Noite de Halloween
3 Connor
Notas iniciais
Connor desembrulhou mais um chocolate e o mordeu.
Seus dentes de trás doeram com esse ato, e ele fez uma careta. Havia tempos que isso acontecia quando ele comia doces, mas sentir essa dor era melhor do que ir ao dentista – ainda não tinha superado seu último tratamento de cárie. Ele devorou o resto do chocolate com uma mordida, amassou o embrulho e o jogou no chão.
Foi pegar outro doce em sua sacola e constatou que não havia sobrado muita coisa além de algumas balas ruins. Não tinha reparado no quanto tinha comido nos últimos minutos. Até pouco tempo antes, sua sacola ainda estava abarrotada com os doces que ele e os dois melhores amigos, Craig e Basil, conseguiram ao bater em algumas criancinhas de oito anos e roubá-las.
Eles estavam sentados na calçada, com as costas apoiadas no muro alto que cercava todo o quarteirão. No chão em volta deles, havia incontáveis papéis e embalagens de pirulitos, balas, caramelos e chocolates.
Aquele lugar era tranquilo. Ninguém ia para lá, já que aquele quarteirão não era parte do circuito que as crianças faziam para pedir doces. Muitas, até, escolhiam evitá-lo: o muro que cercava aquele local era, afinal, o do cemitério, o que parecia especialmente desagradável no Halloween.
Mas os meninos não tinham medo disso. Tinham já doze anos, não eram criancinhas, e souberam bem aproveitar o medo dos outros para arranjar um lugar calmo, na qual podiam fugir dos irmãos mais velhos das crianças em quem tinham batido (e que certamente os estavam procurando), comer e descansar.
Porque eles estavam mesmo cansados. Antes de decidirem “arranjar” algumas gostosuras, os três já tinham percorrido boa parte do bairro atirando ovos e papel higiênico em casas e fazendo diversas outras travessuras – o que era mais divertido do que tocar campainhas e ser educado.
Como dizia mesmo a Sra. Bennett? “Nenhuma recompensa é mais satisfatória que um descanso merecido”, ou algo parecido. Ele nunca prestava muita atenção.
– Essa merda já acabou – reclamou Connor, jogando a sacola longe, onde ela sujaria a calçada com os outros papéis.
– Pegue o meu. Já estou com dor de barriga – Craig ofereceu, entregando o que tinha sobrado dos próprios doces para ele.
Connor desembrulhou um caramelo, mas não tardou para se sentir mal por isso. Craig era o gordo do trio, não ele. E ele não estava interessado em mudar isso, de forma que afastou a nova sacola.
– Perdi a vontade.
Por alguns segundos, os garotos apenas ficaram no chão, concentrados em suas digestões e conversando sobre a noite produtiva. Basil tinha medo de que sua vizinha os tivesse flagrado vandalizando seu jardim de rosas premiadas e contasse para a mãe dele, e os outros dois o zombavam por temer a velha mulher.
Tudo estava sendo divertido até eles ouvirem a música tocando, ao longe.
Isso não significou nada no começo. Não muito longe do quarteirão do cemitério, ficava a Colley Road – a estrada principal que levava para fora da cidade, onde carros passavam o tempo inteiro. No tempo em que estavam lá, já tinham ouvido diversas outras músicas e buzinas.
Mas algo foi diferente dessa vez, e isso os alarmou. Eles perceberam que esse carro em especial estava vindo pela direção contrária a Colley Road, e se aproximava de onde eles estavam. O rap que tocava aumentava a cada segundo, indicando que o veículo não tardaria para alcançá-los.
E o que ele estaria fazendo naquela área, naquele horário? Os três sequer precisaram debater o assunto, porque já tinham pensando a mesma coisa: os irmãos mais velhos daquelas criancinhas tinham ido atrás deles, conforme elas tinham prometido.
– São eles! – Exclamou Basil, empalidecendo. Pela maneira como ficou imóvel no chão, ele estava chocado demais para correr.
Mas Connor, não. O carro já estava próximo o suficiente para virar a esquina a qualquer instante, e eles não tinham tempo a perder. Ele se levantou com um pulo, olhando em volta em busca de um lugar para se esconder, e sentiu uma forte pontada no estômago. Não tinha percebido até então o quanto estava pesado e nauseado.
Para piorar a situação, não havia para onde ir. Ele podia correr para longe, mas seria ridículo tentar competir com um automóvel – quase tão ridículo quanto ousar se esconder atrás de um poste de iluminação ou uma das árvores magras e nuas que eram as únicas coisas que havia na rua.
Eles estavam perdidos.
E enfim, Basil descongelou. Sem nem ao menos pensar, ele passou correndo pelos dois amigos e agarrou uma das árvores, fazendo força para escalá-la.
O pensamento do quanto aquilo era estúpido chegou a passar pela mente de Connor, mas não havia tempo para isso. Por falta de uma ideia melhor, ele decidiu ir atrás de Basil, sem pensar nas consequências.
O tronco da árvore era áspero, e feriu suas mãos quando ele foi escalar. Parou por um segundo, e Craig, que estava logo atrás dele, exclamou:
– Vai logo com isso, Connor!
E ele começou a subir.
A árvore conseguia aguentar apenas Basil, mas dois garotos era demais. Ela rangeu e tremeu, em protesto, e ele se segurou com braços e pernas, desesperado para não cair.
No final da rua, finalmente surgiram os faróis do carro. Tanto Connor quanto Craig começaram a berrar para Basil ir logo, enquanto uma voz de dentro do carro dizia:
– Aí! São esses pirralhos!
Basil subiu mais, alcançando galhos tão finos que poderiam ceder a qualquer segundo sob o peso dele, e Connor foi atrás. Craig tentou ir também, mas Connor soube, naquele segundo, que não podia permitir. A árvore estava aguentando a ele e a Basil com dificuldade, mas se um menino que beirava a obesidade tentasse subir também...
Em diversos jogos que eles faziam nas aulas de Educação Física, alguém sempre acabava tendo de se sacrificar pelo time. Agora, ele decidiu, tinha de ser a vez de Craig.
Soltou uma perna rapidamente para poder chutar o rosto dele, e quando Craig caiu de costas no chão, com sangue saindo da boca e os olhos apertados, Connor voltou à escalada.
A adrenalina era tanta que ele quase não ouviu os gritos de dor e indignação do amigo ou os freios do carro, assim como não estava se importando com suas roupas sujas e rasgadas e suas mãos machucadas e ensaguentadas. Suas prioridades eram outras.
Mas tudo teria sido em vão se a árvore ou os galhos em que eles estivessem caíssem, e conforme chegava mais alto, Connor via que era cada vez mais provável que isso acontecesse. Arriscou olhar para baixo, para o chão, metros abaixo, e viu que talvez houvesse sim uma saída: pular para o lado de dentro do cemitério, agora que estavam a uma altura maior do que a do muro.
– Vamos ter de pular! – Gritou para Basil, e mais uma vez, o outro congelou.
– Precisa mesmo? – Ele gritou de volta, mesmo que ele já o tivesse alcançado, mas não tiveram tempo para uma discussão. Como Connor tanto temia, o galho em que eles estavam se partiu.
Descidas eram sempre mais fáceis que subidas, mas aquilo foi o cúmulo. Durante dois segundos, eles berraram enquanto caíam em queda livre dentro do cemitério, e depois se espatifaram no chão, e a queda não foi amenizada por ele ser feito de terra.
Connor caiu de costas, e o impacto foi tão grande que ele achou ter quebrado uns dez ossos. E como se não bastasse, o galho ainda caiu logo acima dele, causando uma segunda rodada de dor.
Ele fechou os olhos, pensando se a surra que Craig estava tomando (ele podia ouvir os gritos dele do outro lado do muro, assim como a risada dos adolescentes) podia ser pior do que aquilo. Pela primeira vez, ele entendeu o significado de “ver estrelas”.
Sua cabeça latejava, seu corpo doía e parecia que ele nunca mais iria ficar em pé novamente, mas conseguiu encontrar sua voz para chamar:
– Basil...?
– Que é? – respondeu o outro, com uma voz tão dolorida quanto a dele.
– Nada.
E os dois ficaram deitados, ouvindo os barulhos de Craig até, aparentemente, os adolescentes o enfiarem dentro do carro e saírem com ele, e enfim Connor achou melhor tentar se levantar. Seria péssimo se realmente não pudesse mais se mover, e tinha de tirar a prova.
A dor excruciante não o impediu de, lentamente, se por em pé. Estava parecendo mais um zumbi do que um vampiro, que era do que estava fantasiado: sua roupa estava em frangalhos, e havia cortes e hematomas em ser corpo inteiro. Isso fez com que ele pensasse que poderia ser divertido se fantasiar de zumbi no ano seguinte.
Fez alguns exercícios para testar se realmente podia mexer o corpo inteiro, e, quando se convenceu, deu um leve chute na barriga de Basil, deitado como morto no chão:
– Levanta.
O garoto resmungou, sem se mexer, e Connor fitou o cenário que eles tinham à frente.
Um arrepio percorreu seu corpo no mesmo instante. Ele já havia estado em um cemitério antes, quando seu avô morrera, mas tinha sido com toda a sua família, no meio da tarde. Aquilo era bem diferente.
O terreno era tão extenso que, na escuridão, não parecia ter um fim. Connor dificilmente acreditaria se lhe contassem que aquela era a área de apenas um quarteirão, por maior que ele fosse. Não havia nenhum ponto de luz, e era preciso se esforçar para enxergar as lápides e distinguir as sombras que se moviam fantasmagoricamente pelo ambiente (ele preferiu crer que eram frutos de sua imaginação, mas não dava para saber com certeza). Uma névoa baixa aumentava o ar de filme de terror, tal como o silêncio aterrador deixado pela ausência de Craig e dos adolescentes, quebrado somente pelos sons dos insetos.
Ele não viu quando Basil se levantou, porém ele estava ao lado dele quando perguntou, com a voz trêmula:
– Como vamos fazer para sair daqui?
Era uma ótima pergunta – eles tinham conseguido entrar escalando a árvore, mas não havia árvores próximas ao muro do lado de dentro. Também, os portões de ferro da entrada ficavam bem trancados durante a noite, impedindo que eles meramente caminhassem para a liberdade.
E se fossem obrigados a esperar até o amanhecer?
Ambos pensaram nisso, mas era uma ideia ruim demais para ser expressa em voz alta. Connor, inclusive, se recusava a admitir aquilo para ele mesmo. Se eles tinham entrado, arranjariam um jeito de sair.
– O chão é de terra. Podemos cavar até o outro lado – sugeriu, porque já tinha visto aquilo em filmes sobre prisões.
– O outro lado é de concreto – Basil retrucou, sem nem considerar a ideia, o que o fez corar de vergonha.
– Então vamos de dar uma volta e ver o que podemos fazer.
No entanto, os dois continuaram parados, com receio de caminhar pelo cemitério escuro.
– Ei, o que houve com Craig? – Perguntou Basil, por fim. Não tinha visto Connor chutá-lo, e ele não queria tocar no assunto.
– Caiu, acho.
– Hm... – E após uma pausa: – Calma, você ouviu esse barulho?
A resposta era “sim”. Um ruído que parecia ser de passos se aproximava deles, o que foi tão aterrorizante quanto ouvir o barulho do carro, minutos antes. Os meninos se juntaram até se encostarem, o coração voltando a bater freneticamente, e seguraram as respirações, procurando passarem despercebidos...
Uma luz muito forte se acendeu no rosto deles, cegando-os, e Basil berrou:
– Não nos machuque!
Connor quase começou a implorar pela vida com ele, sendo salvo dessa humilhação pelo segundo de perplexidade que levou para esfregar os olhos doloridos, piscar e ver o que estava acontecendo.
A luz não vinha de nenhuma fonte sobrenatural, como os olhos de fogo de uma besta, e sim de uma maldita lanterna. E quem a estava segurando não era nenhum fantasma vingativo do inferno, e sim um maldito garoto de rosto comprido e coberto de acne, com cabelos sebosos caindo pela face. Devia ter a idade de Ryan, e vestia uma capa preta com capuz.
Eles tinham se assustado com um maldito nerd, que provavelmente era um maldito jogador de algum maldito RPG macabro. Connor agradeceu com todas as forças por não ter gritado.
– O que vocês estão fazendo aqui? – Ele perguntou, com o tom de voz monótono.
– Podemos perguntar a mesma coisa! – Disse Connor.
– Tira essa coisa da nossa cara! – Exclamou Basil.
O garoto não desligou a lanterna.
– Vocês estão perdidos? – E como os dois continuaram sem responder, ele aproximou a lanterna ainda mais do rosto deles e tentou engrossar o tom para soar ameaçador: – Respondam!
– Não vamos responder a nada desse jeito!
Ele bufou e desligou a luz. Os meninos, lacrimejando, tiveram de esfregar os olhos mais vezes, mas tão logo se voltaram a se acostumar, Connor perguntou:
– Qual é o seu problema, hein?
– Eu fiz uma pergunta primeiro – insistiu o adolescente.
– Nós só entramos aqui para dar uma volta.
– Eu ouvi vocês caindo da árvore.
– Tudo bem, nós subimos na árvore para fugir de uma surra e caímos aqui dentro. Podemos pular essa parte conversa? – Disse Basil, frustrado, antes que Connor continuasse a debater. – Quem é você?
– Sou Aaron, vice-líder da Irmandade Secreta dos Cavaleiros da Noite – o tom orgulhoso no qual ele falou isso se contrapôs às expressões de deboche de Connor e Basil.
– Se é uma irmandade secreta, por que você contou para nós? – Perguntou Connor.
– Nossas atividades são secretas – Aaron explicou. – E quem são vocês, espertalhões?
– Connor, Basil – Connor respondeu, apontando para si mesmo e para o amigo. – Só por curiosidade, quando sua Irmandade de Não-Sei-O-Que invade o cemitério no meio da noite, como faz para sair depois?
Ele deu um sorriso prepotente.
– Eu não posso contar os segredos da irmandade.
– Ah, qual é... Não pode abrir uma exceção?
– Certamente não posso – Aaron parecia feliz em negar o pedido deles. – Mas... Sabe, eu posso levá-los até alguém que possa. Se vocês estiverem interessados.
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