Noite de Halloween
9 Krysta e Jon
Notas iniciais
Krysta não conseguia acreditar naquilo.
Jon não podia ter desaparecido. Ele estava dentro de casa, e ela estava logo no aposento ao lado. Ele não podia simplesmente ter sumido quando ela virou as costas.
Ela ficou parada por um bom tempo, em estado de choque, com a lanterna apontada para a cadeira onde ele antes estivera sentado. Então, percorreu a sala com a luz, como se Jon fosse estar escondido atrás de algum dos móveis, esperando para dar um susto nela, mas já sabia que não seria o caso. Ele estivera chorando, morto de medo da história que a irmã tinha contado – jamais se levantaria e sairia andando no escuro completo.
— Jon? – Chamou, com a voz fraca de medo. Não obteve resposta.
Em sua mente, dançaram imagens da história. A mãe de Jonah preocupada com o filho que não voltou para casa. O coração da mulher se endurecendo com o passar dos anos. Ela própria sequestrando e assassinando outras crianças, e, por fim, sendo executada. Naquela casa, onde os Bennett viviam.
Tinha sido Krysta quem inventara tudo aquilo, mas, naquela hora, tudo pareceu extremamente real, e ela experimentou uma sensação de pânico agudo. Apertou a lanterna com força e, temendo que seu irmão tivesse sido levado para sempre, começou a berrar:
— Jon! Jon!
— Krys! – Respondeu uma voz infantil, vinda do andar de cima. Era Jon, e ele soava apavorado.
Ela não pensou duas vezes antes de disparar escada acima. Sabia que, se estivesse sozinha, simplesmente sentaria no sofá da sala e lá ficaria até a luz voltar, tentando pensar em coisas felizes. Porém, o risco de perder seu irmão lhe deu forças. Krysta parou novamente na metade do corredor, vasculhando todos os cantos com a lanterna.
— Jon, onde você está? – Gritou, desesperada, e ele voltou a berrar seu nome.
Estava dentro do quarto que dividia com Connor.
Krysta correu até lá e virou a maçaneta da porta, para constatar que estava trancada. Mas não podia estar. O quarto não tinha chave. Ela começou a esmurrar a porta, como se pudesse arrombá-la.
Chutou, socou, puxou a maçaneta, jogou o peso de seu corpo contra a porta, e nada adiantou. Algo devia estar bloqueando a passagem. Ela se inclinou para olhar pelo buraco da fechadura, e viu o quarto inundado por uma luz branca sobrenatural. Não conseguia entender de onde ela vinha e nem enxergar Jon, por mais que tentasse.
Ainda assim, insistiu na atividade até que um olho surgiu do outro lado da fechadura.
Aconteceu muito rápido. Krysta abriu a boca para gritar, e não teve tempo para concretizar o ato, pois uma força vinda de dentro do quarto empurrou a porta, arremessando a garota para trás. Ela bateu as costas dolorosamente contra a parede do corredor atrás de si, e um quadro com a foto de Maisie bebê despencou sobre sua cabeça, para depois se quebrar no chão.
Krysta levou as mãos à cabeça, atordoada pela dor e pelo medo. A imagem daquele olho não saía de sua mente – arregalado, cruel e vermelho vivo, como deveria ser o olho de uma besta.
E ele pertencia à mãe de Jonah. Por mais absurdo que isso fosse, ela não tinha dúvidas de que era ela. E de que ela tinha levado Jon sem a intenção de devolvê-lo.
— Não! – Exclamou, correndo de volta para a porta. Não tinha um plano e nem tempo para pensar, de modo que tudo o que fez foi puxar a maçaneta de novo. E, para sua surpresa, conseguiu. A porta se abriu sem problemas, e ela não perdeu tempo para entrar no quarto.
Mas era tarde demais. O fantasma já tinha sumido com o seu irmão, e o cômodo estava na escuridão como o resto da casa.
— Merda!— Pegou-se berrando. – Seu fantasma de merda! Não, não!
Ela percorreu todo o quarto, tirando as coisas do lugar e vasculhando os cantos com a lanterna, como se houvesse alguma chance de Jon estar enfiado na gaveta de meias ou embaixo da cama. As lágrimas começaram a escorrer por seu rosto, e ela sentiu uma forte dor no peito, que, por fim, impediu-a de continuar andando.
Desmoronou sobre a cama de Jon e abraçou o travesseiro dele, agora chorando convulsivamente.
Deveria ter sido responsável. Não deveria tê-lo deixado sozinho na sala... Mas como iria saber?
Amaldiçoou-se por ter inventado aquela história. Sempre tivera tanta dificuldade para criar algo sob pressão, e, quando conseguia, o resultado era aquele. Como uma bobagem como aquela poderia ter se tornado real?
Ao menos que – e a garganta de Krysta secou quando ela chegou a essa conclusão – ela não tivesse inventado nada.
Estivera tentando criar algo baseado nos filmes e nas histórias que ela já tinha visto e ouvido. Ou seja, tinha recorrido a toda a sua experiência com contos de terror. Mas, se parasse para pensar exatamente de onde tinha tirado a ideia daquela história...
Cenas difusas vieram à sua mente. Uma mãe e o filho pequeno conhecendo a casa nova. O garoto sendo sequestrado pelo pai. Os moradores da região, furiosos, assassinando a mãe dele. Tudo se parecia muito com algo que ela já tinha visto...
... Como o sonho que ela tinha tido pouco tempo depois de se mudar para a Flórida, e de que tinha se esquecido havia meses, reparou.
Ela se sentou na cama involuntariamente, enquanto as coisas começavam lentamente a se encaixar.
Krysta sentiu que poderia muito bem estar em um sonho naquele mesmo momento, porque tudo era tão surreal. Não era o tipo de situação que acontecia com pessoas de verdade. Temeu estar delirando, e decidiu que precisava de uma prova antes de acreditar naquilo – e já até sabia onde consegui-la. Era impossível um caso como aquele não estar na internet.
Levantou-se e correu para o seu próprio quarto. Não precisou da lanterna para achar seu celular, visto que ele estava no seu lugar de sempre em cima da escrivaninha, e em poucos segundos já tinha aberto o site de buscas. Era muito rápida digitando, e escreveu três palavras na barra de pesquisa: o nome da cidade onde morava, “assassinato” e “Jonah”.
Hesitou por um segundo, juntando coragem para conseguir ver os possíveis resultados que apareceriam, e clicou na tecla Enter.
Uma foto em preto e branco de um menino de seis anos saltou na tela. Krysta, tremendo, observou o sorridente garotinho de cabelos castanhos e sentiu uma nova dor, que a fez fechar os olhos. Sua história era mesmo verdade. E Jonah era tão parecido com Jon...
— Ah, não – sussurrou. Respirou fundo, tentando conter as lágrimas que ainda desciam, e voltou a abrir os olhos. Não quis mais olhar a foto, então abriu sem olhar o primeiro link que apareceu, a fim de sair daquela página.
Acabou em um blog chamado Casos Bizarros da Flórida. A tela ficou inteiramente preta, com o título escrito no topo em vermelho e com uma fonte que imitava sangue – o que Krysta não achou nem um pouco convidativo. Abaixo, um texto escrito em branco estava sendo ilustrado pela mesma foto de que ela fugira antes. Para não vê-la, ela baixou a página e deu zoom no texto intitulado O Caso de Jonah.
“Era o ano de 1951. Uma mulher se mudou com seu filho de seis anos de Idaho para a Flórida, em busca de uma vida melhor longe de seu ex-marido, que ela alegava persegui-los.
O nome do menino era Jonah Peoples. Quando interrogados pela polícia, seus professores o descreveram como ‘uma criança calma e tímida, e muito inteligente’. No entanto, todos ressaltavam que ele tinha poucos amigos e frequentemente parecia estar triste e aborrecido.
Pelo fato de a mãe ser divorciada, eles não conseguiram se encaixar na sociedade conservadora da cidade naquela época. Eles viveram sem amigos por meses, até que, em meados de 1952, o telefone da delegacia local tocou, com um chamado preocupante: Jonah havia desaparecido. A mãe disse que ele não havia voltado da escola naquele dia, e testemunhas disseram que tinham visto ele saindo com um homem.
Todos acharam que ele tinha sido sequestrado pelo pai, mas a história revelou-se muito mais sinistra.
Após semanas de buscas, a polícia localizou o Sr. Peoples, em Idaho. Entraram em contato com ele e, com uma longa investigação, descobriram que ele não estava com Jonah, e tampouco tinha feito algo com ele. Mas conseguiram informações importantes sobre a mãe de Jonah, assim como todo seu histórico de problemas psiquiátricos.
A investigação se voltou contra ela, e, pouco tempo depois, ela cometeu suicídio, dentro de casa. Quando os policiais foram até lá, encontraram não apenas seu corpo, mas também o de Jonah, apodrecendo sob o assoalho da sala.
Quanto ao homem que o levou da escola, diz-se que a mãe o tinha contratado, para que não houvesse suspeitas sobre ela”.
Um vento soprou, balançando as cortinas da janela, e os pelos dos braços de Krysta se eriçaram.
A história original era ainda pior do que a versão que ela havia desenvolvido para contar a Jon. A mãe de Jonah não tinha ficado amargurada depois da morte dele. Tinha sido ela quem o tinha matado...
Ela deixou o celular de lado, querendo poder correr até o Colorado e nunca mais chegar perto daquele lugar. Mas precisava ficar lá e encontrar o irmão, o que parecia quase impossível, já que ela não sabia onde ele estava, e nem o fantasma da mãe de Jonah. A única localização exata que a história tinha dado era... A de onde o corpo de Jonah fora escondido.
Krysta soube na mesma hora o que precisava fazer, por pior que fosse a ideia.
Com a lanterna, ela saiu do quarto e desceu as escadas. Pegou a chave da garagem, sobre a mesa do hall e saiu pela porta da frente.
Algumas pessoas continuavam na rua, aproveitando o Halloween, embora quase todas as crianças já tivessem voltado para casa. Mas Krysta não percebeu ninguém, e nem pensou em pedir ajuda. Era como se aquelas pessoas tão próximas estivessem em um universo paralelo, inalcançável, muito longe do filme de terror que ela estava vivendo.
Na garagem, ela foi atrás do lugar onde os pais guardavam as ferramentas, e pegou uma marreta. Se tivesse sorte e seu palpite estivesse certo, ela podia saber onde Joan estava. Afinal, ele tinha sido levado por um espírito – alguém cuja mente não evoluía, cujas ideias não amadureciam. Alguém que tinha tendência a cometer os mesmos erros.
Ela recriava o que acontecera com Jonah em sua mente, tentando prever os próximos passos da mãe dele e calcular quanto tempo teria para agir, enquanto, novamente dentro de casa, arrastava os móveis da sala para os cantos, abrindo espaço no centro.
— Eu não tenho medo de você – dizia, tentando convencer a si mesma. – Não tenho medo de você...
O piso de madeira da casa havia sido envernizado quando eles se mudaram para lá, o que havia saído caro, mas ela não se perguntou o que os pais achariam do chão e de todo o trabalho que tinham tido nele destruído. Colocou a lanterna sobre o piso, limpou o suor das mãos na calça e segurou a marreta com firmeza, para então começar a golpear o chão.
Não tinha certeza se teria força o suficiente, então foi uma vitória quando viu a madeira cedendo aos golpes. Com estalos ensurdecedores, as tábuas foram se quebrando e desabando na negritude abaixo. Os braços de Krysta logo começaram a doer muito, e ela decidiu se limitar a fazer um buraco grande o suficiente para que ela passar por ele.
Ao ficar satisfeita, jogou a marreta no chão e voltou a pegar a lanterna. Sentou, passou as pernas para dentro do buraco e parou, hesitante. Teria de pular, mas não sabia qual era o tamanho do espaço que tinha abaixo de si. Quão grande poderia ser? Sua casa não era tão acima do nível do solo, mas e se houvesse algum porão perdido sob ela?
Iluminou o solo abaixo dela, e isso lhe deu alguma segurança. Prendendo o ar, ela saltou.
A queda foi ridícula – o buraco não podia ter mais que um metro e meio, e Krysta, com seu 1,60m, precisou abaixar a cabeça para se locomover por lá. Avançou alguns passos, sem rumo, movendo a lanterna rapidamente, para iluminar o maior espaço possível, até que capturou uma figura com a luz, e se deteve.
Por um segundo, achou ter encontrado Jon. Mas, então, percebeu que, embora o menino que estava a uma curta distância dela tivesse seis anos e cabelos castanhos, muitos outros detalhes o diferiam de seu irmão – a cor dos olhos, os traços faciais, a palidez sombria de sua pele. Encolhido no chão, ele observava Krysta com medo no olhar.
Ela também estava assustada, e precisou de muita força para se convencer de que ele não lhe faria mal, e se inclinou para ele com movimentos discretos.
— Jonah? – Chamou, baixinho. Ele assentiu. – Oi. Eu sou a Krysta. Pode me chamar de Krys, certo? – Ela queria conversar para ganhar a confiança dele, mas ele não respondeu. – Estou procurando o meu irmãozinho. Você o viu?
Antes que ela pudesse mesmo terminar de falar, Jonah tinha se levantado do chão e corria para longe dela. Ela não sabia qual era o objetivo dele, e seguiu seu impulso de segui-lo. Recusava-se a perdê-lo de vista.
Atravessou o local o mais rápido que podia, mas ele parecia cada vez mais longe. Quando finalmente conseguiu se aproximar e estendeu a mão para tocá-lo, a figura dele se dissipou no ar. Krysta parou, com o coração disparado.
— Krys... – Ouviu, então, uma voz sussurrante e chorosa atrás dela, e se virou.
Era Jon.
Ele estava caído no chão e chorava baixo, mas parecia inteiro, e não havia ferimentos à vista. Seus olhos emanavam puro terror, enquanto os de Krysta se enchiam de lágrimas emocionadas. Ele estava bem... Eles iam ficar bem.
— Jon! – Disse, com a voz embargada pelo choro reprimido, e correu para abraçá-lo. Mal reparou que o menino tentou se arrastar para longe dela, apavorado, quando o segurou e o apertou com força. – Ela te machucou? Você está bem?
— Não... – Tentou falar ele.
— Meu filho – disse uma voz feminina. Ela se levantou com Jon no colo e olhou, assustada, para a mulher alta que estava parada perto deles.
Ela estava envolta por luz branca, como a que havia antes no quarto de Connor e Jon. Seus olhos vermelhos eram grandes e arregalados, como se não possuíssem pálpebras, e ela usava um vestido comprido e marrom. Sua pele era pálida como a de Jonah, seus cabelos eram escuros e seu rosto, muito magro, sendo possível ver o contorno de todos seus ossos. E ela começou a avançar na direção deles, rápido e sem mexer as pernas – foi o que fez Krysta reparar que ela estava flutuando.
— Devolva meu filho! – Ordenou ela, estendendo os braços. Krysta recuou alguns passos para trás, mas o peso do irmão acabou fazendo-a perder o equilíbrio e cair sentada no chão.
— Não! Não é o seu filho! – Gritou ela, encolhendo-se e protegendo Jon com o próprio corpo. Ele chorava alto. A mulher parou logo em frente a eles, com o rosto transbordando raiva, e ela não soube o que fazer. Se ela tentasse puxá-lo, Krysta iria perder.
— Krysta! – Berrou Jon, desesperado. E um barulho veio do andar superior: a porta da frente estava se abrindo. Passos indicaram que alguém estava entrando na casa.
Foi quando a última voz que ela esperava ouvir se pronunciou:
— Crianças?
Fale com o autor