Nossa Primeira Série
24 Má Notícia
O bowl deslizou das mãos paralisadas do pasteleiro, fazendo um alto barulho ao chegar ao chão. Todos seus funcionários o encararam confusos: seu chefe nunca havia deixado cair nenhum dos artefatos que utilizavam naquela pastelaria. Mas havia sido um choque ainda maior para ele, que encarava a televisão quase sem respirar. Um incêndio nos subúrbios da cidade, numa casa de dois andares, bombeiros entrando e saindo. Kagami, sim, o líder do grupo de bombeiros deu indicações antes de entrar. Segundos depois, a casa desabava. A manchete dizia “Três feridos e um bombeiro morto em incêndio”.
Murasakibara não se demorou em sair de uma das filiais de sua pastelaria e correr para seu carro. Quando deu partida, uma moto policial passou acelerada por ele, e ele reconheceu o loiro que ia na garupa. Seguiu a moto até estacionarem no hospital onde Midorima trabalhava: todas as emergências de bombeiros e policiais iam para aquele hospital. Kise se aproximou do maior, tão preocupado quanto o moreno que o seguia.
— Calma, Kise-chin. Não vamos pensar no pior – foi o que ele disse, mas era óbvio que sentia o mesmo que o menor. Quando perguntaram na recepção, foram enviados à uma sala de espera. Já estavam todos ali, incluindo Kuroko, que andava de um lado a outro no fundo da sala. Kasamatsu segurava a mão de Sakurai, tentando acalmá-lo. Akashi fazia o mesmo com Himuro, que falava baixinho em inglês.
— Alguma notícia? – perguntou Aomine, e a voz dele fez Sakurai fechar os olhos. O moreno acabou recebendo um olhar estranho de Kasamatsu. Aquilo era desprezo
— Ainda não. Houve um deslizamento de terra, todos parecem bem agitados e não sabem muitas informações sobre os pacientes – foi Akashi quem respondeu, segurando a mão de Himuro um pouco mais firme, antes de se levantar. Murasakibara entendeu a ação de imediato, indo para o lado deste. O ruivo olhou para Kuroko e suspirou, se encostando na parede. Era melhor esperar qualquer confirmação antes de...
— Ryou?
A voz confusa de Aomine chamou a atenção de todos. Sakurai estava quase se fundindo a Kasamatsu, tremendo e de olhos fechados. Já o ex-capitão da Kaijo, o abraçava quase possessivo. Quando o policial deu um passo para se aproximar do esposo, a mão de Kise o parou, o puxando para trás.
Akashi coçou os olhos, em um suspiro cansado. Aquela situação estouraria em breve, teria que intervir antes daquilo acontecer. Talvez devesse oferecer abrigo à seus colegas em sua casa...
— Hmm?
Dessa vez todos se viraram para a porta, vendo um grande e abatido Midorima ali. Não, aquela era apenas uma sombra do que seu amigo era, o pó de algo que um dia foi grandioso e resplandecente. As profundas olheiras, a expressão cansada, os ombros soltos... O divórcio estava acabando com ele. O pior era o fato de Takao ter simplesmente sumido do radar, sem deixar rastro algum, apenas um papel para que Midorima não questionasse a própria sanidade. O olhar triste do médico fez com que Kuroko paralisasse e que Himuro escondera o rosto no peito de Murasakibara.
— O que estão fazendo aqui? – perguntou o de cabelos verdes, tirando os óculos para limpá-los. Há quanto tempo estava trabalhando sem descansar? Não fazia ideia, mas não sentia nada de sono. Na verdade, não sentia nada na última semana que não fosse dor e frustração.
— Kagami... – começou Kasamatsu, mas foi interrompido pelo médico.
— Está na sala de curativos, no andar de ci... – um raio azul claro atravessou o recinto e disparou pelo corredor. Um suspiro de alívio geral soou naquela sala de espera. – O que foi isso?
— Pensamos que fosse nos dar uma má notícia, Shintarou – Akashi se adiantou, sorrindo.
— Não, a má notícia não é para vocês – dito isto, ele recolocou os óculos e continuou caminhando.
— Então podemos ir para casa – sentenciou Kasamatsu. – Podemos nos reunir com Kagami em outro momento, melhor deixá-lo ficar com Kuroko por enquanto.
— Eu ficarei aqui – disse Murasakibara. – Com Muro-chin.
Akashi assentiu e, ao se virar, Kasamatsu já tinha sumido, levando Sakurai com ele. Kise, por sua vez, tentava acalmar Aomine, falando baixo e rápido. Num suspiro, olhou para o teto. “Acontecerá antes do que imaginávamos, Kouki”.
No andar superior, o chefe dos bombeiros suspirava e agradecia pela atenção da enfermeira em seu ferimento. Não tinha sido nada grave, apenas algumas queimaduras e cortes quando usou seu próprio corpo contra o desabamento, protegendo a criança em seus braços. Não tinha conseguido parar de pensar naquela menina como uma filha. E ele gostaria que alguém salvasse seu Hikaru numa situação daquelas.
Se levantou, o abdômen coberto pelas faixas, e saiu para o corredor. Avisar sua sombra sobre o ocorrido seria difícil... Algumas exclamações o fizeram olhar para a direita, de onde avistou uma leve comoção. De repente, alguém se chocou com seu corpo, braços finos rodeando sua cintura e fios azulados grudando na sua pele. Sorriu ao reconhecê-lo.
— Tetsuya...
— Bakagami! – o aperto aumentou um pouco e o maior soube de imediato que seu esposo chorava. – Pensei que tivesse te perdido! Você tem que avaliar as situações melhor, eu... O que eu ia fazer se algo acontecesse com você? Como eu ia contar pro Hikaru? Como...
As palavras foram interrompidas pelos lábios de Kagami, que levantou sua sombra nos braços enquanto o beijava.
— Nunca vai precisar contar algo assim para nosso filho, Testuya – o menor soluçou.
— Promete?
— Nunca descumpri uma promessa que fiz a você.
E, segurando seu esposo nos braços, começou a andar pelo corredor. Encontrou Murasakibara e Tatsuya perto da saída, onde beijou a testa do irmão, garantindo que estava bem e que foram apenas arranhões leves. Juntos foram até o estacionamento, onde Testuya levantou a cabeça, preocupado. Não demorou para ouvirem uma discussão também.
— Você quer que eu faça o quê? Simplesmente deixe isso pra lá?
— Eles precisam de um tempo para se acalmar, se você aparecer em casa agora, as coisas só vão piorar – Kise tentava conter a voz, as mãos impedindo que o policial passasse por ele.
— Piorar o quê? Eu não sei o que está havendo! Por acaso você sabe?
— Não, eu não sei. Mas, por favor, escuta o que eu digo, caramba. Eu conheço meu marido e se eu ou você aparecermos na minha casa, seremos expulsos aos chutes!
— Eu quero ver ele tentar!
— Você sabe muito bem que ele consegue, não seja teimoso, dê tempo à eles.
— Aomine, Kise. Podem vir para minha casa se quiserem. Kouki receberá alta hoje e ter mais pessoas em casa lhe faria bem – intercedeu Akashi, pousando a mão nas costas do moreno. – Vamos nos acalmar, amanhã você volta para casa. Seja o que for que estiver incomodando Sakurai, ele se sentirá mais confortável de falar após dormir tranquilo. Deixe-o ter seu tempo. Yoshiki e Kouta podem vir ficar com Masaki também.
Um toque de Murasakibara em seu ombro fez Kagami assentir e continuar seu caminho. Kuroko voltou a se acomodar contra seu peito e Himuro segurou a mão de Atsushi. Assim era melhor. Cada um deles já estava ocupado com seus próprios assuntos e problemas. Não queriam nem precisavam se meter naquele assunto, por enquanto. Kagami saiu com o carro do esposo e Himuro pegou carona com o de cabelos arroxeados.
Enquanto subia na moto de Aomine, Kise fechou os olhos e se segurou à cintura deste. Tinha um péssimo pressentimento. Akashi, que voltava a entrar no hospital, sentia a mesma coisa. Quando entrou no quarto de Kouki, este suspirou.
— Me alegro que Kagami esteja bem – o ruivo sorriu, fechando a porta.
— Eu também, Kouki.
— Mas...? – Akashi sorriu ainda mais. Adorava a maneira como aquele rapaz sempre fora capaz de o ler como se fosse um livro. Ou tivesse um cartaz escrito em néon em cima da cabeça.
— Sinto que as coisas vão perder o freio de agora em diante.
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