No Pain, no Gain
17 Por Impulso
Notas iniciais
Matthew era uma pessoa extremamente tranquila. Ele achava que, se fosse uma sentença gramática, seria um agente da passiva, tão conformista que era. Se fosse uma flor, provavelmente seria uma daquelas plantas pequeninas que se confundem com as folhas de outras e não tem cheiro. Era o tipo de pessoa transparente, não por transparecer o que pensava, mas por ser basicamente invisível. Matthew não sabia o motivo, mas era frequentemente ignorado. Seria a voz baixa? A pouca presença de espírito? Ele sentia como se Alfred tivesse sugado toda a vitalidade, pois, quando não era ignorado, era confundido com o irmão. Nem os considerava tão parecidos assim... Os cabelos de Alfred tinham uma textura diferente, os olhos eram mais azuis já ganhei se existir e, é claro, comparar a personalidade dos dois seria a mesma coisa que comparar um pardal a uma ave do paraíso.
O rapaz canadense estava mais aborrecido do que podia demonstrar enquanto ocupava-se de beber o chá que o Sr. Vargas havia servido. Também estava envergonhado por ter tido um ataque no hall da casa de um estranho, então estava tentando desaparecer se fundindo com o sofá, o que não era muito difícil, pois estava sentado entre seu irmão e um homem de forte sotaque germânico que conseguia ser ainda mais extravagante que Alfred. O dono da casa e seu filho mais velho ocupavam o sofá menor e Francis estava de pé do outro lado da sala, encarando distraidamente a paisagem pela janela.
- Então... Você é algo como um escravo? — perguntou Matthew, baixinho, tentando processar a estória que lhe tinha sido contada.
- É. — confirmou Alfred. — Se bem que ultimamente, eu não tenho do que reclamar. Todos trabalham lá e, desde que o Sadiq chegou, o pessoal ganhou outra pessoa para implicar.
- Quer dizer que todos vocês...
- Sim. Gilbert, Lovino, Francis, eu... Somos todos piratas. — Alfred sorriu.
Matthew estremeceu. Como ele podia falar aquilo daquele jeito, como se fosse uma profissão comum? Eram todos doidos? No jardim da infância, quando os professores perguntam o que as crianças querem ser quando crescer, mesmo crianças não teriam coragem de responder "pirata". Não era uma coisa boa para se dizer se estivesse querendo fazer amizade.
- Vocês não tem medo? A marinha inglesa ainda vai pegar vocês! — Matthew choramingou.- Está tudo bem. — Foi Gilbert quem respondeu, sorrindo animado. — Por trás dos panos, trabalhamos para a marinha inglesa.
A esta altura, Matthew não sabia se devia realmente chorar, entrar em pânico ou rir. Virou-se para o Sr. Vargas, então, numa vã ultima esperança.
- Seu filho de apenas dezesseis está metido com pirataria... O senhor não se importa? — perguntou.
- Hmm? — o Sr. Vargas continuava a sorrir — Não tem problema. O Lovino está saudável e se divertindo com os seus amiguinhos, eu não me importo que ele siga o próprio caminho.
- Não fale como se fosse um piquenique, maldição. — resmungou Lovino, dividido entre o bom senso arraigado e a percepção de que estava errado, mas seu pai o estava dando razão.
Matthew quase gemeu. Estava cercado de malucos. Alfred, talvez tendo notado que o irmão estava prestes a entrar em colapso, resolveu intervir:
- Ah... Mattie! Por que não vem conosco? — convidou, animado — Você parece estar tirando conclusões precipitadas... Francamente, parece um velho. Você precisa conhecer o navio.
- Não, obrigado. — Matthew respondeu rápido demais.
O sorriso de Alfred murchou e seus lábios curvaram-se para baixo, em conjunto com as sobrancelhas que se franziram. Cumprimentem o inventor da expressão de cachorrinho carente.
- Matthew. — chamou Francis em tom suave. Ele estivera tão quieto que todos haviam esquecido da presença do francês e sobressaltaram-se ao ouví-lo falar. — Parece que eles não souberam explicar o que somos. Não exatamente piratas, que andam por aí fazendo baderna e saqueando. Somos mais como subordinados da coroa inglesa. Talvez você entenda melhor se for conosco conhecer nosso navio.
- Eu... — Matthew hesitou — Não sei.
- Vamos, Mattie...
- Não, é melhor não. — afiançou o canadense em tom definitivo.
Assim que embarcaram no navio, Matthew arrependeu-se de ter cedido. Para começar, o lugar estava lotado de ingleses com expressões antipáticas. O enjoo que Matthew sentia não estava relacionado ao movimento do mar, mas ao nervosismo de estar num lugar como aquele. Alfred tinha consciência de que estava fazendo algo ilícito? Algo que ultrapassava os limites da falta de responsabilidade? Ao invés de dizer o que estava pensando, Matthew ficou calado por todo o caminho ouvindo Alfred contar como fora parar no navio e como agora era um tipo de assistente do capitão. Matthew não gostou. Não gostou da forma como Alfred falava do inglês, como se realmente o admirasse. Não pode evitar se não pensar no capitão do navio com antipatia. Além de ser um inglês assustador, que direito tinha ele de roubar o irmão alheio daquela maneira?
- Ah. — Fez Alfred assim que embarcaram. — Onde está o Arthur?
- No refeitório. — respondeu alguém — Com o Sadiq, o Gupta e o Kiku.
Antes que Matthew pudesse protestar, sua mão foi agarrada por seu irmão mais velho e foi arrastado pelo convés. Lovino, Gilbert e Francis seguiram os dois, mas no meio do caminho foram interceptados: Um homem simplesmente brotou do meio das caixas que estavam largadas num canto e se jogou sobre Lovino com os olhos cheios de lágrimas berrando algo como "Mi Lovinitooo~"
- GYA! — fez Lovino ao ser agarrado. — O que está fazendo, bastardo?
— Você é cruel, Lovi... Você saiu sem mim. Eu queria tanto conhecer o seu pai! — choramingou Antonio abraçando Lovino com força.
- Antonio ia mesmo fazer o pedido... — comentou Gilbert para Alfred e os dois abafaram risadinhas.
- Parem com isso vocês dois! — berrou Lovino empurrando Antonio — E que reação é essa, Antonio? Maldição, você é uma criança?
Matthew observou Lovino dar alguns cascudos no espanhol e virou-se para Alfred esperando alguma explicação.
- Aquele é o Antonio. Ignore, ele está sempre pendurado no Lovino assim. — explicou o americano.
Sem dar oportunidade para o seu irmão parecer indignado, Alfred tornou a arrastá-lo pelo pulso em direção ao que parecia ser o refeitório. A cabine ampla cheia de mesas de madeira estava vazia, exceto por uma mesa no fundo, que era ocupada por cinco homens: Um japonês, um rapaz moreno pequeno, um homem alto que usava uma máscara branca, um que parecia estar dormindo com a cabeça apoiada nos braços e o inglês de olhos verdes assustadores que Matthew havia encontrado mais cedo. Os cinco viraram-se quando ouviram a agitação na entrada, que era Alfred arrastando o irmão, Lovino arrastando Antonio e Francis e Gilbert logo atrás.
- Arthur! — exclamou Alfred, abrindo um sorriso tão largo que podia ter curado um enfermo terminal, ao correr para o capitão.
O capitão Kirkland ergueu os olhos do que quer que estava fazendo antes e olhou para Alfred, em seguida para Matthew encolhido ao lado do irmão. Matthew encolheu-se mais ainda. Até então pensara no inglês apenas com antipatia, mas o olhar que recebeu naquele momento foi totalmente diferente. A aura negra havia desaparecido e deixado nada no lugar. Ao ser encarado pelos olhos verdes vazios de emoção, Matthew sentiu-se infantil e bobo, como se precisasse viver cinquenta anos mais para compreender a vida de verdade.
O olhar do capitão Kirkland não demorou-se muito no canadense, contudo, logo voltando a encarar Alfred. O americano estava falando sem parar completamente animado, gesticulando e apontando para Matthew, como se o estivesse apresentando. O canadense deixou de prestar atenção na conversa quando Francis aproximou-se e tocou-lhe o ombro.
- Não é tão ruim quanto você havia imaginado, ou é? — perguntou o francês.
- Não. — Matthew anuiu, sem saber ao certo com o que estava concordando.
- Viu? — Alfred sorriu, vitorioso. — Eu falei que você ia ver que o navio era legal.
- Bom, tanto faz, não é? — Matthew perguntou — Não importa como você andou vivendo os ultimos meses, porque agora vamos para casa... Não é?
O sorriso de Alfred murchou com a velocidade de uma vela sendo apagada e suas sobrancelhas ergueram-se de surpresa. Aparentemente, Alfred não tinha pensado que o irmão estava ali para buscá-lo. O silêncio tenso que se seguiu foi quebrado por Lovino:
- Como assim "ir pra casa"? A casa do Alfred é aqui.
- Espere, querem lever o Al embora? — perguntou Antonio — Não podem! Al é nosso companheiro.
- Quer dizer que Alfred é um prisioneiro? — interveio Matthew.
- Não, mas ele é nosso idiota, não é? — Gilbert exclamou — Capitão, o senhor não vai permitir isso, vai? Não podem levar o Alfred!
Todos olharam diretamente parar Arthur, que estava no canto mais distante do refeitório, os braços cruzados sobre o peito e a expressão sombria ainda no rosto.
- Não compete a mim decidí-lo. — ele respondeu, tão baixo que mal pode se fazer ouvir, o que era incomum — Ao contrário da maioria aqui, Alfred não deve nada à coroa inglesa. Ele pode partir quando tiver vontade.
Matthew podia ser ignorado muitas vezes, mas isso lhe trouxera uma habilidade: Tornara-se um exímio observador. Era capaz de captar detalhes no ar e sabia ler uma expressão como ninguém. Estava olhando para Alfred enquanto o inglês falava e viu os olhos do americano se arregalarem e os ombros se retraírem com um sentimento que mesmo Matthew demorou a reconhecer. Traição, decepção. A resposta do capitão Kirkland havia chocado Alfred.
Sem dizer mais nada, o inglês descruzou os braços e deixou o refeitório a passos que ecoaram no silêncio nervoso. Francis revirou os olhos e depois suspirou audivelmente, antes de seguir seu velho amigo para fora do lugar.
- Talvez esse Kirkland mereça mais respeito do que eu julgava a princípio. — comentou Sadiq coçando o queixo. — Se quer saber como julgar um homem, não veja como ele trata seus iguais, mas como trata seus subordinados.
- Então... O Arthur não se importa caso eu vá embora? — murmurou Alfred, mais para si mesmo.
- Creio que não é isso, Alfred-san. — Kiku falou, suavemente. — Na verdade, esta foi uma prova da estima que o capitão tem pelo Alfred-san.
- Como?
- Se ama algo, deixe livre. Se tiver de ser seu, voltará. — citou Heracles, sobressaltando a todos que achavam que ele estava dormindo.
- O que o Heracles quer dizer — começou Gupta — é que o capitão tem muita estima pelo Alfred, por isso quer deixá-lo decidir aonde quer ir sozinho.
- Uma decisão assim não deve ser tomada sob pressão. — Kiku levantou-se — O irmão do Alfred-san parece cansado. Não seria melhor todos descansarmos um pouco? Aparentemente temos trabalho amanhã, conforme o capitão estava nos informando. Tenho certeza de que o Alfred-san gostaria de algum tempo para pensar.
Heracles levantou-se logo após Kiku, ainda com a expressão sonolenta. Gupta e Sadiq também levantaram, anunciando que iam preparar o jantar. Antonio aproximou-se de Alfred.
- Al... Você vai mesmo embora? — perguntou o espanhol.
- Claro que ele não vai! — exclamou Gilbert — Como se ele fosse deixar uma tripulação awesome assim.
- Tsc... — fez Lovino, franzindo os lábios — Maldição... Não é que eu queira que você fique. Faça o que quiser. Mas decida-se logo, droga.
- Não o pressionem. — ralhou Kiku — Vão logo cuidar de seus afazeres.
Apesar do tom brando de Kiku, ele foi obedecido. Os irmãos foram deixados à sós.
- Alfred... Você... quer ficar aqui?
Matthew arrependeu-se de ter perguntado assim que as palavras deixaram seus lábios. Percebeu de repente que estava exausto e chateado, tanto que não queria saber a resposta. Odiou ver a indecisão nos olhos do irmão. Alfred era o tipo que dava respostas imediatas, nunca ficava indeciso, ele provavelmente sabia o que queria, mas não queria magoar o irmão. Matthew entrou em pânico. Tudo se tratava do que era melhor para Alfred, mas o que poderia fazer se o próprio Alfred não concordava? Alfred abriu a boca, aparentemente preparando-se para dizer algo, então Matthew apressou-se em dizer:
- Não responda agora. Aquele japonês tem razão, é melhor você pensar nisso. Eu também estou exausto por ter passado o dia andando na rua.
- Claro... — Alfred coçou a cabeça. — Você não quer lavar o rosto ou coisa assim? O lavatório é por aqui.
Com um olhar incomumente distante, Alfred tomou a dianteira e guiou o irmão para fora do refeitório e de lá para uma porta que não dava para outra cabine, mas para um corredor comprido com algumas bifurcações aparentemente grande demais para estar dentro de um navio. Matthew achou o lugar parecido com um labirinto. Alfred algumas vezes parou por três segundos em um ponto do corredor e olhou pensativamente para a parede como se lembrasse de alguma coisa, mas logo continuava a andar quando notava o que estava fazendo até encontrar uma porta aberta.
Alfred indicou o local distraidamente e Matthew entrou. Queria apenas lavar o rosto para clarear as ideias, então não ia demorar, mas mesmo assim fechou a porta atrás de si. O canadense precisou respirar algumas vezes antes de examinar o lugar onde estava. A primeira coisa que viu foi uma bacia com água limpa em cima de um minúsculo banquinho de três pernas. Retirou os óculos e usou a água para refrescar o rosto e o pescoço. O clima na Itália naquela época do ano era muito diferente do que estava acostumado. Respirou profundamente antes de repor os óculos e encarar sua imagem deformada numa superfície que devia servir de espelho, mas estava suja demais para ser considerada um.
- Está tudo bem. — disse a si mesmo. — O Alfred é infantil, mas mesmo ele vai ver a razão.
Ouviu a voz de Alfred do lado de fora. Estava apressando-o? Aquele desmiolado... Pirataria era crime. Era errado. Alfred entenderia isso se Matthew explicasse com clareza. Com outro suspiro pesado, Matthew endireitou-se e andou o mais lentamente que podia para a porta. Ao abrí-la, contudo, deparou-se com o corredor vazio.
- Alfred? — chamou, hesitante.
Nenhuma resposta.
Certo. Hora do pânico.
De que direção eles haviam vindo? Os dois lados do corredor pareciam iguais! Matthew começara a perguntar-se o que teria feito para ter de pagar todos os pecados de uma vez só quando algo chamou-lhe a atenção: Uma melodia baixa, mas contínua, vinda de algum lugar à esquerda. Sem pensar, seguiu na direção do som. Era música. A mais suave e deliciosa que o jovem canadense jamais havia ouvido em sua vida. Ela parecia estar vindo de uma porta em particular, a qual Matthew, por impulso, abriu.
A primeira coisa que viu foi a fonte da música: Um homem que estava de costas para a porta tocando um violino. Os cabelos ondulados estavam presos à nuca para deixar descoberto o rosto do violinista. Os olhos estavam fechados, a expressão no rosto bonito serena. Com seus ombros largos e corpo esguio, ele era a imagem exata que Matthew fazia de um príncipe saído de um conto de fadas.
A melodia que saía do violino foi suavizando até que a ultima nota foi tocada e o príncipe baixou o arco. Ele abriu os olhos e pareceu ligeiramente surpreso ao ver Matthew ali parado, mas abriu um sorriso com educação.
- Pois não?
Matthew levou alguns segundos até compreender que ele lhe estava dirigindo a palavra, mais alguns segundos para perceber que não era um princípe, mas Francis e então corou absurdamente ao perceber que havia acabado de invadir o quarto do homem.
- Ah... Ah! — exclamou sentindo o rosto arder. — Je m'excuse, eu... Eu estava com meu irmão, mas me perdi e... Oh...
- Está tudo bem, não fique preocupado com isso. Parece que você está tendo um dia difícil. Por que não se senta um pouco?
Francis indicou uma cadeira perto da porta junto ao que parecia ser uma escrivaninha de trabalho. Dominado pela vergonha, Matthew sentou-se sem sequer parar para pensar no que estava fazendo.
- Então... Vous parlez français? — perguntou Francis.
- Ah... — Matthew arregalou os olhos percebendo a segunda gafe. Agora Francis sabia que ele havia entendido a conversa que tivera com Arthur antes. — Eu... Nasci no Canadá e aprendi francês antes que a minha mãe se mudasse para os Estados Unidos, onde conheceu o pai de Alfred.
- Entendo. — Francis sorriu.
- Sr. Francis... — Matthew começou, depois de uma breve hesitação. — Como... O senhor se tornou um... Pirata? Digo, o senhor não parece o tipo de pessoa que se encontra num navio pirata.
- Em quantos navios piratas você já esteve, Matthew?
- N-não quis ofender, eu só...
- Entendi o que você quis dizer. De fato, não é muito comum encontrar pessoas como eu em navios piratas. Eu devia estar em uma mansão qualquer na França ajudando a cuidar dos negócios da minha família e indo à festas da nobreza.
- Então... Por que?
- Acho que você vai compreender melhor do que ninguém, afinal eu o fiz por um irmão idiota. — Francis riu, sem humor nenhum.
- Perdão?
- Digamos que eu não me dava bem com a minha família. Não é que vivêssemos brigando ou algo dramático assim. Apenas não éramos próximos. Mas quando eu era criança, tive aulas de violinos com duas pessoas de quem eu gostei muito. Tanto quanto irmãos. O primeiro era um inglês estúpido e a segunda era uma garota encantadora, que parece ter encontrado o seu próprio caminho agora.
Pela primeira vez desde que Matthew o havia visto pela primeira vez, Francis não estava sorrindo. Ele fez uma pausa, sem olhar para Matthew, mas para a janela cuja vista era a praia da Itália.
- Acontece que meu irmão de consideração meteu-se em problemas graves e eu achei que não podia deixá-lo sozinho. Assim, acabei me tornando um pirata. Mas eu estava errado.
- Arrependeu-se? — sussurrou Matthew.
- Não é nada disso. Não tenho do que reclamar aqui. Acontece que percebi que não fiz o que fiz por estar preocupado com ele... Bem, eu estava preocupado com ele, mas a verdade é que fiz aquilo porque eu estava com medo de ficar sozinho. Acho que isto é um pouco estúpido, não é?
Matthew levantou-se. Logo ele que fora tão cuidadoso a vida inteira, pelo que parecia ser a milésima vez nos ultimos minutos agiu totalmente por impulso atravessando o quarto e tocando o ombro de Francis com a mão enquanto ostentava uma expressão muito séria no rosto.
- Não. Acho que entendo perfeitamente o que quer dizer.
Francis pela primeira vez olhou para o canadense e tornou a sorrir. De alguma forma, o sorriso pareceu mais sincero que os outros até então.
- Bem... É a primeira vez que falo nisso para alguém. — admitiu o francês, parecendo ligeiramente embaraçado — Você parece ter soltado a minha língua.
- Ah... — Matthew tornou a envergonhar-se — Não contarei a ninguém, não se preocupe.
- Não se preocupe. — Francis afagou-lhe a cabeça. — Sei que acabamos de nos conhecer, mas acho que posso confiar em você. Será nosso segredo, certo?
Matthew corou intensamente. Era a primeira vez que tinha uma conversa daquele tipo com alguém. Mesmo com Alfred, que vinha sendo seu melhor amigo desde a infancia, não era tão fácil. Estava prestes a dizer algo — ele não sabia exatamente o que, apenas sabia que as palavras saltariam espontaneamente de sua boa sem dar-lhe oportunidade de pensar a respeito delas — quando foi interrompido por um ruído de explosão. Francis recuou a mão que estava acariciando a cabeça do canadense e olhou para a janela preocupado.
- Mas o que... ?
Outra explosão. O navio inteiro estremeceu a ponto de poeira cair do teto.
- Fique aqui, Matthew. — falou Francis agarrando algo comprido e fino que estava no canto e caminhando apressado para a saída do quarto.
Como se eu fosse! Pensou Matthew apressando-se para seguir o francês.
Notas finais
Vous parlez français? - Você fala francês?
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