Nossa Primeira Série
21 Extremamente Ruim
Notas iniciais
— Olá. Furihata Kouki.
A paz que rodeava o castanho se dissolveu de repente, o fazendo se debater em um mar negro imenso e profundo. O ar foi tomado com força e seus olhos se abriram de uma única vez, o que o fez piscar loucamente pela forte luz branca. Quando conseguiu focar o olhar, desviou-o do teto para fixar os olhos num rosto surpreso, acompanhado de cabelos num tom castanho mais escuro que os seus.
A porta logo se abriu com médicos e mais médicos entrando, pedindo para a visita retornar em outro momento, porque o paciente havia acordado de um coma que julgavam profundo. Um sorriso de lado pode ser visto pelo castanho antes da visita desaparecer porta afora.
Aquilo era ruim. Extremamente ruim.
Os médicos o examinaram e, depois de um longo tempo respondendo perguntas de como se sentia com diversos testes, os médicos lhe explicaram como chama-los por um botão. E então, as visitas foram autorizadas de novo. Kouki olhou ao redor, percebendo como parecia estar num quarto privativo da clínica. Haviam flores em uma mesinha ali perto, assim como brinquedos que reconheceu sendo de seu pequeno Masaki e livros, que provavelmente Akashi lia enquanto ficava por ali.
Quando a porta voltou a se abrir, um pequeno foguete vermelho passou por ele, se jogando sobre sua cama, subindo em seu colo e apoiando a cabeça em seu peito.
— Mamãe! Mamãe! Você acordou!
Lágrimas encheram os olhos do garoto, que acariciou a cabeça de seu pequeno antes de abraça-lo.
— Desculpe preocupa-lo. Estou tão aliviado em lhe ver... – sua voz saia arrastada e rouca, mas entendível. O pequeno assentiu, o abraçando mais forte.
— Masaki, tome cuidado, Kouki ainda se recuperando das cirurgias – Furihata ergueu o olhar e viu Akashi fechando a porta. O menor se apressou em sair de cima dele, deitando ao seu lado.
— Está tudo bem, eu precisava do abraço dele.
— Como está se sentindo?
— Vivo – Akashi aprovou essa resposta, mas com certeza não tinha noção do que aquilo significava para o castanho. Masaki era sua razão de estar vivo, só por ele não desistira, só por ele fora capaz de erguer-se do fundo do inferno e sair de lá. Quando olhou para seu filho, este dormia tranquilamente. – Ele dormiu rápido.
— Deve ser o alívio. Ele dormiu muito mal no último mês e eu soube que ele passou a noite em claro ontem – o ruivo pegou uma cobertinha e cobriu seu filho. – Só deitado ao seu lado ele conseguia dormir em paz.
— Meu pequeno imperador... – passou a mão pelos fios vermelhos dos cabelos de seu filho, com um sorriso amoroso.
— Kouki, o que...
— Não pergunte nada – o olhar que lançou ao ruivo era muito diferente do amoroso e gentil de sempre: a dor e desespero tinha se cristalizado nos olhos dele. Akashi entendeu que ainda era cedo demais para saber o que aconteceu. – Venha aqui, Sei-chan. Sinto que tenho muito que saber sobre o que aconteceu no tempo que não estive aqui.
Akashi sorriu, gostando de ouvir aquele antigo apelido sair da boca do menor, e se aproximou dele. Muita coisa precisava ser contada e a maioria não era boa.
==♥==
O papel diante de si era a prova da sua morte. E não de uma morte física, não. Se fosse física, doeria muito menos que aquilo. O branco e preto do documento o deixavam desnorteado, quase em um transe, onde não via o que estava escrito, mas sabia o que cada letra ali significava.
Divórcio.
Kazunari havia deixado o papel em cima da mesa da cozinha que, antes, fora o lugar de muitos risos e bons momentos entre eles. Ele tinha ido durante seu expediente, para pegar as coisas que antes não havia levado para a casa de Miyaji, sem que ele soubesse. Naquela ocasião, há uma semana, seu esposo disse que apenas precisava de uns dias longe da casa, para pensar melhor sobre eles. Agora, não tinha sobrado nada das coisas que eram dele. Nenhuma roupa, sapato ou perfume de Takao sobrara na casa, mas, para Midorima, o lugar exalava o cheiro dele, acompanhado com memórias e mais memórias.
Agora a casa estava vazia. Apenas ele e os móveis, que tinham grudados em si os momentos felizes ao lado do homem que ele amava. As brincadeiras, conversas, refeições, beijos, toques... Um turbilhão de momentos e emoções se apossou do médico que fechou a mão em punho e a bateu contra a mesa, num grito alto e gutural. Antes que pudesse perceber, estava de joelhos no chão de sua cozinha, as lágrimas caindo sem parar de seus olhos, a testa contra o piso gelado.
Kazunari pedira o divórcio. E tinha apenas uma semana para assinar aquilo, caso contrário, seu esposo entraria na justiça para um divórcio contencioso. Midorima já não sabia o que fazer. O que faria sem Kazunari? O que faria sem ele?
==♥==
A visão diante de si o paralisou. Não soube como não deixou as sacolas das compras caírem ao chão, ou como não teve forças para sequer mover um músculo. O normal seria entrar naquele local e arrebentar os dentes perfeitos de seu marido. Ou afundar a cara dele naquela bancada. Ou quebrar suas duas pernas a pauladas. Ou tudo isso ao mesmo tempo.
Kasamatsu Yukio voltava do mercado perto de sua casa, acompanhado por um contente, e saltitante, Kouta. Ambos conversavam alegremente até que, por causa de um estouro num escapamento de carro, olhou para o outro lado da rua movimentada que estava. E, no bar do outro lado, pela porta de vidro, pode ver uma cabeleira loira e um sorriso que conhecia muito bem.
Sentado numa das mesas, Kise Ryouta ria, com um copo de bebida em sua frente e Aomine Daiki ao seu lado. A conversa parecia fluir muito bem entre os dois, tanto que o moreno de repente tocou no rosto do loiro, numa suave carícia, que corou as bochechas brancas de Kise. Nenhum dos dois percebera o expectador daquela cena, ao outro lado da rua. Estavam entretidos demais um com o outro.
Um nó se formou na garganta de Yukio, que apertou as sacolas em suas mãos, sem saber exatamente como reagir. E provavelmente teria continuado assim até ser descoberto, se não fosse um puxão em sua camiseta.
— Mamãe, está olhando o quê?
— Anh?
— Vamos, mamãe. Papai logo vai chegar do trabalho, a janta tem que estar pronta! – os olhos azuis escuros de Kasamatsu se focaram no pequenino à sua frente. E um pequeno sorriso maternal se formou em seus lábios.
— Me desculpe, eu me distraí – voltou a caminhar com seu filho. – O que vamos fazer hoje para o papai?
— Curry!
— Kouta, a janta é pro seu pai, mas pede sua comida favorita? – o garotinho riu e ele acabou rindo junto. – Tudo bem, vai ser curry. Seu pai vai adorar.
A caminhada de volta para casa seria difícil se ficasse calado, então manteve a conversa com seu pequeno acessa. Kise tinha enlouquecido completamente, só podia ser isso. Kouta de repente saiu correndo.
— Kouta, não corre, é perigoso! – mal tinha terminado de falar, seu filho se chocou contra um cara enorme, que vinha acompanhado por uma mulher com trajes vulgares. Se apressou até o lado de seu filho, deixando as compras no chão, enquanto o ajudava a levantar. – Desculpe, senhor, meu filho é tão... Anh?
— Oras, oras, se não o antigo capitão do time de Kise? – Kasamatsu se levantou e encarou o homem à sua frente.
— Haizaki Shougo?
— Me surpreende que se lembre de mim, exímio capitão – a risada do cara continuava repugnante. – Vamos, saia daqui, vadia, tenho outros assuntos agora – a mulher deu um leve soco no braço de Haizaki, para logo ir embora. – Então esse garotão aqui é seu filho... – ele se agachou e ficou na altura do pequeno. – Como se chama campeão?
— K-Kise Kouta...
— Kise, eh? Seus olhos são iguais aos do seu pai. Eu jogava basquete com ele, ele era meu rival, sabia? – Kouta logo se animou com a presença do rapaz, algo que não agradou Kasamatsu. – Não se preocupe, Capitão, eu já não sou um moleque. Quer ajuda para levar essas bolsas? Não me importaria em leva-las para você.
Yukio olhou fixamente para o homem diante de si, sem saber se confiar nele ou não. Bom, confiava nos seus punhos e pernas, então era bem capaz de derruba-lo se necessário.
— Desde que se comporte...
— Eu não sou mais um moleque, eu disse. E você está com seu campeão, eu não sou louco – ambos riram e, depois de pegar as sacolas, começaram a caminhar. Haizaki conversava facilmente com Kouta, que estava quase hipnotizado pelas coisas que o maior lhe contava da época em que estudou com Kise na Teikou. Um sorriso pousou nos lábios de Kasamatsu.
O tempo muda tanto as pessoas. Quem imaginaria Haizaki se dando bem com uma criança e ajudando um antigo rival? Quem imaginaria Kise o traindo com outro homem casado?
É, o tempo realmente mudava as pessoas.
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