No Other
48 Capítulo 48 - Little People
Notas iniciais
A semana seguinte foi um tumulto total. Eu tinha que organizar tudo antes de ir embora. Registros médicos, documentos escolares, todo tipo de compra inusitada, aquilo tudo me deixava exausta. Fora a organização dentro de casa. Morar em outro país tinha seu preço.
─ Eu trouxe mais umas caixas, deve caber a maior parte dos seus cds e os livros. Deixe uns para mamãe. ─ Jack deixou as caixas no chão do quarto, estudando a que eu lacrava. Alguns dos meus enfeites do quarto. Os bonequinhos que meu pai me dera das viagens a Coréia, um relógio, quadrinhos de parede. Tudo para dar ao ambiente novo o ar de lar.
─ Eu planejava deixar os que eu já li há pouco tempo. Ela vive dizendo que vai ler e nem encosta na estante. ─ Ri, enquanto ficava de pé e ia buscar uma das caixas vazias.
─ E pode levar a maioria dos seus cds, se quiser. Sua mãe quase não ouve.
─ Eu não acho que vou ouvir tantos também, mas fico com medo de não levar e sentir falta, sabe?
─ Bom, desde que o nosso vá, pode deixar o resto.
─ Bobo.
No fim, eu precisei de quase duas caixas pra levar todos os livros que eu quis, e ainda faltaram alguns. Eu tentei me consolar pensando que eu viria vistiá-los nas férias. A estante vazia chatiou meu coração.
─ Ei, linda. Oi, Jack. ─ Kyu bateu na porta aberta antes de entrar no quarto. Acenei para ele antes de pegar o rolo de fita e lacrar as duas caixas. ─ Pronta?
─ Não me pergunta isso que eu vou começar a pensar em mais mil coisas.
─ Bom, você parece estar se organizando melhor que a Ali. Tinha que ver a casa dela. Tem dvd, jogo, cd, roupa, tudo espalhado por todo canto. E a mãe dela está pra ter um ataque do coração.
─ Deve ser porque a Ali também não deve estar tão organizada.
─ Agindo como se a viagem fosse daqui três anos. No quarto o dia inteiro. Acho que no fundo ela está escondendo que vai sentir falta.
─ Bom, está quase tudo junto, fofinha. Deixem as roupas por último, tudo vai pra mala. Vamos comer, queridos. ─ Jack realmente rinha todo o jeito de irmão mais velho. Sorri, seguindo ele escada abaixo e puxando Kyu comigo.
O jantar foi naquele ótimo clima de família. Eu ri bastante e consegui curtir um pouquinho meus irmãos antes da despedida. Eu sabia que ia ser difícil, por mais que minha determinação continuasse lá. Pelo menos eu não iria sozinha.
Depois de comer, Kyu ficou conversando com Liam e Jared, Jack e Elijah discutindo algo que eu não entendi, e Ian ofereceu ajuda para minha mãe. Subi pro meu quarto e fui juntar mais coisas. Jóias e bijuterias, cremes, perfumes, tudo. Minha mãe quase me obrigou a levar o banheiro inteiro. O tempo foi passando, a casa foi ficando mais quieta. Acabei de guardar tudo e peguei um dos livros que sobrara na estante. Aquele ato foi o suficiente para me fazer observar o quarto todo e sentir o espaço que nunca fora tão imenso. Sorri.
Deixei o livro no lugar e fui me deitar. Apaguei a luz e entrei debaixo do cobertor, suspirando. De madrugada senti um peso diferente. Como se algo tivesse caído em mim. Droga. Respirei fundo e tomei a coragem de me levantar, quase infartando quando pus os pés no chão. O cobertor se enroscou no meu tornozelo, e eu logo pensei que fosse uma mão. Soltei o ar.
─ Por que, depois de tanto tempo? ─ Todo o processo de repetir que era só coisa da minha cabeça que eu aprendera com Lara não estava ajudando nem um pouco. Evitei olhar para o espelho do banheiro quando passei pela porta aberta ao deixar o quarto.
Passei quase correndo pelo corredor. Por que é que eu não conseguia parar de ver aquela coisa rastejando atrás de mim. Não, eu não vi. Eu imaginei. Sempre era isso. Acendi a luz da cozinha e enchi um copo d'água, sempre olhando para a escada. Não tinha nada lá.
Passos. Olhei o corredor do andar de baixo. O vulto alto esguio. Mais uma vez, soltei o ar, aliviada. O formato do cabelo me confortou. E quando a cor de palha apareceu na luz da cozinha com o sorriso tonto, fiquei ainda melhor.
─ Oi, gata. Isso não é hora de mocinha estar fora da cama. ─ Ele coçou o olho, ainda meio dormindo. ─ Precisa de algo?
─ Na verdade, sim. ─ Joguei o resto da água na pia e deixei o copo na bancada, quase correndo até ele. ─ Ian, preciso de você.
─ Como é? ─ Ele piscou, olhando para mim meio pasmo.
─ Por favor, passa essa noite comigo. ─ Ele passou por mim, calado, e foi tomar água no mesmo copo que eu tinha usado. ─ Ian?
─ Isso é mesmo só água?
─ Óbvio. Então, você vai ou não?
─ Jack vai me dar um tiro, mas é bem tentador. ─ Ele deu de ombros, botando o copo no lugar. Suspirei.
─ Ian, vamos dormir, ok? Dormir. Sem más intenções.
─ Sim, sim, eu sei. Claro. Quem você acha que eu sou?
─ Só vem, por favor. ─ Puxei-o pela camisa branca, subindo as escadas com passos hesitantes.
─ Então, isso é um daqueles ataques de pânico?
─ Patético, não é? É bem raro de acontecer, eu já tinha achado que tinha superado.
─ Ei, está tudo bem. Se eu posso te abraçar a noite toda, fico satisfeito.
─ Idiota. ─ Encostei a porta e pulei de volta na cama. Confesso que ele tinha um cheiro bem reconfortante, mas meu irmão nunca podia ouvir aquilo. E tinha um belo abraço também. Escondida no peito magro, apaguei.
Xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
─ Oh, Ian, meu Deus. ─ Acordei com um suspiro de Jared pouco antes de ouvir a voz feliz de Jack se transformar numa de choque. E raiva.
─ Ian, que infernos você está fazendo aqui?
─ Bom dia, cara. ─ Ian esticou os braços, alongando as costas. Cocei um olho e me sentei também.
─ Ian, como você veio parar na cama da minha irmã?
─ Jack, está tudo bem, fui eu quem pedi. Eu encontrei ele na cozinha e pedi para ele vir para cá.
─ Você faz esse tipo de pedido pro meu irmão agora?
─ Podia ser você, Jared. Ou Liam, ou Jack, ou até o Elijah. Eu surtei de novo, okay?
─ Eu estou é chocado com o tipo de cara que vocês acham que eu sou. Para informar todos vocês, eu sou o mais romântico de todos.
─ Enfia seu romance…
─ Jack, está tudo bem, não aconteceu nada. ─ Jared segurou o braço de Jack e voltou a falar com Ian. ─ Sai dai, anda.
─ Bom, eu vou tomar um banho. Obrigado, Ian.
─ Sempre que precisar, linda. Bom dia, Jack.
Jared arrastou Ian para fora e Jack continuou me olhando. Suspirei. Ele deu de ombros e simplesmente falou antes que eu dissesse qualquer coisa.
─ Chame seu irmão na próxima.
─ Eu não quero ter uma próxima, Jack. Licença. ─ Entrei no banheiro sem me preocupar se ele ainda estava lá com a cara de paspalhão.
Xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
Na sexta feira, os nossos amigos de escola decidiram que tinham que se despedir direito, então fizeram uma festa na casa da Kim. Kyu nos levou no Jaguar, mesmo não sendo parte da turma, propriamente dito. Não que ele fosse ligar, Ali estava lá.
─ Eu não acredito que vocês vão pra longe. ─ Kim estava agarrada em nós o dia inteiro. ─ Vou sentir tanta falta de vocês.
─ Oh, Kim, a gente também. Ainda vamos pro Japão. ─ Ali comentou, lembrando do plano de viajarmos juntas pela Ásia. Sorri, concordando. Ela finalmente nos soltou, parando de chorar.
Foi uma tarde agradável, depois que os turnos de abraço e choro foram substituidos por salgadinhos e música. Nem mesmo a presença inexplicável de Jessica conseguiu me tirar da minha alegria. Ela até veio falar comigo, mas não me incomodei.
─ Já vai tarde, na minha opinião.
─ Não se preocupe, também estou louca para me livrar dessa sua pose de vilã de filme adolescente.
─ Todos ficamos bem, a não ser que o avião de vocês caia.
─ Ou você seja atropelada por algo bem grande, tipo um caminhão.
─ Huh, vejamos quem tem mais sorte.
E saiu. Era bom poder ir embora sabendo que eu teria espancado aquela garota em qualquer chance que eu tivesse. Era bom ter alguém para odiar. Ou pelo menos para te fazer valorizar quem é uma gracinha com você.
Quando fomos embora, tive que ir com Annie ainda chorando por cima do meu ombro. E rindo alto por entre as lágrimas. Até Kyu acabou rindo, parado no portão enquanto Ali descia do carro e deixava a prima em casa.
Já o fim de semana foi gasto em família. Minha mãe, mais exatamente. Vimos todos os filmes que ela quis, fui em todos os passeios simples, acordei cedo para tomarmos café juntas. E foi divertido. Sentiria saudade dela todo dia.
E lá se foi minha semana, cada dia com um. Elijah na segunda, Jack na terça, Ian e Jared na quarta, até Liam na quinta. Ficamos acordados depois de todo mundo, assistindo um filme na televisão.
Na sexta feira, acordei cedo. Mais cedo que todo mundo. Com uma roupa qualquer e o celular, sai de casa e fui caminhando pela rua vazia. Tanta história naquele trajeto. Dias com Duran, ajudando Shaun, enterros e lágrimas, tragédias. Passei direto pelo balanço e fui para o cemitério.
Tinha mais gente conhecida ali do que eu gostaria. Colega de turma, família, uma menininha que foi ligada à mim por um triste fim. Suspirei e me deixei cair sentada na grama, sentindo o vento frio da manhã que acabara de chegar.
─ Oi, meus queridos. Está uma manhã linda, sabiam? A grama daqui é bem cuidada, a luz do sol deixa tudo mais bonito. Até as lápides. São bonitas, mesmo que de um jeito triste. Bom, não vim pra isso. Sabia que eu vou viajar, Pequena? Para longe. Dinamarca, já ouviu? É, pai, vou ficar longe do senhor mais um tempo.
Um dos funcionários do lugar passou, sem me dar muita atenção. Aquele tipo de cena não devia ser tão incomum, pensando bem. Mais gente devia vir e acreditar que estavam sendo ouvidas.
─ Bem, achei que mereciam uma despedida digna. ─ Pisquei, tentando afastar as lágrimas, mas elas já vinham numa torrente. ─ Mais uma despedida.
Fiquei de pé e voltei para casa, calada e sem pressa. Não me preocupei em segurar o choro. Aquele descarrego sempre era bem vindo. Cheguei na casa ainda silenciosa e fui para a cozinha, fazer um chá. As lágrimas cessaram por conta própria.
Xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
─ Está tudo pronto mesmo? Roupas, objetos, tudo? E seus documentos?
─ Mãe, eu já juntei tudo. Agora, fica calma.
─ E se você esquece alguma coisa filha?
─ Me manda pelo correio. Relaxa, já chequei umas quatro vezes. Tudo embalado. ─ Apontei para baixo da janela, a pilha de caixas e as malas. ─ Está tudo bem.
─ Ah, meu bebê. Eu vou sentir tanto sua falta. ─ Um daqueles abraços apertados dela, que eu amava. Sorri.
─ Não vou morrer, mãe, e vou te ver nas férias. Relaxa.
─ Tudo bem. Anda, vai dormir. Acordamos cedo amanhã e não podemos atrasar.
─ Tudo bem. Boa noite.
─ Boa noite, minha querida. ─ Ela me botou na cama como quando eu era criança e me cobriu, apagando as luzes e me deixando para descansar. Sim, eu ia precisar. A ansiedade já estava quase me matando. Fechei os olhos e me deixei relaxar.
Fale com o autor