No Pain, no Gain
12 O Inglês Filho do Sueco Que Vive na Dinamarca
Notas iniciais
Alfred não conseguiu dormir direito. No dia anterior havia ido à terra com Arthur e fora instruído a ficar de boca fechada o tempo todo enquanto ele conversava com alguns homens ingleses bem vestidos. Alfred sabia o motivo disso: Seu sotaque americano irritaria os ingleses afetadinhos. Tentou não ficar irritado com isso, sem muito sucesso. Não estava irritado com Arthur especificamente, mas com os ingleses no geral.
Contudo, a irritação logo cedeu à curiosidade. Como sempre, ele estava observando o capitão — ele sabia que fazia isso mais vezes do que faria normalmente — e notou uma perturbação discreta no inglês ao receber as ordens. O homem de roupas pomposas instruiu Arthur a desmantelar um grupo de contrabando que estava atrapalhando os negócios ingleses ao norte da Europa, um grupo numa determinada vila da Dinamarca. Ao ler o nome da vila, os olhos de Arthur perderam um pouco do brilho selvagem costumeiro e ficaram opacos.
Nenhum dos homens pareceu notar nada de diferente, pois a expressão no rosto do Kirkland continuou a mesma. Apenas Alfred, que gostava tanto de observar as íris verdes do capitão, notou a alteração, tanto que chegou a se perguntar se não havia sido obra de sua imaginação. Não havia sido. Pelo resto do dia, Arthur não exibiu nenhuma vez o brilho costumeiro. Ao voltar ao navio, não importou-se com o fato de que todos os seus principais subordinados estavam ausentes. Parecia tão distraído que, mesmo com a volta de Francis com quem estava brigado, não reagiu. Quando o americano perguntou se havia algum problema, Arthur mecanicamente respondeu "nenhum" sem sequer olhá-lo. A curiosidade manteve Alfred acordado até tarde da noite.
Nos dias que se seguiram, Arthur mal era visto na parte pública do navio e, quando finalmente apareceu para dar instruções, Alfred teve a confirmação de que não estava imaginando coisas. Assim que Arthur falou o nome da vila para onde estavam indo, Francis repetiu, surpreso.
– Algum problema? — perguntou o capitão, quase friamente.
– Este lugar... — Francis hesitou — Você vai receber as informações necessárias antes de atacarmos, não? Vai sozinho? Talvez dar uma volta e visitar a vila?
– Não. — defitivamente em tom gélido então — Vou levar Alfred comigo.
Francis estreitou os olhos, muito desconfiado, antes de retornar à sua atitude blasé de sempre e implicar com o jeito desajeitado com que Gilbert dava nós nas cordas. E Alfred bufou, aborrecido: Francis. Era sempre Francis, sempre aquele que sabia coisas que Alfred apenas desconfiava. Aquilo era mais do que irritante. Ele era uma pessoa fundamentalmente emocional e, como seu irmão gostava de frisar pelo menos duas vezes por dia, costumeiramente agia como um animal egoísta: Se sentia fome, comia. Se estava incomodado, mudava. Se alguém o irritava, não tinha nenhum problema em chutar a irritação. Embora tivesse um senso de justiça muito forte e costumasse ser uma boa pessoa, não passava de uma criança que cresceu demais, que é egoísta, possessivo e impaciente.
E aquele sentimento de posse se aplicava a Arthur.
Era muito bizarro sentir-se assim? Não que ele estivesse se esforçando para entender. Apenas gostava daquele inglês estúpido e arrogante, mesmo sem ter um bom motivo para tal. Se ele gostava, significava que era propriedade sua, não era certo deixar que algum francês pervertido bizarro o conhecesse melhor. E era esse o problema. Não era gostar de um inglês. Não era gostar de um inglês de um jeito estranho. E tampouco gostar de um inglês do mesmo sexo e do jeito estranho. O problema era que ele não estava satisfeito com apenas gostar... Queria que Arthur gostasse de volta. Mas sem que ele precisasse pedir que gostasse. Era ruim ser orgulhoso assim?
E estava aborrecido com isso, o que o levou a ter mais uma noite mal dormida antes de chegar à Dinamarca. Enfiou a roupa de qualquer jeito e levantou junto com o sol. Estava com os óculos tortos e sequer tinha ânimo de ajeitá-los, tanto que tropeçou duas ou três vezes enquanto andava na direção do timão. Havia adquirido o hábito de ir ali sempre que queria ficar sozinho. Normalmente, não estava sozinho, pois Heracles sempre estava no timão e Kiku estava por perto, mas os dois eram tão silenciosos que não contavam. Sadiq havia deixado de seguir Kiku para todos os lados para ficar a maior parte do tempo com Gupta. Embora reclamasse muito da desconfiança dos ingleses e por ter de carregar caixas até a cozinha, mas de modo geral estava se adaptando bem.
A área do timão não estava tão vazia quanto Alfred esperava: Heracles já estava de pé e cuidando do leme, Kiku estava ao lado de seu precioso amigo — usando roupas de tecido mais grosso para proteger-se do clima e um cachecol de lã que andava usando muito para esconder o pescoço, embora Alfred nunca tivesse questionado isso — mas os dois não eram os únicos ali. Arthur estava também ali, observando a terra que aproximava-se cada vez mais com uma expressão indecifrável. Ele desviou os olhos para Alfred quando ouviu os passos deste.
– Qual é o problema? Caiu da rede?
– Algo assim. — Deu de ombros. — Quando vamos desembarcar?
– Em alguns minutos. — Arthur virou-se para o timoneiro — Não é?
Heracles confirmou com a cabeça sem tirar os olhos do seu destino. Alfred estava olhando para Heracles quando sentiu os dedos de Arthur em seus cabelos. Virou-se surpreso para o inglês para encontrar a mesma expressão sem definição no olhar enquanto bagunçava o cabelo do americano.
– O que há com essa aparência de sono? Não vou com você a lugar nenhum deste jeito, pirralho.
E desceu as escadas. Alfred bufou. Gostaria que ele fosse apenas um pouco sincero! Não ia matar uma vez na vida dizer as coisas claramente ou simplesmente não parecer tão indecifrável. Enquanto seguia o capitão pisando duro, Alfred amaldiçoou-se por não ter interesse em Gilbert, Antonio ou qualquer outro imbecil incapaz de esconder o que estava pensando.
Arthur estava ainda menos comunicativo que o normal. Não vou perguntar, Alfred não parava de repetir para si mesmo em pensamento enquanto se dirigiam para o bote. Se aquele estúpido inglês queria passar por legal e misterioso era um problema unicamente dele e Alfred não ligava. Não mesmo. Apenas guiaria o bote até a terra, acompanharia Arthur pela vila desconhecida, ouviria os ingleses engomadinhos dando ordens e voltaria para o navio sem dizer uma única palavra. Veremos então como o capitão Kirkland reagiria tomando um pouco do próprio remédio.
E então, Arthur? Você saberá como reagir frente a esta nova e fria versão de Alfred F. Jones? Certamente vai ficar desorientado e implorar para ter o alegre Alfred de volta, pensava o vingativo americano assim que pôs os pés em solo dinamarquês. Ele continuou com seu "frio" silêncio enquanto andava ao lado do capitão, que discretamente lhe olhava pelo canto do olho. Ele estava notando a diferença?
– Alfred...
Mas já?! Ele já ia implorar pra ter o bom e velho Alfred de volta? Havia sido fácil! Alfred começou a ensaiar em sua mente as respostas que daria antes de ceder.
– Talvez seja melhor você ir dar uma volta pela vila... Eu posso resolver isso sozinho.
Desgraçado! Ele queria esconder mais coisas!
– Eu vou dar uma volta mesmo! — exclamou, algumas oitavas mais alto do que pretendia. — Você pode ir falar com os ingleses cheios de frescuras e depois contar ao Francis como foi, porque se você quiser contar 'pra mim, eu não vou ouvir. É.
Alfred ignorou os olhos arregalados do inglês e deu-lhe as costas, andando a passos firmes na direção da vila dinamarquesa que já se fazia ver a uma curta distancia da praia. Sabia que tinha ofendido Arthur com sua pronúncia extremamente americana e estava muito satisfeito por isso. Qual era o problema com aquela expressão de surpresa? Aquele inglês bastardo nem tinha notado que Alfred estava furioso? Oras, que fosse para o inferno com seus segredos então. Alfred não tinha interesse em sabê-los.
Entrou na aldeia cheia de gente falando uma língua que ele não era capaz de reconhecer. Aaah, a que fora reduzido? Vivera 18 anos de sua vida como um jovem saudável americano. Tinha amigos, um irmão de quem gostava muito e um lugar divertido para morar. Ajudara uma garota desconhecida uma vez e veja onde fora parar! Andando por uma vila desconhecida da Dinamarca irritado porque um inglês maldito contava coisas a um francês mais maldito ainda e não a ele. Ciúmes? Nunca havia sentido nada assim antes, então porque de repente estava daquele jeito por culpa daquele bastardo? Alfred suspirou.
Sentia-se estúpido e então... triste. Parou de andar. Os aldeões dinamarqueses passavam por ele para o mercado sem se importar com o estrangeiro parado no meio da calçada olhando para o nada. Ele estava aborrecido por pensar coisas estranhas a respeito de Arthur. Qual era o problema com ele? Não era natural sentir-se assim por um homem, era? Ficar irritado por ele ter sido beijado por outra pessoa... Ficar feliz por ter recebido o beijo dele em seguida... Depois daquilo, Arthur não fizera mais nada ou demonstrara que algo havia acontecido entre eles. De fato, algumas vezes Alfred pegou-se perguntando se aquele beijo não havia sido fruto da sua imaginação meio bêbada e sonolenta.
– Droga... Maldito inglês confiante... — voltou a andar a passos pesados enquanto falava consigo mesmo — Me mandando dar uma volta para me esconder algo? Não brinque comigo. E se eu resolvesse fugir agora? Eu poderia voltar para casa, viver em paz com o Mattie e nunca mais precisaria olhar para as suas estúpidas sobrancelhas ou ouvir seu maldito sotaque britânico! Aah, veja o que você fez, eu estou falando como o Lovino!
Você percebe que as coisas estão realmente mal quando você começa a falar como um italiano de 16 anos que está sob os cuidados de um espanho com o QI equivalente ao de um panda.
E então ouviu um ruído estranho. Alguém... Chorando? Os instintos de herói apitando, Alfred virou-se na direção do som. Vinha de um beco lateral vazio à exceção de algumas latas de lixo e... um garoto. Um garoto loiro sentado no chão apertando o próprio tornozelo e grunhindo palavras em uma língua desconhecida que soavam muito como palavrões.
– Ei! Você está bem? — perguntou o americano, correndo na direção do garoto.
Era um menino que aparentava não ter mais que 12 anos, com corpo magro e pequeno, rosto ainda infantil, mas surpreendentemente parecido com Alfred: Os olhos eram do mesmo azul, tinham o mesmo formato, os cabelos da mesma cor, se não da mesma textura... Mas havia algo que não era parecido: As sobrencelhas. O garoto tinha sobrancelhas grossas extremamente similares às de um certo inglês.
Ele resmungou alguma coisa naquela língua nórdica bizarra. Alfred sentiu-se nervoso por não entender. É verdade que, depois de ir parar no navio, havia aprendido uma quantidade enorme de palavrões em italiano e alemão. Também sabia falar "Você é muito fofo, Lovi, case comigo!" em espanhol, embora esta ultima não fosse de muita utilidade.
– Erm... Olhe... Ahh... Será que você fala alemão? A Alemanha é aqui do lado, são línguas parecidas, não? Aah, mas não dá pra confiar no que o Gilbert me ensinou, ele provavelmente falou coisas estúpidas...
– Eu falo inglês! — o garoto respondeu num tom irritado familiar.
– Ah. Que bom. Droga, quantos anos você tem?
– Treze. Mas eu vou fazer aniversário logo. Em... Alguns meses.
É um pouco humilhante encontrar uma criança bilíngue quando você só fala a sua língua natural e alguns palavrões em outras línguas.
– Você está bem?
– Estou ótimo. Larguei-me aqui no chão porque é divertido.
– Oh... As pessoas da Dinamarca são estranhas...
– Você é idiota? Eu estou sendo sarcástico.
– Caramba, você é a versão mais nova do Arthur?
– Quem?
– Ninguém, esqueça.
Talvez fosse algo natural das pessoas com sobrancelhas grossas serem irritantes e sarcásticas e mal humoradas.
– O que aconteceu com você? — tentou novamente. — Precisa de ajuda?
– Eu c-caí. — o garoto corou — Acho que torci o tornozelo e não consigo ficar em pé para voltar para casa.
– Oh... Sua casa é aqui perto? Eu posso levar você.
– Quem é você? Não saia por aí oferecendo ajuda aos outros desse jeito. Eu nunca vi você na vila.
– Digamos que eu estou de passagem. — Alfred suspirou. — Você quer ou não? Eu vou embora se você quiser ficar sozinho.
– Não! Q-quer dizer... Droga, se vai ajudar, ajude logo, não fique falando.
Você já teve a sensação de ter voltado ao passado sem perceber e encontrado a versão mais nova de alguém que você conhece? Se sim, você sabe como Alfred se sentiu ao ajudar o mini-Arthur a subir em suas costas. O garoto corou e resmungou para onde ficava a sua casa, que era ligeiramente afastada do centro da aldeia.
– Hmm... Você mora naquela casa grande? — perguntou Alfred olhando a mansão que se via a distancia.
– Sim. Meu tio é o senhor daqui. Ah, e eu me chamo Peter.
– Sou Alfred.
Então, estava sendo um herói novamente depois de vários meses como zelador de navio. Isso valia alguns pontos no carma? Faria com que Arthur mudasse um pouco seu jeito irritante?
Estavam saindo do centro da aldeia para uma via de terra que levava à casa grande quando uma voz masculina chamou pelo nome do mini-Arthur. Alfred parou de andar e virou-se em tempo de ver duas pessoas — mais dinamarqueses! — que estavam sentadas juntas ao pé de uma árvore. Deviam ser um casal de namorados aproveitando a tarde de clima ameno? O homem alto era loiro, tinha os cabelos arrepiados e um sorriso bobo no rosto. A garota era pálida com olhos azuis escuros inexpressivos e usava uma fivela cruciforme nos cabelos claros e curtos. O homem perguntou algo a Peter em dinamarquês. Alfred desejou que todas as pessoas no mundo falassem a mesma língua.
– Eu me machuquei e esse cara me ajudou. — Peter falou em inglês, provavelmente querendo incluir Alfred na conversa — Ele se chama Alfred.
– Ah, foi mesmo? — o homem sorriu e passou a falar em inglês com sotaque forte — Obrigado por cuidar do nosso Peter. Eu sou Mathias.
– São seus pais? — Alfred perguntou enquanto apertava a mão de Den.
A garota de olhos escuros encarou Alfred abandonando a inexpressividade para começar a emitir uma certa aura de irritação. Peter emitiu um som baixo de riso.
– Aah... Nós parecemos casados? — perguntou Mathias corando... E levando uma cotovelada — D-digo... Somos tios do Peter. E essa pessoa é um homem.
– Oh... Sério? Bem, você parece uma garota bonita.
Peter encheu as bochechas de ar e enfiou o rosto no ombro de Alfred para que não o vissem vermelho de tentar reprimir uma gargalhada. Alfred tinha sorte por olhares não serem capazes de matar.
– AHAHAHAHA Ele parece, não é? — Mathias concordou, animado. — Se você está procurando por garotas bonitas, fique longe do Lukas, ele é violento e já tem um dono. Mas tem garotas bonitas na vila, se você procurar.
– Ah, claro! — Peter bufou — Todas as mulheres bonitas são doidas, e todas são apaixonadas pelo tio Mathias. Como aquela que tentou agarrá-lo ontem...
Apenas emanar mau humor deixou de ser suficiente para Lukas. Sem expressar nenhum aviso, agarrou Mathias numa chave de pescoço.
– Então... – começou Lukas na própria língua - Eu tenho dono, não é, Den? Porque o dono estúpido estava sendo agarrado por aí, huh?
– Ai... Aaaaai... Cofcof... Calma, Luk... COF! Você vai me enforcar de verdade!
E mais uma vez as pessoas começavam a falar numa língua nórdica bizarra que Alfred não conseguia reconhecer. E ainda por cima trocando golpes de luta. O que se deve fazer numa situação dessas?
– Eles são sempre assim?
– Se você deixar, eles ficam assim o dia todo. — Peter suspirou — Se importa de me levar logo para casa? O tio Lukas fica realmente furioso quando o tio Mathiasconversa com as garotas da vila e passa o dia inteiro tentando matá-lo por isso.
Alfred deu de ombros, obedeceu ao garoto e continuou o caminho para a casa grande, deixando Den tentando não ser estrangulado por Norge para trás.
– Seu inglês é muito bom para um dinamarquês. — Alfred comentou.
– Sou inglês. — Peter respondeu — Nasci na Inglaterra e meu pai me deixou ser educado lá até os dez anos.
– Seu pai é inglês?
– Não, ele é sueco.
– Agora estou confuso...
– Porque você é idiota. — Peter riu baixinho — Meus pais morreram quando eu tinha quatro anos e eu fui adorado pelo meu pai Berwald.
– Então é isso...
Estavam chegando à casa grande. Haviam duas pessoas na varanda conversando, o primeiro deles um homem alto usando óculos. Ele tinha uma expressão séria extremamente assustadora, mas assim que o viu, Peter pulou das costas de Alfred e terminou o trajeto pulando no pé bom. Ele abriu os braços e exclamou algo que Alfred não entendeu. Provavelmente "papai". O segundo homem empalideceu ao ver Peter pulando no colo do pai adotivo. O segundo homem era Arthur.
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