No Pain, no Gain

4 Vovô Jones e Franceses contra a Inglaterra


Notas iniciais
Se eu não contar, provavelmente ninguém vai ficar sabendo... Mas o amigo francês do vovô Jones sobre o qual Alfred pensa provavelmente era mais que amigo dele, causa do desgosto da vovó Jones. Eu me pergunto por que eu crio esses detalhes estranhos.

- Não é muito bonito escravizar as pessoas, capitão.

- Hm.

- Ele parece cansado, capitão.

- Hm.

- Capitão, o senhor não.. Ai! Lovi, não puxe minha ore... Ai! Ai! Aaaai!

- Obrigado, Lovino.

- Não há de que, capitão.

Antonio limitou-se a sentar num canto e abraçar os próprios joelhos depois de levar algumas pancadas do seu próprio pupilo. O espanhol não se conformava vendo Alfred andando para cá e para lá com um esfregão no navio que não era realmente limpo havia mais de um ano. Arthur só podia pensar que realmente havia algo de errado com a sua tripulação e não parava de se perguntar por que aceitara ser líder daquele bando de idiotas. O Gilbird voava ao redor da cabeça de Alfred enquanto o seu incrível dono ria e zombava do americano. Mesmo Arthur queria lhe bater e estava admirado que Alfred ainda não tivesse batido com o esfregão na cabeça dele.

O fato era que Arthur chegara a um impasse um mês depois de ter capturado Alfred: Estava claro que o americano era um homem admirável e não ia falar nada sobre o paradeiro de lady Sesel, mesmo tendo passado a maior parte das quatro semanas trancado no porão de um navio se alimentando de comida precária que Kiku de vez enquanto contrabandeava para ele. O único resultado daquilo era que Alfred estava magro, pálido e com uma aparência vampiresca. Mas falar algo? Nunca. E Arthur precisava tomar uma decisão a respeito, pois não podia guardar para sempre um americano no navio... Devia encontrar uma utilidade para Alfred ou livrar-se dele.

Gilbert e Francis achavam que alguma tortura o faria falar... Mas Arthur sabia que uma pessoa que aguentou tanto tempo trancado no escuro dificilmente sucumbiria a alguma dor. E também... Não queria... Arthur não completou o pensamento. Estava sendo irracional. Mesmo que se parecesse com ele, Alfred não era aquela pessoa. E ainda assim Arthur não conseguia livrar-se dele.

Olhou para o lado onde Antonio ainda estava encolhido resmungando algo em espanhol. Arthur conseguiu distinguir apenas a palavra "chefe". Lovino o ignorava imperiosamente o espanhol.

- Taichou. — Kiku apareceu, interrompendo os pensamentos irritados de Arthur — Estamos chegando a terra firme. Heracles-san pediu para avisar.

- Sim. — Arthur levantou. — Vou desembarcar.

- Arthur? — Francis chamou, começando a levantar-se.

- Vou sozinho. Você fica e toma conta das coisas na minha ausência.

- Oui, oui, mon cher. — Francis abriu um sorriso forçado.

Alfred ouviu esta conversa. Então... Isso explicava os sumiços temporários de Arthur... Ele ia para a terra. O americano franziu o cenho. Não era como se isso importasse: Com ou sem Arthur à bordo, Alfred era um prisioneiro escravizado. Contudo, tornara-se um hábito seu observar aquele inglês, por algum motivo que ele não imaginava. Apenas parecia importante e, sinceramente, não havia mais ninguém tão interessante de se observar: Gilbert era um completo maluco, Francis um completo tarado, Antonio um completo imbecil, Lovino uma completa criança e Kiku um completo sem expressão. O resto da tripulação era um bando de ingleses sem nenhuma importancia. E, além de tudo, Arthur era um completo mistério. Ou talvez Alfred estivesse num completo mau humor mesmo, incapaz de simpatizar com viv'alma. Ora, e quem podia culpá-lo? Tiraram-lhe de um porão depois de semanas apenas para escravizá-lo?
Tinha um pássaro voando ao redor da sua cabeça enquanto esfregava o chão imundo. Só podia supor que sua paciência estava sendo testada por algum tipo de força divina... E o pior era que estava cercado por ingleses.

Por causa de seu avô, Alfred desenvolvera uma certa antipatia por ingleses. O velho Sr. Jones havia lutado na Guerra da Independência e sem dúvida tinha uma opinião forte sobre os ingleses e o seu governo. Metade dos palavrões que Alfred conhecia, haviam sido aprendidos durante a Hora da História do Vovô Jones. E o vovô Jones era um tremendo xenófobo. Embora ninguém pudesse culpar um senhor cansado de guerra por odiar os descendentes de seus inimigos — não que esse tipo de atitude deva ser incentivado! — aquela mania havia desenvolvido em Alfred algum tipo de cuidado com relação a ingleses.

Não confie em ingleses, dizia o vovô Jones, eles são as criaturas mais amaldiçoadas que você vai conhecer. Se tiver oportunidade, cuspa aos pés da sua preciosa rainha e apoie a França sempre que possível.

Pelo canto do olho, Alfred avistou Arthur se afastando, como se de algum modo aquele inglês lhe saltasse a vista. Ele havia deixado o navio sob os cuidados de Francis. Nas raras vezes em que os vira juntos, eles estavam discutindo sobre algo... O que era de se esperar de um inglês e um francês, mas Francis devia ser um homem de confiança para ser deixado como responsável enquanto o capitão se ausentava.

Vovô Jones tinha uma opinião extremamente favorável sobre os franceses. A vovó Jones dizia, com desgosto, que isso se devia a um francês que fora amigo do vovô Jones e que morrera na guerra da Independência. A opinião do avô de Alfred sobre franceses, contudo, não evitou que o americano gemesse baixinho ao ver Francis aproximando-se dele com um sorriso um tanto estranho no rosto.

- Então, Alfred. Qual é o negócio?

- O que? — Alfred parou de esfregar o chão.

- Não se faça de idiota.

- Por que as pessoas acham que eu estou me fazendo de idiota?

- Estou falando do Arthur, o Arthur. Aquela pessoa inglesa que mantém você vivo.

O americano registrou o uso do primeiro nome. Ninguém na tripulação exceto Francis tratava o capitão pelo primeiro nome.

- Me mantém vivo? Aquele déspota inglês?

- Ces't trop fort! Talvez o Arthur tenha razão sobre a ingratidão dos americanos. — Francis riu. — Você não sabe de nada realmente?

- Qual é o problema, Franciiiis? — exclamou Antonio também aproximando-se.

- Estava perguntando ao Alfred por que Arthur é tão bonzinho com ele. Você sabe, no lugar dele, eu já teria mandado o Alfie dormir com os peixes, já que ele se recusa a dizer alguma coisa.

- Por que não pergunta a ele? — Alfred respondeu com maus modos. — Vocês são muito amigos, não?

- Pff! Amigo daquele deliquente juvenil? — Francis riu sarcasticamente — Ah s'il vous plaît!

- Você diz isso, mas você gosta muito do capitão, não é Francis? — Perguntou Antonio sorrindo.

No lugar de responder, Francis fez um ruído de nojo e se afastou sem dizer mais nada. Antonio limitou-se a rir como se nada fosse mais divertido que o pouco caso de Francis. Ainda sorridente, Antonio voltou-se para Alfred:

- Está quase na hora do almoço e você não tem mais serviço de quarto, vai ter que comer conosco. Alfred, não é?

Alfred não chamava de serviço de quarto receber visitas raras de um japonês com alguma comida, mas...

- Comer com vocês? Com o resto da tripulação?

- Éééé. — Antonio tinha uma mania incômoda de esticar as palavras. — Acho que você é meio que parte da tripulação, agora. A parte cativa... E capacho... Mas ainda assim, parte.

Ninguém preocupou-se em dizer a Antonio que não era muito educado chamar alguém de capacho. E, apesar da escolha bizarra de palavras, aquele era o tom mais gentil que alguém usava com Alfred depois de semanas. Ele não estava em condições de recusar qualquer gentileza, então não ficou particularmente ofendido por ser chamado de capacho. Especialmente se esta gentileza envolvia comida. Falando francamente, capacho era uma boa palavra para descrevê-lo naquele momento.

Alfred devia ter desconfiado. Realmente devia. Ninguém saía por aí oferecendo comida grátis a escravos sem ter alguma segunda intenção. E aqueles caras tinham. Era apenas nisso em que o americano pensava ao ser chutado sem cerimonia para dentro do que devia lembrar uma cozinha para lavar a louça suja daquela tripulação que, Alfred podia afirmar com certeza, comia como um pando de porcos desesperados que jamais fossem tornar a ver alimento na vida. O que não queria dizer que eles não deixavam uma quantidade enorme de restos grudados no fundo dos pratos e panelas. Alfred achou que seus cabelos já estavam brancos quando finalmente deixou a cozinha depois do jantar, resmungando que eles ao menos não precisavam deixar acumular as coisas sujas do almoço.

Deve ser tarde, constatou olhando a área-comum do navio, que àquela hora estava completamente deserta. Então foi tomado por uma súbita dúvida: O que diabos devia fazer? Aquele bando de esquisitos o havia libertado e ordenado cumprir tarefas domésticas, mas e depois?

Estava considerando uma rota de fuga quando ouviu passos. Alguém ainda estava acordado. Não que importasse... Ele não sabia para que direção ficava terra mesmo, nem estava com muito ânimo para fugir depois de um dia de trabalho árduo como aquele. Não era tão ruim assim, afinal. No dia seguinte provavelmente não teriam tanto trabalho... Não era possível ter tanto trabalho. A falha tentativa de positividade de Alfred perdeu-se quando ele viu quem era o dono dos passos: O capitão.

- Meu Deus! — Arthur exclamou ao ver Alfred parado ali. — O que há com essa aparência horrível? E o que está fazendo aí?

- Não lembro pra que lado fica o porão. — respondeu o americano, com sinceridade.

- Mas não passa mesmo de um idiota. — Arthur supirou. — Venha comigo. Você está sob ordens indireta da coroa inglesa, é uma vergonha parecer tão deplorável.

Havia uma quantidade enorme de coisas que Alfred poderia ter respondido naquele momento. Por exemplo, que ele não estaria com aquela aparência se não tivesse sido feito prisioneiro por tanto tempo. Que estaria com um ar mais saudável se não tivesse passado o dia fazendo o maior esforço físico possível. Que estava ficando mareado. Que Arthur podia pegar a coroa inglesa e enfiar... Nenhuma dessas respostas foi verbalizada, contudo. No lugar de dar uma resposta bem mal criada, deu vazão a primeira pergunta que lhe ocorreu ao ouvir que estava a serviço da coroa:

- Então agora eu sou parte da tripulação?

- O capacho da tripulação. — Arthur corrigiu — Até mesmo o Lovino pode te dar ordens, se quiser. Não que ele saiba disso. Você vai me seguir ou não?

Alfred o seguiu. Munido de um pires com uma vela, Arthur entrou num lugar que definitivamente não era o porão, mas um tipo de corredor comprido não muito bem iluminado. Devia ser perto do porão de qualquer modo, pois estava descendo. O navio era bem maior do que Alfred gostaria, considerando seu terrível senso de direção. Primeiro tentou se concentrar em aprender o caminho de para onde estava indo: Uma porta.. Duas portas.. Três portas... Vire a esquerda. Quatro portas a mais, um corredor adjascente, mais duas portas, vire a direita. Alfred desistiu. Nunca ia lembrar daquilo tudo e, no fim das contas, ainda era um herói. Podia se virar em qualquer situação. Mesmo sendo prisioneiro, ainda estava vivo. Talvez porque o capitão sentisse a aura heróica ao redor de Alfred e não tivesse coragem de enfrentá-lo. É, devia ser isso.

Arthur indicou uma das portas e, depois de uma breve hesitação, Alfred entrou. Era um cômodo cor de mogno como todo o resto do navio, mas era bem mais vazio que os demais cômodos: Era ocupado unicamente por uma tina de madeira grande o suficiente para uma pessoa com folga ou duas apertadas. Haviam dois ganchos logo ao lado da tina, provavelmente postos ali para pendurar roupas e do lado oposto da sala, uma mesa tosca com uma tigela de metal cheia d'água logo abaixo do que parecia ser um espelho que refletia o cômodo tão bem quanto o fariam as águas turvas do oceano. Também havia um buraco no fundo, para o qual Alfred preferia não olhar muito... O cômodo devia ser um tipo de banheiro.

Curioso, o americano virou-se para o capitão perguntando com o olhar. Em resposta, Arthur estendeu-lhe um canivete. A menos que os olhos de Alfred o estivessem enganando sob a luz da vela, as bochechas do inglês haviam adquirido um interessante tom de cor de rosa. Ele parecia estar tenso.

- Dê um jeito nessa barba assustadora. Você está parecendo um velho. — Ordenou o capitão.

Sem pensar, Alfred pegou o canivete e encaminhou-se para o espelho. Mesmo considerando o baixo nível de reflexão daquela superfície rachada, era impossível reconhecê-lo por trás daquela bizarra juba loura. O cabelo não havia crescido muito — talvez estivesse um pouco mais parecido com o cabelo de Matthew — mas a barba havia causado um estrago considerável na aparência do americano. Sentiu que esstava mais limpo de alguma forma quando começou a passar o canivete com cuidado no rosto. Realmente não queria um corte na bochecha àquela altura, nem sabia de onde vinha a água que estava usando para lavar o rosto.

Quando o reflexo no espelho estava mais parecido com Alfred F. Jones versão embaçada, virou-se para devolver o canivete a Arthur e encontrou o inglês estranhamente posicionado: Ele mantinha a postura ligeiramente tensa e a mão que deveria estar descansando na cintura estava cuidadosamente colocada na bainha da espada, pronta para puxá-la do cinto a qualquer momento. Ele relaxou logo que Alfred devolveu-lhe o canivete.

- Como é que se diz? — Arthur perguntou.

- Ahn... Eu tirei direitinho?

- Francamente... Quantos anos você tem?

- Dezenove. — Respondeu Alfred, novamente comprovando que não tinha o menor detector de sarcasmo. Ignorando isso, Arthur admirou-se:

- Dezenove? Isso não é possível. Você é grande demais pra ser dessa idade.

- Eu não tenho culpa de ser grande. — Alfred reclamou. — E do que você está falando? Você é da minha altura.

- É, mas EU não acabei de sair das fraldas. Francamente... Não me admira que não tenha dito nada, você não passa de um moleque sem-noção.

- Está querendo dizer que se eu fosse mais velho, teria entregado aquela garota?

- Seria a atitude mais coerente. Convenhamos, eu não estou resolvendo as coisas pelo jeito correto. Existem algumas regras que meus privilégios permitem burlar. — Arthur correu os dedos pelo cabelo. — Se você me dissesse onde ela foi, eu simplesmente iria atrás dela e você poderia ir embora. Todos ficariam felizes e ninguém seria escravizado.

- Exceto a tal de Sesel. — Alfred contra-atacou.

- Por que você se importa tanto com ela? — e então percebeu uma coisa numa súbita inspiração: — Vocês se tornaram amantes! Por isso não quer entregá-la!

- Não, você ficou maluco? Eu nem sabia o nome dela até você me dizer. Tudo o que eu sabia é que ela estava fugindo de um casamento forçado.

- Então por que se esforça tanto por uma estranha? Você é mesmo idiota assim? Não tem algo a ver com aquela baboseira de herói, tem? Você não pode salvar o mundo, você sabe.

- Uma estranha ou não, ela precisava de ajuda. — Alfred continuou como se fosse óbvio. — E eu ajudei a donzela em perigo.

Arthur abriu a boca e tornou a fechá-la. Percebeu que havia perdido o foco da conversa. Havia levado Alfred até ali para ganhar sua confiança e fazê-lo soltar alguma coisa, contudo apenas dialogara quase amigavelmente com seu bizarramente altruísta prisioneiro. O inglês torceu os lábios, insatisfeito. Experimentou encarar os olhos do americano em busca de alguma pista, apenas para constatar que a cor e o formato eram os mesmos daquela pessoa. Mesmo o brilho infantil era o mesmo. Arthur bufou.

- Vá se lavar. — ordenou friamente. — Vou esperar aqui do lado de fora, então por favor não tente nada estranho ou vou ter que matar você de verdade. Não demore.

Notas finais
Dicionário:

Taichou - Capitão

Oui, oui, mon chér - Sim sim, meu querido.

Ces't trop fort! - É demais!

S'il vous plaît - Por favor.