- Será que ainda consigo aproveitar esse momento em família? — Jairo sussurra ao pé do ouvido de sua esposa.


Mariana rapidamente gira o pescoço, avistando um belo buquê composto por flores nas cores vermelho, rosa e amarelas:


- Para minha rainha. — Jairo entrega o buquê acompanhado de um selinho.


O gesto não esperado por parte do cônjuge fez com que Mariana se levantasse rapidamente da cadeira, envolvendo o esposo em um longo e caloroso abraço:


- Quer dizer que o material foi entregue antes do horário combinado?


- Nada disso. — Ocorreu um problema durante o processo de encadernação e infelizmente a entrega será realizada dentro de dois dias.


- Dois dias?


- Exatamente. Mas, não se preocupe, agendei uma conversa com o funcionário responsável pelo nosso pedido, para depois do expediente.


Mariana sorri admirando a postura protetora e preocupada do marido diante dos assuntos que envolvem a qualidade do ensino oferecido pela instituição:


- Termine seu almoço, meu amor. — Por gentileza, me arrume uma blusa social limpa. Não quero ir até a gráfica com aspecto de quem trabalhou o dia todo.


- Onde pretende se trocar? — Questiona Mariana.


- No vestiário masculino. — Esqueceu-se que estou ajudando com a mudança dos aparelhos do laboratório de química?


- Você é sempre muito participativo. — Te amo!


Um dos hábitos adotados e respeitados pela família Vieiras consiste em se reunirem em ao menos uma das refeições diárias. Momento o qual discutem sobre as atividades praticadas no colégio, estreitam os laços familiares, aproveitando o momento para cobrarem a participação mais direta do futuro herdeiro nas decisões de médio e longo prazo do Colégio São José.




(...)




O dia segue seu rumo, Jairo retorna para suas atividades de diretor financeiro do CSJ, Júlio organiza seu material para mais um dia de aula na Universidade Federal de Minas Gerais. Mariana organiza algumas tarefas domésticas partindo em seguida para sua aula de dança na academia do condomínio.


Um pequeno grupo de estudantes conversam enquanto observam o ônibus universitário se distanciar. Júlio avista o coletivo, conferindo a hora em seu relógio de pulso. Perder o ônibus, significa perder o primeiro tempo de aula, visto que as condições municipais não o deixaria tão próximo do seu destino.

Um singelo palavrão pula enfurecido de sua boca. A alternativa mais sensata seria atravessar a praça principal e aguardar o coletivo do outro lado da avenida. Um decisão simples se as paradas fossem paralelas nos dois sentidos e não diagonais.

O som da música em seu fone de ouvidos marcava os segundos entre tentar ou desistir. Bem, desistir não era opção mais aceitável:

- Corre, moleque! — Júlio conversa relativamente alto consigo mesmo.


O vento fraco serve de um leve refrigério. incentivando as passadas largas enquanto desvia dos transeuntes que seguem em direção oposta. Segundos depois a corrida desesperada ao som de "Chop Suey", estimula sua mente como uma droga de encorajamento, Júlio não se recordava que a travessia da praça fosse tão demorada:


O ônibus aponta na última volta da rotatória, Júlio avista apenas três pessoas esticarem seus braços sinalizando o embarque para o motorista. Desistir não era sua intenção, porém o cansaço foi pesando suas pernas mais rápido do que havia imaginado.


Uma das moças que se preparava para subir os degraus do coletivo, comenta algo com o motorista. A estudante que gentilmente segurava um dos apoios da porta repara o quanto o rapaz estava sem fôlego:


- Obrigado! — Júlio agradece utilizando o restante do ar que sobrara em seus pulmões.

- Não precisa agradecer. — Gostei da sua blusa.

- Valeu! — Difícil encontrar uma menina que se interesse por System Of A Down.

A moça cerrou o olhar, voltando seu corpo em direção ao rapaz, arrumando parte de suas tranças, respondendo o comentário sem medir as palavras:

- Como mulher, posso dizer que existem várias mulheres que se interessam por rock. — Me atrevo a dizer que o menino deveria escutar "Garotos dois", essa música sim combina bem com você.


Júlio sente um tapa verbal em seus ouvidos. Preferindo o silêncio no lugar da contra resposta. Afinal, a postura da jovem deixou o rapaz incapaz de raciocinar qualquer tipo de argumento capaz de amenizar o momento:


- Não te deixei sem palavras, deixei? — Questionou a moça de pele negra, cabelos com longas tranças e piercing na língua.


Júlio acena negativamente olhando a moça que o ajudou minutos atrás.


O ônibus adentra o campus da universidade, Júlio se despede da moça enquanto guarda em um de seus bolsos o número do contato cedido por ela.


Gabi, sua amiga de curso acena para o rapaz que parte em sua direção juntando-se a outros colegas da graduação:


- Tentamos te ligar diversas vezes..- Informa Leandro

- O que houve?

- Avisaram no grupo da turma que o professor está super gripado e não dará aula hoje. — Responde Gabi.

- Viemos à toa, meu caro amigo. — Leandro resmunga enquanto acende um cigarro.


Júlio gesticula algumas palavras de baixo escalão, seguindo o grupo que caminha até um dos diversos pátios próximo ao bandejão onde se sentam em alguns bancos livres. Do outro lado do pátio, Júlio avista Joice, que brinca o filho de uma das professoras da Universidade:


- Júlio! — Gabi chama diversas vezes o nome do amigo.


Flávio, um dos colegas, se aproxima colocando seu rosto quase que colado no rosto do rapaz, direcionando seu olhar na mesma direção que Júlio observa estático:


- Nosso amigo foi fisgado pela deusa do amor. — Cagoetou Flávio para os demais.


Gabi arremessa sua latinha de refrigerante já vazia no ombro de Júlio que logo retoma o juízo com um olhar fuzilante para a única moça do grupo:


- Joice é a criptonita do nosso amiguinho..- Gabi declara ironicamente. — Júlio estala os beiços, enquanto se senta ao lado da moça.


A sensação de desconforto toma o íntimo de Júlio, quando Leandro solicita o silêncio de todos, para que pudessem escutar a música que vinha da caixa de som acoplada em um carrinho utilizado para divulgar a chopada promovida por um dos cursos:


"Tô namorando aquela mina, mas não sei se ela me namora. Mina maneira do condomínio, lá do bairro onde eu moro".

Leandro aplica três tapinhas no ombro de Júlio — Essa é pra você, meu amigo.. — O comportamento engraçadinho de Leandro, levou Júlio a se despedir do grupo partindo rumo a saída do campus.


- Júlio, é uma brincadeira mano. — Gritou Leandro. — Pode falar nada, "taquepariu"!


- "Cê" é sem graça. — Gabi adverte o amigo pela brincadeira.



(...)



Em meio a passos largos e apressados, Júlio ignora o barulho insistente da buzina e a voz que grita seu nome. Sem que pudesse imaginar o carro avança cruzando a rua entrando pela contramão, onde sobe parte da calçada destinada aos pedestres Segundos após o vídro do motorista se abre revelando a dona da voz insistente que gritava:


- Esses fones são um perigo, estou gritando e você nem sequer olhou para o lado. — Reclama Joice. — Vamos, estou indo para casa.


- Obrigado!


Júlio contorna o carro, ignorando o convite feito pela então não sabe o que é dele. A moça aguarda a liberação do trânsito dando ré com o carro, seguindo vagarosamente o rapaz:


- Entra, Júlio! — Daqui a pouco, vai ter um filho da mãe, fazendo buzinaço.


O olhar sereno de Joice, acompanhado do timbre suave de sua voz, foi quebrando por completo a armadura de papel utilizada por Júlio. Olhar nos olhos daquela mulher determinada, despedaça por completo a armadura imaginária do rapaz que se rende como um prisioneiro, atravessando a rua rapidamente para embarcar no carona do automóvel:


- Até quando você vai me tratar assim?

- Como?

- Fingindo que não existe nada entre nós dois.

- Eu achei que existisse. Afinal de contas, nós estamos a quase três anos nesse chove e não molha, repleto de idas e vindas.- Responde Júlio levemente irritado.

- Não quero brigar. Eu sinto sua falta, falta dos nossos momentos. — Se preciso te lembrar, fique sabendo que essa não é a primeira vez que ficamos brigados — Joice confirma os conflitos existentes.


Júlio sufoca todas as palavras presas em sua garganta, engolindo seco. Talvez, aceitar a carona tenha sido a pior decisão tomada. O silêncio de ambos permitiu que ele se concentrasse na letra da música: "Dois Tristes", era como se a cantora Simone Mendes, estivesse jogando em sua cara a realidade de um relacionamento vivo com ajuda de aparelhos. Todavia, estar com Joice provoca sensações como as de uma droga relaxante, mesmo que se corra o risco das contra indicações:


- Chegamos.


- Obrigado pela carona.


Júlio deixa o interior do carro seguindo para o bloco onde reside. O apartamento completamente vazio serve de refúgio para o jovem que busca explicações a respeito do relacionamento caótico. A foto da amada e algumas roupas guardadas em seu armário são as lembranças de um período quase impossível de se explicar.


A rotina de sempre, os estudos, o violão, as responsabilidades de um futuro cada dia mais próximo, provocam sucessivas ondas de ansiedade. Seus pensamentos se perdem em uma das suas playlist favoritas, até que o som da campainha ecoa pela casa:


- Esqueci minha chave e meus pais não estão em casa. Posso entrar?.-.Questiona Joice.


O coração de Júlio acelera, não seria de bom grado deixar a vizinha sentada no pátio do condomínio até que seus pais retornassem. Após deixar sua bolsa em um dos sofás, Joice segue até o quarto de Julio, certificando-se que suas fotos e roupas ainda ocupam parte do cômodo. O barulho do chuveiro aberto, favorece para a elaboração de um plano perfeito por parte da moça:


- Não acredito que você está vestindo minha blusa.

- Dizem que não é bom deitarmos na cama com roupas sujas. — Responde Joice.


Júlio ignora a investida dobrando algumas peças de roupas que estavam em sua cama, Joice procura alguma música interessante nas diversas pastas organizadas na tela principal do computador:


- Não tem nada que você goste nessas playlists.

- A música será apenas um detalhe. — Ninguém vai prestar atenção no Capital Inicial. — responde a moça de pele clara, cabelos medianos lisos em tom castanho acobreado, dando play em uma das poucas músicas que conhece.


A introdução de "Fogo" é rapidamente reconhecida por Júlio que sente o toque das mãos de Joice deslizar por toda extensão das suas costas. Sua mente diz não, seu coração diz sim, suas mãos deslizam pela pele quente da jovem, relevando que não existe nenhuma peça íntima por baixo da blusa que cobre inutilmente suas curvas.


A letra da música dispensa qualquer tipo de narrativa capaz de detalhar o momento.