Notas iniciais
Boa leitura e bom final de ano!

A Sra. Tennison estava com um sorriso enorme quando atendeu à campainha.

– Olá, meninas! Uau, que fantasias lindas!

Maisie e suas amigas, Donna e Becky, sorriram com o elogio, e estenderam suas sacolas para ela.

– Doces ou travessuras! – Cantarolaram, ao mesmo tempo, e a mulher deu uma quantidade louvável de balas para todas.

– Muito obrigada, Sra. Tennison – agradeceu Becky, e as outras meninas repetiram suas palavras. As três foram embora conversando empolgadas e comparando seus doces.

– Eu já ganhei duas barras de chocolate – contou Maisie, alegre.

– Pois eu já ganhei três – replicou Becky, e ela tentou não bufar. A amiga estava sempre querendo ser melhor do que ela, e sua mãe dissera que, quando isso acontecesse, ela deveria ignorar.

– Quantas casas faltam para a gente passar? – Maisie perguntou, mudando de assunto.

– A dos Tennison era a última do bairro – respondeu Donna, conferindo a listinha que tinha feito. – Meus pais disseram para não sairmos daqui, então deveríamos voltar agora.

– Ainda não está tarde – argumentou Becky. – E meus pais confiam em mim para fazer o que eu quiser. Podemos dar uma volta pelo bairro antes de irmos para casa.

– Mas já fomos para toda parte – Donna disse.

– Pode ir embora, se estiver com medinho dos seus pais. E você também, Maisie.

Ela não conseguiu evitar franzir a testa. Nem tinha dito nada...

– Meus pais estão viajando. E eu não tenho medinho.

– Não tem? – Pela expressão dela, aquela tinha sido a resposta que ela estava querendo. – Então, vai ter de provar.

*********

Uma das primeiras coisas que o Sr. Bennett tinha dito para Maisie, após eles se mudarem, tinha sido que ela devia se manter distante do bosque que havia perto do colégio.

– Imagine o tipo de coisa que pode se esconder nesse lugar... – Comentara, distraído, quando eles passaram por lá.

E ela sentia que o estava decepcionando apenas por estar parada em frente à trilha que levava para dentro do bosque, junto de Becky e Donna.

– Dizem que há monstros lá dentro – sussurrou Donna, em tom grave. Apesar de dar para ouvir as conversas e as risadas das crianças que passavam do outro lado da rua, a visão daquelas árvores nuas e sombrias incutia uma profunda sensação de isolamento.

– Deveríamos ir embora – disse Maisie, disfarçando a apreensão. De todos os lugares para onde Becky podia tê-la levado após dizer que ela teria de provar não ter medo, ela tinha de ter escolhido logo aquele?

– Então você admite ser medrosa.

Ela teve vontade de responder: “Só depois de você admitir ser chata”, mas não o fez. Becky era uma de suas únicas amigas na Flórida, e Donna também não iria querer mais falar com Maisie se elas brigassem, porque era amiga de Becky há mais tempo... Mais uma vez, Maisie sentiu uma tremenda saudade das amigas do Colorado.

– Eu não estou admitindo nada.

– Eu só vou acreditar depois que você entrar no bosque, ir até o final da trilha e voltar.

– E se ela não conseguir voltar? – Donna estava evidentemente assustada com a ideia, mas Maisie só estava farta. Queria ver a expressão que Becky faria quando ela, despreocupada e mesmo entediada, saísse do bosque. Queria ver se ela ousaria a menosprezá-la outra vez.

– Eu vou – concluiu.

Becky sorriu.

– Até o final da trilha – ressaltou.

– Eu vou – Maisie disse de novo, querendo convencer a si mesma. Segurando firme a alça de sua sacola de doces, para as outras não conseguirem ver que suas mãos tremiam, virou as costas e caminhou pela sinuosa trilha de terra, para dentro do bosque.

Desculpe, papai, pensou, fechando os olhos por um segundo, quando se embrenhou em meio às árvores. Esperava que ele nunca descobrisse sobre aquilo.

Conseguiu caminhar com passos confiantes ao longo dos primeiros segundos, se recusando a olhar para trás. E, quando achou que tinha saído da vista de Becky e de Donna, parou.

Os galhos secos das árvores – que ficavam cada vez mais juntas – pareciam braços esqueléticos, estendidos para pegá-la. Os raios do luar incidiam por entre as brechas dos galhos, tornando possível que Maisie visse até alguns palmos ao redor dela – mas, depois disso, tudo que havia era uma escuridão sinistra que, como Becky havia feito, a desafiava a prosseguir.

O farfalhar da vegetação a sua volta indicava que, ocasionalmente, algo passava por lá, e ela torcia para que fossem somente esquilos.

Ela girou sem sair do lugar, para ver o máximo possível e tentar se livrar daquela horrível impressão de que estava sendo observada.

– Maisie! Já parou? – Becky gritou, ao fundo, e ela se sobressaltou. Será que ela podia vê-la? Ou estava arriscando um palpite?

– Só para descansar! – Gritou de volta, e continuou a andar, para não ouvir as risadas.

A escuridão se dissipava em mais árvores conforme ela ia. Maisie cantarolou uma musiquinha que tinha aprendido na igreja para se sentir mais segura, mas logo percebeu que não queria ser ouvida e chamar a atenção do que quer que houvesse naquele bosque. Cantou cada vez mais baixo, até sua voz morrer.

Imagine o tipo de coisa que pode se esconder nesse lugar..., as palavras de seu pai ressoavam continuamente em seus ouvidos.

Ia ficando cada vez mais escuro, as brechas das árvores diminuindo. Uma coruja piava ao longe. Embora o outono da Flórida fosse quente, Maisie teve certeza de que conseguiu sentir um vento gelado.

De repente, o farfalhar tornou-se mais alto. Era impossível ser som de esquilos. Como se não bastasse, ela conseguiu ver uma sombra passar correndo perto dela, e, com um berro, deixou a sacola cair no chão e seus doces se espalharem.

Era uma enorme perda para qualquer criança, mas naquele momento, Maisie não se importou. Dominada pelo medo, correu, pisoteando suas conquistas com as botas e ouvindo enquanto seus pirulitos e chocolates se quebravam.

Já não sabia o quanto tinha andado. Somente seguia em frente rapidamente, assustada. A trilha ficava cada vez mais apertada, e era cada vez mais difícil correr, ainda mais sem enxergar.

E ela tropeçou. Poderia ter sido em um galho ou em uma pedra – ela jamais soube. Só estava correndo, sentiu seu pé prender em algo e, em um instante, estava de bruços no chão, com seus braços e seus joelhos ralados.

Não teve forças para levantar, e se encolheu no chão. Estava petrificada, e decidiu que não falaria com Becky nunca mais, mesmo que isso significasse que não teria mais amigas. Silenciosamente, começou a chorar.

Em sua mente, fantasmas e espíritos malignos do bosque vinham atormentá-la, e ela desejou estar em casa, passando o Halloween com Krysta e Jon. Ou então, podia ter viajado com os pais e estar no Colorado cuidando da vovó...

Imaginou com tanta convicção que conseguiu se visualizar lá. Conseguiu ver o sorriso de sua avó e ouvir sua voz, dizendo:

– Pobre menina...

Até perceber que aquele não tinha sido imaginação.

A voz era tão suave e delicada que, mesmo após essa descoberta, ela não teve medo. Abriu os olhos devagar e viu uma mulher idosa parada ao lado dela, usando um longo vestido em cores pastéis e óculos pequenos e dourados. Seus cabelos grisalhos eram curtos, e ela segurava um lampião.

– V-Você é um fantasma...? – Perguntou Maisie, entre soluços.

– Eu decerto não sou um fantasma, querida – a mulher disse, agachando-se ao lado dela. – O que está fazendo aqui?

– M-Minha amiga me desafiou a ir até o final da trilha... Sozinha...

– A trilha? Mas a trilha já acabou – ela pareceu surpresa. – E essa menina não deve ser uma amiga muito boa. Aqui é escuro e feio, não é lugar para garotinhas.

– E o que você está fazendo aqui...? – Algo naquela senhora acalmava Maisie; talvez, a mera presença de uma figura protetora por lá.

– Eu moro neste bosque há muitos anos, desde a época em que ele era um bom lugar para se viver. Havia outras pessoas, mas todas eventualmente se mudaram para a cidade, e eu fiquei. É o meu lar. Onde é o seu?

– O moro na cidade, mas meu lar é o Colorado.

– Colorado? Eu já estive lá. É muito bonito.

Maisie sorriu, limpando as lágrimas. Com a ajuda da mulher, se sentou.

– Eu só quero ir para casa...

– Eu posso te mostrar como sair do bosque – ofereceu-se ela, prontamente, mas estava ocupada examinando as mãos feridas de Maisie. – Mas antes, é melhor fazermos um curativo nos seus machucados... Minha casa é aqui perto. Posso dar um jeitinho nisso.

Ela hesitou. Sabia que era errado aceitar ir até a casa de estranhos, mas aquela era apenas uma velhinha inocente, não um adulto ameaçador. E ela tinha prometido que a levaria de volta depois, então tudo parecia estar certo.

– Tudo bem...

As duas se levantaram. Maisie estava feliz por não sentir mais medo, e aquele lugar já não parecia mais tão assustador como antes. A mulher a guiou para o meio das árvores, segurando seu pulso com a mão macia.

– Como você se chama, querida?

– Maisie.

– Que belo nome – ela sorriu.

– E você?

– Oh, você pode me chamar de Helga. Sem formalidades.

Ela foi se sentindo próxima a ela, enquanto elas andavam e Helga contava a ela sobre sua viagem para o Colorado, anos antes. A conversa fluía naturalmente, e Maisie estava ficando encantada por aquela senhora tão simpática. Chegou a prometer-lhe que voltaria para visitá-la, no futuro, e até que levaria seus pais e seus irmãos.

Não prestou atenção ao caminho que faziam, mas notou que ele não era longo quando elas pararam.

– Essa é a minha casa – disse Helga, e os olhos de Maisie brilharam.

Ela tinha um andar com sótão, e era feita de madeira. Luz laranja se derramava de todas as janelas de cortinas xadrez, criando uma atmosfera quente e acolhedora. Um cheiro adocicado que poderia ser incenso de canela era sentido mesmo à distância, e uma trilha de pedrinhas coloridas e reluzentes levava para a porta principal. O telhado era pontudo e feito de madeira mais escura.

Elas percorreram o caminho de pedrinhas, com Maisie olhando para o chão, admirada. Eram tão bonitas, e pareciam tão valiosas.

– São joias?

Helga riu.

– Se fossem, eu as venderia e me mudaria para algum castelo. São apenas pedras. Há muitas delas no bosque, e eu tive muito tempo para procurá-las.

Maisie decidiu que, quando fosse visitá-la, também procuraria algumas pedras coloridas no bosque, e começaria a coleção mais bela de todas.

A porta de entrada estava aberta, e Helga só precisou empurrá-la para que se abrisse para uma sala pequena, mas tão arrumada e confortável. Havia uma lareira acesa, com um sofá e duas poltronas em volta dela, todos encapados com mantos de crochê. O tapete claro tinha sido bordado com desenhos de meninos e meninas de mãos dadas, e vários quadros – todos bordados – estavam pendurados pela parede. Estava claro o que a mulher fazia para passar o tempo, morando naquele local isolado.

Através de uma porta, dava para se ver um pedaço da cozinha, com uma bancada de madeira, um forno grande e antigo e vários potes e armários. Dava para se ler o que estava escrito na etiqueta de alguns dos potes – geleia de morango, geleia de uva, mel... Maisie ficou com água na boca, e pensou com tristeza nos doces perdidos.

– Você pode sentar aqui – Helga indicou o sofá, e Maisie se sentou. – Vou buscar os remédios.

Ela sumiu pela porta da cozinha. Houve alguns barulhos de portas de armário se abrindo, até ela voltar com uma caixa de madeira coberta com desenhos de esparadrapos, vidros de remédio e band-aids. Helga puxou uma poltrona para frente do sofá, de forma que pudesse se sentar cara a cara com Maisie, e abriu a caixa.

Tudo estava bem organizado lá dentro, mas ela reparou que não havia muitos produtos industrializados. Os vidros não tinham rótulo, como se fossem produzidos em casa, e não havia marcas estampadas nos outros apetrechos.

Helga escolheu um vidro repleto de um líquido bem escuro e gosmento, e começou a passá-lo nos joelhos e nos braços de Maisie. Ele cheirava como pomada, mas a aparência era tão repugnante que ela preferiu desviar o olhar.

– O que é isso?

– Remédio caseiro. Você não precisa se preocupar, ele fica incolor depois de um tempo, e vai fazer suas feridas sararem em um segundo.

Maisie olhava para todos os quadros pela parede.

– Você tem filhos?

– Eu tive uma filha, mas ela se foi há muitos anos.

Ela se sentiu verdadeiramente triste por isso.

– Eu sinto muito...

– Está tudo bem – Helga terminou de passar o remédio e voltou a colocar a tampa no vidro. – Faz realmente muitos anos. Você está com fome?

– Eu... Não... – Embora ela fosse amar provar alguma das delícias que se podia ver naquele trecho da cozinha, não iria abusar da hospitalidade dela. Era noite, e também devia voltar antes que alguém ficasse preocupado.

– Mesmo? Pois eu deixei uma torta esfriando pouco antes de sair e te encontrar, e odiaria ter de comê-la toda sozinha.

Maisie sorriu timidamente, cedendo.

– Tudo bem... Um pedaço...

Satisfeita, Helga foi para a cozinha com a caixa.

Enquanto esperava, ela olhou para os braços e pernas cobertos como remédio escuro, e constatou que ele realmente estava desaparecendo. Mas ela já tinha visto remédios que passavam por esse processo antes, então o que a surpreendeu não foi isso, e sim o fato de os machucados estarem desaparecendo junto. Em questão de segundos, como magia.

Helga voltou, e agora segurava um prato de porcelana, com uma generosa fatia de torta nele. O recheio era roxo e derretia pelo prato.

– Ainda está um pouco quente, mas é só soprar – ela garantiu, entregando-o para Maisie, assim como talheres. E sentou-se mais uma vez na poltrona.

E ela soprou até se sentir segura o suficiente para dar uma garfada. O gosto de amoras explodiu em sua boca como uma bomba de sabor.

– É maravilhoso! – Elogiou, empolgada. Helga pareceu contente, e Maisie passou a comer bem rápido, queimando a boca por não assoprar, querendo colocar o máximo possível daquela torta dentro de si no menor tempo possível.

A agitação foi tão grande que ela sujou seu rosto inteiro com o recheio de amora, como se tivesse dois anos novamente. Em pouco tempo, só restava alguns pedaços da torta, e foi nesse momento que o estômago de Maisie deu uma volta que a deixou nauseada.

Seu rosto empalideceu. Seu estômago não parava, e ela sentiu parte de seu corpo formigando. Encarou o prato fixamente e o viu fora de foco. Tentou apertar os olhos, mas não adiantou. Estava ficando tão tonta.

Ergueu os olhos para Helga, que permanecia com seu sorriso inocente. A mente de Maisie parecia girar também.

– Não... estou me sentindo bem... – Disse, e sua voz soou distante. Helga nada vez.

A visão de Maisie foi escurecendo lentamente, e a última coisa que ela ouviu foi o prato se quebrando no chão.

Notas finais
O que vocês acharam? Se puderem, comentem! Até o próximo capítulo!