Notas iniciais
Boa leitura!

Quando Maisie tornou a abrir os olhos, estava confusa e desnorteada, e sua visão estava turva.

Ela precisou de alguns instantes para conseguir assimilar onde estava, forçando os olhos. Era um pequeno quarto com paredes, chão e móveis de madeira. Pelo formato do teto, parecia ser um sótão, e não havia janelas. Panos bordados enfeitavam as paredes e a pouca mobília (cadeira, mesa, um pequeno armário), e a luz laranja era quente sobre Maisie.

Que lugar era aquele?

Sentia-se mole, mas, mesmo assim, tentou se mover. Estava deitada no chão, sobre um tapete macio, e demorou a perceber que seus pulsos estavam amarrados juntos com uma corda firme, e essa corda estava presa a ganchos na parede atrás dela.

Isso a assustou, e fez seu torpor passar. Ela começou a se movimentar, tentando se livrar sem sucesso, e parou quando ouviu um choro fraco vindo de outro lado do quarto.

A mesa havia escondido parcialmente a outra menina que estava lá, e por isso Maisie não conseguira vê-la em um primeiro momento. Mas ali estava ela: também amarrada à parede pelos pulsos, pequena e encolhida, com os ombros se mexendo conforme soluçava. Devia ser um pouco mais velha que Maisie, com onze ou doze anos. Vestia um vestido rosa com muitos babados, e tinha os cabelos escuros amarrados com fitas, como se tivesse acabado de sair dos anos 40.

— Quem é você...? – Maisie perguntou, com a voz arrastada. Estava tonta.

A garota continuou chorando, como se não tivesse ouvido. Maisie tentou se sentar, já que a outra estava nessa posição, mas acabou caindo deitada novamente, com uma exclamação de frustração.

Por fim, a menina lançou um olhar triste e assustado para ela, e contou, com a voz baixa e rápida:

— M-Meu nome é Bailey. Agora não fale mais nada. Não faça barulho.

— Por que não...?

Bailey pareceu horrorizada com a insistência de Maisie em continuar falando, e se encolheu ainda mais quando a porta se abriu. Uma idosa de ar meigo surgiu no sótão, segurando uma bandeja cheia de biscoitos em formato de homenzinhos, que exalava um cheiro maravilhoso.

— Ora! – Ela disse, sorrindo e parecendo tão contente. – Parece que nossa amiga Maisie já acordou!

Maisie não pôde deixar de ter a ilusão de que aquela velhinha iria desamarrar as cordas, servir-lhes os biscoitos e levá-las para casa, porque ela parecia tão boa e atenciosa. No entanto, logo depois, percebeu que isso não iria acontecer, porque aquela mulher era Helga. A mesma pessoa que a tinha atraído para aquela casa e feito-a comer uma torta com remédios que a fizeram desmaiar. A mesma pessoa que tinha, certamente, amarrado-a ali. O inimigo.

Notar isso fez com que parte da doçura de Helga desaparecesse, como magia. Pela primeira vez, Maisie conseguiu reparar no ar maníaco que os olhos aparentemente inocentes dela tinham.

Como Bailey tinha feito, ela se encolheu, assustada, e sentiu vontade de chorar. Queria sua mãe...

— Eu acabei de tirar essa fornada de biscoitos do forno, apenas para você – cantarolou Helga, como se não pudesse perceber o medo das meninas ou gostasse dele. – Eu sei que você gostou muito da minha torta.

Ela se agachou em frente à Maisie e colocou um dos biscoitos bem em frente à boca dela. A menina comprimiu os lábios e arregalou os olhos, olhando para o doce como olharia para uma arma letal. Helga o encostou na boca dela e tentou forçar caminho, mas Maisie só o mordeu depois de trocar um olhar com Bailey e ela assentir rapidamente, indicando que estava tudo bem.

Mastigou bem a massa açucarada e fingiu ter engolido e gostado. Isso convenceu Helga, que deixou a bandeja com todos os outros biscoitos ao lado dela no chão e acariciou seus cabelos.

— Você é uma boa menina. E, pelas vozes que eu estava escutando do lado de fora, vejo que você e Bailey já se conheceram! É uma pena que ela não vá ficar conosco por muito mais tempo, mas sempre é bom fazer amigos. Eu vou dar a vocês, meninas, algum tempo para conversar, enquanto arranjo um lindo vestido para Maisie. Comportem-se! – E com isso ela saiu, sorridente, do sótão.

O choro de Bailey aumentou assim que elas ficaram a sós. Maisie cuspiu o biscoito mastigado de volta na bandeja e estremeceu.

— O que ela quis dizer com “ela não vai ficar conosco por muito mais tempo”...? – Teve de perguntar, mesmo que não estivesse certa de que queria ouvir a resposta.

— E-Ela vai me m-matar... – Soluçou Bailey.

Ela já estava esperando por uma resposta do tipo, mas isso não a impediu de gemer e choramingar. Era terrível demais para se acreditar.

— Ela não pode... – disse, fracamente. – Deve ser outra coisa.

— H-Helga faz isso todos os anos... Ela atrai uma menina para a casa dela no Halloween, e mata a que estava aqui antes na manhã seguinte. Ela vai me matar de m-manhã...

Um clima pesado se instalou entre elas, e as duas choraram juntas. Maisie não conseguia mais se controlar. Não queria ficar sozinha, e não queria que algo ruim acontecesse a Bailey.

— Por quê..? – Perguntou, baixo, para si mesma. O que elas tinham feito para merecer aquilo?

Achando que a pergunta tinha sido para ela, Bailey respondeu:

— Eu não sei. Ela d-disse que faz isso desde que a filha dela morreu, mas eu n-não sei...

A porta se abriu novamente, e, daquela vez, as duas meninas se encolheram e prenderam a respiração. Helga entrou no aposento, despreocupada, cantando uma cantiga infantil. Agora, trazia consigo um vestido azul rendado, que estendeu em frente à Maisie.

— Olhe só isso. É igualzinho ao de Dorothy, de O Mágico de Oz! Não é uma graça? – Ela esperou uma resposta por um momento, e como Maisie apenas continuou chorando, sua voz assumiu um tom mais duro: – Não é uma graça?

Ela assentiu, e Helga a olhou criticamente.

— Muito bem – disse, sem deixar a voz mais branda, e começou a desamarrar os pulsos da garota.

Suas unhas compridas a machucavam, assim como a corda grossa e áspera, que estava presa por muitos nós complicados, que estiveram tão apertados que Maisie acabara perdendo a sensibilidade das mãos. Ela mal conseguia mexer os dedos direito. O processo para remover as amarras foi longo, e ela observou com uma careta de dor enquanto sua pele, roxa e marcada, aparecia sob a corda.

Maisie podia ter tentado, naqueles minutos, criar um plano de fuga. Podia ter esperado estar com os pulsos desatados para acertar um soco em Helga e sair correndo. No entanto, ela não fez nada disso. Sentia-se fraca e indefesa, e sua máxima reação foi murmurar, quando a mulher começou a arrancar sua fantasia:

— Não... Não...

— Você está sendo malcriada, Maisie. Eu não gosto de meninas malcriadas – avisou Helga, e ela sabia que tinha sido uma ameaça. – Coma outro biscoito e acalme-se.

Ela abriu a boca para negar a oferta, e a outra aproveitou para enfiar um dos biscoitos lá dentro, deixando-a sem alternativas além de mastigá-lo e fingir engolir, esperando enganá-la de novo.

Infelizmente, Helga percebeu.

Engula.

Maisie fechou os olhos e mastigou mais, querendo ganhar tempo. Só quando a massa se tornou líquida em sua boca ela engoliu, bem devagar.

Sentiu seus pensamentos se anuviarem e seus músculos relaxarem. Não tornou a desmaiar, mas perdeu o controle sobre seu corpo – era como se estivesse distante, fora de si, vendo tudo acontecer sem poder reagir.

Helga terminou de tirar sua roupa e a colocou de lado, deixando Maisie apenas de calcinha. Pegou então o vestido azul e passou a vesti-la, como se ela fosse uma boneca.

A roupa era um pouco grande demais para seu corpo, o que Helga tentou corrigir apertando bastante os laços das mangas e da cintura. Virou-a de bruços para poder fechar os botões das costas, enquanto comentava, novamente meiga:

— Depois eu vou precisar dar uns pontinhos neste vestido...

Maisie encarou o tapete, inerte. E, no andar debaixo, alguém bateu na porta.

Foi como se a cena tivesse se congelado por um segundo. Bailey e Helga encararam a porta do sótão, sem acreditar nos próprios ouvidos, e Maisie não soube o que pensar. Uma voz abafada veio do lado de fora da casa:

— Olá? Tem alguém aí?

Era Becky.

O que ela estaria fazendo lá? Maisie achara que ela e Donna deviam ter ido embora há muito tempo, ao ver que ela não estava saindo do bosque. Talvez, chamado algum adulto para procurá-la. E, contudo, ela estava ali, tendo ido ela mesma atrás da amiga. Sendo que Maisie sempre pensara que ela era arrogante e não dava a mínima para ela...

— Parece que temos visita – declarou Helga, não sem demonstrar surpresa. Levantou-se e tornou a amarrar os pulsos de Maisie à parede, dando somente duas voltas na corda, na pressa de ir atender à porta. E saiu do cômodo.

— Você está bem? – Perguntou Bailey, que tinha parado de chorar de repente. Havia algo novo em seu tom. Urgência.

— Minha amiga... – falou ela, com a voz arrastada, indicando a porta com o queixo.

— É a sua amiga lá embaixo? – Ela ainda sussurrava, amedrontada. No estado em que estava, Maisie não conseguiu responder. – Maisie, ouça. A Helga não te amarrou direito! Você precisa se soltar. É a nossa única chance.

Ela queria, mas não sabia como. O nó realmente estava frouxo, mas ela também estava, e se debater não adiantou para se livrar da corda.

Era possível ouvir a voz de Helga:

— Olá, querida! Você está perdida? Entre, entre.

— Oi... Eu estou procurando a minha amiga – respondia Becky.

— Maisie, tente puxar com a boca! – disse Bailey.

Tudo parecia estar acontecendo em câmera lenta. Ela fechou os olhos, tentando ignorar a tontura que estava sentindo, e mordeu a amarra, puxando-a com os dentes.

Deu certo. O nó se afrouxou mais ainda, e Maisie conseguiu livrar os seus pulsos. O único problema era que ela ainda não conseguia se mexer ou pensar muito bem.

— Ótimo – Bailey estava angustiada. – Venha cá, você precisa me soltar também. Depressa, depressa!

—... Ela está no sótão, brincando de bonecas com minha outra convidada – ia dizendo Helga. – Você pode ir se juntar a elas em um momento. Mas, primeiro, você não gostaria de provar uma fatia de torta?

Maisie se arrastou pelo chão até Bailey, o mais rápido que conseguia. Fez o melhor que pôde para desatar as cordas dela por algum tempo, mas logo ficou evidente que jamais conseguiria soltá-la daquele jeito.

— Ela guarda algumas coisas de costura naquele armário – Bailey indicou o móvel ao lado dela. – Veja se tem uma tesoura.

Ela foi. Abriu a porta e, mesmo que a tesoura prateada estivesse logo abaixo e seu nariz, precisou de longos segundos para assimilar a cena e pegá-la.

— Isso está muito bom – Becky elogiava, o que significava que o tempo que elas tinham estava se esgotando.

A adrenalina deixou Maisie um tanto mais desperta, apesar da droga. Ela foi um tanto mais ágil ao voltar para Bailey e começar a lutar contra as cordas dela.

Elas eram muito grossas para serem simplesmente cortadas, e a tesoura ameaçou quebrar depois de poucas tentativas. Maisie decidiu, então, cerrá-las, o que surtiu o resultado desejado: elas foram, aos poucos, se desmanchando e cedendo. Para acelerar o procedimento, Bailey se debateu e puxou as mãos, até que elas se soltaram.

Ouviu-se o barulho de Becky caindo no chão, desmaiada. Bailey agarrou um dos pulsos machucados de Maisie, ajudou-a a se levantar e correu até a porta, puxando a garota trôpega consigo.

— Espere – ela conseguiu dizer, de último momento. Bailey parou, confusa, enquanto Maisie voltava para pegar dois biscoitos da bandeja. Então, de mãos dadas, elas saíram do sótão.

Uma longa escada levava até o piso térreo, e as meninas a desceram, chegando a um corredor que terminava em uma grande janela. Ela seria perfeita para que elas saltassem para a liberdade, mas, antes que pudessem chegar até lá, Helga apareceu na frente delas, com Becky no colo e olhando para as duas com um olhar sinistro. Seu rosto ficou vermelho.

— Ora, ora. Para onde as mocinhas pensam que vão? – Perguntou, com a voz trêmula de raiva. E ela mesma começou a tremer com violência em seguida, como se estivesse tendo uma convulsão, o que fez Bailey e Maisie recuarem alguns passos, assustadas.

O rosto de Helga se afinou. A cor de sua pele foi se alterando até ficar cinza. Seus dedos delicados se transformaram em garras negras, apertando a pele de Becky com tanta força que sangue começou a escorrer. No final da transformação, a velha deu um grito tão alto e tão animalesco que as Maisie sentiu urina escorrendo por suas pernas.

Meninas que aprontam devem morrer! — Berrou, com uma voz rouca e grossa, correndo até elas com a boca de dentes pontudos bem aberta. Bailey gritou, apavorada, mas Maisie conseguiu pensar rápido daquela vez.

— Coma um biscoito, Helga! – Gritou, com uma coragem que não sabia que tinha, jogando a comida no fundo da garganta dela.

Helga parou de imediato, engasgando e tentando cuspir os biscoitos para fora. Acabou derrubando Becky no chão, e Maisie quis ajudar a amiga, mas Bailey a puxou para a janela, deixando as outras para trás. Não havia tempo para heroísmo.

As duas pularam para o lado de fora. Maisie se sentia, agora, quase recuperada – contudo, ainda precisou de ajuda para saltar e para correr para o meio do bosque.

— Ela vai nos seguir! – Gritou Bailey, e estava coberta de razão. Logo, passos e gritos de ódio ecoavam pelas árvores, e elas tentaram ir ainda mais rápido.

Os galhos mais finos batiam em seus rostos e cortavam suas peles, sem que elas dessem a mínima atenção. Sequer pararam para ver por onde estavam indo – constantemente, batiam em troncos e tropeçavam em pedras, mas continuavam em frente, sem largar a mão da outra.

Não sabiam se Helga estava perto ou longe. Correram incansavelmente até alcançarem a trilha, e de lá seguiram para a saída do bosque, onde enfim perceberam que os berros dela ficavam cada vez mais baixos.

Mesmo assim, não pararam até verem o final da mata – o vão entre as árvores pela qual dava para ver a calçada e as casas das ruas paralelas. Agora, quase ninguém estava na rua, mas Donna permanecia sentada na calçada, com uma expressão preocupada.

Bailey e Maisie foram diminuindo o ritmo e pararam de verdade ao alcançá-la. Maisie estava exausta, e suas pernas doíam muito. As garotas se apoiaram uma na outra para não desabarem no chão, ofegantes, e Donna levantou de um pulo, indo até elas.

— Maisie! Onde você esteve? – Seus olhos foram na mesma hora para sua roupa. Certamente estranhou que ela não estivesse mais com a fantasia, mas as perguntas que fez foram outras: – Quem é essa menina? Onde está Becky?

Ela esperou que Bailey respondesse, o que não aconteceu: a menina estava olhando para a rua à frente delas, com lágrimas nos olhos. Depois de um ano presa, ela estava finalmente livre e a salvo. Era um momento especial para ela. Então, Maisie respondeu:

— Eu achei que Becky estivesse com você – mentiu. Achou melhor não contar que sabia exatamente o que havia acontecido com ela. – Ah, e esta daqui é a Bailey. Ela é a minha nova melhor amiga.

Notas finais
Comentários, favoritamentos e recomendações me ajudam a escrever a história e a saber o que vocês estão achando, então, se gostarem da história, não se esqueçam ;) Até o próximo capítulo!