Nossa Primeira Série
23 Preocupações
— Yukio-san! – exclamou o de cabelos castanhos claros, aproximando-se do mais velho. Este se virou em sua direção, olheiras bem notáveis debaixo de olhos azuis sem brilho. – Yukio-san, o que aconteceu?
Kasamatsu o encarou por um momento. Sakurai era um homem doce e dedicado, trabalhava em uma loja de flores perto de sua casa, para poder cuidar de seu pequeno filho e também de seu marido. Ele era um anjo na Terra, era assim que o mais velho o enxergava, por isso o protegera contra tudo que poderia lhe fazer algum mal. Nesse meio tempo, Sakurai se tornou mais e mais próximo a ele, contando-lhe suas alegrias e dores, sem notar que o outro não fazia o mesmo. Porém, naquele momento, depois de uma exaustiva noite em claro, sua determinação poderia falhar.
“Forte, eu preciso ser forte, Sakurai não merece sofrer...” era o que pensava, enquanto sorria para ele. “Mas também não merece ser enganado.”
— Olá, Ryou. Eu discuti com Ryouta, nada sério, mas acabei sem conseguir dormir – bom, aquilo era verdade.
— Discutiu com Kise-san? Por quê? – perguntou o jovem, sentando em um dos bancos do pátio da escola dos pequenos. Há alguns dias tinham voltado a funcionar, depois do incêndio: Akashi bancou toda a reforma do local, sentindo-se responsável pelo ocorrido. As crianças pareciam desconfiadas de voltar, mas no plano de reforma, várias rotas de escape foram incluídas, para o caso de um novo ataque. E podiam apostar que havia mais de um atirador pronto para estourar a cabeça de quem quer que ameace a segurança daquelas crianças.
— Esbarrei com Haizaki ontem, enquanto retornava para casa. Ele parece ter amadurecido muito, se deu bem com Kouta e me tratou com tamanha educação, que quase achei que se tratasse de um irmão gêmeo. E Ryouta não gostou disso – explicou.
— Não se pode tirar a razão de Kise-san. Haizaki-san é muito odiado por Daiki-san também – contou o castanho. Nesse momento, um pequeno ruivinho passou correndo na frente deles, sorridente. – Furihata-san acordou?
— Sim – a voz calma de Akashi surgiu ao lado deles, enquanto também se sentava. – Masaki não queria sair de perto dele, mas Kouki mandou que viesse pra aula – os olhos sagazes do ruivo percorreram a expressão dos dois. – Há algo de errado. O que aconteceu com vocês?
— Discuti com Ryouta ontem à noite – Akashi assentiu ante a resposta de Yukio, mesmo sabendo que tinha algo mais por trás daqueles olhos azuis.
— E você, Sakurai?
— Eu? – o garoto olhou surpreso para o ruivo, para logo lembrar que nada escapava dos olhos dos Akashis. – Eu... Hmmm... – tímido, olhou para Yukio, que também esperava uma resposta. – Ontem, Daiki... Eu posso estar ficando maluco, mas eu acho... Que senti o perfume de outra pessoa na camisa dele.
Kasamatsu abriu a boca, surpreso. Então não fora apenas Ryouta que chegara com um perfume diferente na roupa, na noite anterior... Seijuurou levantou-se, sério.
— Não se preocupe tanto por isso, Sakurai. Provavelmente deve ter pegado o cheiro de alguém no trabalho – foram as palavras dele. – Preciso ir. Masaki daqui a pouco virá reclamar que eu não voltei para o lado de Kouki de imediato.
— Ele deve temer outro sequestro – assentindo à afirmação do mais velho, o ruivo se afastou.
— Akashi-san deve ter razão. Eu deveria ter pensado no trabalho dele...
— Ryou – o menor olhou para outro, confuso. E viu dor e determinação no olhar alheio. – Kise também chegou com um perfume diferente nas roupas ontem.
Ao mesmo tempo que Sakurai processava o significado daquelas palavras, Kouta olhava inquieto pelo pátio e o sinal de entrada soava alto.
— O que foi, Kouta? – perguntou Masaki, colocando sua mochila nas costas. Mesmo contente com o fato do castanho ter acordado, não podia ignorar os problemas de seus amigos.
— Seitarou nunca se atrasa – isso alarmou os outros quatro pequenos. Masaki pegou seu aparelho celular e enviou uma mensagem para Midorima e uma para Takao.
— Ele deve ter adoecido, ou saído com o Tio Takao – foi a resposta de Hikaru, que calmo, andava em direção à sala.
— Mas hoje tem prova – disse Yoshiki, atravessando a porta e indo para seu lugar na sala. Atrás dele, Kouta tirou seu caderno e o estojo da mochila.
— Então deve estar doente mesmo, não se preocupem por besteira – replicou Hikaru. Um toque e Masaki franziu a testa.
— Tio Takao disse que eles foram visitar os avós de Seitarou e voltarão semana que vem – isso acalmou os meninos, mas não Masaki. E Noa percebeu isso rápido.
— Ainda desconfia do Miyaji, Masa-chin?
— Sim. Mas minhas pesquisas não me deram muitas informações. Só soube que ele estudou junto com o Tio Midorima e o Tio Takao na Shuutoku. Tem um irmão mais novo, mas eu não consegui contatá-lo – a professora Momoi entrou na sala, fechando a porta atrás de si. – Mamãe disse que vai me ajudar a pesquisar mais. Ele também está preocupado com tudo isso.
— Espero que esteja errado, Masa-chin – o ruivo assentiu. Pelo bem de seu amigo de olhos verdes, esperava mesmo estar errado. E era o mesmo pensamento que o Kuroko tinha, sentado perto da cama de Kouki, no hospital.
— Isso não é bom – a voz de Kouki soava fraca, mas preocupada. – Yukio já deve estar desconfiado, isso se já não souber de tudo.
— Pelo que sei, Sakurai não está a par da situação, Kasamatsu-kun o protege com todas suas forças.
— Logo ele não vai mais conseguir esconder de Sakurai o que está acontecendo – o azulado assentiu. – Por que raios eles estão fazendo isso?
— A relação entre Kise-kun e Aomine-kun foi muito traumática, para os dois – Kuroko parecia saber de algo mais e Furihata se deu conta disso.
— O que aconteceu entre eles, Kuroko?
— Isso... Eu não posso contar, Furihata-kun.
— Então foi algo realmente sério o que aconteceu – o menor pareceu surpreso pela constatação. – Se fosse apenas um namoro que deu errado, não seria um segredo. E toda a Kiseki no Sedai sabe do segredo, estou correto?
— Como você...
— Namorei Akashi Seijuurou e criei Masaki, acha que não estou acostumado a ler as entrelinhas? – Kuroko teve que suspirar, e também concordar com aquilo. Seu amigo sempre fora muito observador, mesmo quando tremia de medo na quadra de basquete.
— Tem razão, foi algo bastante sério. E nós, que estudamos com eles na época, sabemos de tudo. Não foi fácil para ninguém lidar com aquilo, então me surpreende que eles dois estejam tão próximos outra vez...
— Sentimentos não resolvidos não são bons. Sei-chan também me contou sobre Tatsu e Atsushi – o de cabelos azuis assentiu outra vez.
— Nenhum dos dois quer falar sobre o que aconteceu no dia do incêndio, mas parecem estar mais distantes um do outro. E também mais sofridos, Murasakibara-kun está sempre irritado com algo.
— E ainda temos o caso de Shintarou e Kazunari... – o castanho suspirou, preocupado. – Com tantos problemas nas relações deles, como ainda está bem com Taiga?
— Eu, sinceramente, não sei – confessou Kuroko, olhando para ele com um sorriso. – Mas estou feliz que não estamos passando por nenhum problema sério no momento...
— Tetsuya! – a porta abriu-se num rompante, os cabelos vermelhos de Akashi aparecendo junto com sua silhueta. Um olhar foi tudo que Kuroko precisou antes de se levantar e sair do quarto, correndo. Kouki levantou o braço, magro demais, e tampou a boca.
— Me diga que Kagami está vivo – as lágrimas começaram a cair, enquanto o ruivo fechava a porta, olhando sério para o castanho.
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