Noite de Halloween
1 Sozinhos
Notas iniciais
Já fazia cinco meses que os Bennett tinham se mudado para aquela pequena cidade da Flórida.
Eles realmente gostavam da casa nova – tinha dois andares, um sótão, e era bastante moderna, diferentemente da antiga casa deles, no Colorado. Por fora, era pintada inteiramente de branco e tinha um pequeno e bem cuidado jardim. Mas por dentro era ainda mais agradável – tinha uma grande sala de estar, com vários e espaçosos sofás e poltronas, uma lareira e uma televisão. A cozinha, por sua vez, era pequena, dividida da sala por uma bancada. Não havia sala de jantar, mas a sala de estar era grande o suficiente para conter também a longa mesa que não cabia na cozinha.
No segundo andar, ficavam os quartos. Havia cinco deles ao longo do corredor que terminava na escada para o sótão.
O quarto do Senhor e da Senhora Bennett era o primeiro, seguido pelo o do filho mais velho deles, Ryan, de dezessete anos. O terceiro era de Krysta, de catorze anos, e então vinha o de Maisie, de dez. O último quarto era divido por Connor, de doze, e Jonathan, de seis.
Tinha sido difícil convencer Connor a dividir o quarto com o irmão novamente. Na casa do Colorado, havia apenas três quartos, então os meninos ficavam em um e as meninas, no outro. Connor alegara que as meninas poderiam dividir novamente, ou Ryan e Jon, por que justo ele? Mas como os pais tinham dito que Ryan e Krysta tinham direito a um quarto próprio por serem mais velhos, que era para ele se considerar sortudo por ter de dividir agora com apenas um irmão e não os dois, e que poderia pegar o quarto de Ryan no ano seguinte, quando ele fosse para a faculdade (de longe, o argumento favorito dele), Connor acabara aceitando.
No entanto, se havia algo de que eles tinham se arrependido sobre a mudança, foi de ter deixado a avó deles no Colorado. Ela estava tão tranquila e sorridente quando se despediu deles e ouviu as promessas de receber a visita de todos eles no Natal que era difícil imaginar que ela ficaria doente quatro dias antes do Halloween, com tamanha gravidade que o hospital onde ela estava teria de ligar para a casa deles na Flórida.
Os pais deles tinham ficado tão desesperados que começaram a arrumar as malas no mesmo dia e no seguinte já partiam de volta para o Colorado, deixando Ryan com a responsabilidade de tomar conta dos quatro irmãos mais novos durante semana em que eles iam ficar fora.
Ryan era um bom garoto, mas “dezessete anos” não costumava ser sinônimo de responsabilidade nos termos da classe média americana. Assim, a primeira coisa que fizera depois de os pais saírem foi avisar Krysta de que seria ela quem teria cuidar do pequeno Jon na noite de Halloween, já que ele ia a uma festa na casa da garota de quem ele gostava – os pais dela também estariam fora naquela noite, e Ryan se recusava a perder tal diversão.
Krysta tinha reclamado – afinal, do que Krysta não reclamava? –, mas não tinha opção: Connor e Maisie tinham combinado de sair com seus respectivos amigos da nova escola para pedir doces no Halloween, e ela e Jon eram os únicos que não teriam compromissos para aquela noite. Pelo visto, acabaria sendo apenas os dois na casa de qualquer forma.
Assim, após três dias em que os irmãos Bennett se alimentaram apenas de pizza e macarrão instantâneo, ficaram acordados até tarde independentemente de terem aula no dia seguinte e deixaram a pilha de roupa suja se acumulando mais e mais na lavanderia, chegou o Halloween.
A cidade amanheceu decorada com abóboras, velas, espantalhos, lápides e diversos outros símbolos de filmes e histórias de terror. O clima da festividade estava tão contagiante que antes mesmo de saírem para a escola, Connor já estava vestido com a capa e a dentadura de sua fantasia de Drácula, correndo pela casa – e acabou fazendo uma enorme mancha no chão do corredor com seu sangue falso, que o obrigou a chegar atrasado ao colégio, já que ficou esfregando a mancha até clarear o suficiente para que os pais não notassem quando retornassem.
Apenas Krysta não se empolgou o dia inteiro, e, ao cair da noite, enquanto Ryan se arrumava para a festa, Connor vestia sua fantasia de Drácula novamente e Maisie, sua fantasia de bruxa, ela ficou deitada em sua cama encarando o teto.
Ter catorze anos era terrível. Parecia que se era grande demais para sair e pedir doces como Connor e Maisie, mas jovem demais para frequentar festas como a que Ryan estava indo. E ela sequer poderia fazer uma sessão de filmes de terror, porque Jon estaria por perto e começaria a chorar ou algo do tipo.
Pensou que poderia ficar ali, deitada em sua cama a noite inteira, quando o telefone tocou. Deveria ser sua mãe ou seu pai – eles estavam ligando de duas a três vezes por dia desde que saíram. Como os outros estavam ocupados, sobrou a ela atender ao telefone que ficava sobre uma mesinha do corredor.
- Alô? – Disse, ao colocar o aparelho ao lado do rosto.
- Krysta? – Era a voz da Sra. Bennett. – Querida, é a mamãe.
- Oi, mãe. – Krysta começou a enrolar o fio do telefone no dedo. – Está tudo bem aí? Como está a vovó?
- Melhorando. Vai ficar boa em breve, com sorte. E aí, como vão as coisas?
- Bem. – E, como estava encarando a mancha que Connor tinha feito naquela manhã, não pôde deixar de acrescentar: – Connor derrubou sangue falso no chão do corredor.
- Aquele menino...
- Mãe, quando vocês voltam?
- Se a vovó não tiver outra recaída, pretendemos voltar daqui a dois dias. Vocês conseguem sobreviver até lá?
- Nós... – Naquele momento, ela puxou demais o fio e o telefone despencou da mesinha e foi ao chão com um alto ruído. Krysta rapidamente pegou o aparelho e o devolveu ao seu lugar, suspirando com alívio ao ver que não tinha quebrado. Voltou a colar o telefone na orelha. – Mãe?
- Krysta, que barulho foi esse?
- Nada. Ahn, do que estávamos falando?
- Vai sair com Connor e Maisie para pedir doces hoje?
- Mãe, eu tenho catorze anos.
- Entendi. Mas seria bom acompanhá-los, para o caso de eles se perderem...
- Se perderiam de qualquer forma. Não moro aqui a mais tempo do que eles.
A Sra. Bennett deu um suspiro impaciente.
- Então peça para Ryan ir com eles. Diga para não irem muito longe e cuide de Jon. Não deixe que ele durma depois das nove horas.
- Vou fazer isso. – Krysta prometeu, mas só ia fazer realmente metade do que a mãe dissera. Não pediria para Ryan sair com Connor e Maisie, e nem contar sobre a festa para onde ele ia para a mãe deles. Era diferente dedurar Connor e Ryan; com Connor, Krysta tinha uma espécie de rixa, mas Ryan também lhe retribuiria o favor mais tarde se ela o acobertasse. – Tchau, mãe. Estou com saudades.
- Também estamos com saudades, querida. Ligo de novo amanhã cedo, certo? Boa noite. – E desligou.
Krysta estava pondo o telefone de volta na base quando Ryan saiu de seu quarto, vestindo calças jeans escuras e uma camiseta negra com o desenho de um esqueleto. Seus cabelos, castanhos como os de Maisie e Jon (Krysta e Connor os tinham loiros) estavam propositalmente desarrumados, e no rosto dele havia um longo ferimento que começava ao lado de seu olho esquerdo, abria sua bochecha e terminava apenas no seu queixo, que assustou Krysta até ela perceber que se tratava apenas de maquiagem.
— Como estou? – Ele perguntou para ela, abrindo os braços como que para mostrar melhor a roupa. Krysta cruzou os braços e encostou-se à parede.
- Você não precisa dessa maquiagem para assustar as pessoas, Ry.
- Ha-ha. – E com isso, ele começou a descer as escadas para o andar térreo, só parando quando a irmã voltou a falar:
- Mamãe acha que você vai sair para acompanhar Maisie e Connor para pedir doces.
- Garanta que ela continue achando. – Ele piscou para Krysta e terminou de descer as escadas. Alguns segundos depois, ouviu-se o som da porta da rua se fechando.
Maisie saiu de seu quarto em seguida. Usava um vestido negro com cinto, capa e botas roxas. Uma cobra de plástico estava enrolada em torno de seu pescoço.
- Krys, você viu o meu chapéu? – Perguntou. – Eu tinha deixado ele junto com o resto da minha fantasia!
Como se esperando por uma deixa, foi a vez de Connor sair do quarto e passar correndo por elas para o andar debaixo, com o chapéu roxo pontudo de Maisie na cabeça.
- Pegue seu chapéu, se for capaz!
— Não tem graça, Connor! – Ela gritou, antes de sair correndo atrás dele.
E, como Krysta não ouviu a porta se fechando novamente, supôs que os dois, na correria pelo chapéu, tinham esquecido a porta aberta. Foi obrigada a descer para fechar a porta.
Lembrou-se, antes disso, que em breve crianças de todo o bairro começariam a passar por lá e a apertar a campainha de cinco em cinco minutos pedindo por doces. Não estava com vontade de ter de atender a porta para elas, então foi até a cozinha e pegou os sacos de chocolates, pirulitos e balas que os pais já tinham deixado estocado para o Halloween antes de irem embora, despejou todo esse conteúdo em um pote em formato de abóbora que eles usavam naquela data ano após ano e só então foi até a porta de entrada aberta.
Se de dia tudo já parecia bem bonito com a decoração de Halloween, de noite a cidade estava quase mágica. Ao olhar pela porta, Krysta sentiu uma tentadora pontada de vontade de deixar tudo para trás e correr para fazer parte do cenário de Halloween que estava lá fora, e apenas pensar em Jon a impediu. Não podia deixar o irmãozinho só. Assim, com o mau-humor renovado, abandonou o pote de abóbora dos degraus de pedra da casa – não ligava se alguém ia passar e levá-lo inteiro – e voltou para dentro, batendo a porta com força.
É o pior Halloween da história, pensou, arrastando os pés até o sofá mais próximo da televisão da sala e deitando desanimadamente nele.
Pegou o controle remoto, ligou a televisão e percorreu os canais por alguns minutos, procurando algo que valesse a pena assistir. No final, deixou em uma reprise de um programa de culinária, por ser a única coisa que estava passando que não era filme de terror.
Só que Krysta não era muito fã de culinária, então não foi uma surpresa que, em menos de quinze minutos, ela já estivesse quase adormecida no sofá. Seus olhos tinham se fechado sem que ela se desse conta, e seus pensamentos já vagavam longe quando ouviu Jon berrando seu nome.
Krysta sentiu seu coração saltar pela garganta e levantou bruscamente do sofá, quase caindo no chão no processo. Por que não estava olhando o irmão? Se algo tivesse acontecido com ele, ela nunca iria se perdoar. Correu em disparada escada para as escadas e subiu os degraus de três em três.
- Jon! – Gritou, pouco antes de chegar ao quarto dele e de Connor. Abriu a porta e olhou com medo em torno do aposento, apenas para ver Jon sentado no chão do quarto brincando tranquilamente com seu robô de controle remoto. – O que você está fazendo? – Perguntou, a voz alarmada agora também com um pouco de indignação.
- Krys, eu estou com fome. – Disse o menino, sem se alterar, parando de brincar para olhar para ela. – Você pode preparar um sanduíche de presunto para mim?
- Jonathan, não me diga que você estava gritando porque queria a droga de um sanduíche de presunto. – Sua voz voltou a aumentar até soar como um grito novamente.
Jon fez uma careta magoada, como se não entendesse o motivo da irmã estar brava.
- Não fale “droga”! É uma palavra feia. – Exclamou, e Krysta bufou. Agora era repreendida pelo irmão de seis anos que tinha acabado de fazê-la tomar um susto enorme; realmente estava sem moral naquela casa.
- Tudo bem, eu faço o seu sanduíche. Mas venha comer na cozinha, porque depois eu não vou querer limpar uma única migalha de pão no seu quarto.
Saiu do quarto com Jon ao lado. Para evitar alguma conversa incômoda, não perguntou o porquê de ele estar encarando-a desinibidamente durante todo caminho até a cozinha. Mas quando ela começou a preparar o lanche e ele continuou de pé atrás dela observando-a, enfim não aguentou mais:
- O que foi, Jon?
- Por que você está chateada?
- Não estou.
- Está sim. Você sempre fica chata quando está chateada.
- Eu não estou... – Começou, mas parou ao ver a expressão descrente de Jon.
- Sabe, o nosso Halloween não precisa ser ruim. Nós podíamos fazer alguma coisa assustadora juntos!
- Claro. – Replicou, ironicamente. Jon não tinha idade sequer para ir pedir doces sozinho, só a ideia fazer algo assustador com ele era risível.
- Ah, mas por que não? Não precisa nem ser muito assustador. Um pouquinho assustador já é legal!
Krysta não respondeu, fingindo estar concentrada demais na tarefa de cortar as bordas do pão. O menino esperou por alguns momentos, e então começou a sacudir o corpo para frente e para trás, dizendo um longo “vamos”. Impaciente, Krysta parou o que estava fazendo e lançou um olhar feio para ele.
- Por favor? – Insistiu Jon.
- Se eu disser que sim, você vai parar? – Perguntou, e ele assentiu. Entrando no jogo, ela soltou um suspiro teatral. – Bom, então se você prometer não contar para a mamãe e o papai depois, acho que posso te contar uma história...
- Uma história de terror? – Os olhos dele se arregalaram com animação.
- Não, claro que não. – Respondeu Krysta em tom casual, voltando a cortar o pão. Mas antes que o irmão pudesse se queixar, completou: – O que eu vou contar é uma história real, Jon, que aconteceu bem aqui na nossa casa antes de nos mudarmos para cá.
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