Rachel acabou aprendendo e respeitando o jeito reservado da novata após os treinos, quando saíam da sala. Mas naquela madrugada, quando estavam se separando no cruzamento do longo corredor, a Presidente abraçou Kassandra pelas costas.

— Obrigada por tudo. — murmurou baixinho. A voz embargada.

Kassandra ficou sem reação, tensa pelo contato repentino até o mesmo acabar tão rápido quanto aconteceu. Olhou por cima do ombro, esperando ver Rachel ali, porém ela já estava longe. Agradeceu silenciosamente, pois não saberia o que dizer naquele momento. Então voltou a caminhar para o dormitório.

Os Federais responsáveis pela ronda já estavam acostumados com Kassandra andando pelos corredores. Haviam recebido informações da Diretora Principal sobre os treinamentos particulares que a novata estava dando para a Presidente e precisavam manter discrição. Os alunos não poderiam ter conhecimento sobre aquilo.

Alguns passos depois e Kassandra estava em frente ao dormitório. Conseguia escutar a respiração tranquila de Lyanna dormindo do lado de dentro, então entrou com muito cuidado para não acordá-la. Faltavam trinta minutos para o primeiro sinal do colégio, o sol começava a aparecer entre os inúmeros prédios do centro da Capital Emblemática. O quarto estava pobremente iluminado com a pouca luz natural, mas Kassandra conseguia movimentar-se tranquilamente sem esbarrar em nada.

Ela caminhou em silêncio até o banheiro, trancando-se dentro dele. Seu estado cansado refletiu no espelho, chamando sua atenção: olheiras profundas, maxilar e corpo tensos. Não gostava nem um pouco de mentir e esconder as coisas de Lyanna, mas era para o seu próprio bem. Contar sobre tudo significava envolver a princesa ainda mais e Kass não podia deixar isso acontecer.

Balançando rápido a cabeça, como se pudesse afastar todos os pensamentos, ela ligou o chuveiro. O vapor deixou o ambiente aquecido e nublado. Kassandra retirou as roupas, colocando a garrafa e toalha na grande pia, então foi para debaixo do chuveiro. Quase instantaneamente seus músculos relaxaram, toda sua tensão parecia esvair-se pelo ralo junto com a água quente.

Quando estava saindo do box, o primeiro sinal tocou. Kass suspirou, puxou a toalha contra seu corpo se enrolando, então saiu do banheiro para acordar Lyanna. A princesa estava de bruços, um semblante tranquilo. O primeiro sinal nunca a acordava e, por isso, Kassandra acabou pegando o costume de fazer esse trabalho. Ela ficou de joelhos ao lado da cama e correu os longos dedos pela maçã do rosto da humana calmamente. Não percebeu, mas um sorriso discreto surgira em seus lábios ao ver Lyanna suspirar ao sentir seu toque.

— Kass…

— Não comece. Está na hora de acordar e não adianta pedir por mais tempo. — disse segurando o riso.

— Certo — bufou e abriu os olhos contrariada. — O que conversamos sobre cabelos molhados de manhã? — perguntou ao notar o estado de sua protetora; arqueando as sobrancelhas.

— Se isso é uma tentativa de inverter os papéis, saiba que não funcionará. O sinal tocou quando eu estava terminando o banho e decidi te acordar primeiro. Hoje não é o “grande dia”? — perguntou fazendo as aspas com os dedos.

— As Lições! — exclamou animada, empurrando o lençol com os pés e se levantando num salto. — Termine de se arrumar e vamos encontrar as meninas! — disse correndo para o banheiro e trancando-se lá dentro.

— Sim…Alteza. — resmungou.

Kassandra levantou do chão e deixou a toalha cair aos seus pés enquanto dirigia-se até o armário. Pegou o conjunto de roupas do colégio e as vestiu devagar. O sol já iluminava todo o quarto, aquecendo minimamente a pele exposta de Kass. Ela abotoava os dois botões da camiseta azul marinha do colégio e olhava através da janela, observando o início da movimentação habitual de funcionários e Federais no pátio. Mais alguns minutos e sabia que poderia ver alguns dos professores passando por ali também, mas um som de engrenagens sendo acionadas chamou sua atenção.

Yass despertou em sua plataforma, piscando os olhos azuis antes de focar em Kassandra.

— Bom dia, Senhorita Kass.

— Bom dia, Yass.

Ela terminou de se arrumar, passando o lenço ao redor do pescoço. Estava pronta para verificar os horários das aulas do dia quando três batidas na porta impediram. Kassandra achou estranho, pois Amanda era preguiçosa o bastante para não caminhar até ali para encontrá-las e não conseguia identificar o cheiro.

— São Federais, Senhorita Kass — avisou o robô que encarava a porta.

Naquele momento a Princesa saiu do banheiro pronta e com as roupas do colégio. Ela secava os cabelos com uma toalha.

— Federais?

— Não deve ser nada demais. — disse Kassandra indo abrir a porta.

Ao fazer isso, encontrou três Federais — dois homens e uma mulher — encarando-a com seus semblantes impassíveis de sempre. A mulher, possível líder daquele pequeno grupo, aproximou um pouco da porta.

— Bom dia, Senhorita Zaskov. Estamos aqui para escoltá-la, assim como a princesa, até a sala da Diretora Principal.

— Aconteceu alguma coisa?

— Fique tranquila, Senhorita. Aparentemente uma Lição fora designada para vocês e mais três alunos, mas há pessoas mais capacitadas para explicar a situação quando chegarmos até a sala. — disse educadamente. — Estão prontas ou precisam de alguns minutos?

Kassandra olhou por cima do ombro e Lyanna assentiu um pouco confusa.

— Sim, estamos prontas. — ela olhou para sua diagonal encontrando o robô. — Yass, fique aqui caso as meninas apareçam.

— Como desejar, Senhorita.

Os dois Federais mais ao fundo deram espaço para elas enquanto a mulher as liderava. Como ainda era cedo, não haviam muitas alunas no corredor e isso facilitava para não criar algum tipo de tumulto.

Ao atravessarem o dormitório feminino inteiro e parte do pátio, eles chegaram ao Prédio Principal. O lugar estava completamente deserto, nem os funcionários da limpeza ou professores transitavam ali, e logo chegaram em frente a grande porta da sala da Diretora Principal. A Federal deu três batidas leves na porta, então recebeu autorização para entrar.

— Podem entrar. Já estão aguardando vocês.

— Obrigada — agradeceu Lyanna que entrou primeiro.

Kass apenas assentiu para os Federais, ainda não gostava de estar tão perto assim deles, então entrou.

Do lado de dentro encontrou Amanda, Sarah, Meredith e um homem robusto com uma cicatriz cortando seu rosto. Ele era moreno, tinha cabelos negros raspados e usava o uniforme verde escuro dos Federais, mas possuía várias medalhas de condecoração em seu peito e uma faixa branca no braço esquerdo. Não era um Federal qualquer.

— Bom dia, meninas. — saudou Meredith com um sorriso acolhedor. — Por favor, sentem-se e fiquem à vontade. Estamos aguardando mais uma pessoa.

— Nós podemos começar, Senhora Owen. Tenho certeza de que as garotas podem repassar as informações depois. — disse o homem.

A Diretora Principal suspirou e se acomodou em sua cadeira olhando para a novata. Fazia um mês desde o encontro que tiveram naquela mesma sala, mas ainda estava muito recente. Elas trocaram um rápido sorriso sem ninguém perceber e Kassandra ficou encostada na estante de livros com os braços cruzados. Lyanna acomodou-se numa cadeira entre Amanda e Sarah, olhando para suas amigas como se pudesse obter alguma resposta do que estava acontecendo, mas as duas deram de ombros. Não sabiam de nada.

O homem ficou ao lado da mesa da diretora, de frente para as meninas.

— Meu nome é Said Bakir. Sou Comandante dos Federais na Capital Emblemática Yoskor e estou aqui para designar uma Lição para vocês.

— Lição? Lição dos Federais? Isso...isso é permitido?! Achei que somente os integrantes do Mariposas recebiam esses tipos de Lições. — indagou Amanda parecendo surpresa e confusa.

Said puxou um envelope pardo de cima da mesa e entregou para a Líder Esportiva.

— Veja o que tem aí dentro, Senhorita Willians.

Amanda hesitou no primeiro momento, mas pegou o envelope estendido pelo Comandante. A expectativa era quase palpável naquela sala, todos estavam encarando a Líder Esportiva conforme ela retirava dois papéis e uma foto de dentro dele. Os olhos escuros arregalaram-se ao ver a foto, mas desviaram para o conteúdo escrito nos papéis.

Os minutos de silêncio pareciam intermináveis até Amanda erguer o olhar para o Comandante. Ela levantou-se irritada e empurrou os papéis contra o peito de Said com força. Kassandra descruzou os braços, estranhando a atitude da garota, porém Meredith chamou sua atenção ao erguer uma mão como se pedisse calma. Algo deveria estar muito errado para Amanda agir contra um Comandante dos Federais sem pensar duas vezes.

— Que merda é essa?! — exclamou com raiva.

— Acalme-se, Senhorita Willians…

— Me acalmar?! Vocês me disseram, numa carta oficial, que eles estavam mortos e, agora, pedem ajuda para encontrar informações sobre o possível aparecimento deles em Yoskor?!

A foto e os papéis caíram no chão perto dos pés de Lyanna. Ela abaixou-se para pegá-los, mas Sarah tomou de suas mãos com ansiedade e sua boca formou um O perfeito. Kassandra espiou por cima dos ombros da garota para ver a foto. Era um homem esguio, de olhos escuros e puxados, segurando um rifle de plasma num beco; e uma mulher morena, de cabelos negros cacheados, olhos grandes e castanhos, ao lado dele carregando uma pasta vermelha. Pareciam com pressa, tentando esconder seus rostos.

— Quem são ele? — perguntou Kassandra.

— Capitão Sora Gonttenk e General Caroline Gottenk Willians dos Federais — disse Amanda ainda encarando o Comandante. — Eram, ou melhor, são os meus pais.

Kassandra encarou a foto por alguns instantes e fitou Said.

— Sobre o que se trata essa missão, Comandante?

A Líder Esportiva negou com a cabeça, caminhando para perto das meninas. Ela não voltou a se sentar, ficou em pé e de costas para todos passando a mão pela nuca.

— Recentemente descobrimos que alguns dos nossos arquivos secretos foram roubados usando as credenciais da General Willians. O time de inteligência, contra invasões cibernéticas, não encontrou nenhuma atividade suspeita no banco de dados onde estavam esses arquivos e foi quando essa foto chegou até a nossa Central, na Capital Emblemática Yoskor.

— Está dizendo que são traidores?

— Não, Senhorita Zaskov. O Capitão Gonttenk e a General Willians foram considerados mortos em combate depois de desaparecerem numa missão, anos atrás, no Reino Parnolius.

— Parnolius? O reino onde nem os Protetores se arriscam a entrar? — indagou Kassandra.

— Sim. Eles eram os mais preparados para realizarem uma missão de resgate, mas perdemos o contato algumas horas depois da chegada deles no reino.

O Reino Parnolius era uma terra desconhecida, quase selvagem. Ninguém fora capaz de sair vivo para contar ou relatar sobre o que realmente havia naquele reino. Lendas foram criadas e uma delas dizia que Selletus havia criado Parnolius para treinar seu exército de aberrações; monstros, demônios e seres amaldiçoados que lutariam ao lado do deus Julgador em uma enorme guerra. Uma guerra que mudaria ou destruiria Linearth.

— Tudo bem, mas quem são eles se estão mortos? — perguntou Lyanna endireitando-se na cadeira e falando a última palavra com cautela.

— É por isso que estão aqui. Queremos recolher informações sobre essa foto, encontrar testemunhas ou qualquer coisa que nos ajude a encontrá-los. — Said sentou na beirada da mesa. — Apesar de termos uma base em Yoskor, o lugar onde essa foto foi tirada é controlado por facções. Vocês entrarão disfarçadas para nos ajudar nessa Lição. Obtenham as informações necessárias e retornem.

— Simples falar, não? — zombou Kass. — Facções não são amigáveis e possuem um grande controle na população de seu território. Não vão falar com a gente.

Nesse instante a porta da sala foi aberta, revelando um dos integrantes do Mariposas com seu sorriso debochado característico. A pele morena, marcada pelo sol, e as tatuagens no pescoço eram inconfundíveis.

— Por isso estou aqui, Senhoritas. — disse Ben abrindo os braços.

— Benjamin? — indagou Lyanna.

— O Senhor Faheem é filho do líder da Facção Criadora e um dos membros — explicou o Comandante. — Ele será a porta de entrada para vocês conseguirem informações. Yoskor é um lugar agressivo, mas quero discrição e só lutem em caso de necessidade. — Said encarou Kassandra com intensidade.

— Lutar? O Benjamin sabe o que é isso? — Kassandra perguntou enquanto fingia verificar suas unhas.

O garoto atravessou a sala velozmente, puxando a cimitarra do coldre em sua cintura e parando de frente para Kass. A lâmina estava quase encostou no pescoço dela quando, agilmente, utilizou um dos livros da estante próxima para bloquear. Benjamin rosnou com raiva, mas não recuou e afundou um pouco a lâmina na capa dura.

— Como conseguiremos discrição com alguém tão descontrolado no grupo? — Kassandra girou o livro, torcendo a mão de Ben e fazendo-o largar a espada pela dor. — Para ser sincera, estou preocupada com essa equipe. — largou o livro com a espada no chão.

— E por qual motivo?

Ela encarou o Comandante friamente.

— Não preciso falar desse aqui — indicou com a cabeça para Benjamin que segurava o pulso dolorido. — mas ele não é quem mais me preocupa.

— Quem seria?

— Amanda.

— O que?! — exclamou a Líder Esportiva, virando-se para encarar Kassandra.

— Sejamos francas, Amanda. Qual seria sua atitude caso encontrássemos seus pais durante nossa procura por informações?

A sala ficou em completo silêncio pela segunda vez. Ninguém se atreveria a entrar no assunto delicado, porém era necessário. Amanda estava emocionalmente frágil, seus pais estavam vivos e poderiam estar em Yoskor. E Kassandra conhecia humanos o suficiente para saber qual seria a primeira reação da Líder Esportiva: correria atrás dos pais sem nem pensar duas vezes, colocando em risco toda a equipe.

— Sinto muito, mas alguém precisa enxergar a situação de maneira racional. Estaremos desprotegidos naquele lugar, muito longe de qualquer ajuda. Benjamin pode ser conhecido na facção, mas continuaremos sendo intrusas. Os Federais não controlam aquela parte da Yoskor. — disse Kassandra com seriedade. — Não estamos indo para um passeio.

Notas finais
Voltarei em breve! E comentem, por favor! Adoro interagir com vocês ahahahaha Até a próxima ♥