Notas iniciais
Gente, como vão vocês? Ok... Estava eu escrevendo Natural Selection e meus sentimentos Bethyl estavam meio {ok, muito} abalados, pois eu estava assistindo a S5 Ep8 de novo hoje de manhã, então, deu nisso. Fazer o quê? Short-fic Bethyl. Espero que gostem. Boa leitura.

"How unfair it's just our luck

Found something real that's out of touch

But if you'd searched the whole wide world

Would you dare to let it go?"

Not About Angels — Birdy

Daryl tateou o pequeno caderninho de bolso e não pôde evitar a visão se embaçar imediatamente. Sentia-se um intruso, prestes a invadir o território restrito de Beth Greene. A lembrança do hospital era tão viva; a dor, quase insuportável. Aquela garota tinha mesmo mexido com ele, admitia isso a si mesmo. Lembrou das palavras de Carol, as quais indicavam como o caçador caipira havia mudado. Uma metamorfose só possibilitada pela existência de um anjo.

No início, suprimiu todos os sentimentos que se afloravam mais rápido que imaginava. Ouvia a voz de Merle, o qual gozava de seu coração molenga, caindo de amores por uma mulher. Sim, suas barreiras quebravam-se aos poucos e tudo amolecia em questão de instantes. Bastava um olhar azulado encontrando o seu. Não queria se permitir sentir algo por uma criança inocente, então, agia como um canalha, alguém impossível de receber a afeição de qualquer um. Toda vez que colocava isso em mente, lá vinham os atos da jovem: mostrando-se ser consideravelmente bem capacitada de sobreviver ao fim do mundo. Por que ela dificultava tanto as coisas? O homem só queria taxá-la como indisponível e inalcançável, mas ela contradizia suas juras com um simples ato, provando já ser uma mulher.

O enterro foi algo difícil de suportar. Sentia ódio de Maggie. Achava que a mulher, mesmo sendo a irmã mais velha de Beth, não merecia estar de luto. Afinal, o que ela fez quando soube que a jovem não estava lá com ele? Limitou-se a pensar que pelo menos ela ainda estava viva... Sentia o desejo de chutar o rabo daqueles que mal a conheciam e estavam lá, porém, conforme tal pensamento nublava suas ações, escutava a serena melodia que saíam pelos lábios da menina Greene: ''Ainda existem boas pessoas no mundo... Você é uma delas, Daryl.". E, rápida como surgiu, rápida a irritação ia embora e uma sensação de respeito apossava seu corpo. Um novo pensamento aparecia: Beth Greene fora alguém tão especial, que mudara a vida não só daqueles de longa data, como também daqueles que não a conheciam. Era uma tristeza conjunta e compartilhada.

"A gente não vê o que podemos ver, mas o que não podemos ver. O que pode ser visto é temporário. E o que não podemos ver é eterno. Pois sabemos que se a terra onde vivemos é destruída, temos um edifício de Deus. Casas não são feitas com as mãos e são eternas nos sonhos''. Foram as palavras do Padre Gabriel. Não havia nada restante a não ser se agarrar às belas frases e engolir que Beth não voltaria mais.

Horas depois do funeral, tempo este que deseja passar sozinho, sofrendo em silêncio e afogando-se em suas próprias mágoas. Maggie o encontrou e pediu para falar com ele. Escondeu a sete chaves o impulso de deixar as lágrimas retornarem e de gritar com a última Greene viva. Gritar suas dores, sua raiva... Ele provaria à loira falecida que ela estava certa: ainda existiam pessoas boas no mundo, e ele não descontaria seu pesar na moça ao seu lado. Sabia que esta mal se aguentava em pé, tamanho sofrimento. Somente continuou fitando o pôr do Sol, algo que a mulher levou como um consentimento.

— Quero agradecê-lo, Daryl. Não sei como não vi antes, na sua expressão quando disse que Beth se fora, mas que ainda estava viva em algum lugar... Eu normalmente capto sentimentos fortes bem fácil, mas não... Hm, vocês criaram uma ligação, não é?

O caçador relembrava das palavras embargadas e chorosas; e dos olhos inchados e vermelhos de Maggie, enquanto continuava a passar os dedos calejados pela capa de couro do diário, pensativo.

— Olha, só quero saber uma coisa, por favor. — Engoliu em seco. — Eu não lembro de como era sua risada, seu sorriso... Ela estava feliz com você? Como ela estava depois que papai... Depois que ele se foi?

— Ela era forte... — Interrompeu a moça, na tentativa de desviar do assunto pessoal. — Ela só não tinha noção do quanto. Aguentou bem, até sorria...

A mulher esboçou um sorriso, ao mesmo tempo que salgadas lágrimas escorriam por suas bochechas. Algo dizia a ele que aquele momento fora o único que Maggie encontrara para falar, porque no resto do tempo estava ocupada soluçando em meio ao luto.

— Beth era especial para você. — Ela afirmou, analisando o semblante inquieto de Daryl, o qual não negou, apenas permaneceu na dele, em silêncio. — Quero que fique com isso. — Estendeu o caderninho a ele. — Estava no bolso do casaco dela... Ela iria querer que ficasse com você. Faça o que quiser com ele, mas lembre-se do que minha irmã gostaria, de fato, que fizesse. Confio que fará uma boa escolha. — Fungou e suspirou, esfregando o rosto. — Ela nunca foi muita boa com palavras, e seu jeitinho de ser honesta nesse mundo era por meio desse diário. Acho que há uma pergunta corroendo você por dentro e, bom, sua resposta estará aqui.

Daryl franziu os lábios ao receber, debilmente, o objeto. Maggie já cumprira com sua missão e já fazia menção de se juntar a Glenn, o qual não tirava sua preocupada expressão de cima da mulher, imaginando o que ela seria capaz de fazer em nome do sofrimento relacionado à perda da irmã mais nova quando estavam todos tão.

— Você leu? — Tentou disfarçar o interesse.

A moça voltou o rosto para o caipira e negou, sorrindo levemente. Sabia que Dixon acbaria por dar uma espiada.

— As palavras que estão aí não são direcionadas a mim para ter tal direito.

Agora, o caçador estava nesse impasse. Se leria ou não... Já era tarde da noite e ele continuava no mesmo lugar, com o diário fino em suas mãos. Havia despertado a curiosidade dos outros, mas ninguém quis quebrar aquele momento, deixando-o sozinho pelo tempo que precisasse. Estudou o caderno pela milésima vez: a maioria das folhas foram arrancadas para alimentar o fogo na época que passara com a garota e, ao abrir a primeira página, correu os olhos rapidamente e deparou-se com os acontecimentos após o ataque da prisão. Momentos estes ocorridos em sua companhia.

Daryl de um riso anasalado, pensando em seu irmão mais velho e em como ele diria que não passava de um marica, todo preocupado com o que descobriria. "Que se dane." Começou a ler e devorou as palavras como se a própria Beth estivesse ao seu lado, contando em voz alta seus sentimentos mais obscuros...

Mais um dia de um mês qualquer e de um ano que escorre por nossos dedos, rumo à destruição.

Querido diário,

É difícil voltar a escrever... É uma sensação estranha: os dedos parecem rijos demais e não querem me obedecer. Nossa, minha letra está ficando horrível, por isso, peço desculpas adiantadas. Estou um desastre esses dias, uma carcaça apenas, mas mudei. Presumo que seja uma boa mudança, não uma recaída.

Eu não me sentia segura no início, quando chegamos à prisão, lembra? Tinha o pressentimento de que o simples ato de desfazer as malas e retirá-lo do meio das minhas roupas faria o destino gargalhar de nós e nos enviar uma desgraça de cortesia. É tão ruim assim ter um pouco de esperança? Parece que sim.

Retornei a essa corriqueira atividade há algum tempo e não me acostumei ainda. Havia me esquecido de você e, novamente, desculpe-me por isso. A razão para continuar? Papai. Em alguma página desse diário, estão escritas e cristalizadas as palavras dele. Sábias e tolas palavras. Ele era um homem bom, minha âncora, assim como Maggie. Só que agora os perdi. Perdi para o mundo.

Eu pensava que não era possível doer mais que todas as mortes que passaram por nós como vultos a serem lembrados, conforme trilhávamos nosso caminho para sobreviver. Estava errada. Meu pai estava errado. Quem disse que temos o direito de criar porcos, plantar e se permitir ter uma vida? Até entendo seu ponto de vista, entretanto... Seria muito injusto pensar o contrário. E, mais uma vez, quem disse que sobrou algum senso de justiça? Se ela ainda existisse, papai estaria vivo, ao meu lado, dando-me conselhos de como seguir em frente, mas ele não está.

Nem sei porque estou escrevendo agora... Meu único motivo para fazê-lo, aquele que me convenceu a sorrir nos momentos difíceis, não está mais conosco. Ao prometer em alto e bom som a mim mesma que não choraria mais, nunca imaginara que seria forçada a espalhar lágrimas mais e mais vezes... Papai se foi. Sua vida lhe foi tirada dolorosamente e uma parte minha foi com ele. E eu divagando em meus sonhos que ele morreria em paz, sem um pingo de dor, somente iria embora, enquanto Maggie e eu seguraríamos suas mãos e diríamos "Está tudo bem, o senhor pode ir...". Estúpida.

É uma das primeiras vezes que consigo um tempo e espaço para pegá-lo. E provavelmente uma das últimas vezes que o farei... Nem sei o porquê de ter essa súbita vontade de abri-lo e arrastar a caneta pelas folhas brancas. Acho que isso é um adeus, na verdade. Uma despedida. Algumas de suas páginas já foram consumidas pelas chamas de uma fogueira. Tive que fazer isso, fui obrigada. Entenda bem esse detalhe. Ao menos não estou completamente sozinha, de outra maneira, não sei como conseguiria dar um passo atrás do outro e continuar.

Daryl está comigo. Ele não acredita que haja outros sobreviventes, mas alguma coisa me mudou. Transformou-me. Tinha aquela pontinha da antiga Beth Greene que se misturou à nova Beth Greene. Culpo Daryl por isso, porém, não é uma culpa ruim. É uma culpa boa, beirando à vontade de agradecer. Se eu não resgatasse aquela mentirosa esperança de um velho baú, como eu faria para continuar? Eu precisava ser forte, sim. Não negava: ser um peso morto era a última coisa que desejava. Por isso, teria esperança, acreditaria e me agarraria às palavras de meu pai. Dezoito anos de conselho e carinho. E daria um jeito de sobreviver. De alguma maneira eu cheguei até aqui, então... Bom, darei o meu melhor para ficar desta forma.

Notas finais
O que acharam??? Em breve, postarei o próximo capítulo e espero de coração que tenham gostado. Comentem, ok? Quero saber se continuo ou não. Ah, amo a Maggie de coração, gente. A maneira descrita por Daryl sobre ela só foi a visão de um cara frustrado. Xxxxx