Noite de Halloween
7 Connor
Notas iniciais
Connor já estava ficando bem enfezado.
Sua barriga estava doendo por conta de todos aqueles doces roubados que ele tinha comido, e incomodava andar. Ele tinha feridas abertas e sujas de terra ao longo de todo o seu corpo, devido ao tombo da árvore, suas roupas estavam rasgadas e ele ainda sentia como se o corpo inteiro estivesse quebrado pelo impacto.
E ainda por cima, a única esperança de sair daquele cemitério antes do amanhecer era seguir aquele garoto babaca que se achava um membro importante de uma seita sem nem ter completado o Ensino Médio, que iria apresentá-los para outros babacas que decidiriam se contariam ou não como sair de lá, como se fossem os donos do cemitério.
Andando ao lado de seu amigo Basil, ele pisava duro. Estava tentando evitar olhar demais para Aaron, que andava pouco à frente deles, guiando-os, para não ficar com mais raiva e falar alguma besteira, destruindo qualquer chance dos meninos de saírem de lá.
Mas, quando o viu colocar o dedo no nariz em uma das vezes em que o olhou de relance, Connor não aguentou e deu um cutucão em Basil. A intenção era chamar a atenção dele e fazer com que ele olhasse para Aaron, porém o garoto achou que era uma provocação, e o empurrou.
— Ei! – Exclamou, sentindo uma forte onda de irritação. Qual era o problema de Basil? Sem deixar barato, Connor o empurrou também, e os dois logo pararam de andar para se concentrarem em dar socos, pontapés e empurrões um no outro.
Aaron parou de andar e se virou, olhando para eles da mesma forma que olharia para dois animais que estivessem cagando no tapete da sala dele.
— O que vocês estão fazendo? Vocês estão no território da Irmandade Secreta dos Cavaleiros da Noite, comportem-se com respeito! Parem com isso! – Disse, e cometeu o erro de tentar entrar no meio dos dois, apenas para receber um soco de Basil no rosto.
Pelo menos, a briga parou na hora.
— Isso era para o Connor! – Justificou-se ele, enquanto o outro gritava:
— Eca, você encostou nas espinhas dele!
Basil olhou assombrado para a mão com que tinha socado.
— Eu toquei! Caramba, eu toquei mesmo, que nojo!
— Não encoste mais em mim com essa mão! – Avisou Connor.
O mero fato de dividirem a mesma repulsa foi ainda melhor do que um pedido de desculpas para voltar a unir os dois, como se nunca tivessem se batido. Quem não ficou nem um pouco feliz com aquilo foi Aaron, cujo rosto ficou vermelho como um pimentão.
— Eu vou avisar pela a última vez! – Ele já quase gritava – Ou vocês dois se comportam, ou eu vou garantir que vocês dois sejam punidos pela irmandade, e isso vai ser doloroso e repleto da mais pura e dor e humilha...
— O que está acontecendo aqui? – Perguntou uma quarta voz, e os três olharam para onde ela tinha vindo. Um garoto da idade de Aaron, de pele escura e usando uma capa negra como a dele, vinha na direção do trio. Para Connor, era apenas outro nerd bobão, mas Aaron se curvou como se estivesse na presença da rainha.
— Ah, Líder Supremo! Peço perdão para a má conduta destes dois intrusos. Eles alegam ter caído de uma árvore dentro de nosso território, e eu estava humildemente levando-os à sua presença, para que você pudesse julgar o que deveria ser feito!
Connor e Basil se entreolharam, ambos segurando o riso. Os outros dois não repararam, pois o “Líder Supremo” estava ocupado encarando Aaron (que ainda não tinha endireitado) com seriedade.
— Você pretendia levá-los até o nosso local de reunião, cavaleiro?
— Sim, meu senhor, para que...
— Eu já entendi seus motivos. Mas como você pôde ser tão irresponsável a ponto de levar estes intrusos, que podem perfeitamente serem espiões da Irmandade Secreta do Grande Gordo, até o local onde estamos debatendo as nossas ações?
— Espera aí, nós somos espiões da onde? – Connor não acreditava que aquilo tinha acabado de ficar mais estúpido. Quem era Grande Gordo?
— Vou te contar – comentou Basil –, essa outra irmandade aí conseguiu arranjar um nome mais idiota do que o de vocês...
— Blasfêmia! – Condenou Aaron, dramaticamente. O Líder Supremo não se alterou, e voltou sua atenção aos dois.
— Tão jovens – ele imitava um tom sábio -, e tão... tão... – procurou uma palavra –... otários. Creio que nossa única opção será deixá-los trancados aqui a madrugada inteira, e deixar que o zelador os encontre pela manhã...
— Não, espera, queremos ir para casa...!
— Ou – o Líder continuou, como se Basil não tivesse interrompido – pode ser que vocês tenham vindo até nós como um presente de um dos deuses.
— Em quantos deuses vocês acreditam? – Connor pensou em voz alta, e se arrependeu de ter feito isso no mesmo instante. Não queria ouvir uma longa explicação. Então, disfarçou com outra pergunta: – Por que somos um presente?
Era o que o Líder Supremo queria ouvir.
— Vocês chegaram a nós em um momento oportuno. O cavaleiro Aaron foi recentemente promovido ao cargo de vice-líder, meu futuro sucessor, e um dos motivos de nos reunirmos hoje é para o ritual de passagem dele.
— E o que a gente tem a ver com isso? – Replicou Connor.
— Vocês vão ver. Sigam-nos.
*********
A dita Irmandade Secreta dos Cavaleiros da Noite era um grupo de, no total, cinco garotos.
Todos eles usavam capas, e se reuniam ao lado de um túmulo com uma enorme estátua de anjo, já tão antiga que suas feições estavam desgastadas e corroídas.
Foi para esse lugar que o Líder e Aaron guiaram Connor e Basil, e os outros três garotos da irmandade os encararam friamente. Como um deles segurava uma lanterna, e mesmo que nenhum parecesse ser maior de idade ou digno de ser levado a sério, Connor começou a ficar nervoso. Agora, aqueles garotos estavam em maior número.
— Peço permissão para falar, Líder Supremo – pediu um dos três adolescentes, que estavam sentados em meio-círculo quando eles chegaram. O Líder se sentou no túmulo, aos pés da estátua, e Aaron ficou em pé ao lado de Basil e Connor, como um guarda.
— Permissão concedida.
— Quem são os intrusos? – Ele apontou.
Connor abriu a boca para dar uma resposta irônica, mas levou um cutucão dolorido de Aaron, indicando que ele deveria ficar em silêncio.
— Acreditamos – respondeu o Líder – que sejam uma dádiva dos deuses. O que irá nos ajudar no ritual de iniciação como vice-líder do cavaleiro Aaron.
A reação foi um “oh” coletivo e a substituição da hostilidade do grupo por mera desconfiança e curiosidade. Connor bufou e perguntou:
— Depois disso nós podemos ir embora? – E, quando recebeu um novo cutucão de Aaron, completou: – Ai! Dá para pedir para esse demente parar de me cutucar?!
— Cavaleiro – o Líder Supremo lançou um olhar de repreensão para o garoto, que abaixou a cabeça. Connor se sentiu triunfante e, pela primeira vez, não o odiou tanto. – Sim, intruso. Vocês poderão ir embora após o ritual. Ou melhor, um de vocês. E... Fale, intruso nº 2.
Basil abaixou a mão.
— Um de nós? Mas... e o outro?
— O outro permanecerá conosco – respondeu, com simplicidade.
— E como vocês irão decidir quem irá embora?
— Explique, Cavaleiro Aaron.
Aaron estufou o peito como se tivesse recebido uma grande honra, esquecendo-se subitamente de que tinha sido censurado ainda há pouco.
— Um ritual tão importante quanto esse exige um sacrifício. Um sacrifício de sangue— ele agravou a voz, encarando os dois meninos com um ar sinistro e colocando a luz da lanterna em seu próprio rosto. – E nós decidimos que, para isso, queremos usar o maldito cachorro do zelador noturno. É um rottweiler sanguinário que vaga por este cemitério durante a noite e arranca pedaços de qualquer vivo que se ponha em seu caminho.
— E quem conseguir matá-lo e trazê-lo para nós será o recompensado – concluiu o Líder Supremo.
— E como nós encontramos esse cachorro? – Connor não sabia ao certo como reagir àquela proposta.
— Já não disse que ele fica vagando? – Aaron retrucou.
— Como o matamos? – Basil parecia enojado.
— Vocês terão de usar a criatividade. É a parte divertida – o Líder bateu as mãos. – Diversão. Vai ser ótimo. Agora vão.
Basil tinha outra pergunta, mas Connor o segurou pelo braço e arrastou para longe dali antes que ele pudesse fazê-la. Os rapazes apenas assistiram.
— Nós precisamos de outro plano, Connor. Não podemos matar um rottweiler assassino – choramingou Basil, quando já estavam fora de vista.
— Pare com isso! – Exclamou ele, incomodado com o choro. Tinha medo de começar a chorar também. Gostava de se sentir superior. – É só um cachorro pulguento. A gente dá conta.
Connor só se esqueceu de contar que tinha pavor de cachorros.
Ele tinha apenas seis anos quando Ryan, de então onze anos, e Krysta, de oito, foram sozinhos ao mercado que ficava perto da casa deles, para comprar os ingredientes que o Sr. Bennett precisava para fazer o jantar.
Mas eles voltaram com mais que uma sacola de compras – pelo que contaram para os pais, aquele grande vira-lata imundo tinha apenas seguido eles até em casa, era muito manso e devia ficar com eles.
O Sr. e a Sra. Bennett não gostaram muito da ideia. Jon era apenas um bebê de colo na época, e eles estavam tendo dificuldades o suficiente para cuidar de cinco filhos, principalmente sendo que só o mais velho tinha mais de dez anos. Um cachorro estava, como eles disseram, totalmente fora de cogitação.
Isso não os impediu, no entanto, de ficar com ele por alguns dias, até conseguirem doá-lo para um vizinho. Foram dias gloriosos para os irmãos Bennett – com exceção de Connor.
Porque, enquanto o vira-lata corria pelo quintal com Maisie, dormia no colo de Krysta quando ela estava assistindo televisão, fazia truques para Ryan em troca de sobras do jantar e observava Jon protetoramente enquanto o garotinho dormia, Connor sequer podia se aproximar sem que o cachorro começasse a rosnar para ele. Uma vez, até, foi mordido, e ainda tinha aquelas cicatrizes finas e claras em seu braço direito.
— O que você sugere? – Basil fungou. – Só um de nós pode matar... Teríamos de ficar um contra o outro.
— É por isso que precisa ser justo. Devíamos nos separar. Ir um para cada lado e tentar achá-lo sozinhos, se não podemos cooperar – opinou, lançando um olhar para onde a assustadora estátua do anjo marcava onde os outros garotos estavam. Ela era tão alta. Contando com o túmulo sob ela, devia ter três metros.
— Mas como...
— Não sei, Basil! E não podemos ficar contando nossas táticas um para o outro, seria burrice.
Ele pareceu ofendido.
— Certo! Então eu vou lá e vou encontrar esse cachorro primeiro.
— É o que vamos ver.
Por orgulho, Basil engoliu o choro que estava por vir e seguiu decididamente pela esquerda, ao mesmo tempo em que Connor foi pela direita.
Ele não olhou para trás até ter certeza de estar longe o bastante, e então parou para conferir onde Basil estava. Não o achou – o garoto tinha sumido entre as estátuas e mausoléus. Também não havia sinal do rottweiler, o que era, ao mesmo tempo, bom e preocupante.
Connor sabia que tinha de agir logo. Mas não pretendia procurar o cachorro.
Correu de volta para onde a Irmandade Secreta dos Cavaleiros da Noite se reunia. O Líder Supremo chegou a lhe perguntar o que estava fazendo, e foi ignorado, pois Connor estava lá por outros motivos. Agarrou uma grande pedra do chão e subiu no túmulo da estátua de anjo, escalando-a até alcançar seus ombros. Tinha uma visão muito melhor daquela altura.
Pôde ver Basil andando e, pela maneira como mexia a boca, falando “Totó”. Connor estava com dificuldades em se manter sobre a estátua, sendo ela quase lisa, e seu rosto começava a ficar vermelho pelo esforço. Esperou que o cachorro aparecesse logo, porque não conseguiria se manter por tanto tempo.
Basil era uma isca fácil, andando e chamando, e, depois de alguns poucos minutos, Connor concluiu que o animal só podia ser idiota. O garoto agora já tinha dado a volta por quase toda a área do cemitério e fazia o caminho de volta, em direção a onde os outros estavam. Mas ele não podia ver Connor sobre a estátua, pois entenderia suas intenções. Ele desejou que ele não viesse para lá. Que não olhasse naquela direção.
E é claro que ele olhou.
— O que você está fazendo aí?! – Berrou, incrédulo, parando de andar.
— Basil, o cachorro! — Foi o que Connor gritou de volta.
Basil se virou, para se encontrar a menos de um metro de distância do rottweiler. Se os passos e a voz baixa dele não o tinham atraído, seu grito o fez. E o cachorro não parecia ter gostado nada daquilo, parado no chão, rosnando ameaçadoramente.
O menino deu um passo para trás, esquecendo-se do que viera fazer, e o cão saltou para cima dele.
Connor pulou da estátua para o túmulo e, de lá, para o chão. O amigo tinha sido perfeito. A isca perfeita. Segurando a pedra com força entre seus dedos, correu para onde o rottweiler estava – precisamente como Aaron tinha dito – arrancando pedaços de Basil, enquanto este berrava, desesperado.
Nenhum dos dois percebeu Connor se aproximando sorrateiramente por trás, erguendo a pedra e atingindo o cachorro com força na nuca. O animal latiu, cheio de raiva, e largou Basil para ir para cima dele. Connor sentiu as unhas dele o arranharem enquanto seu peso o fez cair de costas no chão.
Ele tentou o empurrar, mas o rottweiler o segurou com firmeza. Seu hálito foi quente quando aproximou o rosto do garoto, na intenção de arrancar um pedaço da bochecha dele, e Connor lutou para não deixar que isso acontecesse. Chutou, empurrou, se debateu, sem nunca soltar a pedra, e ainda assim o cachorro fechou os dentes em seu ombro, fazendo uma dor lancinante dominar seu corpo.
Gritou de dor, mas não desistiu de lutar. Conseguiu golpeá-lo na cabeça mais uma vez, obrigando-o a recuar por um instante: o bastante para Connor pegar vantagem e começar a atacar.
Ele levou mais duas ou três mordidas muito dolorosas, que fez o sangue escorrer em abundância por seu corpo. Contudo, seria pior se cedesse. Ou o cão morria, ou seria ele.
Bateu com tanta violência que, logo, o rottweiler parou de resistir e se encolheu, chorando. Connor sorriu. Estava vencendo. O sangue espalhado por todo o seu corpo não era mais apenas dele próprio. E então, ele continuou, até o cachorro estar morto a seus pés.
Observou seu trabalho, orgulhoso. Estava ofegante e cheio de energia, e sentia ter superado seu medo.
Perto dele, no chão, Basil chorava baixinho.
— Sinto muito por você – Connor disse para ele, com arrogância.
Ele não respondeu, e os cinco garotos da irmandade surgiram das sombras, batendo palmas levemente. Pareciam sinceramente impressionados, e Connor endireitou os ombros. Ele era o maioral.
— Parabéns – disse o Líder, solenemente. – Foi uma missão complicada, e você conseguiu, com bravura e coragem. Conquistou uma grande honra dentro da Irmandade Secreta dos Cavaleiros da Noite.
— Eu sei.
— Por isso, será recompensado. Vocês dois – ele se voltou a dois dos cavaleiros – guiem o outro para fora do cemitério.
— Sim, senhor – eles responderam, em coro, indo até Basil e o ajudando a se levantar. Connor não entendeu.
— Mas como...? Eu matei o cachorro!
— Você matou. E agora podemos fazer o nosso sacrifício de sangue.
Ele estava revoltado. Ia perguntar o motivo de não ter recebido o prêmio, se eles admitiam que ele tinha matado, e sua garganta secou quando entendeu o que eles queriam dizer.
Aaron tirou uma faca de um bolso interno de sua capa.
— Posso começar o ritual, ó, Líder Supremo?
— Permissão concedida.
Connor estava chocado demais para correr quando o seguraram.
Agora havia entendido tudo. O rottweiler tinha sido apenas um teste classificatório.
O sacrifício de sangue era o vencedor.
Fale com o autor