Duas semanas haviam se passado desde o incêndio que mudou tudo. Ou melhor, o incêndio em que as coisas começaram a sair do controle. Kuroko e Kagami estavam assistindo tudo quase de camarote: o casamento de Midorima e Takao caindo em ruínas, Murasakibara parecendo sempre disposto a quebrar o pescoço de qualquer um que se aproximasse dele, Himuro com olheiras cada vez mais profundas em seu rosto.

Aomine e Kise continuavam a se encontrar secretamente, apenas para jogar basquete e conversar, segundo o moreno, mas aquilo não parecia convencer Kasamatsu, que estava se tornando mais e mais independente do loiro. Sakurai estava totalmente por fora do assunto, protegido com unhas e dentes pelo ex-capitão da Kaijo.

E ninguém conseguia conversar com Akashi, tendo por única exceção Masaki. Furihata ainda não acordava: tinha entrado em coma após as cirurgias. Masaki se recuperava rápido e já tivera alta do hospital. O pai do garoto dividia suas 24 horas entre estar com Masaki e estar no quarto de Furihata.

— No que está pensando, Tetsuya? – ouvir a voz de seu amado marido, o fez se virar na cama e observá-lo se vestir. – Desde que abriu os olhos, está olhando para o nada.

— Taiga... – o de cabelos azuis claros se sentou na cama, observando o maior. – Não há nada que possamos fazer? Parece que tudo está sendo destruído ao nosso redor.

— Seja o que for que esteja acontecendo, agradeço por nada disso ter nos afetado – o bombeiro se sentou ao lado do menor e beijou seus lábios com delicadeza. – E eu não sei, Tetsuya. Estou preocupado com eles também, mas são assuntos que apenas eles podem resolver.

— Tem certeza?

—Tem alguma ideia do que poderíamos fazer? Já tentei falar com Aomine e Kise, insisti para que eles parassem de se ver em segredo, mas nenhum dos dois me ouviu. Midorima é inalcançável por causa do seu trabalho. Você mesmo já tentou convencer Takao para se afastar o tal “Miyaji” e ele fez o quê?

— Me ignorou e ainda me acusou de estar apoiando os ciúmes sem motivo do Midorima.

— E ninguém parece saber o que aconteceu entre Murasakibara e Tatsuya. Não temos como mudar nada disso. O único que de fato podemos ajudar é Akashi – o ruivo estalou o pescoço ao falar do outro. – Depois que Aomine achou o cativeiro e encontramos os corpos, Midorima se encarregou de identificar os corpos. Os resultados das investigações devem ficar prontos hoje.

— Eu ainda não consigo imaginar quem possa ter feito aquilo com nossos pequenos – Tetsuya tremeu ao lembrar do incêndio.

— Há pessoas bem cruéis no mundo, o que me surpreende é alguém se meter com quem é querido para o Akashi. Se “aquele cara” voltar, qualquer um sabe que a morte será uma benção para quem seja que fez isso – por “aquele cara” Kagami se referia á personalidade absoluta de Akashi. Kuroko assentiu, olhando para as próprias mãos.

— E as crianças, Taiga? Como será que as crianças estão reagindo diante disso tudo?

==♥==

— ... E ele nunca mais riu depois daquilo – Seitarou falava, preocupado, enquanto pintava uma folha de sulfite. A professora juntara as mesas em pequenos grupos na sala, e os seis amigos tinham acabado juntos, é claro.

— Mas o Tio Takao sempre foi muito brincalhão – comentou Kouta, pegando um giz verde da caixinha no meio do aglomerado de mesas.

— Eu acho que é porque o papai e ele andam brigando muito. Eu sei que é coisa de adulto, mas eles nunca brigaram assim. É tudo culpa daquele cara que fica com a mamãe o tempo todo.

— Fala daquele cara de cabelo de cor estranha? – os olhares se voltaram para Noa, sem entender seu comentário. – É que eu não sei se ele é loiro, moreno ou tingido...

Os pequenos riram, mas Seitarou acabou assentindo.

— Ele mesmo. Ele olha pra mamãe com um jeito estranho, eu não gosto dele.

— Faz bem em não gostar, eu também não confio nele – todos assentiram às palavras de Masaki. Quando se tratava de quem era bom e quem não, os pequenos confiavam muito nos olhos do ruivinho.

— Tenho medo do papai e a mamãe se separarem por culpa daquele cara – confessou o de olhos verdes, suspirando.

— Eles decidem isso, Seitarou – disse Kouta, sorrindo de maneira radiante. Masaki jogou um lápis nele, certeiro em sua testa.

— Fique calado, que você sente o mesmo medo – todos riram do biquinho de Kouta. – Mas tem razão. É melhor eles fazerem as pazes por si mesmos. Ou pode piorar tudo.

— Como está o Tio Furi? – perguntou Hikaru.

— Ainda não acordou, mas o médico disse que ele está se recuperando bem – o sorriso do ruivo era verdadeiro e bonito.

— Como consegue sorrir quando sua mãe quase morreu? — Yoshiki não conseguia entender o ruivo de jeito nenhum.

— Eu sei onde e como ele está – ninguém conseguiu rebater aquele argumento e a conversa se desviou do assunto ruim, indo para outros mais divertidos.

Quando o sinal da saída tocou, os pequenos saíram lado a lado, conversando e rindo entre eles. Até que Seitarou olhou para onde sua mãe estava e não gostou nada do que viu: ele estava acompanhado de Miyaji e ambos tinham vindo no carro do mais velho. Nunca antes sua mãe o viera buscar de outra maneira que não fosse com o carro de seu pai. Masaki também pareceu notar e lançou um olhar para Hikaru, quem assentiu e pegou a mão do garoto.

— Vamos, Seitarou, vamos pedir pra sua mãe pra você dormir lá em casa. Papai vai ficar de folga amanhã e disse que ia me levar no parque. Vamos juntos!

O menino assentiu, quase que em choque, e os outros meninos se dispersaram. Masaki caminhou lentamente até seu pai, quem olhava sério para Takao.

— O que significa aquilo, papai? – Akashi baixou o olhar o pegou seu filho no colo, cuidadosamente. No alto, Masaki conseguiu ver o urso de pelúcia favorito de Seitarou no banco de trás do carro de Miyaji. – Para onde vão levar o Seitarou?

— Pelo visto, Kazunari já não aguenta morar com Shintarou.

— Isso é errado, papai! Aquele homem não presta!

— É a decisão de Kazunari, e Miyaji-san parece ser um bom amigo para Kazunari. O está apoiando nessa hora tão difícil...

— Eu não confio nesse homem, papai. Ele é ruim.

— Como pode dizer isso? Nunca nem conversou com ele – o maior o levou até o carro e entrou no banco de trás com ele.

— Eu herdei seus olhos, papai. Eu consigo ver como ele age com o tio Kazu. Seitarou também não gosta dele, ele não é bom.

— Está começando a ficar arrogante demais por esses olhos que tem, Masaki. E está julgando sem saber – a voz de Akashi se tornou um pouco mais grossa, repreendendo o filho. Mas aquilo não assustou o menor, pelo contrário, o indignou. Não ia responder seu pai, o respeitava, então virou o rosto e conseguiu ver Seitarou entrando no carro com Miyaji. E o rosto do garotinho demonstrava vontade de chorar.

— Eu vou provar pra você, papai – os olhos bicolores se viraram para Seijurou, confiantes e determinados. – Vou provar que aquele homem é ruim. E hoje vou dormir com o Noa.

Bateu no vidro duas vezes e o motorista parou o carro, que mal tinha começado a sair do lugar. O pequeno saiu do carro e foi até Noa, que caminhava ao lado de Himuro. Akashi olhou para o filho, suspirando, e apenas fechou a porta, ordenando o motorista leva-lo até o hospital.

Kouki realmente não mentira quando dissera que Masaki era seu pequeno imperador, mas também sabia que aquilo era apenas birra por não ter apoio em suas suspeitas infundadas. Deixaria seu pequeno se acalmar e, depois, mostraria a ele o quão errado estava sobre Miyaji.