Nothing Planned
22 Finn
Finn respirou fundo enquanto caia a ficha do que estava prestes a fazer.
Anos atrás jurara a si mesmo que jamais contaria, jamais relembraria, nem nas noites mais turbulentas em que seu cérebro insistia em reviver aqueles momentos, ele não permitia ocupando a cabeça com outras coisas. Era algo que deixara para trás ao se mudar para Lima.
Mas ali era diferente, Rachel merecia saber, merecia entender.
“Como assim você sabe mais do que eu imagino?” Ela questionou confusa, cruzando os braços e o encarando ironicamente. Qual era a intenção dele? Simpatizar com o que ela estava passando? Só podia ser brincadeira.
Finn Hudson jamais poderia saber o que ela estava passando... ou poderia?
O quarterback se ajeitou na cama, abriu e fechou a boca várias vezes, mas nada saia. Então levantou da cama e começou a caminhar pelo quarto, seria mais fácil se não tivesse que encara-la nos olhos.
“Eu sou de Toledo, sabe? Aqui perto, poucas horas de distância. Meu pai faleceu pouco tempo depois que a Marley nasceu, minha mãe ficou lotada de dívidas e duas crianças para cuidar.” Finn deu de ombros passando a mão pela nuca, sinal que estava desconfortável. “Ela arrumou dois empregos e nos deixava com a Sra. Chase, a vizinha. A Marley ficava em casa direto, mas eu estava com sete anos já ia para a escola, era mais fácil. Um dia a Sra. Chase tropeçou em um dos brinquedos da Mar e fraturou o quadril. Foi difícil, mas minha mãe no final encontrou uma babá bastante recomendada pela vizinhança que não cobrava um absurdo. Ela era o que todo mundo chamava de incrível. Fazia Cupcakes, trazia jogos de tabuleiro e vinha com as brincadeira mais legais que você pudesse imaginar.” Finn respirou fundo parando em frente a janela e olhando o pouco movimento. “A gente se apegou muito à ela, Marley não desgrudava e juntos imploramos eu ela ficasse e a Sra. Chase não voltasse. Ela virou nossa babá em tempo integral. Era fantástico, fazíamos o que queríamos, diversão o tempo todo. Era a nossa ‘Mary Poppins.”
“Finn?” Rachel chamou depois que segundos se passaram e ele ficara em completo silêncio.
Ao ouvir seu nome, o garoto se virou, seus olhos cor de mel uma mistura entre a tortura que estava se impondo ao trazer aquilo à tona e o sofrimento ao relembrar tudo novamente. Era a primeira vez que Rachel enxergava algo além da arrogância e prepotência que Finn sempre demonstrara. Era como olhar em um espelho. Cacos de vidros dilacerando todo seu interior enquanto mantinha uma falsa faixada para os outros.
“Eu tinha sete anos quando aconteceu pela primeira vez. Ela estava sempre lá em casa, era como se fizesse parte de nossa família, sabe? Eu, Marley, minha mãe e ela. Estávamos desenhando na mesa de jantar, eu terminei antes da Mar e fui todo orgulhoso mostrar. Ela sorriu, me agradeceu, pegou uma caneta e no canto da folha desenhou um coração dentro de um coração. Segundo ela significava o amor dela por mim, o coração de adulta dela e o meu de criança. Mas não era isso o verdadeiro significado é óbvio.”
“Finn...” Rachel o interrompeu de olhos arregalados.
“Alguns dias se passaram, seguimos a mesma rotina. Ela colocava a Mar para dormir primeiro no quarto da minha mãe e ficávamos na sala vendo desenho até umas nove horas. Mas essa noite foi diferente, eu sabia que era diferente, ela me olhava diferente, me tocava diferente, pela primeira vez eu me sentia desconfortável de estar no mesmo lugar que ela. Insisti que era minha cabeça, que estávamos apenas vendo um filme, mas não era...” A morena observou todo o corpo dele enrijecer, as mãos fechadas em punho tão forte que as pontas dos dedos estavam brancas. “Acho que você sabe o que ela fez.” Murmurou a última parte tão baixo que se não estivessem próximos, a Berry provavelmente não teria escutado.
Uma lágrima solitária correu pela bochecha do garoto, não demorou outra escorregou contornando a maçã do resto e escorrendo pela bochecha e mais uma. Tanto tempo depois e parecia que tudo aquilo acontecera ontem. Sua feridas tampadas fracamente com band-aids arrancadas com força.
“Isso aconteceu por meses.” Finn continuou segundos depois, a voz rouca por causa das lágrimas que ele lutava para segurar. Algumas escaparam, mas a onda continuava presa. Tinha medo que caso começasse, jamais conseguiria parar e não era para isso que estava contando tudo aquilo. “Ela deixava claro que eu não podia contar para ninguém, era nosso segredo. Só pessoas que se amavam mesmo podiam fazer isso, era uma prova do amor dela, mas infelizmente algumas pessoas não pensava dessa forma e veriam com maus olhos. Também dizia que eu era um menino sortudo, que diversos outros adorariam trocar de lugar comigo. Com o passar do tempo ela foi virando a monstra que eu começara a conhecer. Me chamava de nomes horríveis, dizia que eu era uma mulherzinha por ficar chorando por nada e começou a me ameaçar. Iria machucar minha irmã ou minha mãe se eu abrisse a boca.” Finn respirou fundo limpando a garganta, a voz quase um fiapo. “Meu comportamento também mudou. Eu queria ficar na escola, morria de medo quando tinha que ficar com ela e implorava que minha mãe não fosse trabalhar, que ficasse ali e me protegesse dos monstros. Daquele monstro. Minha mãe ocupada com dois empregos acreditou que fosse uma fase, algo passageiro relacionado a morte do meu pai.” Ele rolou os olhos marejados e sorriu irônico. “Quando eu finalmente criei coragem para contar a alguém, um idiota que acreditava ser meu amigo, ele riu, dizendo que eu era o filho de égua mais sortudo que existia, que tinha tudo que ele queria e tinha mais é que aproveitar.” A raiva agora era visível em sua voz, assim como na postura de Rachel que também enrijecera.
Ela abrira e fechara o boca, mas o que falar naquele momento? Não sabia como confortá-lo. Só sentia raiva e nojo das pessoas que causaram tal sofrimento a um garoto inocente.
“Era o pesadelo se tornando realidade...” Ela murmurou erguendo a mão e segurando a dele, passando força e os sentimentos que não conseguia demonstrar com palavras.
“Sim, tudo que aquela cobra dizia para mim, parecia a verdade, quem iria acreditar em mim? Depois disso não contei para mais ninguém. Nem para Puck, que passava por uma situação semelhante, mas não igual. Ele era meu melhor amigo, mas morria de medo que ele não acreditasse em mim. Passei a ignorar minha mãe, agir mal na escola, quase fui expulso uma vez, mas não abria o bico e ela aproveitando a situação continuava. Outros meses se passaram, eu completei oito anos e chegou a um ponto que eu não aguentava mais. Quando ela tentou fazer aquilo naquela noite, eu me revoltei, disse que não me importava mais se não acreditassem em mim, mas pelo menos descobririam o monstro que ela era.”
Apesar de continuar calada, os olhos expressivos de Rachel diziam tudo.
“Ela ameaçou minha irmã. Minha irmã de cinco anos Rach. Falou que se eu não quisesse mais brincar, minha irmã iria querer. Ela seria menos chorona.” O suspiro de choque não passou despercebido, mas ele continuou. “Eu não podia deixá-la perto da Marley. Nunca mais reclamei, fiz tudo que ela mandava e fingia gostar algumas vezes, tudo para deixá-la feliz e o mais longe possível da minha irmãzinha. Minha mãe então conheceu Burt na reunião de pais da minha escola, eu estava a um passo de ser expulso e Kurt não se entrosava com ninguém, aparentemente filhos problemáticos aproximam pais.” Ele tentou brincar, mas soou forçado e sem graça. “Os dois começaram a sair, depois a namorar e por um tempo as coisas melhoraram, sabe? Burt tentava passar um tempo comigo, me levava para jogos, para comer hamburguers e consequentemente eu passava menos tempo com aquela coisa. Ela começou a ficar com ciúmes, disse que eu tinha que dar um jeito de me livrar do Burt, que ele atrapalharia nossa família, etc, etc.”
“Você tentou separá-los?”
“Não. Minha mãe estava feliz em tanto tempo e... egoistamente eu sabia que se eles casassem, a gente precisaria menos e menos daquela monstra e eu poderia ser livre.”
“Isso não é egoísta Finn, você foi inteligente.” Rachel interviu vendo que ele se sentira culpado por pensar em si mesmo.
“Bem, algumas vezes Kurt ficava com a gente. Quando Burt precisava trabalhar na oficina ou quando os dois iam em encontros. A babá sempre arrumava um jeito de deixa-lo entretido enquanto ela estava comigo, mas você conhece Kurt... Uma dia ele nós viu, a megera estava de costas, estão ela não notou, mas eu vi. Nunca vou esquecer o olhar de surpresa misturado com confusão e nojo, por um tempo achei que fosse de mim, que ele achasse que eu fosse culpado, mas Kurt tinha nojo dela, ele sabia que eu era uma vítima, estava do meu lado.” Era claro o quanto o apoio do irmão tinha significado para Finn. “Claro que na hora eu gelei, fiquei com medo que se ele abrisse a boca, ela machucasse Marley ou ele. Quando tivemos um tempo sozinhos, eu implorei que ele não contasse, fiz ele jurar de mindinho e tudo mais.”
“Mas Kurt contou.” Rachel adivinhou e o garoto simplesmente acenou.
“Sim, ele até tentou manter a promessa, mas acabou revelando para Burt. Kurt sabia que aquilo era errado e que ela não podia sair impune, ele fez o que eu não conseguia, porque estava aterrorizado com a ideia dela machucar as pessoas que eu amava.” Cansado de ficar em pé, os dois sentaram na enorme cama kingsize, Rachel com as costas para a cabeceira pegando um ursinho de pelúcia e abraçando e Finn de frente para ela, suas enormes pernas caindo para fora da cama. “Minha mãe e Burt instalaram câmeras escondidas, conseguiram as devidas provas e alguns dias depois ela foi presa. Eu ouvi as mesmas coisas que você Rach, que eu pedi por aquilo, que ela me amava, que eu era um idiota por deixá-la ir. Não acredite nisso, nós somos melhores que eles, nós merecemos mais.”
“O que aconteceu depois?”
“Nos mudamos. Minha mãe e Burt casaram e viemos para Lima onde poderíamos ter uma vida normal, sem as pessoas nos encarando com pena ou coisas do tipo. Puck, a mãe e a irmã vieram logo depois quando o pai dele os abandonou. E é isso.” Finalizou. “Não justifica o modo que eu te tratei, o modo que tratei todas as meninas, mas eu não sabia como fazer diferente. Eu não acreditava no amor, não tinha noção de como pensar, como agir. Virei um completo canalha, me perdoe.”
“Eu não posso te julgar tanto assim, eu virei uma pessoa horrível com os alunos ou qualquer um que tentasse chegar perto.” Rachel deu de ombros. “Me perdoe por dizer que você não entendia.”
“Você não tinha como saber.” Finn deu seu típico sorriso lateral, deixando as covinhas aparecerem. “Eu fui um idiota e me deixei levar pelo que me aconteceu, me tornando alguém que nem minha irmã suportava. Mas você Rach, não siga pelo mesmo caminho! Se cuide, fale com seu pai, seu tio, Santana. Todos estão preocupados. E por favor logo antes que a Sant enlouqueça a todos nós.”
“Eu não sei como...” Rachel admitiu em um fio de voz. “Não sei como superar isso, não sei como seguir em frente, não sei como me abrir. Eu não sei o que pensar, minha cabeça está tão confusa.
“Você tem todo o tempo do mundo para descobrir. Não precisa ter pressa, mas deixe os outros entrarem, de pouquinho em pouquinho. E se precisar, iremos descobrir juntos.”
“Obrigada Hudson.” Rachel falou sinceramente dando o primeiro sorriso da noite, fraco, mas um avanço.
“Sem problemas Ber...” Ele foi interrompido pelo toque de seu celular, Rachel pode reconhecer as primeiras notas de Back to Black, durante a ligação pode ouvir a voz escandalosa de sua melhor amiga, alguns xingamentos em espanhol e se preocupou com as expressões de surpresa e feição que Finn não conseguia esconder.
“O que aconteceu?” Perguntou alarmada assim que ele desligou a chamada.
“Santana está me mandando levar minha bunda de uma baleia cachalote albina para o hospital porque a bolsa da Quinn estourou e o Sam está tendo um indevido ataque de pânico.” Nas últimas semanas Puck, Sam e Finn tinham se tornado inseparáveis, os dois garotos muitas vezes tendo que acalmar o loiro quando ele pensava no filho que estava prestes a vir. “Eu tenho que ir para lá antes que sua amiga mate o meu amigo.” Finn levantou da cama apressado e tropeçou na ponta do lençol quase caindo de cara no chão. Estava na porta do quarto, quando parou e virou para a morena de olhos arregalados. “Venha também!” Exclamou como se tivesse tido a ideia mais brilhante do mundo.
“Não acho que eu e meu drama é o que eles precisam agora.” Rachel respondeu ressentida. “Além disso, Quinn jamais iria me querer lá depois das coisas que falei para ela.”
“Isso não é verdade! A Q. está morta de preocupação com você. Rach, ela te adora, você foi a única que estendeu a mão para ela quando mais precisou. Vocês são amigas.” Ele argumentou. “Vamos, ver um bebê é sempre uma coisa boa, vai tirar essa carranca do seu rosto. Você está quase criando raízes aqui.”
“Não acho que isso vai ser uma boa ideia.” Mas era obvio que ela queria ir, mais um empurrãozinho e ele sabia que ela iria aceitar.
“Vaaaamos. Quinn precisa de você. Nós precisamos de você. Vai ser bom, confie em mim.”
“Fora do meu quarto Hudson.” Ela falou seriamente e Finn ficou preocupado que tinha empurrado ela muito longe. “Eu preciso trocar de roupa.” Continuou, mordendo o lábio para esconder a risada que ameaçara escapar por seus lábios.
Finn estava certo, teria que dar um passo uma hora ou outra. Por que não agora?
‘Quebrado atrai quebrado, você está certa Rach.’ Finn pensou ao fechar a porta do quarto da morena e descer para a sala. ‘Só não do jeito que você imaginava.’
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