No Pain, no Gain
5 O Bastardo Bonaparte
Notas iniciais
Obrigada também à Orquestra Filarmonica de Toquio. Se não fosse o seu concerto Suzumiya Haruhi no Gensou, eu nunca teria conseguido escrever esse capitulo.
Kell, obrigada por betar e fazer da minha fic um lugar com português correto.
Obrigada a todos que leem e deixam reviews. Sério, gente. Obrigada.
Havia uma pessoa morta no timão. Alfred achava que aquela tripulação não podia mais surpreendê-lo até ver um homem inconsciente sobre o timão com um gato na cabeça. Um gato. Continuou encarando aquela pessoa particularmente suspeita enquanto coçava o queixo. Não lhe ocorreu nenhuma explicação lógica, entretanto. Estava perguntando-se o que deveria fazer — tinha terminado suas tarefas e estava dividido entre a vontade de se esconder para que ninguém lhe ordenasse mais nada e a terrível perspectiva de morrer de tédio num canto isolado do navio — quando alguém aproximou-se com uma expressão preocupada: O japonês Kiku Honda.
Kiku era de longe a pessoa mais bizarra daquele navio — na opinião de Alfred — pois sempre estava usando aquela yukata e nunca demonstrava muitas emoções exceto quando corava por algum motivo. E ainda assim o americano gostava muito de Kiku. Talvez isso estivesse relacionado com o tempo que Alfred passou no depósito/porão, quando a única pessoa que fazia visitas ocasionais era o japonês, sempre trazendo comida e lhe implorando que contasse algo para ser solto. Alfred não falou nada. Nem que não podia falar por que não tinha a menor ideia da informação que eles queriam.
- Mon! — exclamou Kiku, num tom que devia ser exasperado — Não durma, Heracles-san.
A pessoa morta levantou a cabeça. Não devia estar tão morta, então. Era um homem alguns centímetros mais alto que Alfred com a maior cara de sono já vista na face da terra. Ele piscou os olhos preguiçosamente e demorou algum tempo para virar a cabeça e localizar quem lhe havia acordado. Olhar para ele tinha um efeito misteriosamente sonífero.
- Ah. Kiku. — uma voz lenta e baixa saiu dos lábios do homem, embora eles mal se movessem. — Pois não?
- Você é quem está guiando o navio. – Kiku indicou o timão. — Não durma, por favor.
- Ah, é verdade. — Heracles olhou em volta. — Hmmm... Onde será que estamos?
Kiku e Alfred encararam Heracles por alguns segundos, o americano se sentindo meio excluído na conversa.
- Como... Como assim onde estamos, Heracles-san?! Não seja tão irresponsável!
- É brincadeira, brincadeira. — Heracles sacudiu a mão com descaso, sem alterar o tom sonolento ou a expressão vazia.
- Heracles-san... — gemeu o japonês.
Kiku parecia mais emocional do que Alfred já tinha visto, tendo demonstrado em menos de um minuto exasperação, choque, preocupação e depois condescendência. E susto ao perceber que tinha alguém estava ali parado observando.
- Alfred-san! Então você saiu do depósito. Kirkland-taichou é mesmo uma boa pessoa.
- Kirkland o que? — Alfred coçou a cabeça. — Bom, que seja. Para onde estamos indo?
- Atlântico. — foi Heracles quem respondeu, o que surpreendeu Alfred.
- Ah. Este é Heracles Karpusi-san. — Kiku apresentou — O timoneiro.
- Vamos para a Inglaterra? — Alfred fez uma careta.
Ainda tinha uma opinião muito negativa sobre ingleses, algo que ninguém ali estava se esforçando para mudar. Os únicos com quem eventualmente se dava eram estrangeiros — ele se dava bem com Kiku, simpatizava com o espanhol, Antonio, e seu eventual pupilo italiano — mas queria distancia de todo o resto da tripulação: Passara a nutir um certo ódio por franceses, também, e vez por outra sentia vontade de espancar Gilbert. Os outros bastardos ingleses cujos nomes Alfred sequer se dera ao trabalho de tentar aprender, tratavam-no como escória sempre que podiam.
Misteriosamente, era quando Arthur estava presente que Alfred era melhor tratado. Quando o capitão estava por perto, o americano era completamente ignorado por todos no navio, a exceção do sempre alegre Antonio. Arthur tampouco lhe prestava alguma atenção, embora nas raras vezes que aparecia fora da cabine, lançasse alguns olhares furtivos a Alfred como se esperasse alguma coisa. Duas vezes ou mais, Arthur gritava "Moleque!" na direção de Alfred antes de lhe dar alguma ordem. Fora estes raros momentos, Alfred não tinha contato nenhum com o capitão do navio.
- Estamos saindo da Inglaterra. — Heracles corrigiu. — Onde você acha que fica o Atlântico?
Antes que Alfred pudesse responder, houve algum tumulto na área comum. A voz de Francis ecoou pelo navio gritando alguma coisa que Alfred não entendeu. Todos os tripulantes pararam o que estavam fazendo para olhar na direção do timão e logo o porquê tornou-se claro: Passos firmes ecoaram sobre o barulhos das ondas do mar quando o capitão Arthur Kirkland subiu as escadas que levavam ao timão.
Kiku curvou o corpo em noventa graus perfeitos quando ficou frente a frente com o inglês. Heracles apoiou novamente o corpo no timão, mas manteve o olhar sonolento sobre Arthur, que deu as costas aos três que estavam ali e falou unicamente para a tripulação:
- Atenção, homens! Aquele bastardo Bonaparte passou dos limites desta vez. — berrou — Ele proibiu grande parte dos países sob domínio francês de fazer comércio com o Reino Unido.¹
Houve uma gritaria de protestos e vaias com forte sotaque britânico na parte de baixo do navio. Francis tornou a gritar algo e então Alfred percebeu que ele estava no pé da escada, logo abaixo de onde Arthur estava. O silêncio se restabeleceu.
- Ele chegou ao cúmulo de ameaçar invadir Portugal caso não concordem. — Arthur cuspiu no chão. — Agora... Vamos permitir que um bastardo francês leve nosso país à falência?
Mais um brado furioso generalizado por parte da tripulação.
- Em nome de sua majestade Jorge III do Reino Unido, vamos saquear e acabar com qualquer navio francês que cruze o nosso caminho e levar o inferno àquele que se atreve a afrontar a coroa inglesa!
A tripulação explodiu em berros e aplausos de concordância. Alfred só pode pensar que tinha algo de errado com ingleses e sua nada saudável obsessão com a coroa, mas os piratas pareceram absurdamente motivados depois de receber aquele pequeno discurso de seu capitão. Arthur ainda gritou algumas instruções sobre cordas a serem amarradas e velas a serem ajustadas. Alfred não prestou atenção às bobeiras náuticas que não podia entender até Arthur virar-se para o seu timoneiro grego.
- Você sabe para onde devemos ir.
Heracles assentiu uma vez com a cabeça e começou a virar o leme em outra direção. Francis também subiu até o timão com um sorriso tranquilo nos lábios.
- Vamos ter que lutar. — constatou Kiku.
- A menos que você convença os franceses a nos entregar pacificamente toda a carga em seus navios, sim, Kiku.
Kiku fungou e levou a mão a algo que estava preso à sua cintura. Pela primeira vez Alfred notou que ele trazia uma bainha de madeira ali no formato de uma katana ninja. No lugar de perguntar-se por que não tinha notado antes, o americano ficou imaginando como diabos uma pessoa poderia lutar com uma katana enquanto usava uma yukata. Certas coisas são um mistério. Por exemplo, como funciona a mente dos americanos. Arthur virou-se para Alfred:
- É isso, pirralho, daqui a um dia ou dois vamos estar ocupados e você vai estar no seu quarto. Se você tentar alguma gracinha, mato você.
- Eh? — Alfred arregalou os olhos — Está dizendo que eu tenho que me esconder na hora da luta? Que tipo de herói você acha que eu sou?
- Você é idiota? — Francis perguntou — Acha que vamos deixar você brincando pelo navio enquanto somos atacados?
Alfred abriu a boca e tornou a fechá-la.
- Ei, eu não tinha pensado nisso... Eu podia pedir ajuda aos franceses que são seus inimigos, não é?
- Não conte seus planos de fuga para quem te mantém preso. — Francis cobriu o rosto com a mão, desgostoso.
- Ah, mas eu não quero me esconder enquanto vocês se divertem — Alfred encheu as bochechas de ar. — Eu prometo que não vou tentar fugir.
Com o punho fechado, Arthur acertou um cascudo no cocuruto de Alfred, que gritou "ai" e levou as mãos à cabeça onde fora a acertado.
- Você é só um prisioneiro, pirralho idiota, aja como tal!
- Aaah, droga. É sobre a educação inglesa? Se você quiser, eu peço por favor.
Bonc! Mais um golpe certeiro forte o suficiente para fazer os olhos de Alfred ficarem ligeiramente marejados de dor.
- Isso não é uma colônia de férias, seu macaco albino! Agora você tem tarefas na cozinha.
Alfred franziu os lábios num tipo de beicinho de desgosto. Resmungando consigo mesmo em voz baixa, afastou-se na direção da cozinha. Arthur perguntou-se como alguém daquele tamanho podia se parecer tanto com uma criança birrenta e ainda estava encarando as costas do americano com os lábios ligeiramente abertos de maneira pasma. Ou aquela pessoa estava fingindo ou era o ser humano mais impossivelmente retardado da face da terra.
- Eu já teria me livrado dele... — Francis comentou.
- Você sabe quem é Sesel, Francis?
- A filha de algum aristocrata inglês que era protegida do seu tio e ia casar com outro inglês, mas fugiu por que não gostou do futuro marido.
- Exatamente. — Arthur endireitou a gola da camisa. — Eu preciso pegar aquela garota nem que demore vinte anos e aquele maldito americano é a minha única pista. Agora cale a droga da boca antes que eu perca o pouco de paciência que ainda me resta.
- Ces't mon petit. — Francis riu.
Alfred não tinha realmente um quarto propriamente dito. Era mais um cômodo com poucos metros quadrados ocupado por uma rede e uma arca que serviria para guardar pertences, se Alfred tivesse algum. O americano tinha a forte sensação de que aquele cômodo servia de armário de vassouras antes da sua chegada. Não que ele fosse reclamar... Enquanto ninguém o estivesse interrogando e estivesse vivo, tinha alguma chance de escapar. E era nessa chance que Alfred estava confiando. Entendam... O herói desta história é o mais meigo e, sem sombras de dúvida, o mais corajoso. Mas nem de longe é o mais inteligente. Então ele estava simplesmente confiando na chance que algum dia ia aparecer. A chance de fazer alguma coisa de algum modo que o levasse a algum lugar fora dali. Oremos.
Desde que recebera aquela pequena acomodação particular, o americano nunca tivera problemas com ficar sozinho ali. Até aquele dia. Alfred podia ouvir gritos e o som de espadas se chocando, embora o navio estivesse em completo silêncio. Ele fora trancado ali mais cedo por Gilbert que se despedira com um alegre "Vejo você mais tarde." completamente confiante de que nada lhe aconteceria. E metade dos bastardos ingleses, Gilbert, Francis, Antonio e o próprio capitão do navio deviam estar naquele momento invadindo um navio francês, enquanto a outra parte da tripulação havia ficado para proteger o próprio navio.
E eles haviam deixado para trás alguém cujo corpo inteiro tremia de vontade de poder juntar-se à luta. Não que fosse uma pessoa violenta... Absolutamente. Era apenas o seu instinto de herói lhe dizendo para salvar as pessoas. Isto não fazia muito sentido, levando em conta que as pessoas que queria salvar eram piratas que sabiam se defender muito bem. Apenas parecia errado ficar ali sentado naquela rede sem fazer nada.
Entediado, perguntou-se como estaria a luta. Nunca havia presenciado uma verdadeira luta de piratas, mas em sua imaginação era algo que não valia muito a pena assistir... Alfred perguntou-se como seria ver a tripulação daquele navio lutando. Era praticamente impossível imaginar o bobo Antonio lutando, assim como o compassivo Kiku. Alfred apostou que Heracles havia ficado para trás e estava dormindo em algum canto do navio, assim como Lovino, que ninguém era estúpido de arrastar para uma luta.
Gilbert era mais fácil de imaginar... Ele provavelmente estaria lutando de um jeito espalhafatoso e violento, a visão assustadora complementada pelo passarinho amarelo em sua cabeça. Ao tentar imaginar Francis, Alfred foi tomado por uma bizarra vontade de rir. Francis devia lutar com a postura rígida de um esgrimista com uma rosa na boca e tomando cuidado para não bagunçar os cabelos. Francis era esse tipo de pessoa. É, uma luta daquela tripulação não devia valer a pena assistir, mesmo.
Exceto de fosse Arthur lutando. Talvez pelo jeito de vestir do capitão ou o fato de que sempre olhava os outros de cima, mas Arthur parecia impressionante em tudo o que fazia. Ele andava com a certeza de quem era capaz de fazer qualquer coisa que quisesse. Devia ser verdade. Provavelmente ele se destacaria em meio a batalha como um único lutador elegante no meio de um bando de baderneiros banguelas balbuciando com espadas nas mãos. De algum modo, Alfred sabia que Arthur lutava usando apenas uma das mãos, sem sequer derrubar o chapéu. Os cabelos loiros estavam sempre apontando para todas as direções, então não deviam ser um problema.
Como se tais pensamentos fossem uma história de dormir, Alfred caiu no sono.
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