Notas iniciais
Olá, guys!!! Como vocês estão?? Mais um capítulo para vocês! Não vou enrolar, então: bora ler! (sem revisão)

Ela arrastava Noturna contra o piso de pedra negra polida, causando um som incômodo aos ouvidos de qualquer um. Sangue manchava suas vestimentas, escorria pela lâmina da espada e gotejava do seu queixo. Era uma visão horripilante, parecia que tinha retornado de um abatedouro. Seus olhos queimavam em fúria, as pessoas reunidas na Sala do Trono não ousavam ficar no caminho da Princesa naquele momento; nunca tinham visto tanta raiva emanar da filha do deus Julgador. Até as Bruxas de Gaddgus, que estavam conversando com o deus, espantaram-se.

Ellisse parou perto do primeiro degrau do altar, onde ficavam os tronos, e fincou Noturna no chão com força. Seu estado era deplorável: tinha arranhões pelo rosto, cortes profundos nos dois braços e parte da roupa, uma armadura leve de couro enegrecida, estava danificada. Mas nada daquilo fez a Princesa sentir-se acuada. Não depois do que tinha acabado de acontecer por culpa do seu pai.

— O que pensa que está fazendo, criança? — a voz grossa e potente de Selletus ecoou por todo lugar. Os cabelos negros e lisos, curtos na altura de seu maxilar, foram escovados pelas suas mãos despretensiosamente. Não parecia nem um pouco abalado ou surpreso com o estado da filha.

— Você nos mandou para uma emboscada. Uma emboscada envolvendo Federais e Protetores! — berrou, querendo que todos os presentes ouvissem. — Não havia vila alguma para inspecionar! Todos estão mortos e tudo por sua culpa!

Uma agitação entre os Julgadores começou a tomar conta do lugar. A Princesa Ellisse, conhecida por sua enorme destreza e justiça entre os moradores do Reino Selletus e companheiros Julgadores, conseguira comover a todos com suas palavras. Ela estava transtornada, não parecia mentir e seu estado físico também comprovava isso.

Porém Selletus era o verdadeiro deus; controlava tudo e todos naquele reino.

— O que aqueles malditos humanos e Protetores fizeram com você, criança? — perguntou apoiando o cotovelo no braço do trono. — Como pode achar que eu mandaria vocês numa emboscada?!

— Um dos Federais usava isso — rosnou jogando um anel ensanguentado, de aço escuro, contra o rosto do deus que o pegou tranquilamente. — Muito parecido com um dos seus, não acha?

Selletus analisou por alguns instantes o anel até suspirar profundamente.

— E idêntico ao que dei a você e que não está no seu dedo. — ele levantou do trono, desceu os três degraus para ficar próximo a Ellisse. Segurou o rosto da garota com um sorriso nos lábios. — Aquela garota já estava atrapalhando, e muito, os meus planos, mas me diga: ela chamou seu nome enquanto eles a matavam ou só gritou deliciosamente em desespero? — sussurrou próximo ao seu rosto.

A Princesa arregalou os olhos. Não esperava receber uma confirmação tão cruel do deus como aquela, então berrou com raiva correspondendo ao grito de Noturna em sua cabeça. Sem pensar duas vezes puxou a espada, dando um passo para trás, e fincou no abdômen de Selletus com toda sua fúria. Ela puxou Noturna violentamente, deliciando-se com a imagem do pai caindo de joelhos na sua frente e os olhos completamente arregalados enquanto as mãos pressionavam inutilmente o ferimento. Ellisse sabia que seria presa, torturada e tratada como traidora, porém não importava. Nada mais importava.

Os Julgadores e as bruxas presentes logo ameaçaram avançar para ajudar o deus, porém uma grande esfera protetora isolou a princesa com seu pai e…

— Tia Mary? — disse confusa, não esperando tal intervenção da bruxa.

— Me dê a mão! Rápido!

Ellisse obedeceu mesmo estando atordoa, colocando Noturna no coldre preso em suas costas. Selletus tentava alcançá-las, parecendo saber o que aconteceria, mas estava muito ferido e cuspindo sangue.

Montorium Lides! exclamou Meredith com firmeza.

As duas foram sugadas para uma dimensão escura e, num piscar de olhos, estavam numa caverna iluminada por velas em cantos estratégicos. Havia uma cama improvisada, unguentos, livros e algumas sacolas com mantimentos. Dois cavalos negros estavam do lado de fora presos em uma carroça consideravelmente grande.

Ellisse caiu de joelhos, fraca demais para manter-se em pé. Aquela viagem tinha desestabilizado os seus sentidos, seu estômago dava inúmeras cambalhotas e só não vomitou por estar vários dias sem se alimentar de comida. Até o peso quase inexistente de Noturna em suas costas parecia ser excessivo para Ellisse naquele momento.

Ao seu redor, Meredith não parava. Ela carregava sacolas, livros, mantimentos e alguns frascos contendo líquidos de diferentes cores para a carroça. Os cavalos ficaram agitados com a movimentação, mas a bruxa os acalmou facilmente ao afagar suas cabeças murmurando palavras carinhosas. Com tudo resolvido, ela aproximou-se de Ellisse cuidadosamente.

— Querida, precisamos ir. Estamos um pouco longe do reino de seu pai, mas não podemos arriscar — disse numa voz baixa. — Vamos. Eu ajudo você.

A princesa encarou Meredith por alguns segundos, tentando colocar os pensamentos em ordem, antes de se levantar sozinha. Ela cambaleou alguns passos, como se fosse desabar novamente, mas conseguiu seguir para a carroça. Os cavalos bufaram em desagrado quando a mesma subiu e acomodou-se mais ao canto do banco. O cheiro do sangue incomodava os animais, sabiam que estava perto de uma predadora.

Sem trocarem mais palavras, Meredith sentou no meio do banco, tomou as rédeas e fez os cavalos andarem numa velocidade constante.

Kassandra caminhava pelo corredor após deixar a sala da Diretora. Ela saiu primeiro, deixando para os outros resolverem sozinhos sobre a Lição. Iria se encostar na parede para esperar as meninas quando foi empurrada com violência. Kass firmou os pés, apesar de ter sido pega desprevenida, para não cair e encarou uma Amanda furiosa. Um sorriso debochado surgiu em seus lábios, pois estava esperando aquela reação ou pior.

— Qual é a porra do seu problema?! — exclamou.

— Amanda… — Lya tentou se envolver, mas calou-se quando Kassandra negou com a cabeça.

— Essa Lição é importante para mim!

— Eu imagino, mas vocês precisavam abrir os olhos.

— Você me fez parecer fraca! — mais um empurrão. — O Comandante podia muito bem ter negado a Lição depois de tudo! — ela iria empurrar mais uma vez, porém não conseguiu.

Antecipando os movimentos da Líder Esportiva, Kass segurou um dos seus braços, girou e o puxou pra trás, imobilizando-a. Ela ouviu um grito preocupado da princesa e sentia os olhares atentos dos Federais presentes em sua direção. Calmamente encostou o corpo rendido de Amanda contra a parede chegando por trás, mais perto do seu ouvido.

— Essa sua atitude só comprova tudo o que falei. Você não é fraca, mas descontrolada — sussurrou irritada. — E eu nunca falaria aquilo se não me importasse com vocês, acredite.

Amanda olhou por cima do ombro, não conseguindo se movimentar mais do que aquilo. A fúria ainda estava presente em seu olhar, porém mais brando. Parecia ter percebido a sinceridade nas palavras de Kassandra.

— Senhorita Zaskov? Poderia vir até a minha sala, por favor? — a voz da Diretora Principal se fez presente.
O Comandante Bakir saiu da sala e acenou com a cabeça para seus Federais. Eles entenderam a ordem, seguindo o homem que já avançava pelo corredor em silêncio, mas dois ainda ficaram para continuar a segurança na porta da sala da Diretora Principal.

Kassandra encarou a Líder Esportiva por alguns segundos antes de libertá-la. Caminhou até a sala de Meredith Owen, passando pela mesma sem uma troca de olhares ou palavras. Ela atravessou a sala e apoiou-se na mesa da diretora com as duas mãos espalmadas, soltando o ar de uma vez. Ouviu a porta sendo fechada, então os passos se aproximando de onde estava.

— O que foi? Vai me dar um sermão? — resmungou sem olhar para a mulher.

— Meus sermões nunca funcionaram com você e não seria agora que funcionariam, não é mesmo? — zombou Meredith contornando a enorme mesa para se sentar na cadeira confortável, de frente para Kassandra.

— As pessoas aqui em Losva tem muita fé, então… — deu de ombros.

A Diretora Principal riu negando com a cabeça.

— Passam-se anos e seu sarcasmo continua intacto.

— Eu diria que é uma das minhas principais essências. — ela endireitou a postura e cruzou os braços. — Aconteceu alguma coisa para me chamar aqui?

— Queria agradecer pelo o que fez com Rachel — disse com um olhar distante, mas satisfeito. — Nunca a vi tão animada assim. Sem medo.

— Temos demônios parecidos, então não foi difícil criarmos uma proximidade.

— Não é só isso. Você também está diferente — comentou arqueando as sobrancelhas. — Passou por cima dos seus medos ao meditar, está protegendo os humanos e criando sentimentos pelas pessoas. Nem lembro a última vez em que isso aconteceu.

— Não estou diferente.

— Está sim — Meredith inclinou-se em sua direção. — Você perdeu pessoas importantes, Kassandra. Primeiro sua mãe e seu tio sumiram e depois Ju…

— Mary... — rosnou em aviso.

Meredith suspirou.

— A questão é: você está se importando com novas pessoas e criando laços. Está seguindo em frente. — explicou com calma. — Isso é ótimo, mas estou preocupada apenas com uma pessoa.

Kassandra revirou os olhos e virou de costas.

— Lyanna se parece, e muito, com ela. Vi o quão próximas ficaram, porém fiquei me perguntando se é pelo motivo certo. — indagou com cuidado. — Não quero que nenhuma das duas se machuque, Kassandra, e creio que você não contou sobre seu passado para a Princesa. Não completamente.

Ouvir verdades. Saber lidar com elas.

— Ela me confunde, atrai e tem um controle inexplicável sobre mim como… como June sempre teve. — revelou com esforço. Há anos não dizia o nome dela. — Eu tentei ficar distante, mas desde o dia em que nos encontramos foi como se algo tivesse despertado dentro de mim. Até Noturna sentiu isso.

— Acha que a Princesa pode ser uma reencarnação?

— Impossível. Se um Julgador morre a sua existência é consumida pela própria espada e ambos se tornam pó. — Kassandra passou as mãos em seus cabelos. — Vi quando isso aconteceu. As Ciganas consumiram a alma dela enquanto a segurava nos meus braços.

As Ciganas eram duas espadas idênticas, com lâminas levemente curvadas e do tamanho de um antebraço. Perfeitas para alguém extremamente veloz e ágil, como June era. Ninguém, além de Kassandra, conseguia enfrentá-las no treinamento de igual para igual.

— Ainda assim… Acho que você deveria conversar com ela.

Kassandra bufou irritada e se virou na direção da diretora.

— Qual o problema de vocês em conseguir entender que não quero envolver mais ninguém nas minhas merdas?! Ele pode vir atrás de mim a qualquer momento!

— E qual é o seu problema em conseguir entender que iremos lutar com você contra Selletus e que, cedo ou tarde, a guerra irá acontecer?!

Kass rosnou irritada, invocando Noturna por impulso e contando a enorme estante de livros ao seu lado num único golpe. O barulho foi alto o suficiente para que os Federais do lado de fora batessem em alerta na porta da sala, perguntando o que estava acontecendo. Meredith respirou fundo se levantando da cadeira e caminhou até Kassandra tentando não pisar nos livros espalhados pelo chão.

— Não foi nada, senhores. Podem ficar tranquilos. — disse a diretora em bom tom para que ouvissem através das grossas portas.

As veias negras subiam pelo pescoço de Kassandra, mas não chegavam ao seu rosto. Ela respirava pesadamente tentando controlar-se. Havia virado de costas para que a bruxa não pudesse ver seu estado.

— Estou cansada de perder as pessoas, Tia Mary — sussurrou com a voz embargada, apertando o cabo da espada com mais força. — Prefiro ficar completamente sozinha do que passar por isso novamente. Quando achei que tinha perdido você, quase deixei a escuridão me consumir. Não fazia sentido continuar sem você; Sem ninguém. Então Lyanna apareceu e foi como se eu estivesse em casa depois de muito tempo vagando sem rumo. Foi como encontrar uma parte de mim que estava perdida durante anos, séculos. — as lágrimas rolaram livremente por suas bochechas. — E se eu perder tudo de novo, não vou resistir. Não mais.

Os braços de Meredith envolveram seu corpo num abraço materno. Dessa vez Kassandra não segurou suas lágrimas, desabando como fizera há séculos. Ela soltou Noturna no chão e virou totalmente para agarrar-se na bruxa. Era como se fosse jovem de novo, quando a imortalidade ainda não tinha se desenvolvido o suficiente para impedir sua velhice de avançar. Suas emoções estavam uma completa bagunça e tudo o que conseguia fazer naquele momento era chorar.

— A perda faz parte da vida e você, mais do que ninguém, sabe disso — disse Meredith enquanto afagava os cabelos pálidos de Kassandra. — mas não impeça as pessoas de lutarem por você. Lute ao lado delas!

Kassandra conseguiu controlar o choro depois de alguns segundos, então enxugou as lágrimas em sua camiseta. Não queria que mais ninguém a visse daquele jeito, pois iriam fazer perguntas demais e aquele, definitivamente, não era um bom momento.

O Comunicador na mesa da diretora começou a tocar, chamando a atenção das duas. Meredith beijou a testa de Kassandra carinhosamente antes de se afastar para atender.

— Sim?

— Senhora Owen, o novo professor está aguardando no ginásio como pedira. — disse uma voz aguda demais para os ouvidos de Kass.

— Ah, ótimo! Estou indo agora mesmo. Obrigada, Quinn. — ela desligou apressadamente, parecendo que aquele era um assunto particular.

— Novo professor? Achei que já tinha até demais. — resmungou Kassandra desconfiada. A reação de Meredith tinha sido suspeita demais.

— Ele é diferente. Dará aulas para alunos selecionados para serem Protetores futuramente. — explicou esfregando as mãos umas nas outras.

— Ugh! Já o odeio. — resmungou caminhando em direção a porta. — Obrigada pela conversa… apesar de ter destruído sua estante.

Meredith riu e com um simples agitar dos dedos de uma mão, fez a estante se reconstruir rapidamente.

— Não foi nada.

— Sempre me esqueço. Foi assim que ficou ruiva?

— Sim. O vermelho era muito marcante, mas eu gostava. Então o ruivo foi a minha saída.

— Ficou legal. — resmungou. — Bom, até qualquer dia.

— Tome cuidado.

Kass apenas acenou e saiu da sala calmamente. Os Federais a encararam com desconfiança, mas não moveram-se um centímetro para abordá-la. Ela iria seguir em direção ao dormitório, imaginando que encontraria as meninas por lá, quando três corpos colidiram com o seu num abraço coletivo. Ela revirou os olhos reconhecendo aquele tipo de afeto e os cheiros de cada uma. A última vez havia sido na Aula quando vencera Sophie pela primeira vez.

— Todos os adolescentes são assim ou vocês aproveitam da minha boa vontade? — resmungou ainda caminhando como se os três corpos não pesassem nada.

— Falou a idosa — zombou Amanda sem pensar, ainda agarrada em Kassandra.

— Amanda, ela…

A Líder Esportista bufou ao perceber sua fala.

— Certo, mas a questão é que quero pedir desculpas. E esse é o meu jeito adolescente de pedir.

— Tudo bem, mas e vocês duas? — perguntou se referindo a princesa e a Sarah.

— Ah! Elas, sim, estão aproveitando da sua boa vontade! — disse Amanda orgulhosa em delatar as amigas.

— Sabemos quem será a delatora da nossa equipe. — cantarolou Lyanna.

— Eu não… Eu só… Vocês são insuportáveis!

As três soltaram-se de Kassandra, caminhando juntas pelo corredor.

— Quando partiremos?

— Amanhã cedo. O Comandante Bakir irá providenciar nosso transporte e os equipamentos serão deixados nos nossos dormitórios mais tarde.

— Ok.

— Agora… O que a Diretora Principal queria com você?

— Curiosidade mata — disse debochadamente.

— Eu tenho mais medo de você.

Kassandra parou de andar e encarou-a com uma sobrancelha erguida em desafio. Amanda prontamente se endireitou e entrelaçou seu braço com o de Sarah.

— Vamos, Sarah! Precisamos nos arrumar e descansar um pouco! Até mais meninas! — saiu apressada, puxando a baixinha pelo corredor.

Lyanna riu da reação da melhor amiga.

— Isso é maldade.

— Ora. Eu não fiz nada demais.

— Claro, olhar mortal.— zombou. — Apesar de ter sido uma desculpa clara pra fugir de você, nós precisamos nos preparar também.

Kassandra assentiu e as duas seguiram em direção ao dormitório num clima mais leve.

Notas finais
O que acharam? Espero voltar o mais rápido possível ♥ Não esqueçam de comentar e até a próxima!!