Notas iniciais
Olá! Essa é a primeira parte da quarta e última situação do Noite de Halloween. Então, a história é basicamente isso: quatro situações diferentes, acontecendo com os irmãos Bennett e as pessoas que os cercam. Temos Ryan, Connor, Maisie e os únicos irmãos a ficarem juntos, Krysta e Jon. Na primeira metade da história, eu apresentei a vocês os cinco irmãos e as situações em que eles se envolveram. Esse é o último capítulo da primeira metade. Agora, nos próximos cinco capítulos, vou mostrar o desfecho de cada um dos casos (como já comentei em outro capítulo). Espero que continuem acompanhando, e espero que gostem!

A televisão da sala havia sido desligada, e, a não ser pela fraca luz amarela dos abajures do aposento, a casa estava mergulhada na escuridão.

Krysta havia feito questão de que fosse assim – dessa forma, Jon certamente se assustaria mais rápido com a história que tinha pedido para ela contar, e aquilo duraria menos tempo.

Mesmo enquanto ela ainda organizava sobre a mesa da sala o lanche que tinha preparado para si e para o irmão, ele já parecia ansioso, com seu boneco de astronauta no colo e mudando de posição na cadeira constantemente. Pela sua expressão intrigada, ele já estava imaginando como a história seria, e encarava Krysta na expectativa, enquanto ela fazia tudo bem lentamente, fingindo não vê-lo.

Estava com dificuldades em criar a história. Jon era esperto para a idade – se apenas inventasse que um monstro morava dentro do armário, ele se desapontaria. Precisava de algo que fosse suficientemente convincente, mas não o bastante para causar pesadelos...

Ela colocou um pote que tinha enchido com alguns dos doces que seus pais deixaram para dar para as crianças da vizinhança no Halloween no centro da mesa, para que Jon pudesse pegar quando terminasse de comer o sanduíche de presunto que ela tinha preparado para ele. Mas ele não pareceu muito interessado na intenção dela, estendendo a mão para pegar um pirulito ainda com a boca cheia de sanduíche, e Krysta teve de afastá-la com tapa fraco.

– Isso é para depois – repreendeu, sentando-se ao lado dele e pegando um chocolate.

– Mas então por que você pode? – Ele fez a expressão engraçada que sempre fazia quando se sentia injustiçado.

Krysta deu de ombros.

– Eu sou mais velha. E não estou comendo um sanduíche.

– A mamãe disse que você está rebelde porque está virando uma adolescente.

Ela travou por um segundo, processando o que ele tinha dito, e o olhou de canto de olho.

– Como?

Ele deu de ombros.

– Foi o que ela disse, oras.

Krysta piscou e tentou formular uma resposta. Por um segundo, quase perguntou o que mais falavam sobre ela pelas costas naquela casa, mas não tinha certeza se queria ouvir a resposta – e Jon era sempre muito direto.

– Hm... Eu não sou rebelde, e sou uma adolescente. Não estou virando uma.

Ele permaneceu mastigando seu sanduíche e encarando-a, e Krysta viu que era melhor mudar de assunto.

– Bem. À história assustadora, então.

– História real. – Jon corrigiu, já que tinha sido isso que ela tinha dito para ele pouco antes.

– Claro, foi o que eu disse.

– Não. Você disse “história assus”...

– É uma história real e assustadora – ela consertou, e antes que Jon pudesse continuar questionando, começou: – Aconteceu nessa casa, há vários anos, na época em que a vovó ainda era criança.

E fez uma longa pausa, já que ainda não tinha conseguido criar nada muito bom. Sempre que tinha de criar contos para a escola, ela precisava passar horas sozinha no quarto, ouvindo música no celular e pensando. Era difícil criar algo de repente, e, ainda, sob pressão.

Mastigou seu chocolate devagar, para ganhar tempo, enquanto recorria a todos os filmes de terror que já tinha assistido (não muitos) e todas as histórias que tinha ouvido (algumas), para criar algo novo e diferente.

– Continua, Krys – sussurrou Jon, inclinando-se para ficar mais perto dela, como se o assunto fosse de extrema seriedade.

Por mais uma vez, ela avaliou se estaria fazendo a coisa certa.

– Não sei se posso...

– Por que não? Pode sim!

– Você é só um garotinho, e eu prometi para a mamãe e o papai que iria protegê-lo de coisas aterrorizantes.

– Eu não vou contar para eles que você contou! Por favor, eu quero saber o que aconteceu quando a vovó era criança.

A ansiedade dele chegava a ser comovente. Felizmente, nessa hora, Krysta teve uma ideia – não tinha certeza se boa ou ruim, mas o tempo para pensar tinha acabado. Teria de ser aquilo mesmo.

– No Colorado, a vovó e o vovô brincavam com os amigos deles, iam para a escola e eram alegres. A história não é sobre eles. Na verdade, ela começa alguns estados além, em Idaho, onde outro garotinho também vivia uma vida feliz: seu nome era Jonah, e ele tinha seis anos de idade.

– Ele tinha a minha idade! – Exclamou Jon. – E o mesmo nome!

– O quê? Não – Krysta negou na hora, já que já esperava tal reação. – O seu nome é Jonathan. Não tem nada a ver com Jonah. E todo mundo já teve seis anos. Quer ou não quer que eu conte a história?

Apesar de quase ter continuado a contestar, ele assentiu.

– Muito bem. Como eu ia dizendo, Jonah morava em uma casinha em Idaho, com sua mãe. E ele sentia muita falta do pai, que ele não via há anos, desde que seus pais haviam se divorciado. Ele era tão pequeno na época que não entendia o porquê daquilo ter acontecido, mas sempre imaginava o homem legal que o pai dele devia ser. E, claro, só imaginava: sua mãe se recusava a falar dele, o que o frustrava muito. Mal sabia ele que seu pai era um homem muito, muito mal.

“Ele costumava bater na mãe de Jonah, brigava com os vizinhos e dizia-se até que ele já tinha machucado crianças da vizinhança e matado um homem. Quando eles se divorciaram, ele ficou tão bravo que a mãe de Jonah teve de se mudar com o filho para o outro lado do estado, para que ele não os encontrasse, como tinha prometido que faria.

A mãe dele tinha muito medo, mesmo que eles ficassem anos vivendo sem perturbações. Infelizmente, foi uma preocupação necessária: um dia, quando ela estava indo buscar Jonah na escola, ela o viu. O ex-marido estava parado na esquina, encarando-a. E ela correu.

Ele sabia onde eles moravam, e estava perto. O pânico da mãe de Jonah foi tão grande que ela percebeu que não bastava se mudar para outra cidade: eles tinham de ir para outro estado, e um estado longe.

Estava tão apreensiva que não pesquisou muito antes de escolher o destino dela e do filho, e o lugar onde ficariam. Só pegou a primeira boa opção que encontrou – uma casa na Flórida, que, com seus cinco quartos, era grande demais para os dois morarem sozinhos. Mas, em sua angústia, ela não se importou com esse detalhe.”

– Era a nossa casa – sussurrou Jon, concentrado na história. Krysta ficou satisfeita ao ver que tinha conseguido entretê-lo e, pela maneira como ele deixou o resto do sanduíche sobre o prato para abraçar seu boneco, assustá-lo.

– Era – concordou, sombriamente – E eles vieram para cá só alguns dias depois de terem comprado a casa, na esperança de que o pai de Jonah nunca mais os alcançasse.

“Semanas se passaram tranquilamente. Eles arrumaram as coisas deles, a mãe de Jonah conseguiu um novo emprego e ele entrou em uma nova escola. Sua mãe lhe disse que agora eles poderiam ser felizes, e ele não entendeu o que ela queria dizer. Sem saber do pai, ele não sabia por que eles tinham se mudado, e, logo, veio a descobrir que todas as crianças do colégio novo eram chatas.

Jonah não conseguiu nenhum amigo, e estava muito chateado. A mãe o ajudou a escrever cartas para seus amigos de Idaho, mas nenhum deles respondeu, e ele percebeu que estava sendo esquecido por eles. Sua mãe também trabalhava o dia inteiro, e ele estava sozinho. Passava os dias correndo pelos corredores de sua grande casa com seus brinquedos sem-graça.

Até que um dia, enquanto ele esperava o ônibus escolar para levá-lo de volta para casa com as outras crianças, um homem se aproximou. Ele era alto e tinha uma aparência ameaçadora, o que deixou Jonah assustado. Mas o medo passou quando ele perguntou, com o tão querido sotaque de Idaho: ‘Jonah? É você?’.

‘Sim, sou eu’, ele respondeu, curioso. ‘E quem é você?’

A resposta veio com um grande e caloroso abraço:

‘Jonah! Você não me reconhece? Sou eu, filho... Sou seu pai.’

A surpresa foi muito grande. Sua mãe já tinha avisado-o para não conversar com estranhos, mas se aquele homem realmente fosse seu pai, ele não seria um estranho... Parecia ser o seu sonho se realizando. Seu pai estava lá, e o abraçava. O amava.

O ônibus escolar chegou, e as crianças começaram a subir. Jonah ficou confuso quanto ao que deveria fazer, mas o homem colocou uma de suas grandes mãos em seu ombro e o convidou para ir ao parque que ficava perto da escola, para conversarem, prometendo que depois o deixaria em casa, e ainda antes de sua mãe chegar do trabalho. E Jonah achou que não havia nada errado com aquilo, de modo que aceitou. Os dois seguiram para o parque”.

– Calma – interrompeu Jon. – Não tem nenhum parque perto da escola. O único parque daqui fica longe!

Krysta não tinha pensado naquilo.

Tinha um parque perto da escola. Isso foi há setenta anos, sabia? Anos depois, o parque foi demolido para construírem um McDonald’s.

– Aah.

– Continuando. Horas depois, quando a mãe de Jonah chegou em casa, ficou surpresa ao ver que ele não estava lá. Amedrontada e tentando não imaginar o pior, ela saiu para ver se ele estava brincando pela vizinhança.

“Jonah, no entanto, não estava em lugar algum, e, quando a noite caiu, a mulher desesperada foi direto à delegacia para dar queixa do desaparecimento.

Foi uma noite que ela passou sem dormir, e pela manhã, foi até a escola do filho com os policiais. Eles falaram com as crianças que tinham estado com Jonah no ponto de ônibus no dia anterior, e elas lhes contaram que ele tinha ido embora com o pai.

A promessa da polícia de procurá-lo o máximo que podiam foi o único consolo que a pobre mulher teve – e, se realmente procuraram, foram esforços em vão. Quando o Natal chegou, semanas depois, ainda não havia nenhuma pista de onde Jonah ou o pai estavam, nem nada que comprovasse que o menino ainda estava vivo.

E logo, tinha se passado dois Natais, e três, e quatro... E a cada dia que se passava, a mãe dele se sentia pior e pior. Depois de um tempo, mal parecia mais a mesma pessoa – cheia de dor e raiva, diz-se que ela se tornou uma pessoa má, disposta a machucar qualquer pessoa para descontar o seu sofrimento. Assim, quando várias outras crianças da vizinhança começaram a desaparecer também, não tardou para a culpa ser jogada sobre ela.

Já tinha se passado quase uma década do desaparecimento de Jonah e cinco crianças também já tinham sumido quando aconteceu. Durante uma madrugada, moradores furiosos da região invadiram a casa e assassinaram a mãe de Jonah. E enterraram os seus restos sob o assoalho da sala”.

Como em um filme, os dois irmãos baixaram o olhar para o chão. Jon perguntou:

– E depois...?

– O espírito dela continua na casa, Jon. Ainda procurando pelo filho dela, e matando todos que estão no caminho dela... Para sempre.

Eles trocaram um olhar intenso, que acabou sendo engolido pela escuridão quando as poucas luzes acesas do cômodo se apagaram sozinhas.

Krysta sentiu um calafrio percorrendo sua coluna, ao que a penumbra trouxe à sua mente a noção do quanto a história que havia acabado de inventar era terrível, e foi invadida pelo horror de imaginar os restos mortais da mãe de Jonah bem ali, centímetros abaixo dos pés deles.

De repente, estava com uma aversão extrema ao conto que havia acabado de inventar, quase beirando ao pânico, e tudo começou a voltar: quando tinha sete anos e ficou escondida atrás da porta do quarto dos meninos, ouvindo Ryan e os amigos contarem histórias de terror. Aquele filme desesperador que tinha visto com as amigas no Colorado, no ano anterior...

Tudo isso aconteceu em uma questão de segundos, em que Krysta ficou congelada em sua cadeira e Jon berrou como se estivesse sendo torturado, ainda mais assustado pela escuridão repentina do que ela, abraçando seu boneco com toda a força. O grito dele não ajudava Krysta a se acalmar, mas, de alguma forma, ela conseguiu sair daquele estado de choque. Repetindo para si mesma que tudo não passava de uma história e aquela era apenas uma coincidência macabra, disse para o irmão:

– Jon, calma. Calma. É só um apagão, já aconteceu antes.

O menino não parou de gritar, e então ela teve de juntar forças para arrastar a cadeira para mais perto dele e abraçá-lo.

– Fica calmo – e, como ele não parecia sequer ouvir, teve de gritar mais alto do que ele: – Jonathan, para!

Dessa vez, ele obedeceu, mas isso não o impediu de começar a chorar sem parar, repetindo o que soava como: “Ela está aqui, ela está aqui...”. Krysta não sabia o que dizer – estava se sentindo mal demais para negar –, e ficou lá, com ele nos braços e rezando para que a luz voltasse.

Só veio a ter a ideia que amenizaria aquela situação depois de mais de um minuto inteiro.

Em uma das gavetas da cozinha, havia uma lanterna, junto de comida instantânea e alguns band-aids e remédios genéricos. O Sr. Bennett que tinha posto tudo lá, enquanto a esposa insistia que os equipamentos de primeiros-socorros tinham de ficar no banheiro, e não junto da comida. Mas ele não os mudou de lugar, satisfeito com a sua brincadeira: tinha criado uma gaveta para emergências. Antes de saírem para viajar, três dias antes, o pai tinha lembrado os filhos daquela gaveta pelo menos umas vinte vezes, como se isso fosse impedir eles de se matarem.

Krysta não gostava da ideia de sair andando no escuro até a cozinha, mas se convenceu ao pensar que, no último apagão, eles tinham ficado quase meia-hora sem luz. Não seria legal se isso se repetisse justo naquele momento.

– Jon... Olhe, eu vou até a cozinha pegar a lanterna, certo? Fique aí, eu já volto.

Ele a abraçou com mais força, impedindo que ela se levantasse.

– Não, Krys! Não q-quero ficar sozinho!

– É só um segundinho. O astronauta vai cuidar de você, certo? – Ela tirou os bracinhos dele do corpo dela, e voltou a fechá-los em torno do boneco. Cortava-lhe o coração deixá-lo sozinho e chorando, mas sua melhor opção era ir atrás de alguma luz.

Levantou-se e foi, pé ante pé, até a cozinha, com o choro de Jon servindo-lhe de trilha sonora. Só ao chegar lá, correu para a gaveta, querendo terminar logo com aquilo, mas foi atrasada quando bateu o dedo mínimo do pé direito em uma das cadeiras da bancada. A dor foi tão intensa que ela caiu no chão de joelhos, gritando um palavrão.

Na preocupação de conferir se seu dedo ainda estava inteiro, ela se esqueceu de Jon por um tempo, e ao lembrar-se, percebeu que ele tinha parado de chorar. Devia estar surpreso com a palavra obscena que ela usara. Krysta voltou a xingar, dessa vez dentro de sua cabeça, por não ter pensado antes de falar. Os pais impunham uma lei anti-palavão naquela casa que os mais novos seguiam à risca.

Ela engatinhou até a gaveta e a abriu, tateando por dentro dela até sua mão encontrar a forma arredondada da lanterna. Lutou por algum tempo para encontrar o botão, e foi recompensada quando o forte feixe de luz surgiu.

– Estou com a lanterna! – Disse alto para Jon ouvir, apontando a luz para cima. Levantou-se do chão e, olhando para o chão para evitar se machucar de novo, voltou para a sala. – Não falei que seria só um segun...?

Sua voz morreu no meio da frase quando iluminou a mesa e viu que, embora o resto do sanduíche e o boneco ainda estivessem lá, Jon tinha desaparecido.

Notas finais
Até o próximo capítulo!