Noite de Halloween
2 Ryan
Notas iniciais
Havia algo de errado com as bebidas da festa.
Ryan encarou de testa franzida o seu terceiro copo de refrigerante, se perguntando se aquilo realmente era o que parecia. Ele tinha pegado aquela bebida justamente porque parecera a única não-alcoólica da festa, inocentemente intocada em uma vasilha de vidro sobre uma mesinha de centro.
Mas se ela era tão inocente assim, por que Ryan estava se sentindo tão tonto e esquisito? Acho que só estou sóbrio o suficiente para entender que não estou sóbrio, pensou ele, e sentiu vontade de rir desse pensamento.
E por comparação, estar sóbrio o suficiente para entender que estava bêbado era estar muito sóbrio. Porque mesmo que a festa na casa de Mia Parker só tivesse começado havia duas horas e a maioria dos convidados fosse menor de idade, o irmão mais velho de Lee Tennison tinha lhes arranjado algumas garrafas de bebida para a festa, e, de alguma forma, elas pareciam estar se multiplicando a cada segundo.
Os adolescentes estavam divididos em beber, conversar, dançar e se agarrar, não se importando em destruir a casa dos Parker no processo. Diversos quadros e vasos já estavam quebrados no chão, e havia manchas no carpete que dificilmente poderiam ser removidas.
Ryan se pegou pensando no que faria se essa confusão estivesse acontecendo na casa dele. Ele certamente não conseguiria arrumar e limpar tudo sozinho, e, mesmo que ele acabasse por convencer os irmãos a ajudarem, os pais descobririam o que tinha acontecido bem rápido, de uma maneira ou de outra.
Ele se perguntou, então, como os pais de Mia reagiriam. Pelo que ele sabia, ela era filha única, e a casa dela era grande e caramente mobiliada. O prejuízo causado pela festa estava sendo grande, e arrumar tudo sem ajuda iria causar, no mínimo, uma dor de cabeça gigantesca.
De repente, uma luz se acendeu na mente de Ryan. Ele fora à festa achando que isso iria ajudá-lo a se aproximar de Mia, mas na verdade, a real chance dele podia ser indo a casa dela no dia seguinte para ajudá-la a arrumar as coisas. Ninguém mais o faria, e ela ficaria muito grata...
... Apesar de parecer não dar a mínima, no momento. Ryan sequer tivera a oportunidade de falar com Mia desde quando chegara lá, a não ser pelo momento em que ela tinha aberto a porta para ele, e, ao contrário dele, ela parecia estar se divertindo muito. Bebia, conversava, ria e estava agarrada a Frank Oliver havia já um longo tempo, o que estava deixando Ryan incomodado. Não se esquecia de como Frank fizera várias piadas de mau-gosto sobre ele na primeira semana dele na nova escola.
O olhar dele estava preso no casal, que dançava sem jeito no centro da sala, ao ritmo da música eletrônica que fazia toda a casa vibrar e esmagando mais ainda as batatinhas que haviam caído no chão contra o carpete. Ryan virou de uma vez todo o resto de seu refrigerante batizado e foi em direção a mesa para pegar mais. Talvez o melhor realmente fosse se embebedar e começar a se divertir mais...
Mas toda a bebida tinha acabado quando ele chegou lá. Ou, pelo menos, a que ele pretendia beber – ainda havia cerveja, vodca, uísque, entre outras. Ryan não se sentia, no entanto, seguro para beber algo muito mais forte.
Estava refletindo sobre o assunto quando Will Johnson chegou por trás dele, despenteado e com os olhos vermelhos indicando que o álcool não era a única substância proibida circulando pela festa. Ele tinha um sorriso distante, como se nem ao menos percebesse o que acontecia a volta dele, e pôs um braço em torno dos ombros de Ryan, fazendo com que o garoto distraído se sobressaltasse e deixasse o copo plástico, então vazio, cair no chão.
– Ry! – Exclamou Will, com a voz embargada. Seu hálito fedia a bebida.
– Will – Imitou ele. Mesmo não sendo o tipo de pessoa de quem Ryan se aproximaria na antiga escola no Colorado, Will estava sendo um bom amigo para ele na Flórida. Divertido e espontâneo, tinha sido responsável por fazê-lo se enturmar tão bem no colégio. – Hm... Cara, você está bem?
– Eu? Estou ótimo! – Respondeu, embora estivesse apoiando todo seu peso Ryan como se pudesse cair a qualquer momento. – Estou só preocupado com você. Está tão quieto que eu sequer vi você chegando.
– Talvez porque eu tenha visto você chegando. Quase meia hora depois de mim. – Ele não conseguiu deixar de dar um sorrisinho.
Will pensou por alguns segundos e então assentiu gravemente, como se Ryan houvesse acabado de dizer algo muito sábio.
– Faz todo o sentido. Quer cerveja? – E finalmente o soltou. Sem esperar que ele respondesse, começou a encher dois copos que estavam sobre a mesa (e que Ryan esperava que estivessem limpos) e entregou um deles para ele, esvaziando todo o seu em seguida, com poucos goles.
– Então... As festas por aqui são sempre assim? – Ryan perguntou a Will, mas continuava com o olhar em Mia, que enfim tinha soltado Frank e agora conversava com uma amiga.
– Assim? – Will repetiu – De Halloween? Não, damos festas em outras épocas do ano, também.
– Não, não é isso. Sabe, sempre com bebidas e destruição e essas coisas.
Isso o fez rir, inclusive mais do que o necessário.
– Você foi a alguma festa depois do Ginásio ou vocês são mais politicamente corretos no Colorado?
– Somos mais politicamente corretos no Colorado – Ryan respondeu no mesmo segundo, para não aguentar possíveis brincadeiras sobre não ter ido a nenhuma festa em especial.
– Já entendi, você andava com os nerds – E o tom de profunda compreensão que ele fez para fazer um comentário como esse fez o próprio Ryan começar a rir. – O que foi? Eu te entendo. Também já joguei League of Legends.
Will continuou seu discurso muito sério e ele ouviu rindo, enquanto tomava alguns goles de sua cerveja. Mas não deu muita atenção à suas palavras até Will concluir com um:
– Nossas festas têm, na verdade, muitas vantagens. Em nenhum outro tipo de festa você poderia, vejamos, fazer isso. – E começou a puxar Ryan em direção a Mia e a amiga, Jeanne.
Isso o deixou alarmado.
– Ei. Espera aí, Will. Espera, o que você está fazendo...?
– Jeanne! – Will a cumprimentou da mesma forma como tinha cumprimentado Ryan pouco antes, sorrindo para ela e o ignorando. As duas meninas pararam de conversar imediatamente e olharam para eles. Embora não tivessem grande intimidade com Ryan, eram antigas amigas de Will, como muitos eram.
– Ei. – Respondeu Jeanne com um sorrisinho, colocando uma mecha dos cabelos tingidos de loiro atrás da orelha. – Onde está tendo maconha?
– Por que acha que eu sei? – Will sorriu. Não devia ter noção do quão vermelho estavam seus olhos. Mas logo admitiu: – Consegui um baseado com o Lee, mas não sei se ele ainda tem. Você pode tentar pedir para ele. Ry vai com você.
– Vou? – Ele perguntou na hora, confuso.
– Eu vi como você estava olhando para ela. Essa é a sua chance. – Sussurrou Will para ele, que entendeu porque ele tinha feito aquilo. Ele estivera olhando para Mia, que estava com Jeanne, e Will achara que... Ah, não.
– Então vamos logo – Ela concordou, mesmo sem parecer muito feliz com isso, e Ryan já estava quase saindo com ela quando Mia finalmente falou:
– Na verdade... Vocês não poderiam ir atrás de baseados mais tarde? Eu e Jeanne estávamos planejando fazer outra coisa antes de vocês chegarem. E vocês podiam participar! – Ela deu uma risada que, como sua voz, parecia meio alterada.
.Ryan e Jeanne pararam. Ele disse:
– Outra coisa? Adoro fazer coisas. – E acabou soando tão estúpido quanto ela, que voltou a rir. – O que é?
– Algo assustador. Para celebrar o Halloween.
– Estávamos pensando em jogarmos com um tabuleiro Ouija. – Completou Jeanne.
– É? E onde vocês vão arranjar um treco desses? – Will achou graça, mas Mia tinha a resposta:
– Tenho certeza de que já vi um no porão. Deve ser do meu pai, sei lá.
– Parece ser legal. – Ryan se apressou em falar. Embora nunca tivesse sido fã de brincadeiras do tipo, aquela era uma boa chance de ficar perto de Mia. E era menos cansativo do que limpar a casa.
Will deu de ombros, parecendo não se importar, e Mia se deu por satisfeita. Subiu em uma poltrona próxima e quase caiu, de modo que precisou se apoiar no ombro de Ryan, e tão logo conseguiu ficar em pé, anunciou alto, para todos na festa ouvirem:
– Aí! Estamos indo para o porão jogar Ouija! Quem quiser vir com a gente, corre!
Muita gente assobiou e gritou, mas poucas pessoas realmente foram até eles. Para o azar de Ryan, Frank Oliver foi uma delas.
Foi nele em quem Mia se apoiou para descer da poltrona. Ryan bufou.
*********
Além de Ryan, Mia, Will, Jeanne e Frank, havia três adolescentes no porão apertado.
Eles tinham arranjado um baú grande e quadrado para usar como mesa, e todos estavam sentados no chão ou mesmo de pé em volta dele enquanto Mia revirava as prateleiras de tralhas acumuladas que revestiam a maior parte do porão, em busca do tabuleiro Ouija.
E eles já estavam lá há mais de dez minutos.
– Acho que a brincadeira não vai acontecer – Provocou uma menina alta que tinha vindo junto com eles, e que Ryan não se lembrava de já ter visto na escola.
Ele estava achando a mesma coisa. Sentado com as costas apoiadas na parede, estava a cada segundo mais incomodado com a situação. Não se sentia confortável estando preso naquele porão, metros abaixo do chão, espremido no meio de tanta gente e respirando o ar pesado. Estava, também, quente, e o cheiro de suor e bebida que todos exalavam não tornava o clima melhor.
Por isso, Ryan também procurava o tabuleiro, com o olhar. Se eles ao menos pudessem começar logo aquele jogo, também terminariam mais rápido.
Seus olhos por fim bateram em uma tábua plana de madeira que estava sob uma velha caixa de sapatos, pouco depois de a garota falar. Apontando para ela, ele se pronunciou pela primeira vez desde que chegaram ao porão:
– Não é aquilo ali?
Mia foi imediatamente naquela direção, e quando removeu a caixa e pegou o objeto, sorriu. Ergueu-o sobre a cabeça, vitoriosa, mostrando que realmente se tratava de um tabuleiro Ouija, tão antigo que os escritos pareciam um tanto apagados.
– Eu não disse que estava por aqui?
– Disse mesmo! – Will fingiu estar impressionado; ou talvez estivesse. Deu um deu um gole na garrafa de cerveja que tinha trazido com ele.
– Vamos, ponha aqui – Jeanne deu um tapinha na tampa do baú, e quase teve os dedos esmagados quando Mia jogou o tabuleiro sobre o suporte e sentou entre ela e Frank.
Sem perder tempo, o garoto a puxou para o colo dele e lhe deu um beijo no pescoço. Ryan tentou não olhar, e se ocupou em mudar de posição no espaço limitado que possuía. Desejava mais do que tudo poder esticar as pernas, mas para isso, teria de esperar.
Puxou a cerveja da mão de Will e bebeu um pouco, esperando se refrescar, porém a bebida também já tinha ficado quente. Com uma careta, devolveu a garrafa.
– Então, como vamos fazer esse jogo? – Perguntou, limpando a boca com a mão.
– Vocês não têm Ouijas no Tennessee, Bennett? – Caçoou Frank. Mas Ryan não estava no humor.
– Não sei quanto ao Tennessee, mas no Colorado costumamos fazer outras coisas para passar o tempo. Você saberia que são estados diferentes se tivesse mais alguns neurônios.
– Tudo bem, tudo bem – Mia interrompeu, antes que uma briga começasse. – Vamos fazer da maneira tradicional, certo? Perguntamos se o espírito está aí e conversamos com ele. Sem complicações.
– Não existe um ritual para começar ou algo assim? – Perguntou o menino asiático que tinha vindo com eles, e foi obrigado a ouvir um coro de “Quem liga?”, que o fez se calar na hora.
Alguém também comentou algo sobre apagar a luz, mas foi ignorado. A iluminação já estava fraca, e não daria certo fazer um jogo no escuro absoluto – pelo simples fato de que não seria possível enxergar nada. Todos se arrumaram para ficarem o mais confortáveis que podiam em torno do baú, e Mia esperou que eles estivessem prontos para posicionar a peça de madeira sobre o tabuleiro e perguntar:
– Tem alguém aí?
O único movimento foi o de Will terminando de virar sua cerveja, e os únicos sons foram a música, os gritos e as conversas da festa, abafados pelas paredes e os metros de distância. O garoto asiático fez um “Hmm”, mas Mia cortou, para que ele não zombasse:
– Nem sempre dá certo de primeira. Temos de ficar tentando. – Ela pigarreou, arrumou os ombros e então perguntou, mais alto: — Tem alguém aí?
A peça deslizou pelo tabuleiro até a palavra “Não”. Nem Ryan conseguiu segurar o riso dessa vez.
– O espírito está de sacanagem – Concluiu Mia. Jeanne puxou a peça da mão dela, e ela não questionou.
– Você está fazendo isso errado. Eu vou tentar. – Disse, e então se dirigiu ao tabuleiro: – Há alguém aqui conosco?
Nos primeiros segundos, nada aconteceu, mas Jeanne continuou encarando, concentrada. E a peça começou a se mover. Lentamente, centímetro por centímetro, até estar indicando o “Sim”.
– Você empurrou! – Acusou Frank.
– Não empurrei! – Defendeu-se Jeanne.
– Deixe de ser trouxa, você não está vendo que o espírito está falando com a gente?! – Will praticamente deu um pulo de seu lugar, olhando para o tabuleiro com a mesma emoção que uma criança olharia para um brinquedo novo. – Pergunte algo legal! Pergunte se o Tampa Bay Rays vai vencer o próximo jogo!
– Melhor começarmos com algo mais simples, para testar se podemos confiar nele – Opinou Ryan. Depois falou mais baixo, em tom de desaprovação, só para Will: – É sério que você torce pelo Rays?
– Certo. Espírito? – Chamou Jeanne. – Qual é a cor da minha blusa?
A peça foi para o R, e então para O. Mas parou por aí.
– Roxo! – Mia concluiu, impressionada. Era a cor certa da blusa de Jeanne.
– Também pode ser “rosa” – Apontou Frank, e Ryan sentiu vontade de se socar, porque tinha pensado a mesma coisa.
– É o suficiente para mim – Disse Jeanne. – Qual é o seu nome?
Todos acompanharam enquanto a palavra “Timor” era formada. A garota que tinha sugerido que Mia não acharia o tabuleiro franziu o cenho.
– Isso não é o nome de uma ilha?
Ryan achava que ela tinha razão, mas não era apenas isso. Aquele nome lhe era familiar, mas ele não conseguia se lembrar a quem ele pertencia.
– Deve ser um nome estrangeiro exótico – Mia falou, e Jeanne perguntou:
– Timor, de onde você é?
Dessa vez, a peça ficou parada. Uma menina que estava com eles, e que até então assistia a tudo sem fazer comentários, se levantou.
– Isso é tão besta. Estou voltando para a festa.
Ela se retirou, e eles ficaram em sete – sem contar o espírito.
Por alguns instantes, todos se esqueceram do jogo para falar mal dela. E quando se deram por satisfeitos, acabaram por concordar – não sem um tanto de relutância – que ela podia ter razão.
– Devíamos deixar isso mais interessante. – Observou Jeanne.
– Como? – Ryan perguntou.
– Fazendo perguntas mais interessantes. – Ela respondeu. Com um sorrisinho, fez a próxima pergunta a Timor: – Quanto tempo – olhou nos olhos de todos os presentes – eu ainda tenho – ela fez uma nova pausa, para suspense –... para viver?
A peça se moveu para o número 2 e depois para o 3, com velocidade. O rosto de Jeanne perdeu a cor, e todos em volta ficaram perplexos. Ela só tinha dezessete anos. Se morresse em vinte e três, ainda seria muito jovem.
– Eu... Só vou viver até os quarenta anos? – Quis confirmar, mas Timor ainda não tinha terminado. Estava, agora, correndo pelas letras, formando uma palavra.
M-I-N-U-T-O-S.
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