Notas de um Amor
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Notas iniciais
- Júlio, cheguei meu filho! — Esse garoto deve estar com a porcaria desses fones enfiados nos ouvidos.
Pelo corredor do apartamento, Mariana segue em direção ao quarto do seu único filho. O caminhar cansado, alinha-se a diversas frases de reclamações ditas aos ventos. Reclamações essas que são subitamente silenciadas, no momento o qual uma de suas mãos gira a maçaneta, abrindo rapidamente a porta que se choca em um pequeno cabideiro abarrotado de blusas pretas estampadas com símbolos das principais bandas de rock.
- Que susto! — Exclama Júlio enquanto sente a agitação do seu coração.
- Estou chamando e você nada de responder. — Até nisso puxou ao seu pai, o rei da distração.
Júlio bufou discretamente, enquanto revirava os olhos, retirando os fones, interrompendo então o som de "Primeiros Erros" que dedilhava em seu violão. Enquanto desliga seu computador, seus olhos visualizam o reflexo de sua mãe através do monitor, fazendo com que ele finalmente voltasse sua atenção para ela.
O olhar e expressão de Mariana são visivelmente cansados, apesar das belas roupas que vestia. Ser diretora, filha e herdeira de um dos colégios mais tradicionais de Belo Horizonte — MG, cooperava para que suas preocupações só aumentassem.
Os olhares trocados entre mãe e filho expressam uma mistura de amor e cumplicidade. No entanto, imaginando que seria repreendido, Júlio esfrega as mãos na cabeça, respirando fundo, balbuciando algumas palavras confusas, sendo rapidamente silenciado:
- Depois de uma manhã cansativa de trabalho.. Será que posso ter o prazer da companhia do meu filho durante o almoço?
Júlio ergue a cabeça, olhando fixamente para sua mãe retribuindo o convite com um simples e belo sorriso:
- Irei me aprontar. — Responde o rapaz enquanto sorri timidamente.
Mariana deixa o quarto seguindo rumo à cozinha, ligando o rádio na intenção de quebrar o silêncio do ambiente, percebendo então o aroma de temperos frescos, misturados ao cheiro da carne assada aquecida em temperatura baixa no forno principal. Dentro de uma pequena vasilha, folhas de alface cortadas com finas e delicadas rodelas de tomates repousam sobre o tampo da pia.
Surpresa com a atitude do filho em preparar o almoço, Mariana agradece aos céus por conseguir, apesar da postura rígida, forjar bons valores no jovem de vinte e um anos:
- Meu pai não vem almoçar?
- Não. Ele ficou no colégio para receber as apostilas que encomendamos para o preparatório.
Júlio observa atento a explicação de sua mãe, deduzindo que cada palavra foi cuidadosamente escolhida para responder seu questionamento de forma curta e objetiva caso necessário.
No rádio a canção "Começo, meio e fim" do grupo Roupa Nova, parece responder ou deixar subentendido a realidade que Mariana prefere não comentar:
- Deixa eu mudar de estação. Afinal, meu filho roqueiro não é facilmente seduzido por músicas de amor.
Júlio libera uma rápida gargalhada, lembrando-se que muitas traduções das músicas internacionais e também muitas letras das bandas nacionais de rock, expressam um amor bonito e sincero por alguma mulher ou alguém.
- Nada disso. Eu só não sou fã da música "Volta pra mim".
- Por qual motivo?
- Quem em sã consciência sairia gritando "Eu te amo e vou gritar pra todo mundo ouvir"?.
- Você não presta, garoto.
Júlio manifesta uma careta incrédula, como quem não se imaginasse vivendo a cena narrada na canção. Automaticamente, ele vira as costas para a mãe, balançando a cabeça negativamente.
Enquanto organiza os utensílios necessários para que pudessem se servir durante a refeição, Mariana ajeita cuidadosamente os sousplats, os pratos, copos e os alimentos. Júlio por sua vez, se apressa para abrir uma das portas que libera o acesso para à sacada, reparando propositalmente que a piscina do condomínio vizinho está tomada por moças que se refrescam no dia ensolarado. Entretanto, o que desperta sua atenção é um rápido vulto que passa pela janela de um dos cômodos do apartamento frente ao seu:
- Olhando as moças na piscina?
- Confesso que olhei sim. Entretanto, uma coisa me chamou a atenção. Acho que tem alguém no apartamento em frente ao nosso.
- Eu nunca vi ninguém nesse apartamento. — Engraçado que aparentemente ele está mobiliado, as janelas possuem cortinas. Sinceramente, nunca vi ninguém.
- Eu tive a sensação de ter visto alguém deixar um dos cômodos. — Será algum fantasma?
Mariana olha em direção a porta, mas prefere não se deixar levar pela curiosidade:
- Venha, vamos almoçar. — Pare com essa bobeira de fantasmas.
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