Noite de Halloween
6 Ryan
Notas iniciais
— Isso é ridículo! – Berrou Jeanne, batendo a peça de madeira com força no tabuleiro.
Os outros se entreolharam, querendo ver como os demais iam reagir antes deles mesmos fazerem algo. Por um segundo, eles puderam ouvir o próprio suor escorrendo, para então o grupo se dividir entre dar risadinhas nervosas, como se tudo fosse uma grande brincadeira, ou mudar de posição, em evidente desconforto. Ryan se limitou a olhar para o tabuleiro com a testa franzida.
— Eu não me preocuparia tanto com isso – Frank continuava parecendo incrédulo. – É só um jogo idiota.
— Tá louco?! – Will era, por natureza, facilmente impressionável, e o seu estado de embriaguez não o ajudava. – O Timor está respondendo a tudo direitinho! Se ele não fosse real, como conversaria?
— Will, você não pode ser tão idiota assim. Você não reparou que só a Jeanne segurou a peça o tempo inteiro e que ela estava obviamente movendo-a? – Caçoou Frank.
— Eu não estava! – A indignação dela ao responder era genuína. – Eu não movi merda nenhuma, falou?! E não vou ficar aqui com um monte de babacas que acham que eu iria prever a minha própria morte.
— Jeanne... – Mia usou um tom maternal e compreensivo, mas isso não impediu a amiga de se levantar e ir para a porta, furiosa. Sem pensar duas vezes, ela foi atrás, e todos ficaram assistindo.
Mia alcançou Jeanne no topo da escada, enquanto ela tentava abrir a porta. Tentou convencê-la a ficar por lá e resolver aquela situação, até perceber que ela não teria opção: por mais que puxasse, empurrasse e girasse a maçaneta, não conseguia abrir a porta.
— Está trancada! – Exclamou Jeanne, jogando o peso do corpo contra a porta, esperando que ela tivesse emperrado e fosse abrir assim. Não funcionou.
— Ela não pode estar trancada. Essa porta nem tem chave. — Mia replicou.
— Tente você, então – ela abriu espaço, desafiadoramente.
O resultado foi o mesmo, e isso deixou a todos apreensivos. Ryan foi o único que não se levantou para ir tentar a sorte com a porta – ele acreditava que estava trancada sem tirar a prova, e seus pensamentos estavam presos em outra coisa: as aulas de latim que ele tivera de frequentar na antiga escola, e que tinha odiado cada segundo. Não tinha aprendido muita coisa, mas tinha certeza de que já tinha ouvido o nome do espírito lá.
Ele pegou a peça.
— O que o seu nome significa? – Perguntou. Alguns do outros, que se amontoavam na porta, olharam a tempo de verem a palavra se formar:
M-E-D-O.
— Ótimo! – Jeanne riu histericamente, mas evidentemente estava se segurando para não chorar. – Estávamos o tempo inteiro falando com o Medo.
Frank esmurrou a porta, na intenção de arrombá-la, e gritou um palavrão quando não funcionou. O pânico se espalhava como fogo, e Ryan, por mais assustado que também estivesse, se controlou para não surtar. Ele era bom para pensar sob pressão, e precisava ter uma boa ideia para tirá-los logo de lá.
E para isso, ele estava disposto a cooperar com Timor. Sabia que era o único jeito.
Não quis mais fazer perguntas em voz alta, sabendo que, dependendo das respostas, isso serviria para aumentar o medo dos adolescentes. Mentalizou o que queria saber e moveu os lábios para formar a frase, esperando que fosse o suficiente.
Todos nós vamos morrer aqui?
“Sim”.
Quanto tempo?
“20 minutos”.
Ryan suspirou, e reparou que estava tremendo. Desejou ter outra opção, mas como não era o caso, continuou fazendo pergunta atrás de pergunta.
Ocupados demais com a porta, ninguém prestava muita atenção nele. Mia agarrou Frank, começando a chorar, e ele falhou em consolá-la, porque estava quase no mesmo estado. Por maior que fosse o barulho que eles estivessem fazendo lá dentro, ninguém do lado de fora parecia notar. Como se a festa estivesse acontecendo em outro universo.
— Vamos todos morrer – gemeu o garoto asiático que estava com o grupo, bem no momento em que Ryan chegou a uma conclusão. Esforçando-se para manter a voz firme, chamou:
— Ei, todos vocês. Eu tenho um plano.
Surpreendentemente, todo mundo parou e, um por um, começaram a se aproximar. Ryan esperava um pouco mais de gritaria, e até preparava o que diria para convencê-los. A desesperança, no entanto, tornava qualquer ideia válida. Eles eram quase como criancinhas assustadas, querendo acreditar em qualquer coisa. Ryan sentiu uma estranha sensação de poder, o que lhe deu mais confiança.
— Manda, cara – pediu Will, abalado. Todos os outros mantiveram seus olhares presos nele, esperando.
— Timor disse que não é só Jeanne que vai morrer. Ele vai matar todo mundo, daqui há... – Ele fez uns cálculos mentais. – Uns dezessete ou dezoito minutos. Mas – aumentou a voz nessa parte, já que tanto Frank quanto a garota alta que ele não sabia o nome estavam prestes a interromper – ele disse que há um jeito de escaparmos. Ele vai propor um desafio a cada um de nós e, se o fizermos direito, ele nos deixa sair. Para alguns, vai ser simples... Para outros, nem tanto. Mas vamos todos ter a chance. E sugiro que comecemos logo, porque o tempo está passando.
— O espírito disse tudo isso para você? – Perguntou enfim a garota alta.
— Enquanto vocês tentavam abrir a porta. Quem quer começar?
— Eu! – Jeanne, que até então estava em pé, sentou bem à frente de Ryan. Os cinco demais ficaram em volta.
Ele se preparou e perguntou a Timor, em bom som:
— O que Jeanne precisa fazer?
A peça disparou para as letras, e todos foram dizendo-as em voz alta, montando as palavras. O que se formou foi: “CONTAR – VERDADE – MIA”.
Ryan não soube o que pensar desse desafio, e nem a maioria dos presentes. “Contar a verdade”? O que Jeanne poderia ter feito de tão grave? Parecia um desafio de um jogo de adolescentes, não de um espírito sanguinário que se autodenominava “Medo”.
Porém, pela maneira como Jeanne pareceu culpada, não havia dúvidas de que ela não queria contar o que quer que estivesse escondendo. Mia a encarou, confusa, e Frank desviou o olhar para o chão.
— Contar o quê? – Mia questionou, quando Jeanne não abriu a boca. – O que aconteceu, Jeanne?
Uma lágrima escorreu pelo rosto da garota, que se encolheu como se as perguntas dela fossem uma agressão física.
— Nada aconteceu – sussurrou, e isso deixou a menina alta fora de si. Frank teve de soltar Mia para segurá-la, enquanto ela tentava ir para cima de Jeanne e gritava:
— Sua vadia egoísta! Você ainda não percebeu que vamos todos morrer em alguns minutos?! Por que você não deixa esse seu orgulho de merda de lado e vai logo com isso para a gente sair dessa?!
— O seu surto também não vai nos ajudar – observou o asiático. – Jeanne, por favor.
Ela fuzilou a outra garota mortalmente, e passou o braço no nariz que escorria. Estava chorando cada vez mais.
— Mia – disse, segundos depois, sem olhá-la nos olhos. – Fui eu quem roubou seus cadernos da escola quando tínhamos onze anos. Eu os rasguei e joguei no lixo, porque meus pais estavam me cobrando notas tão altas quanto as suas, então eu não podia permitir que você estudasse e me superasse novamente... – Ela fungou. – E fui eu quem espalhou suas fotos íntimas quando tínhamos quinze, por causa de uma briga que tínhamos tido na época. Não me lembro qual foi... – Jeanne falava olhando da porta para o tabuleiro, esperando um sinal de que estava liberada. Ele não chegou. – Ah, o que você quer de mim?! – Perguntou para Timor, colocando ambas as mãos na cabeça. – Eu... Eu também já transei com o Frank. Várias vezes. Inclusive no dia da sua festa de aniversário de dezessete anos, mesmo que vocês dois já estivessem ficando naquela época.
Ryan não fazia ideia de que Mia e Frank já estavam juntos há algum tempo. Assim sendo, por que ela estava há meses dando sinais de que eles poderiam vir a ter algo? Por que havia dado esperanças a ele?
Ela ter feito aquilo com ele era tão ruim quanto o que Jeanne tinha feito com ela. Mas, enquanto Ryan ficou quieto e não se alterou, Mia olhou da amiga para Frank com repulsa, e foi para o mais longe possível deles naquele porão minúsculo. Jeanne continuava chorando em silêncio, e Frank quis se explicar:
— Mia, não foi bem desse jeito...
— Cala a boca – ela cortou, com a voz trêmula. – Não fale nada.
— Jeanne – disse Ryan, sabendo que eles não teriam tempo para uma briga –, se isso é tudo, é melhor você conferir se consegue passar pela porta.
Ele não precisou falar duas vezes. Ela se levantou e foi correndo aos tropeços até a porta, que se abriu com facilidade. Encantada com a perspectiva de liberdade, a garota alta correu atrás dela, mas a porta se fechou e voltou a se trancar assim que Jeanne saiu, sem permitir que ninguém a seguisse.
— Mia, você quer ser a próxima? – Ryan perguntou.
Ela ainda estava encarando Frank com dor, e suas mãos fechadas em punho demonstravam sua raiva. Ryan achou que ela sequer o tinha escutado, até ela responder:
— Sim. Sim, eu quero.
— Timor – ele voltou a olhar para o tabuleiro. – O que a Mia precisa fazer?
A resposta foi curta e terrivelmente clara: “MATAR”.
Não parecia ser possível que a tensão entre eles aumentasse. Mas aumentou.
— “Matar”? – Mia repetiu, com a voz afinada pelo medo. Tinha desviado o olhar para a Ouija a tempo de ver a resposta, que claramente tinha feito o seu mundo desabar. Seus joelhos tremiam tanto que ela parecia prestes a cair no chão – Matar quem...?
Timor não se pronunciou, de modo que Ryan concluiu:
— Acredito que qualquer um nesse cômodo.
Ninguém reagiu por um tempo. Um deles teria de morrer, e não haveria como o escolhido se defender. Mia estava começando a chorar, mas foi a primeira a aceitar o destino: indo até algumas prateleiras, ela remexeu toda a bagunça, procurando algo. O barulho dos objetos que ela mexia preencheu o aposento, e todos se encolheram e procuraram não fazer contato visual uns com os outros, esperando serem esquecidos.
Quando ela conseguiu o que estava procurando, virou-se. Embora as lágrimas estivessem escorrendo, seu olhar era determinado – e Mia o fixou em Frank, que por sua vez, olhava para o martelo em suas mãos.
— Você não quer fazer isso – ele afirmou, dando alguns passos para trás enquanto ela ia a sua direção.
— Não – admitiu ela. – Mas eu não tenho opção.
— Você está tomada pela raiva! – Frank estava visivelmente assustado. – Você não pode me matar em um momento de fúria! Se você estivesse em si, mataria o Ryan. Ele entrou na escola há alguns meses, e ninguém mal o conhece. Mas nós nos conhecemos há anos, Mia. Nós somos próximos.
— Ryan? – Mia pareceu não acreditar na sugestão dele. – Você quer que eu mate Ryan? O mesmo Ryan que está nos ajudando a sair daqui, enquanto você fica aí pensando na próxima vez em que vai transar com minha melhor amiga?
— Isso é injusto. Você não me deu tempo para explicar...
— Não há tempo para explicações.
Mia levantou o martelo e tentou acertar o rosto de Frank com ele, sendo impedida pelo próprio, que segurou seus pulsos. Vendo que Mia não conseguiria se livrar dele sozinha, e que Frank precisava morrer para que os outros saíssem de lá, a garota alta gritou:
— Segurem-no!
O asiático se levantou e a ajudou a imobilizá-lo. Com os dois segurando, Mia teve o caminho livre para acertá-lo. E ela o fez.
Todas as vezes que ela batia, Frank gritava de dor. Seu rosto foi sendo desfigurado conforme as marteladas eram desferidas, e Ryan teve sorte em conseguir fechar os olhos antes de Will vomitar, ao seu lado. Respingos do sangue e do vômito o atingiram, e ele precisou de um autocontrole extraordinário para não ser o próximo a colocar o que tinha no estômago para fora.
Voltou a abrir os olhos somente quando ouviu o som do martelo batendo no chão, seguido pela voz desesperada de Mia:
— E-Eu não consigo! N-Não consigo!
Ela estava em prantos. Frank não se mexia mais, mas pela sua respiração angustiada, dava para ver que ainda estava vivo. Mia se deixou cair no chão, em posição fetal.
A menina alta foi a que mais se indignou com isso.
— Como não? Você precisa, Mia! Como vamos sair daqui? – E como ela não respondeu, ela se virou para Ryan. – Ryan, pergunte para o Timor se o meu desafio pode ser terminar o trabalho da Mia!
Ele obedeceu, e a resposta foi “Sim”. Ela pegou o martelo e, com dois golpes bem dados, finalizou Frank. Não pareceu sentir nenhum remorso ao jogar o instrumento no chão, correr para a porta e sair, deixando para trás quatro adolescentes e um corpo.
E Will parecia prestes a vomitar de novo. Seu rosto estava esverdeado.
— Aguente firme, Will – Ryan pediu, aflito. – Você vai ser o próximo a sair daqui, está bem? Timor – ele voltou a segurar a peça. – O que o Will tem de fazer?
“FOGO” foi a primeira palavra. E, logo depois, veio a segunda: “CORPO”.
— Eu tenho de por fogo no meu próprio corpo? – Will estava quase desmaiando.
— Impossível. O objetivo disso é sairmos vivos, não é...? Timor deve estar se referindo ao corpo de Frank – esclareceu Ryan.
— Mas isso é idiotice! – Revoltou-se o garoto asiático. – Se ele incendiar o corpo, o fogo vai se espalhar em segundos.
— Não temos muito tempo, mesmo – Ryan relembrou. Se não estava enganado, eles deviam ter por volta de cinco minutos para saírem, de forma que ele se apressou para se levantar e ir até a chorosa Mia. Colocou uma mão no ombro dela e indagou, com delicadeza: – Mia, tem algum fósforo ou isqueiro por aqui?
Ela não respondeu, e não havia tempo para insistir. Os três garotos, em um acordo silencioso, começaram a revirar as prateleiras, deixando muitas coisas caírem ou ficarem fora do lugar, na busca exasperada por algo que fizesse fogo. Havia tanta tralha, não era possível que não houvesse um reles isqueiro...
Demorou quase dois minutos para Will dizer:
— Aqui. Achei uma caixa de fósforos.
— Ótimo — Ryan deixou cair o ioiô que tinha acabado de tirar de uma das dezenas de caixas, aliviado. Mas ainda assim, teriam de se apressar. – Agora você põe fogo no corpo e corre.
Will se atrapalhou para riscar um fósforo. Ryan teve vontade de puxar aquilo das mãos dele e fazer aquilo ele mesmo, mas sabia que não podia cumprir o desafio por ele.
Não sem dificuldade, ele acabou conseguindo acender o palito, tremendo tanto que Ryan temeu que fosse deixar o fósforo cair em outro lugar e começar o fogo no lugar errado. Mas ele conseguiu se aproximar e incendiar apenas a ponta da blusa de Frank.
Antes que eles pudessem mesmo piscar, o fogo já estava se espalhando para o resto do corpo, e Will apagou o fósforo antes de sair correndo para a porta, parando apenas para desejar boa sorte aos restantes.
Fumaça começou a sair em grande quantidade e Ryan cobriu o nariz e a boca com a gola da camiseta. Recolheu o martelo ensanguentado do chão e o pôs nas mãos de Mia, ignorando o estado devastado em que ela se encontrava.
— Você falhou matando o Frank, e não vai sair daqui sem sangue nas mãos. É melhor você matá-lo – e indicou o asiático com a cabeça, com calma. Tinha saído de acordo com o que ele tinha planejado.
O garoto ficou tão chocado que não conseguiu se contrapor. Ryan ajudou Mia a ficar de pé e a jogou para cima dele. Por um instante, achou que ela ia fracassar novamente, mas o instinto de sobrevivência dela ainda estava lá.
— D-Desculpe... – Ela sussurrou, e então começou a bater, em um ataque ainda mais violento do que o contra Frank.
Ryan observou tudo enquanto recuava em direção à escada. O fogo já tinha consumido o corpo e passava para os objetos ao redor. A fumaça era tão espessa que era difícil respirar e enxergar, e todos os presentes já tossiam. E o tempo que Timor tinha lhes dado já estava terminando.
O garoto asiático caiu morto em meio às chamas, pegando fogo imediatamente. Ryan já estava perto da porta, e Mia foi atrás dele.
— Ry... – Chamou, e foi interrompida por um acesso de tosse. – E seu desafio...?
— Eu já o cumpri – a voz dele estava atordoada pela fumaça.
— Quando?
— Quando vocês estavam tentando arrombar a porta. Eu – e tossiu – fui o primeiro. Meu desafio era conseguir três sacrifícios, e os outros quatro poderiam sair ilesos.
Ele alcançou a porta, enquanto Mia começava a subir a escada.
— Mas só duas pessoas morreram...
Nessa hora, Ryan não conseguiu evitar erguer as sobrancelhas.
— Só três? Eu acho que não. Bem, você realmente deveria ter pensado duas vezes antes de me iludir daquele jeito.
Ele só teve tempo de ver o olhar surpreso dela antes de sair pela porta e fechá-la com força. Queria ter ouvido os gritos de desespero de Mia quando Timor a pegou, mas não era possível ouvir nenhum dos horrores do lado de dentro.
Mesmo assim, ele riu. No final, até que aquele jogo de Ouija tinha sido muito divertido.
E agora, ele podia ir atrás de Jeanne, que certamente precisaria de consolo e do conforto dos braços dele.
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