Notas iniciais
E com vocês, o último capítulo! Boa leitura. Espero que gostem.

Mais cedo, naquela noite, a Sra. Bennett havia conversado com Krysta no telefone, e dito que ela e o marido voltariam de viagem dali a dois dias.

Mas a verdade era que, na hora da ligação, eles já estavam no aeroporto de Denver, prestes a embarcar no avião que os levaria de volta para a Flórida. Mesmo que o plano original realmente fosse ficar o tempo que tinham avisado para os filhos, o irmão do Sr. Bennett tinha chegado para ficar com a mãe, que se recuperava rapidamente no hospital, e eles acharam melhor voltar logo para casa. Tinham medo do que os cinco filhos poderiam aprontar estando tanto tempo sozinhos.

E foi esse mesmo medo que os impediu de contar para Krysta sobre a mudança de planos – se eles realmente estivessem fazendo algo de errado, seriam pegos no flagra pelos pais.

O voo durou três horas, e o caminho de carro do aeroporto para casa, mais meia-hora. E, em algum ponto durante esse percurso, uma sensação negativa os invadiu. De alguma forma, souberam que algo ruim havia acontecido em casa ou com alguma das crianças, e aceleraram.

Ao chegarem a rua deles, encontraram a garagem aberta, o que os fez imaginar que ladrões poderiam ter invadido a casa. Temendo pela segurança dos filhos, estacionaram de qualquer jeito na calçada, e correram para dentro.

— Crianças? – Chamou a Sra. Bennett, alto, e o marido fez sinal para ela se calar. Se algum ladrão armado estivesse lá, eles precisavam ser tão discretos quanto fosse possível, para não chamar a atenção.

A sala tinha sido revirada – todos os móveis pareciam estar fora do lugar, embora não houvesse sinal de que algo estivesse faltando. No chão, a marreta que eles guardavam na garagem estava jogada ao lado de um buraco no piso.

O Sr. Bennett tentou acender a luz da sala, mas não conseguiu. Tudo estava mergulhado na escuridão.

— O que houve aqui? – Perguntou a mulher, sussurrando, com a voz trêmula. Mais uma vez, ele gesticulou indicando que ela fizesse silêncio, mas, agora, por outro motivo. Achava que estava ouvindo algo.

No segundo seguinte, reconheceu choro de Jon, vindo de debaixo da casa, e a voz implorante de Krysta. Sem pensar duas vezes, ele correu, pegou a marreta e saltou dentro do buraco no chão, abaixando-se para caber no espaço limitado. A Sra. Bennett ficou para trás, esperando.

— Krysta! Jon! – Ele chamou, apertando a ferramenta com força. Se alguém estivesse com eles, fazendo-lhes mal, teria a cabeça esmagada.

Os dois estavam encolhidos no chão, e uma lanterna que Krysta segurava revelava sua posição. Ela olhava para cima, como se alguém estivesse parado em pé junto a eles, mas o pai não pôde ver mais ninguém.

— Papai...? – Chamou Jon, apesar de não conseguir vê-lo na penumbra quase completa. Ele avançou na direção dos filhos.

— Quem está aí com vocês? – Perguntou, exasperado.

— Ela! – Krysta apontou a lanterna para frente, tremendo violentamente. No entanto, não havia ninguém lá.

O Sr. Bennett procurou em vão, até entender o que estava acontecendo e parar, suspirando e deixando a marreta cair no solo. Não era a primeira vez, mas certamente era a pior. Tinha passado dos limites. E ele reconheceu que tinha sido uma péssima ideia deixar os filhos sozinhos em casa.

— Krysta, não tem ninguém aqui – disse, suavemente, para não assustá-la. Ela balançou a cabeça.

— Ali, pai! Ali!

— Krysta, para... – Gemeu Jon.

— Vocês estão a salvo – insistiu ele, abaixando-se e puxando Jon dos braços da filha com delicadeza. Ela o segurou com mais força.

— Não, ele é meu... Meu...

— Está tudo bem – o pai beijou o topo da cabeça dela, e conseguiu tirar Jon do colo dela. Segurando-o com um braço, passou o outro em volta dos ombros de Krysta e a ajudou a se levantar.

Ele os guiou até o buraco, e passou os dois para o lado de cima antes de se erguer. A Sra. Bennett correu para abraçar os filhos.

— Ah, meu Deus. Vocês estão bem? Estão machucados? – E se voltou para o marido. – O que aconteceu?

— A Krysta teve... um dia ruim – respondeu ele, em código, e a mulher assentiu, em compreensão, antes de começar a encher o rosto dos dois de beijos. Jon estava tentando ficar longe da irmã, e o pai achou que ele precisava de um tempo e de uma explicação, então esperou a esposa terminar para pegá-lo no colo mais uma vez. – Eu vou levá-lo para tomar banho, certo? Estava muito sujo lá embaixo.

Subiu as escadas com o filho e o colocou no chão quando estavam no corredor do primeiro andar. Não ia realmente levá-lo para o banheiro – sequer teria água quente, se eles estavam sem luz.

— P-Papai... A Krys... Ela tentou me matar – relevou Jon, sussurrando.

— Não, ela não tentou.

— Tentou sim! A luz acabou, e ela foi pegar uma lanterna, mas ela voltou estranha. Ela f-ficou falando coisas estranhas... Então eu corri para me esconder no meu quarto, e ela foi atrás, e depois ela pegou uma m-marreta e...

— Jon – ele segurou os dois ombros do filho, fazendo com que ele olhasse para ele. – A sua irmã nunca faria mal a você. Ela só... Quando ela está muito nervosa, ela às vezes começa a imaginar coisas que não são reais. Já fazia dois anos que não acontecia, então achávamos que ela podia ter superado... Mas ela nunca o machucaria.

O menino soluçou.

— Ela disse que há fantasmas na casa.

— Não há fantasmas aqui.

— Ela disse que uma mulher matava crianças aqui dentro, e foi assassinada...

— Jon, não é verdade – insistiu o Sr. Bennett.

Não precisava dizer para o filho que alguns assassinatos realmente haviam acontecido ali, décadas antes – ainda mais porque, naquela época, havia outra casa naquele terreno, que posteriormente foi demolida para a construção da casa onde eles moravam. Era ridículo imaginar que os espíritos da mulher e do filho dela continuassem por lá. Krysta devia ter visto aquela história em algum lugar e imaginado tudo aquilo...

Enquanto isso, no andar debaixo, a Sra. Bennett estava abraçada à filha, no chão da sala, beijando sua cabeça e murmurando palavras de amor e compreensão. A garota chorava e tremia, mas ia aos poucos se acalmando.

— Ela quer levar Jon... – Sussurrava. – Temos de voltar para o Colorado...

— Não, não, querida... Está tudo bem.

— Por que v-vocês voltaram antes, mãe?

— Estávamos preocupados com vocês.

— Não precisavam se preocupar... – Disse ela, mas já tinha sido comprovado que a preocupação deles tinha sido, sim, justificável.

A energia voltou nessa hora, com um estalo, e a luz inundou a sala. Todos os Bennett tiveram esperanças de que aquele fosse um sinal de que aquele pesadelo estava, enfim, terminado. Krysta respirava profundamente, parando de chorar.

A porta da frente voltou a se abrir, e Ryan entrou na casa distraído, digitando no celular. Não olhou para a mãe ou a irmã ou a confusão que estava a sala. Apenas seguiu reto em direção a escada, com um sorrisinho.

— Ryan! – Exclamou o Sra. Bennett, querendo chamar sua atenção. O garoto parou e olhou para ela, com tanta simplicidade que era como se os pais não estivessem longe havia dias. Seus olhos estavam vermelhos.

— Oi, mãe – cumprimentou.

— O que significa isso? Você está chapado? Onde estão os seus irmãos?

— Meus irmãos... – Ele refletiu, e então apontou para Krysta, rindo. – A Krysta está logo aí, olha.

Ryan! — Ela soltou a filha e se levantou, marchando até ele. – Você deveria levá-los para pedir doces. Onde você esteve? Cadê eles?

— Eu não sei, mãe. Eu fui para outro lugar. Me deixa em paz – e ele correu escada acima, se trancando no próprio quarto em seguida. A noite havia sido longa e complicada, e ele sabia que teria grandes problemas quando verificassem a morte ou o desaparecimento dos três adolescentes na casa de Mia. Precisava descansar e de um pouco de paz.

A parte positiva da noite tinha sido que Jeanne tinha de fato se interessado por ele, e dado muito valor a atenção recebida – algo que Mia não soubera fazer. Eles e os outros sobreviventes do desastre tinham ido juntos para fora da festa após aquilo, e conversado muito. Fizeram um voto de silêncio, e depois, por sugestão de Will, fumaram maconha para se acalmar.

Agora, ele conversava com Jeanne pelo WhatsApp, e até já debatiam sobre outros assuntos – como a possibilidade deles saírem em um encontro, no dia seguinte. Ryan se jogou em sua cama satisfeito, com a certeza de que tudo ficaria bem.

No andar debaixo, o Sr. Bennett se reencontrava com a esposa e com Krysta, após deixar Jon tomando banho – o que não seria mais problema, visto que a energia havia voltado – e a Sra. Bennett derramou suas preocupações sobre ele imediatamente:

— O Ryan não acompanhou o Connor e a Maisie para pedir doces! Ele chegou aqui sozinho e alterado, e não quis falar comigo, não sei onde ele esteve...

— Ele foi para uma festa – Krysta dedurou, também se sentindo culpada por não tê-lo impedido. Já passava das 23h, e os dois deveriam ter voltado há pelo menos duas horas.

A mãe enterrou o rosto nas mãos e o pai franziu o cenho, preocupado.

— Eu vou buscá-los, certo? Eles estão por aqui, só devem ter perdido o horário – disse ele, tentando acalmá-la e já caminhando em direção a porta. Estava muito cansado da viagem, mas as emoções daquele dia pareciam longe de acabar.

O carro estava destrancado e estacionado na calçada, e a sorte deles era morar em uma vizinhança era muito segura, ou o carro poderia ter sido levado por qualquer um que passasse por lá. O Sr. Bennett abriu a porta, atordoado ao pensar onde deveria começar a procurar os filhos do meio, quando ouviu uma voz chamando:

— Papai!

Maisie vinha correndo pela calçada, em sua direção, sendo seguida de perto por uma menina pouco mais velha. Ela vestia um vestido azul que ele não se lembrava que ela tinha – tinha sido ele que a levou para comprar uma fantasia de bruxa para usar no Halloween, e, no entanto, aquela roupa parecia com a de Dorothy, de O Mágico de Oz. Mas ele não se importou, pois a mãe dela podia tê-la levado para comprar uma nova fantasia depois, por algum motivo. Só estava feliz por ela estar lá e estar bem, e estendeu os braços para a filha.

Eles se abraçaram com força.

— Ah, Maisie. Onde você esteve? Tem ideia de que horas são?

— Desculpa, papai... Eu me perdi, e demorei a encontrar o caminho de volta...

— Se perdeu? – Mesmo que ela estivesse lá agora, a ideia o assustava. – Maisie, não era para você ter saído do bairro. Você sabia disso.

— Eu sei, mas eu estava com a Becky e a Donna, e já estávamos longe quando percebemos! Eu só consegui voltar porque a Bailey me ajudou – e ela gesticulou para a outra garota, parada perto deles. Ela acenou timidamente, e o Sr. Bennett sorriu com educação para ela.

— Olá, Bailey – disse, voltando-se para Maisie em seguida. – Vocês são da mesma escola?

— Quando ela voltar a estudar, vamos ser! – Respondeu, e elas trocaram um olhar esperançoso que o pai não pôde entender mais do que o que suas palavras.

— Bem, seus pais devem estar preocupados, Bailey. Quer uma carona para casa?

— Na verdade, eu queria ligar para eles... Eu poderia usar o telefone da sua casa? – Pediu ela, e ele assentiu prontamente.

— Claro. Vamos lá.

Os três entraram juntos, e tanto a Sra. Bennett quanto Krysta correram para abraçar Maisie, aliviadas.

Poderia ser o final perfeito para a noite complicada da família Bennett – se algo ainda não estivesse faltando.

— Mas onde está Connor? – Perguntou a mãe.

Ninguém sabia responder a isso, mas todos podiam imaginar que ele deveria estar aprontando alguma coisa, como sempre fazia. Era sempre surpreendente quando os outros quatro irmãos faziam coisas erradas ou se metiam em confusões, mas não Connor. E, por isso, ele era com quem menos se preocupavam.

Enquanto isso, a algumas quadras da casa deles, um grupo de garotos usando capas pretas era o único que tinha a resposta para o que eles se perguntavam. No cemitério da cidade, eles formavam uma roda, ao redor do corpo inerte do garoto de doze anos.

— É com grande honra que estamos reunidos aqui nesta noite de Halloween, para o ritual de iniciação como vice-líder do Cavaleiro Aaron – dizia o líder, erguendo um copo cheio de sangue para os céus. – Que os deuses o ajudem em sua jornada, e guiem todos os membros da Irmandade Secreta dos Cavaleiros da Noite em direção a seus objetivos.

Ele mergulhou a mão no sangue e a encostou na testa de Aaron, simbolicamente, e ele fechou os olhos. Seu ritual não podia estar sendo mais perfeito. Eles fizeram um minuto de silêncio.

— E no próximo mês – o líder continuou, após terminarem. – Teremos mais um ritual. Nosso amigo Basil, que decidiu de última hora que ficaria conosco, provará sua honra e se juntará a nós como um Cavaleiro da Noite.

Todos os garotos começaram a bater palmas, e Basil – que tinha desistido de sair do cemitério quando já estava quase saindo – sorriu. Estava sentado com o resto do grupo como se fosse um deles, e já se imaginava usando uma daquelas capas pretas.

Não podia se importar menos com a morte de Connor. Ele nunca fora um bom amigo.

Notas finais
Bem, é isso. Minha terceira história concluída. Muito obrigada a todos que acompanharam e dividiram suas opiniões comigo. Obrigada pelo seu tempo. Se quiserem continuar comigo, eu postei uma nova história original há pouco tempo. Segue-se o link: https://fanfiction.com.br/historia/681905/Pelas_Minhas_Veias/ . Também tenho outras sete histórias postadas, que vocês também podem conferir no meu perfil. O Noite de Halloween foi uma história curta, mas fico feliz de ter podido aproveitá-la cada segundo. Mais uma vez, obrigada por dividirem essa experiência comigo! Com amor, G. Lepiane.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!